Opinião

OPINIÃO

O Brasil olhando-se no espelho de Washington

Os pútridos ventos que sopraram lá no rio Potomac em Washington DC sentiram-se aqui no Lago Paranoá. Todos atores políticos buscaram mostrar qual seu alinhamento. Isso acontece porque Washington é modelo mental para uma burguesia sem alma própria, mas também porque ela sabe que parte de seu futuro depende de desenvolvimentos internacionais: sejam eles da economia, da geopolítica, e da luta de classes. Entender as inflexões brazucas sobre a tarde de algazarra da extrema-direita americana joga luz no entendimento da realidade nacional.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

sexta-feira 8 de janeiro| Edição do dia

Miami, Texas, Nova Iorque, Washington são lugares de férias e negócios para burguesia brasileira. Lá os negócios dizem respeito a sua sociedade como parceira menor na pilhagem do país e, com algumas poucas exceções, como as proteínas animais, são permitidas virarem agentes globais em um mercado secundário. A crise aberta pela invasão do Capitólio por supremacistas brancos e toda variedade da horda de poeira da humanidade que parte para a “ação direta” trumpista influiu fortemente na política do Brasil.

Os claríssimos sinais de que Biden assumirá como um presidente debilitado pelas condições econômicas e sociais e atravessado por falta de legitimidade diante de um trumpismo que não foi esmagado eleitoralmente (teve mais de 70 milhões de votos) renovam os ares de que se lá o fenômeno que caracterizamos como crise orgânica não se fechará, que dirá em nossas paragens com muito menores bases para construção de uma nova hegemonia. Os questionamentos que atravessam o maior imperialismo do mundo elevam as incertezas nas burguesias em cada país, não poderia ser diferente aqui.

Voltando aos EUA, Trump derrotado eleitoralmente segue mesmo assim com peso de massas – e mesmo com divisão do Partido Republicano, que conta com ala de senadores defendendo sua remoção usando a 25ª emenda, conta com algo além de sua base de mobilização ativa, tem uma relevante avançada institucional de onde falar no regime americano: alguns conservadores que ele apontou ao Supremo e, com ao menos 121 deputados (de 435) e 6 senadores (de 100) que mesmo após a algazarra violenta continuaram votando para melar os resultados do pleito indireto, que é em si um traço constitutivo do racismo e anti-democracia do regime yankee criado por “Pais Fundadores” escravocratas. A extrema-direita, como apontam nossos camaradas do Left Voice, da Rede Internacional de Diários Esquerda Diário, não pode ser derrotado pelas urnas mas sim pela ruas, pela luta de classes, todo o oposto que o Partido Democrata conduz, um partido que compartilha com os Republicanos objetivos de classe de manter um país estruturalmente racista e antidemocrático para servir bilionários em Wall Street.

Os EUA como fator disruptivo na política brasileira

O imperialismo é um fator disruptivo das relações nos países dependentes e com traços semi-coloniais como o Brasil, traços estes aumentados desde o golpe de 2016 e especialmente com Bolsonaro. A eleição de um Democrata como Biden não mudará a exigência de subserviência aqui, basta ver a entrevista com ex-embaixador no Brasil, nomeado por Obama. Nela exigem alinhamento anti-China no 5G, mostrando como esta disputa tem um caráter de Estado e não de governo, e há previsíveis ameaças/indiretas de pressão contra a política externa trumpista de Bolsonaro e uma agressividade americana usando como temas “corrupção” e “meio ambiente”, que pouco importam verdadeiramente ao establishment americano, seja ele democrata ou republicano.

Para além destes elementos de “Estado” há os elementos de regime, governo, conjuntura que aumentam o poder disruptivo dos EUA aqui. A divisão americana, a polarização lá tende a persistir mesmo com novo governo que terá em suas mãos uma maioria parlamentar de 1 voto no Senado mas limites a sua ação e um desafiador trumpismo insurgente como uma sombra. A conflitividade nos EUA dificulta soluções acordadas aqui, e por mais que hoje (como há alguns meses) prospere um pacto entre o golpismo institucional, o centrão e o Bolsonarismo, os ventos de lá renovam os cálculos de cada parte que o momento de calma na luta política nacional é um momento de acumular forças para embates futuros, sejam eles nas disputas geopolíticas internacionais sobre vacina, as disputas nacionais sobre o mesmo tema, ou diante de cada fato internacional de magnitude, as mobilizações das massas no Chile contra o regime herdeiro de Pinochet (e sua ativa tentativa de desvio nas regras da nova constituinte com direitos à veto da direita) e nem falar a luta antirracista nos EUA. Todos esses posicionamentos dizem respeito a qual “amo” atender mas também como se posicionar diante de expectativas de impacto da luta de classes num país que está com seu mais alto nível de desemprego da história e com milhões sem alternativas de renda.

Os embates entre as alas do golpismo podem ser mais disruptivas ou não, não cabe prognosticar os ritmos e intensidades agora, mas que desde já todos atuam para aumentar “seu” poder no novo regime construído desde 2016 em detrimento dos “outros”.

