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Notas sobre a decadência do regime e a ostentação de Bolsonaro

sábado 6 de fevereiro | Edição do dia

Depois do espetáculo horrível que foi a eleição para a presidência da câmara e senado, em que toda a esquerda institucional (PT, PSOL, PCdoB) capitulou ao bloco de Baleia Rossi, e este perdeu; em tempo em que caducou a via burguesa do impeachment, ficha em que todos os partidos de esquerda socialista legalizados apostaram (PSOL, PSTU, UP, PCB, PCO), fica para alguns o desgosto de que vamos ter de sobreviver a esse governo genocida até 2022. Mas na verdade, o que esse prognóstico esconde é a falta de horizonte estratégico que se abateu sobre a maior parte da esquerda brasileira, fazendo com que setores amplos da classe trabalhadora caiam na armadilha de acreditar na miséria do possível.

Embora seja verdade que Bolsonaro obteve uma vitória relativa ao eleger seus candidatos para os cargos de presidência da Câmara Federal e Senado, o custo de tal feito foi nada mais nada menos que 3 bilhões em emendas parlamentares e o loteamento de cargos para o Centrão, lodo político que na campanha presidencial de 2018 Bolsonaro jurou combater, embora tenha sido um filho ranhento desse mesmo setor político, durante os 28 anos em que viveu como deputado. É importante ressaltar que, apesar dessa vitória relativa, Bolsonaro se encontra agora ainda mais nas mãos do Centrão, uma areia movediça que engole a todos que se aproximam e se movimenta na direção única do poder e do dinheiro.

Como se pode ver, as coisas não são tão simples como querem nos apresentar. O que foi hoje uma vitória pode se converter em seu contrário amanhã. Há oposições quase invisíveis se desenvolvendo em todas as coisas, ou nas palavras do velho Marx: se a aparência e a essência das coisas fosse a mesma, a ciência não seria necessária.

Um pouco de história e contextualização

Na França dos anos 1780, o povo sofria com longos anos de uma crise econômica gerada pelo imperialismo francês. Os camponeses e trabalhadores mais pobres, famintos e humilhados, pagavam altos impostos para sustentar a ostentação do chamado primeiro estado, formado pela igreja corrupta, e do segundo estado, formado pela nobreza tirana. Juntas, essas duas camadas, que representavam uma ínfima minoria do povo francês, viviam das festas luxuosas que davam em seus suntuosos palácios, enquanto os padres e bispos faziam o trabalho de incutir na cabeça dos famintos que os privilégios da aristocracia e os seus próprios - enquanto parte de uma classe de sacerdotes corruptos e imundos - correspondiam a um mandato divino e, por tanto, qualquer tentativa de mudar essa situação por parte do povo pobre seria um atentado contra o próprio deus.

Ainda assim, e mesmo arriscando perder uma possível salvação, se voltando contra todos os tiranos que desde pequenos foram ensinados a venerar, as camadas oprimidas da população, unidas, ousaram assaltar os céus em busca de dignidade, liberdade e melhores condições de vida. Levavam consigo uma bandeira tricolor que representava a república e exigiam Igualdade, Liberdade e Fraternidade! Os fatos que se sucederam são conhecidos como a gloriosa Revolução Francesa de 1789, revolução que sacudiu o mundo e fez tremer de medo todos os tiranos da Europa; os efeitos desse grandioso terremoto político se fazem sentir até hoje.

Era um dos sintomas deste mundo novo que ia surgir, e da podridão do velho regime que se decompunha, a revolta que gerava e que se fazia sentir entre os oprimidos, por meio de boatos e fofocas, o modo opulento como viviam os opressores, que sem nenhuma discrição, e em atitude de completo cinismo, cobravam sacrifícios cada vez maiores ao povo em nome de uma situação fiscal. No mínimo odiosa foi a fala da então rainha francesa, Maria Antonieta, que questionada sobre a situação de miserabilidade do povo, exclamou em com todo o seu ódio de classe que por ela o povo poderia morrer de fome, ou, nas palavras dela: “Se não tem pão, que comam brioches!” Os tais nobres nem perceberam a aproximação das massas revolucionárias que se punham a marchar sobre Versalhes (Versalhes era na época a sede do governo francês e onde se encontravam os aristocratas).

Algumas semelhanças entre o passado e o presente

Estamos em 2021, ano 2 de uma mortal pandemia que ainda nos aterroriza e assola, e a mais de uma década da crise financeira de 2008-2009, que significou desemprego em massa, destruição de serviços públicos e brutais ataques às condições de vida da classe trabalhadora em todo o mundo, com o objetivo de continuar pagando regimes de dívida que não foram feitas pelo povo e manter os privilégios das classes dominantes disfarçados de um apelo, como na França daqueles passados tempos, à situação fiscal.

