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Opinião | “Tem uma hora que tem que falar basta!”: a luta dos homens e mulheres do aço da CSN inspira

O despertar de um setor da classe trabalhadora inspira outros. Em quantos lugares não ouvimos a insatisfação mas falta uma aglutinação e um estopim? Os sucessos e dificuldades de cada luta podem trazer lições para que outros trabalhadores numa fábrica ao lado, ou a milhares de quilômetros de distância, não precisem partir do zero, se inspirem e melhorem as ideias, a organização que outros começaram. Para isso é preciso que as histórias, algumas lições sejam faladas, escritas. Estive alguns poucos dias na Cidade do Aço, junto aos bravos metalúrgicos da CSN, seus vivos relatos do movimento inspiram essa crônica que pode ter falhas por não ter vivido cada dia, mas pode ajudar a contar algo de sua história como prometi a eles que faria, e também para oferecer algumas ideias que seu movimento me fez sentir e pensar.

Leandro LanfrediRio de Janeiro | @leandrolanfrdi

quinta-feira 21 de abril | Edição do dia

Trabalhadores do andaime, na terça-feira, 4 de abril. Foto cedida pelos trabalhadores em luta

Quase 20 dias depois do início da primeira paralisação na CSN, os relatos ainda são emotivos, cheios de brilho e detalhes. Quando falei que queria escrever a história de como o movimento começou no andaime e foi inspirando outros setores, logo se formou uma rodinha para me encher de bonitos detalhes de tudo. Quem falou o que, quem olhou para quem e sentiu confiança, essas coisas vivas que não se sente em uma luta rotineira e que a burocracia sindical nem sonha em viver. Eles vivem de seus acordos com patrões, governantes e até mesmo enriquecem às custas da miséria da classe. Só sentimos essa alegria compartilhada aqueles que se levantaram e disseram “chega, não somos escravos” e aqueles que dedicamos nossas vidas à transformação radical (revolucionária) da sociedade capitalista.

Esse gigante de mais dez mil operárias e operários (incluindo os terceirizados) voltou a esticar seus músculos depois de tantos anos de humilhação, opressão. O despertar, nem sempre perfeito, de um batalhão histórico da classe trabalhadora e que sofreu a ofensiva neoliberal como nenhum outro é todo um símbolo do que pode estar mudando na classe trabalhadora brasileira e, no que nos alcança, fazer sua história ser contada, pensada.

“Algo nos falou, chega, basta, tem que parar”

Nenhum movimento surge do nada, como também não chove sem antes aparecerem nuvens. A insatisfação com Benjamin Steinbruck, dono da empresa, e a CSN já era motivo de insatisfação e organização. Movimentos menores já tinham acontecido em outros anos. No sábado 2 de abril os metalúrgicos da CSN em Congonhas (MG) já tinham ido para rua mostrar sua insatisfação.

A notícia da mobilização em Minas repercutia em grupo de Telegram com milhares de pessoas, incluindo chefes, infiltrados, e onde mesmo assim não faltavam xingamentos e a raiva contra a patronal que do alto de seus R$13,6 bilhões de lucro não queria (e ainda não quer) pagar nem a inflação aos metalúrgicos e suas famílias, cada vez mais empurrados à pobreza.

No Telegram estava combinada greve para dia 11 de abril. Mas na segunda-feira dia 04 os trabalhadores do andaime já não aguentavam mais de raiva do salário miserável, da opressão da empresa. “Esse inferno”, “essa escravidão”, “essa empresa maldita e safada” como cada um deles prefere se referir a empresa. Ninguém tem amor por essa empresa símbolo do Brasil, há só ódio. Esse símbolo de industrialização se converteu em símbolo de miséria e escravidão.