O pacto envolve a redução de atritos com o STF e um Bolsonaro que insurge-se menos contra as regras do jogo e está mais dependente do Centrão. O que unifica as diferentes alas do golpismo, seja institucional com as caras de neodemocrata como Maia, seja a toga do STF, com o bolsonarismo e Paulo Guedes é o motivo de existência compartilhado: avançar em ataques maiores do que o PT já fazia e aprofundar a subserviência ao imperialismo em cada fórum e posicionamento internacional e por imensas privatizações criminosas.

Assim foi o jogo jogado pelo STF e por Bolsonaro até a cartada trumpista de ontem. Com som e fúria Bolsonaro já prepara o questionamento ao resultado do pleito de 2022 se ele não conseguir o voto impresso (um instrumento que permite a coerção em larga escala em áreas dominadas por milícias para-estatais, exigindo do cidadão dentro do curral eleitoral a comprovação de como votou). Ernesto Araujo, parte mais ativa que Bolsonaro na extrema-direita internacional, insurgiu-se contra chamar os fascistas de Washington de fascistas, e os defendeu como “homens do bem”.

Bolsonaro, enfraquecido internacionalmente com a derrota eleitoral do golpismo na Bolívia, com o massacre eleitoral dado contra os defensores da Constituição de Pinochet e diante da derrota de Trump não vê alternativas que não ceder ao centrão mas anseia por construir suas fortalezas de defesa para preparar o contra-ataque (quando puder). O objetivo de Bolsonaro já questionar a legimitimidade das eleições brasileiras futuras, e prognosticando ou ameaçando que aqui o desfecho seria mais violento que nos EUA, não é necessariamente de já armar um golpe, mas no mínimo de armar uma defesa forte para que a extrema-direita permaneça ator relevante no regime do golpe caso venha a perder as eleições, tal como pareceu ser o objetivo de “mínima” do Trump, e desde já, com estes posicionamentos mais duros negociar com o Centrão, com o STF, Maia e outros, mostrando ter mais cartas na manga. Não é por menos que Maia não perdeu um segundo para já ir as redes propondo ação judicial contra as declarações de Bolsonaro (e assim pedir socorro do mais forte ator do golpismo institucional, o STF):

O golpismo institucional tenta surfar a onda democrata e sua contenção – até agora – da luta de classes nos EUA

Maia, Doria, Alcolumbre, ministros do STF, a rede Globo, todos repudiaram a ação violenta, chamaram de golpe o que aqui chamariam de “ato espontâneo” se favorecesse o PSDB ou o DEM. Não repudiaram o “golpismo de Trump” por serem legalistas, constitucionalistas e amantes de seguir as leis ao pé da letra. Ao contrário disso, quanto se sabe do papel destes neo-democratas em golpes, sejam eles os de 64 ou o recente golpe institucional e cada contorno e entortada que deram a cada lei para servir aos interesses próprios e do golpismo de conjunto.

As declarações deste setor do regime brasileiro, tomadas em conjunto, buscam dois objetivos: alinhar-se com os democratas e com alas não-trumpistas dos Republicanos e limitar o terreno do Bolsonarismo. Tentam surfar a contenção dos processos de luta de classes que o Partido Democrata almeja conduzir para por esta via consolidar as forças que conquistaram nas eleições. O Partido Democrata se beneficiou ao mesmo tempo que conteve o Black Lives Matter, e pode até aqui conduzir um processo que gera uma forte opinião pública progressista mas não voltou a irromper nas ruas, quanto que isso será possível de continuar ocorrendo em meio à crise econômica e social é uma incógnita. E justamente apostando na possibilidade de fenômenos de opinião pública progressista, mas sem forte luta de classes que Maia e outros vestem suas máscaras menos de direita.
Como afirmamos previamente,o “golpismo institucional” (diferenciado do golpismo bolsonarista por exemplo) foi o maior vencedor do pleito municipal.

As declarações destes diferentes atores guardam diferenças entre si e elas pronunciam coisas sobre seus alinhamentos lá e aqui. Enquanto Alcolumbre com maior trânsito com o Bolsonarismo pronunciou-se contra a invasão e em defesa “da vontade da maioria”, não o fez relacionando o evento ao Brasil ou tomando as cores democratas.

