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CRISE PARAGUAI

Massivas manifestações no Paraguai contra governo Abdo, aliado de Bolsonaro, chegam ao 2º dia

As manifestações se dão no contexto de uma semana marcada pelos protestos dos contra a catástrofe sanitária e o desemprego.

segunda-feira 8 de março| Edição do dia

O Paraguai vive o segundo dia de manifestações em Assunção e outros pontos do país, contra o governo de Mario Abdo, um aliado de Bolsonaro.

Em 2019, Bolsonaro havia se solidarizado com Abdo, defendendo-o contra o processo de impeachment a que estava submetido sob acusações de corrupção.

Depois de realizar protestos nas imediações do Congresso Nacional, os manifestantes se transferiram até a Casa presidencial. Ali continuaram as reivindicações, apesar das mudanças ministeriais que Abdo havia anunciado.

A manifestação se dá com um grande operativo da Polícia Nacional, que diferentemente da noite da sexta-feira, seguia os manifestantes sem reprimi-los.

O anúncio presidencial, que decidiu finalmente fazer mudanças em seu gabinete, depois dos protestos por falta de medicamentos, a não chegada de vacinas contra o coronavírus, o aumento dos custos da passagem e a crise econômica e social, não conformou as massas que exigem o fim do governo.

A mensagem de Mario Abdo Benítez foi gravada e difundida através da grande imprensa paraguaia. Na mesma, o presidente anunciou que mudará o criticado ministro da Educação, Eduardo Petta, como também a ministra da Mulher, Nilda Romero, o chefe da Casa Civil, Juan Ernesto Villamayor, além de fazer trocas na Saúde, recentemente assumida por Julio Borba, depois da renúncia do ex-ministro da área em função da crise sanitária.

"Estou seguro de que os homens e mulheres que forem convocados porão o ombro para fazer frente a esse momento de emergência que vive a pátria", disse o presidente direitista.

Não obstante, atacou as manifestações da sexta-feira ao assegurar que era fruto de uns "poucos radicais" - óbvia mentira diante dos protestos de massas - e agregou que a violência não seria o caminho, a não ser para a brutal repressão estatal - esta sim, com plena permissão de violência.

A oposição burguesa também aproveitou para reimpulsionar um julgamento político contra Abdo. Ao mesmo tempo a União Industrial paraguaia emitiu um comunicado em que afirma que "exigimos ao governo dispor imediatamente os mecanismos necessários para atender às reivindicações dos cidadãos com respeito à ineficiente gestão sanitária dos últimos meses".

Os empresários fizeram gala de seu cinismo ao dizer que "para combater a pandemia com relativo êxito necessitamos previsibilidade e eficiência na gestão", buscando pressionar o governo e separar-se da crise sanitária, como se os empresários não tivessem responsabilidade direta em exigir que seus trabalhadores continuassem trabalhando em meio à pandemia.

A crise aberta pela péssima gestão da pandemia explodiu pelo lugar menos esperado, as manifestações. Atentos a isso, os representantes da União Industrial advertem que "Uma prolongada crise política como a que se coloca desde alguns setores pode ter consequencias nefastas quanto à emergência, recuperação da economia e do emprego". O cenário de convulsão política no Peru, que perdeu seguidos presidentes em função dos protestos de rua que evoluíram para paralisações gigantescas dos trabalhadores rurais, estão no olhar da burguesia paraguaia.

As manifestações se dão no contexto de uma semana marcada pelos protestos dos sindicatos da Saúde e da Educação, em função da escassez de medicamentos e a falta de segurança sanitária no retorno às aulas.

A sugestiva tag da convocatória #Estouparamarço2020 faz referência a outros "marços" com manifestações e levantes como o de 1999, com o assassinato do vice-presidente Luis María Argaña e as manifestações nas quais falaceram oito pessoas. Também a 31 de março de 2017, com a queima do Congresso Nacional para evitar que Horacio Cartes, presidente de então, aprovasse uma emenda constitucional que permitisse sua reeleição.

O Paraguai mostra como a luta de classes não esperará o controle da pandemia. Pelo contrário, as ruas se incendiam com combates contra a polícia em função da do alto desemprego e da catástrofe sanitária organizada pelos capitalistas, assim como políticas desastrosas como o do retorno às salas de aula sem qualquer segurança contra o coronavírus.

Trata-se de um alerta para o Brasil, que com Bolsonaro, Doria e todo o regime do golpe institucional constituíram a maior tragédia sanitária da história do país. Os péssimos resultados na economia brasileira (maior nível de desemprego de todos os tempos, a maior queda na renda em mais de cem anos, e a maior queda no PIB - 4,1% - em 24 anos) junto às quase 300 mil mortes pelo coronavírus (o Brasil já é o país com maior taxa de mortos por milhão de habitantes, superando os Estados Unidos) já deterioram a aprovação de Bolsonaro. A decisão de governadores como Doria e diversos outros de retornar as aulas presenciais durante a pior onda pandêmica até agora enfurece professores e comunidades escolares. Os ingredientes para convulsões sociais estão inscritos na América Latina, que há apenas dois anos vivia um enorme ciclo de luta de classes.




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