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O que muda para o Brasil a posse de Joe Biden?

Internacionalmente, quem mais saiu debilitado da derrota de Trump foi Bolsonaro, que sempre se comportou como um verdadeiro lambe-botas do imperialismo e sua ala mais reacionária. Bolsonaro perde, portanto, seu principal ponto de apoio internacionalmente. A carta de Bolsonaro ao agora presidente dos EUA é simbólica, diante de um cenário de derrotas internacionais para o bolsonarismo.

Rosa Vertov

Estudante de Relações Internacionais na UnB

sábado 23 de janeiro| Edição do dia

O que muda para o Brasil a posse de Joe Biden?

Ontem, 20, tomou posse o mais novo presidente do centro do capitalismo internacional, Joe Biden. Diante de um cenário de crise econômica, e que se alastra desde 2008 com o capitalismo demonstrando uma incapacidade estrutural de voltar aos níveis de crescimento anteriores a esse período, o governo Biden começa com um número de mortos pela COVID-19 maior que a Segunda Guerra Mundial nos EUA. Além disso, após a invasão do Capitólio por bandos trumpistas de extrema-direita, se demonstrou que o trumpismo não foi derrotado enquanto corrente política, mas também que a fúria negra e operária estadunidense do Black Lives Matter é a única que tem capacidade de destruí-lo. Tal verdade é mais clara quando observamos que o Partido Democrata, que abriu caminho para a extrema direita, não tem qualquer função em combater essa corrente. São chefes imperialistas que oprimem os povos do mundo, e em particular para a nossa Ilha de Vera Cruz, apoia o regime do golpe institucional.

É isso que marca a posse de Biden - a queda da hegemonia estadunidense em meio a uma conjuntura internacional que escancarou nos últimos anos a vitalidade da luta de classes, uma época de, como dizia Lênin sobre a época imperialista, de crises, guerras e revoluções. A questão é: como isso tudo se relaciona e impacta as relações internacionais dos EUA com o Brasil?

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A subordinação ao imperialismo continua, mas assume outras formas

Internacionalmente, quem mais saiu debilitado da derrota de Trump foi Bolsonaro, que sempre se comportou como um verdadeiro lambe-botas do imperialismo e sua ala mais reacionária. Bolsonaro perde, portanto, seu principal ponto de apoio internacionalmente. A carta de Bolsonaro ao agora presidente dos EUA é simbólica, diante de um cenário de derrotas internacionais para o bolsonarismo. Há um maior isolamento internacional de Bolsonaro. Internamente, fica mais vulnerável aos atores do regime golpista que lhe opõem limites, e no plano global o obriga a diminuir o tom com desafetos, como a autocracia de Xi Jinping na China.

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Agora, com o governo do conservador e igualmente racista Biden, a subordinação do Brasil aos Estados Unidos continua, mas muda em alguns aspectos fundamentais. Na questão climática, Biden já se pronunciou contra a política bolsonarista de destruição da floresta Amazônica e do Pantanal - mas claro, com interesse exclusivo num maior controle das reservas estratégicas da região, longe de qualquer zelo pelo meio-ambiente. O Democrata deve voltar ao Acordo de Paris, retomar um maior diálogo multilateral com o imperialismo europeu - o que coloca na mira o ministro Ricardo Salles, arquiteto direto das queimadas criminosas do latifúndio no ano passado, e trumpista de primeira hora.

Da mesma forma, também estão na mira o ministro olavista das relações exteriores, Ernesto Araujo, e a anti-aborto e fundamentalista religiosa ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Em especial Ernesto Araújo veio sendo desgastado nos últimos dias em função de rusgas com a China, país que fornece os principais insumos para a fabricação da vacina contra a COVID-19 pelo Butantan e pela Fiocruz; também, foi chamuscado pela vergonha do cancelamento pela Índia do envio de 2 milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca. Bolsonaro os tem como prediletos, mas não seria de se surpreender que Biden pedisse a cabeça desses ministros para disciplinar o governo brasileiro a seus interesses.

Bolsonaro se colocava internacionalmente como um subordinado direto de Trump - agora, com Biden, por tratar-se de alas distintas da burguesia imperialista, Bolsonaro se encontra mais debilitado. A subordinação ao imperialismo continua, contudo, com pontos fundamentais em comum também, como na Venezuela, em que junto à Biden o governo brasileiro considera Guaidó o “verdadeiro presidente”. Diante dos profundos laços econômicos entre os dois países, o mais provável é que Bolsonaro se discipline ao mandato imperialista de Biden, como fez questão de mostrar na carta de felicitação enviada ao novo presidente. Mas isso não garante ausência de disputas e conflitos que podem prejudicar o curso político do Planalto.

Outro plano de contenda é a relação com a China, que disputa com os EUA a extração dos recursos da América Latina. Sem Trump, Bolsonaro terá de falar manso com Pequim, e buscar recompor desesperadamente os elos que desgastou. Mas Biden, mesmo modificando a abordagem trumpista e aderindo à linha de "competição-cooperação" com a China, defende a mesma linha estratégica de Trump: bloquear a ascensão da China como potência. Não aceitará a entrada da Huawei e demais instrumentos de influência chinesa no subcontinente. O governo, provavelmente, terá mais dificuldade do que na era Trump de equilibrar esses objetivos e caminhar "na linha do meio" entre Washington e Pequim.