Doria relacionou ao Brasil explicitamente alfinetando o bolsonarismo:

Maia, que tenta articular que PSB, PDT, PCdoB, PT e agora até mesmo alas do PSOL como o MÊS de Sâmia Bonfim alinhem-se detrás do golpismo institucional (dele mesmo e do aliado de Temer, Baleia Rossi) tomou as cores democratas e com toda a hipocrisia do mundo chegou até a saudar a eleição de um negro na Geórgia. Nada mais absurdo de um líder de um partido que foi o partido oficialista da ditadura (a ARENA) e que foi o responsável direto por ações de inconstitucionalidade das cotas para negros no Brasil:

Gilmar Mendes do STF repudiou a invasão, correlacionou com o Brasil, sem deixar de advogar pelo fortalecimento do diálogo (pró-centrão) e do judiciário (ou seja em causa própria):

O mesmo caminho, em causa própria e do STF, mas mais delimitado do bolsonarismo foi adotado por Alexandre de Moraes, com direito a ameaças implícitas usando o processo dos “atos anti-democráticos” que correm sob sua alçada:

Como pode-se notar além do repúdio “tático” ao desrespeito às leis estes atores procuram puxar para um caminho que os fortalece mais na interrelação entre seus cálculos locais e internacionais, que dizem respeito não somente a quem é governo em determinado momento, mas sua visão sobre o que conter na luta de classes. Que Maia, por exemplo, fale contra o racismo é um sinal da correlação de forças internacional, o protagonismo dos negros e da luta antirracista nos últimos meses, e algumas inflexões do tema no país.

Quais rumos para a esquerda no Brasil mirando-se no exemplo americano?

Olhar lá e cá, aprofundando linhas políticas já em curso também se mostrou na esquerda nacional. Freixo do PSOL que advoga por uma frente democrática incluindo burgueses e golpistas pronunciou-se enfatizando esta linha que busca aproximar-se do mesmo movimento capitaneado por Maia:

Quem seriam todos os democratas de Freixo? Os golpistas Maia e Baleia Rossi? Ou meramente Marina Silva e Luciano Huck?

Lula, menos entusiasta da linha “Frente Ampla” que Freixo, visto que até o momento esta se articula contra o PT e não detrás da liderança deste preferiu um posicionamento que abre leituras à frente ampla mas também não explicita este caminho:

Seguindo o posicionamento de Lula: quem conteria o radicalismo? As instituições ou as massas auto-organizadas? Conhecendo-se todo histórico do PT sabe-se que mesmo diante de absurda prisão de sua liderança histórica o caminho é nada-mais-que-institucional mesmo diante de uma institucionalidade carcomida pelo golpismo.
Grosso modo, e como resumo, viram-se dois tipos de posicionamento no país. O apoio mais ou menos aberto do bolsonarismo aos trumpistas, e toda uma variedade de reações contra a extrema-direita mas que limitavam-se aos estreitos marcos institucionais, apelando a diferentes instituições, atores, acordos. Faz falta justamente uma terceira resposta como lição dos EUA: anti-trumpista mas que se enfrente com todo o regime a serviço dos super-ricos e do capitalismo e sua crise que dá nascimento a filhos podres como Trump ou Bolsonaro.

Justamente faz falta um caminho que supere os limites daqueles que buscam conter, desviar, impedir que a ação das massas varra com a extrema-direita, preservada e alimentada pelas instituições degradadas, tal como se vê nos EUA ou aqui. As lições dos EUA, muito vivas para a burguesia brasileira e para os políticos que defendem a conciliação de classes, também nos servem para pensar que não bastam muito votos (nada garantidos) em 2022. Quanto menos se aposte na luta de classes hoje mais está dado que a construção hipotética de 2022 se dará aceitando a terra arrasada de anos de golpismo e bolsonarismo. E justamente nesta linha de aceitação “crítica” que atua o PT que crítica as propostas de Bolsonaro, Guedes, Maia no parlamento, mas votam no candidato de Maia para a presidência da Câmara e implementam a reforma da previdência onde governam.

Não há garantia de 2022 sem enfrentar a extrema direita e o regime que lhe dá guarida, sem enfrentar os ataques que a extrema direita promove junto a todo golpismo institucional e todos aqueles que hoje se dizem democratas. Não será elegendo qualquer nome que não Bolsonaro que se enterrará o legado de anos de golpismo e bolsonarismo. E mais, quantos ataques terão sido aprovados contra os trabalhadores com a chancela de Bolsonaro, Doria, Maia, STF? Todos eles podem todos se detestar mas adoram estar juntos para atacar o povo brasileiro. Quantas milhares de mortes a mais na pandemia terão ocorrido enquanto Doria e Bolsonaro disputam a vacina e cada coisa mas nenhum dos dois toma ações emergenciais para garantir renda, testes, isolamento, todo um conjunto de ações necessárias para salvar vidas enquanto não transcorrem meses ou anos até adequeda cobertura vacinal.

A extrema direita não se esmaga nas urnas mas sim nas ruas; a extrema-direita não se esmaga com as mãos de STF, ou dos Democratas daqui ou de lá. O combate à extrema-direita pressupõe o combate ao regime que lhe dá nascimento e guarida. É necessária uma organização independente, exigir dos sindicatos a ruptura de sua trégua para barrar cada ataque e para que a classe trabalhadora, a juventude e a maioria negra e feminina de nossa classe não se veja diante da completa perda de horizontes de contestação que é justamente o que almejam todos aqueles que advogam pelo mal menor. O caminho contra Trump ou Bolsonaro não é o de aplaudir que Pence foi “institucional” mas em desenvolver todo imenso potencial que se viu com o Black Lives Matter.




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