Ali no canteiro do andaime começaram a se falar e concluíram “ou demitem todos ou aceitam o que queremos, não trabalhamos mais nesse inferno”, como me contou um deles. “Algo nos falou, acho que foi uma voz de Deus, chega, basta, e foi aquela alegria, aquela benção sabe?”. A religiosidade dos trabalhadores se mistura com sua tomada de consciência contra suas condições de vida, trabalho e contra a patronal. Expressam nas conversas sua busca de convicção e sentido de justiça fora desse mundo de exploração que vivem dia a dia. São expressões familiares a quem já viu de perto e apoiou a luta de outro setor explorado e de maioria negra de nossa classe, como os garis da Comlurb no Rio de Janeiro.

Os metalúrgicos exigem 25% de reposição de perdas salariais pelos anos sem aumento, PLR de 25% dos dividendos, mudança do plano de saúde entre outras pautas, a pauta completa pode ser lida nesse boletim da comissão que publicamos no Esquerda Diário.

Mas mais que o dinheiro e melhores condições para si mesmos e suas famílias era um grito entalado que saía da garganta. Um grito pela dignidade, palavra que tantas vezes escutei e mostra como não se trata de algo rotineiro o que aconteceu (e está acontecendo) entre os metalúrgicos. É um sintoma de algo profundo na classe trabalhadora brasileira, cheio de potenciais.

O grito de dignidade também vem misturado com a vontade de procurar outro emprego, com o arrependimento de não ter procurado outro emprego 5, 10 anos atrás e entrado numa empresa que paga cada vez menos. Inegável a raiva de se arriscar dia atrás dia, sofrer assédio e maltrato de gerente e ver que seu salário em 2022 é menor nominalmente (nem falar o efeito da inflação) do que era em 2014, como tantos me falavam. Cada peão da cidade e da região já foi e voltou muitas vezes da CSN, uma hora efetivo outra hora terceirizado, foi para outras fábricas, voltou.

A CSN promete alguma estabilidade, mas os salários são miseráveis. R$1365 recebia um operador de máquinas que mostrou seu saldo da rescisão. Um eletricista recebia R$1650 e mais 30% do salário base, já um mecânico recebia os mesmos R$1650 mas com 20% do salário mínimo. Com os descontos, são poucos trabalhadores, mesmo com 10 anos de casa que passavam dos 2mil reais, muito, mas muito distante do passado quando a empresa era estatal e quem passava em um concurso da Petrobras, da CSN, da Eletrobrás, escolhia qual era a melhor porque pagavam muito parecido.

Isso explodiu no dia 04.

No canteiro do andaime decidiram dizer um basta. Cinco líderes aderiram ao movimento, com isso 25 trabalhadores iam cruzar os braços. A notícia correu, chegava outro trabalhador e dizia, “26, tô junto”, “27, põe meu nome aí” e só foi aumentando. Debateram se começavam ali mesmo aquela hora e concluíram que não, ficava para o dia seguinte, terça-feira dia 05. Às 07 da manhã iriam se encontrar do lado de fora do galpão e parar dentro da fábrica, retomando a tradição de como são as greves da CSN desde as heroicas greves de 1984, 1988.

Os trabalhadores alteraram seus horários, aqueles que iam entrar às 9, às 6, foram lá no dia seguinte às 7. “Quando eu cheguei às 7, já tava todo mundo ali de fora do galpão”, “o bicho já tava louco”.

“Não tem gerente para me intimidar não! Pode vir o Benjamin aqui falar comigo, quero o que é justo”

A notícia da paralisação do andaime correu a usina. Logo apareceram 4 gerentes e até mesmo um GGEX (gerente geral) para distribuir ameaças à peãozada, seriam todos mandados embora. Peitando, respondendo aos gerentes os trabalhadores se mostraram unidos, era o basta. Precisava parar. A palestra e a tensão com os gerentes fora do galpão ia aumentando. Um peão falava “chega”, outro intimidado fraquejava, outro estava perdendo a cabeça, outro contestava. Não sei se eu sei retratar bem esse momento quente e intenso quando há uma rebelião por baixo e ela está naquele momento onde explode ou implode. Também não sei se foi dito na hora ou pensado depois, mas a frase que me foi contada ecoa: “Não tem gerente para me intimidar não, pode vir o Benjamin [o dono] aqui de helicóptero, aparecer aqui falar comigo, quero o que é justo, paga ou me manda embora, não fico desse jeito aqui nesse inferno não”.