Aqui no Brasil, Bolsonaro - como a ridícula caricatura de uma Maria Antonieta grotesca e sem atributos - já deu inúmeros exemplos de seu desprezo pelo povo, como dizer que se os brasileiros entrassem em um esgoto não pegariam nada, ou mesmo chegar a fazer piada em mais de uma ocasião com os mortos pela pandemia, em atos de total escárnio e indiferença pelos mais 220 mil brasileiros que já perderam a vida para a covid-19. Além do mais, os milicianos também vivem, como naqueles tempos, numa situação de ostentação obscena: enquanto cobram dos trabalhadores, já massacrados pela pandemia, sacrifícios cada vez maiores.

Dados do cartão corporativo referentes ao ano de 2020 mostram que a Presidência da República gastou em apenas um ano a quantia obscena de 20,1 milhões de reais, 27% a mais que no ano anterior, quando a já enorme quantia de nada menos que 15,8 milhões havia sido gasta. Uma ostentação num ano que foi extremamente penoso para a maioria dos brasileiros, ano de pandemia em que a economia tombou em mais de 4% e a arrecadação, que onera os pobres e trabalhadores, caiu em 6,9%, milhões perderam seus empregos e outros milhões tiveram que sair de casa e arriscar suas vidas para não morrer de fome.

A farra com o dinheiro público não se encerra com o fascista imundo do Bolsonaro. A totalidade dos gastos do executivo no cartão corporativo somam a quantia absurda de 1,8 bilhões de reais! Os milicianos no aparelho de estado compraram no ano passado 15 milhões em leite condensado (a 162 reais a lata), 14 milhões em molhos e 16 milhões gastos em batata frita. Tudo isso enquanto cobram do povo trabalhador que suporte cada vez mais privação, trabalham sem direitos e até morrer; fazem banquetes com o dinheiro público ao mesmo tempo em que 10 milhões de brasileiros passam fome, após anos de uma crise capitalista em que eles torturam o povo pobre com ajustes, em nome de pagar uma dívida pública completamente fraudulenta.

A indignação gerada sobre o assunto é uma mostra de que os pobres e trabalhadores não estão nem um pouco dispostos a arcar com os custos desta festa. A classe trabalhadora, única classe que produz e gera riqueza, sabe e vê a soberba e o cinismo com que vivem os políticos, que a cada ano aumentam os próprios supersalários; a arrogância dos juízes e desembargadores, que além de não serem eleitos por ninguém e sempre que possível ser um instrumento dos capitalistas em sua contra a classe trabalhadora, chegam a ganhar salários astronômicos de até 400 mil reais, algo completamente fora da realidade de qualquer operário ou professor; além da cara de pau dos ministros do STF, que julgam itens de primeira necessidade lagostas e vinhos importados comprados com o dinheiro do povo.

No entanto, as classes exploradas e oprimidas, que formam a enorme maioria da população, veem e sabem o que está acontecendo, além disso já deram numerosas provas da sua bravura obstinada para acabar com a farra e opressão dos ricos e poderosos. A indignação com gastos bilionários em futilidades, é mais um sinal da rápida decomposição do regime do golpe institucional.

É preciso seguir o exemplo dos franceses e por abaixo todo esse podre regime fruto do Golpe de 2016, impor através da luta que cada político e cada juiz ganhe o salário de uma professora, sejam eleitos e revogáveis. Os políticos burgueses usam o aparelho de estado em benefício deles próprios e de seus amiguinhos, os grandes capitalistas que financiam suas campanhas, por isso é necessário mudar tudo o que está aí.

Para isso é imperioso lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que mude de cima a baixo todo esse sistema apodrecido. É através dessa luta, com os métodos de luta de classes, que vamos mudar a nossa própria vida enquanto povo trabalhador, sem depositar nenhuma confiança nas falsas alternativas do PSDB de Dória, que agora busca construir a imagem de alternativa, mas que é sempre racista, anti-povo e anti-trabalhadores em seus governos para a elite; ou na ultradireita aberrativa e negacionista de Bolsonaro. Desde o MRT e o Esquerda Diário fazemos o combate por uma alternativa de independência de classe dos trabalhadores, os únicos que podem apresentar uma real solução para a crise política e econômica que vivemos.

Impor através da luta da classe que políticos e juízes recebam o salário de uma professora!
Impor pelos métodos da classe uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana!




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