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Recife | Recife e seu Porto Digital, a inteligência que mata por afogamento

Recife é reconhecida por sua produção tecnológica, especialmente localizada no Porto Digital. Mas a serviço de quê está essa tecnologia quando pessoas seguem morrendo todos os anos com os alagamentos e deslizamentos?

quinta-feira 21 de julho | Edição do dia

É recorrente as menções a Recife como “a cidade mais inteligente do norte e nordeste”. Um dos fatores mais ressaltados para esse mérito é o Porto Digital, abrigado no Recife antigo, próximo ao Marco Zero, ponto turístico e cartão postal da cidade. Trata-se de uma região de incentivo econômico para empresas de tecnologia. Neste espaço essas empresas se instalam nos prédios do Porto Digital com impostos reduzidos. Mas para quem olha para a cidade em sua totalidade, sua arquitetura, infraestrutura, condições sociais e urbanas, pouco pode ser visto que possa ser chamado de “inteligente”.

Estamos falando da capital que lidera o ranking de desigualdade sócio econômica do país, que atingiu o marco de praticamente 20% de desempregados, segundo dados da PNAD de 2021, foi a maior taxa registrada pela pesquisa, e 52,5% dos postos de trabalho estão na informalidade, segundo dados de 2022.

As enchentes e desmoronamentos no período de chuvas são uma constante, que anunciavam a recente tragédia que mataram ao menos 129 pessoas neste ano e mais de 128 mil desalojados e desabrigados. E não era preciso “muita inteligência” para perceber que a tragédia já estava armada, com a especulação imobiliária empurrando a população pobre para cima dos morros e para as margens dos rios, quando todos os anos a cidade inteira fica literalmente embaixo d’água.

Não nos enganemos, a precariedade estrutural de Recife, que arranca a vida de sua população trabalhadora não é algo que passa despercebido por seus governantes e sua burguesia. Sem dúvidas a barbárie social em que se encontra a cidade não é causada por “falta de inteligência”.

Ao contrário, a grande “inteligência” da burguesia pernambucana, seus associados internacionais e seus políticos de estimação, é justamente a capacidade de lucrar com a constante manutenção da tragédia social do capitalismo, a pobreza, a fome e a precariedade, elevados ao seu limite neste estado. E o Porto Digital e suas empresas não são diferentes, fazem parte deste projeto tão lucrativo, e talvez venha se tornando um cérebro desse organismo de exploração e opressão.

O Porto Digital está lotado de startups e empresas que vivem de atrair capital estrangeiro para investimento no desenvolvimento das chamadas TIC (Tecnologia e Informação e Comunicação) e a chamada "economia criativa”. Para quem não sabe do que estamos falando com esses termos, talvez fique mais fácil olhar para seus maiores e didáticos exemplos, Uber e Ifood. Empresas que usam da tecnologia para encontrar formas criativas de explorar a classe trabalhadora desviando das leis trabalhistas e implodindo os direitos que conquistamos durante décadas de luta.

A chamada economia de plataforma, que engloba as empresas de aplicativo, mais do que tecnologia de ponta, precisa de outros componentes fundamentais para sua existência e lucratividade, esses componentes são: altos índices de desemprego, informalidade e precariedade, ou seja, uma classe trabalhadora espoliada pelas condições de vida, movida pela sombra da fome, obrigada a trabalhar dez, doze, quinze horas por dia, sem direito a nada, para garantir a sua sobrevivência.

Atualmente, o Porto Digital abriga mais de 350 empresas, organizações de fomento e órgãos de Governo. Esses empreendimentos geraram um faturamento anual de mais de R$ 3,67 bilhões em 2021 e já é considerado o terceiro maior setor de serviços na capital pernambucana. Por ser um polo de desenvolvimento, a maioria dessas empresas do polo buscam incansavelmente pela próxima Uber e Ifood. E que lugar melhor para fazer isso do que na região com um dos piores índices socioeconômicos do país? Recife é um laboratório perfeito para o que existe de mais moderno para exploração capitalista.

Para este quadro de contradição e desigualdade estratégica tão rentável para os verdadeiros empreendedores da burguesia internacional, o PSB, entusiasta que lidera a capital do Recife, deu em seu congresso eleitoral para corrido de 2022 o cínico nome de “socialismo criativo”. Não poderia existir maior deturpação para o termo “socialismo”, nomeando o modelo mais selvagem do capitalismo contemporâneo. Até quando vamos permitir que chamem esses oligárquicos capachos dos capitalistas de socialistas?

Não à toa o setor de serviços, na qual se localizam essas empresas de tecnologia, é um dos ramos da burguesia que vem sendo disputado como um aliado estratégico pelo PSB e por seu candidato a governador Danilo Cabral.

Não é preciso dizer que a chamada “inteligência” e a tecnologia produzida em Recife não tem nada a ver com socialismo e não estão a serviço da população e a classe trabalhadora que ainda morre de doenças com cura, nos hospitais onde caem os tetos e por fenômenos climáticos tão naturais e rotineiros quanto a chuva.




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