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Greve em SP | Os servidores municipais exigem o fim do silêncio de Boulos sobre a greve que já dura 19 dias!

No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a educação da cidade de São Paulo, uma força majoritariamente feminina e cada vez mais negra, decretou greve contra a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB), o candidato a reeleição apoiado por Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), e sua política de reajuste salarial pífio, arbitrário e que soa como uma afronta às trabalhadoras da educação. Nada mais forte do que esse símbolo, mulheres, educadoras, em grande parte negras, decretando greve contra as forças reacionárias que precarizam o trabalho e destroem o serviço público, no dia internacional das mulheres. Contagiados por esse espírito e fartos dos ataques, quatro dias depois foi a vez do funcionalismo municipal como um todo decretar greve, entre eles os trabalhadores da saúde que estão sendo atacados com aumento de jornada em meio a um surto histórico de dengue no país.

Grazieli RodriguesProfessora da rede municipal de São Paulo

terça-feira 26 de março | Edição do dia

As cenas que vimos nas últimas semanas impressionaram. Uma imensidão de trabalhadores marchando e se concentrando em frente à Câmara Municipal para cobrar suas pautas e mostrar sua força, apesar das direções sindicais tentarem de tudo para não unificar os diferentes segmentos do funcionalismo e controlar a mobilização para que não saia nada de dentro do seu script. Enquanto isso, lá dentro a base aliada de Nunes e os setores da extrema direita tramitavam o projeto de lei absurdo de reajuste salarial de 2,16%, com argumentos de ameaça do tipo “é isso ou nada” ou ainda “quer mais, aceitem salário por subsídio”.

Nesse cenário, frente a uma greve dura, de dezenas de milhares de trabalhadores justamente da Prefeitura de São Paulo, que já dura 19 dias, e que é a força que está realmente enfrentando a intransigência do bolsonarista Nunes, é preciso dizer que Boulos e o PSOL deveriam colocar todos os seus recursos políticos e alcance a serviço de fortalecer essa greve, de ampliar o alcance da luta das trabalhadoras e trabalhadores. Por isso afirmamos, junto a inúmeros trabalhadores e trabalhadoras, que é lamentável que até agora a principal figura pública do PSOL, que disputa com Nunes a eleição da maior e mais rica prefeitura do país, esteja praticamente em silêncio sobre a greve, e que o faça para não desagradar o empresariado.

Boulos só mencionou os servidores municipais uma vez, em um tweet seco e protocolar depois de 10 dias de greve, dizendo que apoia e se solidariza com os servidores frente ao reajuste indecente proposto por Nunes, mas não foi capaz de mencionar qualquer apoio à greve, à mobilização e à luta dos servidores, para não se comprometer frente aos empresários. E também pelo seu acordo com as forças de direita que traz consigo, das quais a maior expressão é ter como sua vice Marta Suplicy, que já era conhecida do funcionalismo municipal por ter atuado contra nossas greves quando foi prefeita, e que depois esteve ao lado de Moro em defesa da lava-jado, de Temer em defesa do golpe institucional, de toda a direita ajudando a articular a reforma trabalhista, e do próprio bolsonarista Nunes, como parte de sua gestão na prefeitura até o início deste ano. Estar com Marta é símbolo do compromisso com preservar os interesses desses setores, seguindo exatamente o mesmo caminho do governo federal de Lula junto com Alckmin.

Com o PL do reajuste já tendo sido aprovado em 1ª votação, faltando apenas mais uma, a greve se encontra num cenário de expectativa em relação à votação final do PL e não se descarta a possibilidade das direções sindicais mais uma vez entregarem aos trabalhadores uma resposta de que a única coisa a fazer é dizer aos vereadores, que “se votar não volta”, esse mesmo discurso já tantas vezes usado e que a história já mostrou que só desarma a luta dos trabalhadores. Lembremos das fortes lutas contra os SampaPrev, que apesar da enorme disposição dos trabalhadores, as direções apostaram puramente na pressão do vira voto na Câmara. O que se torna ainda mais grave, diante do fato de que a greve também enfrenta um momento de ataque reacionário do Judiciário direcionado aos agentes de saúde, declarando sua greve ilegal, e que mesmo sobre isso não se viu nenhuma menção sequer de Boulos sobre o direito de greve desses servidores, agentes de saúde, que mais uma vez se desdobram para lidar com mais um surto de doenças, antes com a covid e agora com a dengue.