Aí o gerente geral atendeu uma ligação afastou-se um pouco dos trabalhadores e eles concluíram, “chega, foda-se, deixa ele aí falando sozinho, vamos sair em passeata”. E foram andando pela empresa. Eletricistas, mecânicos, trabalhadores de outras gerências iam aderindo ao andaime na passeata rumo a uma praça mais central, perto da entrada principal, a SOM.

Veja o vídeo da passeata dentro da Usina no primeiro dia e, depois, no dia seguinte a assembleia multitudinária na SOM:

“Peão unido jamais será vencido”, ecoa na SOM e dentro de toda a usina

No dia seguinte os cerca de 50 trabalhadores do andaime já tinham virado centenas ou milhares. Na SOM grandes assembleias foram montadas. Eram assembleia no grito, no gogó, sem nenhum equipamento de som, só tinha ali uma escada para subir para falar e ver como não faltavam seguranças da empresa filmando o movimento, vendo quem eram os oradores.

Nessa assembleia (ou em alguma outra nos próximos dias) elegeram uma comissão, com dez membros, representando cada um uma gerência. Não era só o grito de “peão unido jamais será vencido” era a retomada inicial de uma tradição da classe trabalhadora: a organização democrática e pela base.

Era também a retomada da consciência da força coletiva expressa nesse canto do “peão unido jamais será vencido” mas também em um símbolo de força. Um peão falava para o outro “faz o grito do gorila aê” e de repente era uma massa gritando “u, u, u, u, u” a intimidar a patronal.

Esse som me lembra automaticamente o similar grito de avançar dos black blocks em 2013, mas o mesmo fonema, estava totalmente ressignificado. Não se tratava mais de uma resistência à polícia ou uma raiva sem foco e estratégia de alguns poucos, agora era uma categoria que junta sentia sua força, e via como centenas de formiguinhas unidas viravam um imponente gorila.

Religiosidade e consciência de classe

“Quando vi que no movimento estavam irmãos de minha igreja, pessoas retas, sérias, de absoluta confiança, senti que eu podia entrar, que aquilo era sério e justo.”

Encarar uma luta coletiva, colocar seu sustento e de sua família em risco é uma tomada de consciência que não é simples. O desemprego, a família, o encarregado, o gerente, cada um fica como diabinho no ombro do trabalhador a cochichar medo. É preciso que a voz do anjinho, no outro ombro, que nem no desenho animado seja mais forte. A confiança constrói-se com a organização de base, com o avanço de consciência que é preciso se unir primeiro como categoria contra esse patrão e, em outro patamar, como classe trabalhadora contra o conjunto de patrões e governos e depois num terceiro nível, como dizia o marxista italiano Gramsci, para construir uma hegemonia entre todos oprimidos para erguer outra sociedade.

Esse primeiro nível de consciência no setor, na fábrica, se dá pela organização e confiança nos companheiros de trabalho, que às vezes também são vizinhos, companheiro de ônibus, ou companheiro até mesmo de igreja como me relatou um lutador da CSN. A confiança que seu companheiro de trabalho não vai te trair, se constrói por lutas passadas, por mecanismos de representação democrática dos trabalhadores (como eleger uma comissão de base, que possa trocar seus membros se um trair) e pela integridade que o outro transparece em suas ações dentro e fora da usina. Muitos metalúrgicos encontram na panela de pressão do telegram a certeza que não estavam sozinhos, nas conversas do dia a dia e até na religião esse amparo inicial.

