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Que leitura podemos fazer das eleições nos Estados Unidos?

O nível de votação foi um recorde histórico, assim como o número de pessoas que votaram antecipadamente. Esta participação mostra o impacto da votação de jovens e minorias em um ano marcado por mobilizações. Que leitura podemos fazer?

quinta-feira 5 de novembro| Edição do dia

Parece que houve mais de 150 milhões de votos nas eleições presidenciais dos EUA. Essa participação histórica, o maior nível de participação em uma eleição presidencial em 100 anos, mostra o impacto da votação de jovens e minorias em um ano marcado por mobilizações.

Desses votos, 100 milhões foram emitidos antecipadamente. Mesmo antes do dia das eleições, a votação antecipada já havia quebrado todos os recordes, em muitos estados atingindo ou mesmo ultrapassando o número total de votos em 2016. O baixo comparecimento que caracteriza as eleições nos Estados Unidos foi revertido, ao final de um ano em que milhões de pessoas participaram das mobilizações Black Lives Matter e em que a corrida presidencial se tornou uma espécie de referendo sobre a gestão da pandemia, que mergulhou o país em uma crise social e econômica. Como em 2016, o apoio a Trump superou o que as pesquisas diziam e, com a corrida encerrada, mas ainda sem solução no momento em que este artigo foi escrito, torna a provável vitória de Biden pírrica.

Numerosas análises apontam para a importância da demografia - ao invés da geografia - nesta eleição. Isso se provou especialmente crítico para o voto latino e feminino nos subúrbios em estados importantes como Pensilvânia, Arizona e o Meio-Oeste. Cerca de um quarto dos votos nesta eleição vieram de pessoas que não votaram em 2016 e 8% de novos eleitores, de acordo com o The Guardian. Parte dos votos latinos podem ser encontrados entre esses grupos, especialmente os novos cidadãos que estão altamente motivados para votar. Estes votos se dividiram: por um lado, um grande número de jovens progressistas votou nos democratas em áreas urbanas e suburbanas (como visto em lugares como Filadélfia, que é muito diferente do resto da Pensilvânia, e Austin, bem diferente do resto do Texas); por outro lado, os eleitores talvez mais preocupados com a economia (especialmente as pequenas empresas) e com os altos impostos prevaleceram na Flórida e em Ohio, dois estados onde Trump venceu.

A crise do coronavírus e a questão racial são elementos que trouxeram votos a Joe Biden. Os democratas insistiram nessa abordagem para encorajar as pessoas a votar, especialmente pelo correio. Mas essa polarização também foi usada por Trump para mobilizar sua base no dia da eleição, obtendo também alto desempenho. Como resultado, o Senado está ficando vermelho (republicano) e provavelmente será um sério obstáculo para um governo Biden, embora, como muitas coisas nesta eleição, ainda incerto.

A base do Trump estava mais preocupada com a economia, o que é uma contradição. Alguns analistas descrevem uma mentalidade de curto prazo ao votar em Trump: Apesar do impacto da crise do COVID-19, esses eleitores ainda acreditam na ideia da possível recuperação que Trump prometeu durante sua campanha. Na indústria manufatureira e outras áreas industriais, onde os eleitores foram atingidos de forma particularmente dura pelo desemprego e fechamentos de fábricas, alguns dos votos de Trump em 2016 voltaram para os democratas. Foi assim que o chamado Rust Belt (Cinturão de Ferrugem ) foi dividido, os antigos estados industriais do país, onde Biden parece ter retomado Wisconsin e Michigan, onde os republicanos estavam antes de 2016. Ainda assim, isso não deve ser visto como um cheque em branco para Biden. Embora seja amplamente considerado uma figura "pró-sindicato" no Partido Democrata, não faz muito tempo os próprios condados que ele parece ter vencido rejeitavam os democratas, que eram vistos como elites que os haviam despedido e abandonado como white trash (lixo branco).

Em estados contestados como Arizona, Wisconsin e Flórida, a votação antecipada favoreceu principalmente os democratas. Em antecipação a esse cenário, os republicanos fizeram do comparecimento às urnas uma prioridade. Foi o que aconteceu na Flórida, por exemplo - junto com a privação de direitos civis de grandes setores da população, como os encarcerados. Essa e outras características antidemocráticas do sistema de votação explicam o resultado, mas também o faz o fracasso do Partido Democrata em atingir setores mais amplos de eleitores negros, bem como os porto-riquenhos. Em suma, os democratas não alcançaram a vitória suave esperada.

Joe Biden pediu hoje aos seus eleitores que tenham paciência e fé, com base na expectativa dos inúmeros votos pelo correio. Ele parece confiante de que conquistará os estados do Rust Belt (Cinturão de Ferrugem ) necessários para chegar à Casa Branca.

Trump, ao contrário, falou no meio da noite, antes que muitos votos fossem contados. Ele afirmou que os democratas estavam tentando roubar a eleição e exigiu que a contagem de votos pelo correio fosse interrompida. Ao denunciar a fraude e prometer entrar com recurso no Supremo Tribunal Federal, ele tenta deslegitimar a eleição depois de seus esforços anteriores para desencorajar os eleitores democratas de participar, organizando seus apoiadores para atacá-los e ameaçar os serviços postais. Caravanas foram enviadas a vários centros de votação para impedir a votação.

Os atentados ocorridos nos dias que antecederam a terça-feira são uma reação violenta aos altos níveis de participação e expressão política da própria base do Partido Democrata e mais, incluindo principalmente um setor de jovens que não se haviam expressado eleitoralmente antes. O componente mais radical da base de direita está em pé de guerra há meses, desde que começou a se mobilizar para atacar os protestos anti-racistas. Agora, depois de uma eleição acalorada e com a aprovação do presidente, eles se preparam para ignorar a vitória de Biden. A sensação é de um país dividido ao meio.

Por sua vez, o Partido Democrata mobilizou ampla base para o voto presencial, bem como o voto pelo correio. Ele conseguiu capitalizar sobre o descontentamento e rejeição de Donald Trump, apesar das fraquezas de Biden. Setores de base democrata, movimentos sociais e sindicatos discutem os protestos para defender seu voto.

Esta eleição demonstrou como um sistema eleitoral profundamente antidemocrático colide com as aspirações de milhões de pessoas que desejam mudar o curso da economia, da saúde, da desigualdade racial e do emprego. As mobilizações e a incipiente luta de classes do início deste ano foram desviadas pelos partidos irmãos do capitalismo para uma via eleitoral. Agora a própria eleição provavelmente entrará em uma disputa legal. No entanto, os chamados para as ruas ilustram a firmeza com que a mobilização se implantou no imaginário político nos últimos meses, e que o alto nível de participação na política eleitoral não implica necessariamente uma confiança cega nas instituições eleitorais ou nos candidatos capitalistas. A estreita margem na votação presidencial só vai reforçar a desconfiança no regime.

A forma que essa polarização política tomará dependerá do vencedor e do curso da luta de classes. Se Biden finalmente vencer, terá que arbitrar entre uma classe trabalhadora em crise que deu as costas aos democratas em 2016, uma ampla mobilização juvenil contra o racismo e a favor de mudanças de paradigma em relação ao trabalho, saúde e educação, e os acordos do partido e dos bilionários que o financiam. Trump, ao contrário, aposta na rua para reverter as eleições e também como seu próprio capital político que pode usar além do próprio Partido Republicano. As tensões entre a rua e o palácio desta semana vão continuar pelo menos pelos próximos meses e anos.




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