Com Biden na presidência, Bolsonaro fica mais vulnerável internamente ao centrão

Diante dessa conjuntura, temos um Brasil com a extrema-direita ganhando lugar dentro do centrão, partidos de direita e de extrema direita, boa parte dos quais oriundos do ARENA da ditadura, que hoje são base de sustentação do governo Bolsonaro. Esses partidos são pragmáticos e já buscam se adequar a Joe Biden - e pressionarão Bolsonaro para extrair dele todos os benefícios e privilégios dessa casta de políticos corruptos. Os militares, organicamente vinculados aos EUA desde a Segunda Guerra Mundial, também tendem a ter maiores desgastes, em função de sua subordinação e participação direta na catástrofe do governo bolsonarista. O autoritarismo judiciário e os parlamentares também se beneficiam como atores políticos. Trata-se, portanto, de um assentamento do regime do golpe institucional, sobretudo após as eleições municipais de 2020 com a vitória do centrão, principalmente do DEM, PSD, PP e agremiações tais.

Nessa medida, com a posse de Biden, Bolsonaro é o ator político que fica mais vulnerável às pressões do bonapartismo institucional. A disputa pela presidência da Câmara - com o candidato de Bolsonaro, Arthur Lira (PP), e Baleia Rossi (MDB), o de Maia (que votou junto ao governo e, 90% das vezes) - e do Senado - o candidato de Bolsonaro, Rodrigo Pacheco (DEM) e Simone Tebet (MDB) - são expressões disso.

Não à toa, os chamados de impeachment levantados por Luciano Huck, Dória - e levando à reboque boa parte da esquerda, o que na prática acaba dissolvendo as forças da luta de classes e aposta em implorar para Maia colocar Mourão na presidência e assentar ainda mais o regime golpista - aconteceram após a invasão do Capitólio e no período até a posse de Biden. Por isso, é fundamental que a esquerda rompa com qualquer aliança com a burguesia para impulsionar uma luta consequente contra Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas. Da mesma forma que, também, não podemos nos adaptar ao regime do golpe institucional, como fazem o PT, PCdoB - e até o PSOL - em distintas esferas, como o apoio à Baleia Rossi na Câmara. Mais que nunca essa ala do regime está ajoelhada ao governo Democrata e aos desígnios ajustadores do imperialismo norte-americano na América Latina. São todos inimigos da nossa classe que operam dia após dia para descarregar a crise nas costas do povo pobre e do proletariado.

A luta de classes como fator decisivo nas relações internacionais

Como marxistas, as relações internacionais e disputas geopolíticas não se explicam por si mesmas. A história da humanidade é a história da luta de classes. Portanto, torna-se fundamental nos Estados Unidos o combate à Joe Biden e a um dos partido imperialista mais velhos do mundo - e que inclusive teve boas relações com os ditadores sul-americanos na década de 1970 - com um programa independente, da classe trabalhadora e dos oprimidos, pela construção de um novo partido revolucionário e operário separado dos Democratas, se apoiando na fúria negra para golpear as bases do capitalismo mundial. Essa é a política que a sessão estadunidense da Fração Trotskista pela Reconstrução da Quarta Internacional, o Left Voice, defende.

Da mesma forma, é fundamental que no Brasil se lute contra o imperialismo. Trump é um xenófobo de extrema direita, e por isso carregava Bolsonaro na coleira. Mas Biden não tem nenhuma vocação para "opositor" do bolsonarismo. O Partido Democrata tem pleno acordo com o programa de ajustes e destruição dos direitos trabalhistas por parte de Bolsonaro e Guedes. Exigirá mais esforços, e conta sempre com o auxílio do Congresso e do STF, que aplicaram as reformas trabalhista e da previdência, e que transformaram nossas vidas num inferno. Biden apoia as demissões na Ford, por exemplo. Uma política independente no Brasil passa pelo mais profundo antiimperialismo. Essa é uma lição que a esquerda custa aprender, haja vista a escolha de correntes como o MES e o Resistência de apoiar Joe Biden nas eleições presidenciais. Grau zero de independência de classe.

A batalha contra a interferência imperialista na América Latina, e ao bidenismo que se instala na Casa Branca, passa não só por combater Bolsonaro, mas também Maia, Dória, STF e todos os golpistas, contra Bolsonaro e Mourão, na luta de classes. Por isso exigimos que as centrais sindicais - a exemplo, a CUT e a CTB dirigidas pelo PT e PCdoB respectivamente - saiam de sua paralisia e organizem um plano de lutas nacional por emprego, renda, sem nenhuma concessão à patronal. Essa é a política que nós do MRT, aqui no Brasil, defendemos e batalhamos.

Só na luta de classes, batalhando por um partido mundial da revolução socialista, é que podemos enfrentar os interesses nojentos e assassinos do imperialismo - seja de Trump, seja de Biden. Apenas a classe trabalhadora, aliada a todos os oprimidos, pode mudar as regras do jogo da política internacional, das ingerências diplomáticas burguesas, de suas guerras e golpes de Estado. Apenas a classe trabalhadora pode, nos Estados Unidos, no Brasil e no mundo, expropriar os frutos do trabalho que nos pertence e nos é roubado.

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