Há rios de tinta sobre religião e marxismo que não abordaremos aqui, nem queremos numa crônica questionar a religiosidade de nenhum peão na CSN ou onde for, mas pensar os potenciais e contradições da classe trabalhadora hoje tal como ela é.

O movimento da CSN, ou dos garis no Rio, colocam como hipótese que um renovar da vanguarda da classe trabalhadora poderá encontrar em pastores e obreiros uma fonte de oradores, organizadores, lideranças.

Essa possibilidade empiricamente demonstrada em garis e metalúrgicos pode ser um ponto de apoio na confiança e também para encontrar coragem nas batalhas mais duras (como os garis que se veem como 300 gideões ou 300 de esparta, o que pouco muda do ponto de vista de estratégia). Ter convicção da justiça de uma luta e seu auto-sacrifício para ela, em um martírio, é uma potente força motriz que se renova quando lideranças religiosas transmitem a mensagem que aquela luta está profeticamente correta, porém isso também implicará em problemas de estratégia se não avançar da convicção de estar correto: para vencer os patrões não basta ser íntegro, correto e justo, e ser os 300 gideões, o patrão joga com todas armas legais, ilegais, imorais que tenha em mãos para dividir, assustar, quebrar o movimento, é preciso de estratégia para vencer.

A religiosidade cristã também pode colocar muitas vezes (e presenciamos e debatemos com lutadores da CSN) algumas questões para unidade dos trabalhadores a depender de que postura se tem para unir e não dividir a categoria, particularmente com setores oprimidos se não forem respeitados os direitos das mulheres, lgbts, pessoas de religiões de matriz africana. Também podem se colocar conflitos de consciência (a liderança da igreja orientar algo oposto ao que o fiel sentir que é necessário em sua luta) e mesmo de ideologia já que entre as igrejas (e por essa via entre seus membros) espalha-se éticas capitalistas (“teologia da prosperidade”, por exemplo) que tiram a ênfase da organização coletiva e, não só aceitam, como divinizam a barbárie do capitalismo, colocando o indivíduo a se sacrificar pois do contrário não estaria cumprindo sua missão nesse vale de lágrimas.

A superação da necessidade de buscar fora do mundo a explicação para a injustiça nesse, se dará somente a partir de unir a classe trabalhadora para livrar o mundo do capitalismo e fazer com que esse mundo deixe de ser essa rotina de dor, sofrimento, humilhação.

Uma derrota humilhante à patronal e ao sindicato pelego

Com a paralisação iniciada na terça-feira, a patronal e o sindicato viram-se obrigados a convocar uma assembleia, com urnas, para tentar aprovar sua pauta de 8,1% de reajuste e outras propostas indecorosas. Com a paralisação a fervilhar dentro da Usina desde quarta-feira, milhares de trabalhadores foram à praça na sexta-feira dia 08. Estavam logo ao lado do monumento a William, Walmir e Barroso, assassinados pelo Exército em 1988, dentro da fábrica ocupada pelos grevistas.

Na praça a princípio (segundo relatos) ecoava um grito de não votar, milhares de trabalhadores não queriam respaldar a manobra do sindicato vendido, sindicato dirigido pela mesma burocracia desde 1993 e que aceitou cada perda de direito da categoria e foi parte ativa de vender a mentira que a privatização da empresa ia “colocar os trabalhadores em condição de primeiro mundo”. A direção sindical é integrante da Força Sindical.

Vendo que o sindicato ria-se com a ideia de não votar, algumas lideranças se chocaram. Algo estava errado. Em contato com a oposição metalúrgica (que é uma chapa tradicional e apoia a comissão de base eleita, tendo alguns de seus membros na mesma) e organizações solidárias a sua luta (como a CSP-Conlutas) concluíram que não votar era um grande risco, se tivesse 10 votos a favor o sindicato vendido podia assinar o que quisesse. Deu um clique na massa, era preciso votar e esmagar a manobra. De repente era um grito de “vota, vota” e procurar nos postes qual era sua urna de acordo com sua matrícula, que nem acontece quando chega-se a um colégio eleitoral, mas ali era na praça pública e filas quilométricas se formaram rapidamente.