Por tudo isso, dizemos que os servidores não podem ficar à mercê de uma divisão de tarefas do PSOL na qual outras figuras atuam para cobrir o silêncio de seu candidato a prefeito, e figura de maior projeção, sobre a greve. Milhares de professoras, trabalhadoras e trabalhadores municipais estão se jogando e colocando o corpo na luta. São a força social que está realmente mostrando capacidade de derrotar o bolsonarista Nunes e seus ataques, e mostrando o caminho pelo qual é possível fazê-lo: o da mobilização independente. E se perguntam: “por que Boulos não está se colocando a impulsionar e fortalecer essa luta?”. Por isso, vocalizamos um chamado aberto dos trabalhadores a Guilherme Boulos, para que coloque toda a sua projeção, espaço e recursos político, para fortalecer a greve dos servidores municipais, com declarações públicas, participações nos atos, abertura de seu espaço na imprensa e sua tribuna parlamentar para as professoras falarem etc. Alguém com a projeção e alcance de Boulos poderia fazer diferença para convocar apoiadores para os atos do funcionalismo municipal, quebrar o verdadeiro cerco sanitário que faz a mídia contra essa greve.

Dito isso, é preciso pensar, a que se deve essa ausência de atuação e até mesmo declarações claras de Boulos no apoio à greve dos servidores municipais?

Em primeiro lugar, pelos compromissos com os empresários e, até setores da direita, que já mencionamos. Boulos não quer aparecer envolvido com greves, especialmente dos servidores municipais, por que quer transmitir a esses setores que, como prefeito, irá preservar seus interesses, contra os interesses dos trabalhadores, da mesma forma que seu partido já vem fazendo em outra capital, Belém, enfrentando e inclusive reprimindo greves dos servidores municipais, cujas reivindicações elementares de reajuste e cumprimento de piso salarial se chocam com as leis de “teto” e responsabilidade fiscal.

Além disso, hoje se enfrentar com os reajustes zero ou próximos disso, dos salários dos servidores estaduais e municipais é também se enfrentar com a política do arcabouço fiscal de Lula, Alckmin e Haddad, que impede os reajustes das categorias federais e serve como um peso à direita e de austeridade em que se apoiam os governadores e prefeitos para terem exatamente a mesma política, ou seja, mencionar a greve dos servidores municipais e a proposta absurda de 2,16% de Nunes seria uma contradição enorme para Boulos, já que o governo federal que seu partido, PSOL, faz parte, e seu apoiador direto, o presidente Lula, estão neste momento impondo reajuste zero aos técnicos administrativos das universidades e educação federal, que também estão em greve pelo país por recomposição salarial, para respeitar o teto de gastos do governo para salvaguardar o pagamento da fraudulenta dívida pública os banqueiros e especuladores. Enquanto isso, os servidores de todo país seguem batalhando por recomposição salarial.Ao afagar e pactuar com Tarcísio de Freitas, incluir o Republicanos no governo e não revogar todos os ataques, o que essa política de conciliação do governo de Lula, do PT e PSOL faz não é mais do que fortalecer a extrema direita e a política neoliberal de ajustes

Leia também: Boulos quer derrotar o PSDB em diálogo com o Republicanos, mas isso fortalece Bolsonaro.

Também é preciso dizer que a aliança de Guilherme Boulos com as direções sindicais que traem a nossa luta, como Claudio Fonseca, uma burocracia há praticamente 40 anos encastelado no SINPEEM e que até ontem apoiava Nunes e Tarcísio, em nome de apoio eleitoral só serve para abafar as vozes de exigências aos sindicatos, que fazem os trabalhadores em greve para que unifiquem a luta do funcionalismo municipal e convoquem um comando de base unificado de todas as categorias para que sejam os grevistas a decidir como devem seguir.

Em contraposição à política da luta de classes, temos as lições de um país vizinho, a Argentina, onde nossa classe está mostrando uma alternativa, um caminho realmente capaz de enfrentar a extrema direita reacionária que é Milei, que é a mobilização independente, com greves, auto organização em assembleias de bairros, atos e enfrentamento à repressão. Contando com apoio e atuação direta de uma esquerda que atua sem nenhuma conciliação de classe, reunida na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, com o PTS à frente, tanto a partir dos locais de trabalho e estudo impulsionando cada luta, quanto do parlamentarismo revolucionário dos parlamentares nas ruas ao lado da população, juventude e trabalhadores, para derrotar os ajustes e ataques do governo.

Nesse sentido, precisamos ter claro que só a nossa força, com os nossos métodos de luta, unificados e organizados, exigindo das direções sindicais um comando para que possamos decidir os rumos e como vencer essa luta contra Ricardo Nunes e conquistar nossas pautas, o reajuste salarial, impedir que avance o salário por subsídio, acabar com o confisco dos aposentados e a extrema precarização do ensino infantil privatizados, além de todos ataques ao serviço público em geral. É a nossa força em luta que pode derrotar a extrema direita.




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