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DENÚNCIAS OPERÁRIAS | Garis do RJ protestam: “a gente tá exposto a esse lixo e nossos amigos estão morrendo”

Recebemos relatos anônimos de dois garis que retratam as condições de trabalho da categoria, seu trabalho extenuante, os imensos riscos sanitários, o medo de contaminar familiares a falta de vacinação e ainda diversos abusos da chefia. Leia os relatos na matéria.

terça-feira 6 de abril | Edição do dia

Foto: Douglas Lopes

Os garis da COMLURB, empresa estatal de limpeza e manutenção urbana do Rio de Janeiro, estão expostos diariamente a grandes riscos sanitários. Porém, a promessa de vacinação de Paes, somente para os mais velhos da categoria começaria só no final do mês que vem, como demonstrado nesta matéria. Enquanto isso os trabalhadores vão se infectando, sofrendo um trabalho cada vez mais extenuante, chorando e protestando pelos seus mortos, como em ato ocorrido neste dia 06/04 onde, entre outras reivindicações, exigiam o direito à vacina.

Durante o protesto um gari nos relatou a preocupação com o trabalho nas ruas e a pandemia e a reivindicação não somente para que sua categoria seja vacinada: “Não só a classe dos garis, como os médicos, professores, diversas outras profissões, porque estamos na rua, a gente que trabalha corre o risco de pegar a doença e transmitir para quem tá dentro de casa”.

A pandemia se aproxima da categoria que registrou somente nas últimas semanas já se deparou com pelo menos 3 mortes. O trabalhador continua “conhecemos sim pessoas que faleceram pela COVID e sobre a vacina estamos nos sentido abandonados pela prefeitura porque nós viemos para rua todo dia, estamos expostos a qualquer tipo de vírus, bactéria, não temos direito à vacina, a aumento de salário, a alguns benefícios e estamos aqui hoje [em protesto na prefeitura em 06/04] para reivindicar a vacina. Porque perdemos diversos amigos, temos filhos, mulheres, pais, avôs em casa que estão expostas a essa doença e nós que trabalhamos na rua corremos o risco de pegar essa doença e levar para dentro de casa. A gente tá aqui hoje para brigar pela vacina.”

Uma gari também falou ao Esquerda Diário [preservamos seu anonimato por segurança]:

Trabalhar em meio à pandemia é muito preocupante, seja lá a classe gari ou qualquer outra classe, essenciais como eles classificam. Mas gari tá na frente de tudo, tá na frente de enchente, de demolições, gari tá varrendo rua, teve acidente a gente tá limpando os vidros. Gari é pau para toda obra. Somos essenciais. Mas o que adianta sermos essenciais e não estarem olhando para nós.

A trabalhadora ainda mostra como o descaso da empresa não tem nada a ver com o conhecimento sobre a pandemia, como inclusive foram adotados protocolos menos rígidos neste ano, com maior conhecimento do vírus e imenso agravamento da pandemia. Os protocolos de hoje são piores do que aqueles adotados no ano passado, ela diz:

Se em 2020 sem muita informação sobre o vírus conseguimos uma escala de dia sim dia não, hoje tá muito pior. A gente tá mais exposto, as variantes do vírus estão aí. COVID está muito em alta, não é uma gripezinha como fala nosso presidente. Nosso não, porque ele não me representa, mas hoje que tem mais informação sobre a COVID eles não fazem nada, não fazem uma escala de dia sim dia não. É muito preocupante. A gente tá exposto a esse lixo e é um pior que o outro. Máscaras, materiais hospitalares sabe? E nada é feito não tem vacinação pra gente. Não tem uma escala pra gente. Atualmente com esses 10 dias com feriado antecipado não estivemos inclusos. Nossos amigos estão morrendo e eles não fazem nada.

Fica bastante evidente como esse descaso é um projeto e não um acaso. É um desprezo com a vida destes trabalhadores em sua maioria negros. A trabalhadora escancara a contradição entre o intenso e detalhado planejamento da prefeitura do mesmíssimo Eduardo Paes para furar greve da categoria em 2015 e a ausência de planejamento para salvar vidas hoje:

A prefeitura deveria elaborar um plano, já que eles foram tão capazes de criar um plano de contingência pra gente não aderir a greve em 2015, porque não são capazes de fazer um planinho básico para gente ser incluso na vacinação. Porque não criam uma escala decente. Ah, querem gari todo dia na rua, coloca gari de manhã ou gari à tarde, ou coloca dia sim dia não. Sabe. Porque não se preocupam com nossa saúde, quanta gente tá dando baixa lá com 10, 11, 12 dias com suspeita de COVID. E nada está sendo feito. A gente tá exposto todo dia. Não só a gente. O ser humano, a sociedade tá exposta. A praia tá vazia mas o ônibus tá lotado. 10 dias de feriado mas ônibus lotado. Independente que seja gari de rua, de escola, os merendeiros, APAs, tem que ter um plano sim de vacinação. Ainda mais quem é de escola que está em contato com criança todo dia. Mas eles não vão fazer isso. Querem é que a gente se ferre. Uma categoria que é trabalho braçal, que não tem tanta importância pra eles.

Sobre as condições de trabalho na pandemia a gari ainda denuncia:

Nosso efetivo está reduzido, tem colaboradores afastados devido a saúde, aposentados, não podem estar exercendo a profissão devido ao vírus, e quem está exercendo na rua o dobro tá dobrado, está árduo demais, está pesado. Tá cansativo por causa da redução do efetivo. Está muito difícil e ninguém olha para gente. Aí entra acordo coletivo e nosso sindicato não nos representa, não temos aumento digno. Aliás a gente tinha que ter aumento, não só a gente, os médicos e quem está na frente [da pandemia] tem que ter mais reconhecimento e nós garis, ninguém olha pra gente.

A categoria também denúncia a perseguição que sofre das chefias, indicadas políticas, “peixes” dos políticos promove como falou o primeiro gari citado: “tão pegando gente de outras empresas como AMBEV e colocam como presidente, como diretor, sendo que tem gari capacitado aí, com ensino médio, com faculdade. [Fazem isso] para dar cargo para amigos. Aí esculacham gari, suspendem, dá justa causa no gari. E sem o gari poder fazer nada porque é peixe do prefeito, do diretor, do superintendente.

Qualquer um faz trabalho de gari?

Nos relatos fica evidente o descaso com trabalhadores em sua maioria negros e que são provocados constantemente como trabalhadores dispensáveis, sofrem essas humilhações inclusive de seu sindicato burocrático, sempre propenso a fechar acordos com a prefeitura por fora das reivindicações da categoria.

A trabalhadora que nos forneceu o relato contou ter questionado o presidente do sindicato sobre condições de trabalho, concurso, e este teria respondido a ela: “ah minha filha ser gari qualquer um faz, é um trabalho braçal”. O sindicato, como fica evidente atua para que a categoria aceite esse preconceito contra os trabalhadores, mas a trabalhadora não deixa ponto sem nó na resposta ao que o diretor sindical disse:

“Qualquer um faz? Tem gente que não aguenta pegar uma vassoura, tem gente que pediu para sair, tem gente que não aguenta ficar no meio da rua, porque não aguenta o sol. Eles são assim, eles cagam pra nossa categoria. Eles querem que a gente dê um retorno para eles.”

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