O resultado foi uma derrota humilhante para a empresa e para o sindicato vendido. 6060 votos contra a proposta, 39 a favor, 3 nulos e 3 brancos. A pauta estava legitimada, a luta se fortalecia. A organização pela base permitia enfrentar o sindicato para assim poder enfrentar o patrão.

Entre os trabalhadores do andaime há uma certeza: não fosse seu movimento não teria tido essa votação, sem isso não teria sido adiantada a proposta para sexta e a empresa teria dado um abono no final de semana para tentar calar a insatisfação e parar o movimento que se iniciaria só na outra segunda (dia 11). A CSN já fez isso outras vezes, diante da insatisfação deu um abono na véspera tentando desmobilizar. Dessa vez o nível de insatisfação, o movimento e o grau de unidade dos trabalhadores pegou a patronal de surpresa.

A vingança da patronal autoritária e exploradora

Benjamin Steinbruck é o herdeiro da fortuna de sua família que enriqueceu-se num ramo do capitalismo que é, desde os primórdios, conhecido pela brutalidade no tratamento dos trabalhadores: a indústria têxtil. Os donos da Hering foram fazendo fortuna a sangue suor operário, fundaram um banco (Banco Fibra) e depois se aproveitaram das criminosas privatizações para se enriquecer ainda mais. Abocanharam uma parte da Vale e boa parte da CSN.

Benjamin, o herdeiro, fez estágio no aprimoramento das técnicas de exploração dos trabalhadores fazendo carreira e chegando a CEO do Banco Safra. De posse do conhecimento familiar de massacrar os operários têxteis, com renovados conhecimentos da gigante bancária, foi para a CSN massacrar e garantir lucros excepcionais. Contou em todo o período com os valiosos serviços da burocracia da Força Sindical no sindicato.

Desafiado pelos trabalhadores na humilhante votação de 6060 a 39, que foi garantida por votação e apuração em praça pública. Já a CSN não garantiu nem que seus capatazes e gerentes todos eles votassem a favor, e aí Benjamin partiu para a vingança e tentar no medo calar o grito metalúrgico. Na segunda-feira, dia 11, demitiu 5 dos 10 membros eleitos da comissão. Na terça-feira já eram cerca de 60 os demitidos e na quinta já tinham passado de 120 os demitidos.

A continuidade da luta

Com a perseguição brutal, com assédio de cada gerente aos trabalhadores falando que quem ainda estivesse no Telegram seria demitido, conseguiram dia a dia minar a paralisação dentro da fábrica.

Porém, a empresa tem a seu favor o medo do desemprego e o sindicato. Em conluio com o sindicato vem conduzindo lentas negociações (a próxima será sexta-feira 22/04) sem permitir a presença da comissão. O sindicato apesar de ter recebido e aceito um protocolo dos metalúrgicos que em ato foram em milhares ao sindicato exigindo a pauta votada em assembleia e que a comissão seja aceita na negociação tem ignorado esse pleito teoricamente aceito e determinado pelo judiciário. Algum momento o sindicato e a empresa tentarão encerrar o processo com algum acordo, esse momento pode estar chegando nos próximos dias.

Apesar dos ataques patronais a insatisfação persiste. É só conversar com algum peão, não somente aqueles que param para ouvir os informes diários da comissão e dos demitidos que se reúnem diariamente na praça em frente à entrada principal da Usina Presidente Vargas, para sentir o misto de medo e ódio da “gata”, nome comum dado a empresa exploradora.

A luta persiste com os demitidos reunindo-se diariamente, interagindo com quem está dentro da usina, encontra alguns pontos de apoio jurídicos como o pedido de reintegração dos demitidos pelo Ministério Público do Trabalho e o reconhecimento por juíza de que a empresa deveria negociar com a comissão e não com o sindicato (que inclusive tem sua eleição e mandato questionado pela justiça). A luta dos metalúrgicos também encontra um grande potencial de apoio na cidade (até mesmo o Bispo da Igreja Católica pronunciou-se a favor) e em algumas entidades do movimento sindical que a apoiam, mas é público e notório como as grandes centrais sindicais, como a maior delas, a CUT nada fazem para apoiar a luta e unificar os metalúrgicos com outras categorias que também estão em luta para um potente dia nacional em defesa de salários e direitos dos trabalhadores. Outra importante central sindical, a CTB, que apesar de ter lideranças entre os metalúrgicos e mostrar apoio no ato nacional chamado pela comissão de trabalhadores da CSN também não tem atuado para unificar as lutas, que força teria se os metalúrgicos da capital fluminense que eles dirigem, unificassem pautas e lutas com a CSN?

A união da CSN com rodoviários de várias cidades, com professores, com terceirizados de diferentes unidades da Petrobras, e tantas outras categorias que lutam por salário, direitos e dignidade (como diriam vários metalúrgicos de Volta Redonda) poderia fortalecer não somente cada uma dessas lutas para sua vitória, mas também a consciência e organização da classe trabalhadora brasileira para enfrentar os patrões e governos. Essa lição também precisa ficar marcada para outras lutas que aconteçam, como atuar para furar essa divisão, bloqueio, isolamento que os sindicatos burocráticos querem que soframos.

Caberia aos lutadores da CSN e sua comissão, e entidades sindicais como a CSP-Conlutas que estão diariamente apoiando essa luta, refletir que ações poderiam ser tomadas para fortalecer a relação com quem está dentro da usina, como conseguir fazer se expressar o apoio que há na cidade para conseguir batalhar pela reintegração dos demitidos e todas suas reivindicações. Como Esquerda Diário estaremos colocando todos nossos esforços para ajudar a difundir e contribuir à vitória de seu movimento.

Algumas ideias como conclusão: posições estratégicas e retomada de tradições

Diariamente os patrões e suas mídias tentam nos falar que somos nada, que pouco importamos, que tem gente mais importante que nós, dentro da fábrica, do escritório e nem falar fora como os juízes, políticos, empresários. Quanto mais divididos, humilhados, de cabeça baixa estivermos, melhor para eles. Porém, se pararmos para pensar, mesmo o mais humilde trabalhador é essencial. Não existe hospital sem a limpeza, como não existe a universidade de hoje sem bandeijão porque senão os estudantes cada vez mais empobrecidos iam morrer de fome, o mesmo vale para a CSN, não tem manutenção sem andaime e sem manutenção a velha planta carcomida pela pão-durice neoliberal de Steinbruck não produz.

Há quem pense que um movimento da classe trabalhadora deveria começar e ter como protagonista aquele setor que mais rapidamente afeta os lucros e ao travar a produção trava os setores secundários e os força a entrar no movimento. Claro que se o alto-forno, ou as esteiras fossem diminuindo a produção (parar do nada explode ou destrói o equipamento bilionário e daria justa-causa e até mesmo um risco a toda cidade) mais rapidamente Benjamin se desesperaria, como uma paralisação das plataformas do pré-sal teriam um efeito brutal na Petrobras. Porém a convicção de um setor essencial (mas não central), como o de andaimes, espalhou uma fagulha a acender uma insatisfação que não estava só ali e atingiu o conjunto de um local essencial, estratégico para o capitalismo no Brasil.

Esse relato do papel primeiro do andaime depois de vários setores de manutenção pode ser um ensinamento para tantos trabalhadores que ficam esperando aquele setor tido como mais importante assumir a liderança e assim vão minando sua auto-confiança, seu protagonismo, seu papel para organizar seu local de trabalho. A união dos trabalhadores e o protagonismo pode surgir de outros pontos, importa a organização pela base, a busca da unidade dos trabalhadores como foi buscado na CSN.

Mesmo sem parar o alto-forno a luta da CSN se espalhou pela região e em outro grau pelo país. Surgiram panfletos anônimos até mesmo na militarizada Indústrias Nucleares do Brasil (INB) em Resende. O panfleto anônimo dizia “façamos como a CSN”. Nas ruas de Volta Redonda em alguma lanchonete quando se identificava algum apoiador do movimento não faltava quem queria perguntar como estava o movimento, como aconteceu duas vezes comigo. A luta de 1988 espalhou uma fagulha pelo país. A de hoje também mostrou (e mostra) seu potencial.

Um grande bastião, uma posição estratégica da classe trabalhadora brasileira saiu de seu longo sono, sofre tropeços em seu levantar, mas parece se levantar. É emblemático que no palco de dois massacres, primeiro o da greve de 1988 e depois o massacre diário de uma fábrica que sofreu perdas de direitos e salários talvez como nenhuma outra do país, os trabalhadores comecem a dizer “basta”.

E essa retomada trouxe à tona, mesmo que de forma inicial, duas tradições da classe trabalhadora brasileira. A greve dentro do local de trabalho, coisa que esse autor aqui não lembra de nenhum caso relevante desde os anos 80, e a embrionária auto-organização, escolha de representantes por setor, e seu fecundo potencial de debate democrático do que fazer, como se organizar para vencer e manter uma sólida porém dinâmica relação da vanguarda e da massa, sem terceirizar o protagonismo dos trabalhadores só para tal o qual dirigente, orador.

Os metalúrgicos da CSN foram protagonistas de algumas das mais importantes lutas da classe trabalhadora nacional, alguns direitos constitucionais existem somente graças ao esforço dessa e outras categorias, tais como o 13º salário, o turno de 6hs. A greve de 88 e seus fuzilados marcaram uma mudança na situação política nacional. Não faltam símbolos para marcar qual é a importância dessa categoria para o país. Na região então nem falar, é só ter luta nesse gigante que surgem trabalhadores insatisfeitos de outras categorias a ir visitá-los na praça e a espalhar a ideia de os copiar para lutar contra patrões e para isso vencer os sindicatos pelegos.

Essas retomadas são um sinal da possibilidade de novos tempos na classe trabalhadora. A inflação e todos ataques patronais chicoteiam os trabalhadores a saírem da letargia, há um momento de dizer chega. Esse potencial novo tempo terá suas contradições, mas também está prenhe de possibilidades. Mesmo com sua confiança no judiciário, com sua religiosidade, muitos trabalhadores da CSN avançam em conclusões sobre mais patrões que Benjamin, reclamam do silêncio da mídia local e reforçam a convicção da necessidade retomada do sindicato para os trabalhadores.

Na Cidade do Aço, apelido de Volta Redonda, é difícil um lugar onde não se veja os altos-fornos, a fumaça, ou sinta-se o cheiro de metal e fogo, ou ainda alguma referência à patronal ou ao aço. O gigante está lá: imponente, impávido, moendo gente dia-a-dia. Mas dentro dele cada formiguinha juntando-se a outra pode, com a correta estratégia, virar o imponente grito do gorila, a força do “peão unido jamais será vencido”. Isso pode ser mais que grito, pode e precisamos trabalhar para fazer que seu potencial se torne efetividade.

Das mulheres e homens do aço trago histórias, imagens mas também a certeza que sua luta, termine como termine, deixa marcas neles, na região, em mim e dá uma valiosa contribuição, ideias a aprender e também mais um sopro de vida na brasa, que nas corretas circunstâncias, pode incendiar toda a classe trabalhadora brasileira.




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