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Relato | Dia da trabalhadora doméstica: uma mulher negra contra os abusos do sistema

“Não é e nunca será minha intenção romantizar essa minha experiência, mas as pessoas precisam entender que nós aqui do lado de fora dos muros altos dos condomínios temos sonhos. Nunca foi uma opção ser doméstica, mas sim uma necessidade”, diz Isaura Benevides.

Paulo CarvalhoBiólogo e professor de Ciências

quarta-feira 28 de abril | Edição do dia

“Meu nome é Isaura, tenho 39 anos ,sou empregada doméstica e, por ironia do destino, na data do meu aniversário se comemora o dia da empregada doméstica. Faço parte dessa profissão desde que me entendo, pois sou filha de empregada.
Minha mãe sempre me levou para as casas que ela trabalhava, para ajudá-la nos afazeres domésticos ou às vezes para servir de entretenimento para as filhas das patroas. Me ensinou muito cedo o lugar que eu deveria ocupar, eu sempre entendi que dentro dessas casas era um local de total submissão, e nunca seria visto ou colocado como área de trabalho, com horário de almoço e horário pra sair ,mas sempre horário pra entrar, sim uma perfeita CASA GRANDE, onde as regras e salários sempre foram colocados pelas patroas.
"Se te oferecerem algo pra comer, hipótese alguma você aceite"
"Fale somente se for solicitada"
"Se não estiver me ajudando, fique escondida"
Essas são algumas regrinhas que minha mãe ditava ,durante o caminho para o trabalho.
Cresci vendo e convivendo com isso, e assim minha mãe ajudou meu pai a sustentar seis filhos .
Aos meus 17 anos engravidei, diante disso fui morar com o pai dos meus filhos. Não concluí meus estudos, e como minha mãe foi trabalhar como empregada doméstica, o pai dos meus filhos se tornou um homem agressivo, me agredida verbalmente e fisicamente, fiquei presa nessa relação abusiva por alguns anos. Na primeira tentativa de fuga eu consegui, mas claro depois de passar duas horas apanhando de dois homens (ele me agrediu por duas horas com ajuda de outro homem) consegui fugir do local num momento de folga de pausa dos meus agressores.
Então fugi pra Goiânia com meus três filhos, e aqui estou há mais de dez anos. Aqui trabalho como DOMÉSTICA, e até então achei que já tinha visto e presenciado toda forma de abusos e preconceitos como empregada, quando eu era criança. Foi aqui que senti e vivi na pele tudo.
Depois de ter passado por várias casas, fui trabalhar para uma família de classe alta aqui em Goiânia, no meu primeiro dia de trabalho me mostraram o local que eu deveria almoçar, o banheiro que eu deveria usar (eu e todos funcionários que por ali passavam, eletricista, jardineiro, etc) meu prato, meu copo, tudo era separado.
Entre vários abusos e desvio de função, tinha as brincadeiras. Nessa mesma família diariamente brincavam comigo, cantarolando aquela música da novela
ESCRAVA ISAURA
Afinal eu Isaura, preta e pobre hahahaha muito engraçado!!

No início eu não me incomodava, nem as piadas, nem os abusos, minhas necessidades estavam acima disso tudo, eu tinha três filhos pra sustentar, e eu estava sozinha nessa cidade, quando eu me sentia frágil ou prestes a me deixar levar pelos ataques, eu dizia pra mim mesma que eu não tinha tempo e nem direito de me ofender com aquelas "brincadeiras".
Mas teve um dia, um dos meus filhos estava doente, minha vizinha se propôs ficar com ele pra que eu não faltasse ao trabalho.
Cheguei lá, e logo no café da manhã essa patroa "sinhazinha" chegou até a cozinha onde eu estava, ela veio cantarolando a musiquinha, eu olhei pra ela, e ela continuou cantarolando, eu estava tremendo de nervoso, tudo que estava em minhas mãos caiu no chão daquela cozinha, ela gritou desesperada, afinal as lindas xícaras estavam espatifadas no chão! Naquele momento eu saí correndo fui pra casa, claro, depois fui despedida!
Acharam um absurdo eu ser tão ignorante e sem modos, fora o prejuízo.
Na semana seguinte consegui outro emprego, mas esse não fiquei nem dois dias completos, lá eu deveria ser cuidadora de um idoso, mas nos meus sagrados vinte minutos de descanso (para ir ao banheiro, tomar um cafezinho rápido) o filho desse senhor me abordou na " Agora sim contratamos uma ajudante de respeito, sua presença nessa casa é maravilhosa".
Palavras ditas com ele me encoxando.
Eu não disse nada, empurrei ele, e fui embora dali, não voltei nem pra receber o dia de trabalhado.
Depois passei por outras casas, com mesmos abusos e discriminação, algumas casas me chamavam de serva em referência ao meu nome e minha cor. Mas eu sempre colocava minhas necessidades acima disso.
Fui cansando de bater de frente, de lutar por uma igualdade e reconhecimento que é quase ou impossível dentro dessa profissão.
Não fazemos parte da família, patroas dizem isso de forma egoísta, de forma persuasiva, para que a empregada enxergue alguns desvios de função como "favorzinhos"
e muitas das vezes aquele AGRADO (roupas, sapatos, usados, etc) seja visto como pagamento.
Toda essa situação atual que estamos enfrentando faz cair por terra toda prepotência, arrogância e preconceito que a maioria das patroas carregam.
Esse vírus nos mostrou de uma forma trágica e cruel, que nós empregada doméstica temos SIM que ter nossos copos, pratos e talheres e tudo que for de uso pessoal, separados, afinal nós não fomos nós que trouxemos esse vírus, segundo o nosso ministro Paulo Guedes, doméstica pobre, favelada não pode ir à Disney. De modo que não foram nossas mãos que trouxeram esse vírus.
Foram elas com suas roupas e bolsas caras que carregam com orgulho pra lá e pra cá dentro de aeroportos!!
Trágico mas foi assim que uma de nós morreu, sendo contaminada pela sua patroa, em uma atitude egoísta dessa patroa de não limpar a própria sujeira, não levando em consideração o ser humano que prestava serviço à ela. Talvez era considerada da família, talvez essa fala "ela é da família" fez ela permanecer ali para continuar servindo aqueles patrões, como forma de gratidão.
Essa desigualdade, essa falta de respeito, tudo isso poderia ser mudado, nosso Governo poderia olhar para nossa classe trabalhadora e ver seres humanos, poderia nos ver como iguais, mas infelizmente ele não foi capaz nem de ser à favor da PEC das empregadas domésticas, em uma de suas falas ignorantes e atitudes de sinhozinho egoísta e mimado, ele votou contra a PEC, aumentou os anos para aposentarmos, com isso mantendo a imagem escravagista que essa profissão carrega.
Quero deixar aqui meu muito obrigada à deputada Benedita da Silva, que luta por todas nós ali dentro desse sistema corrupto e ingrato, vejo e sinto esperança na senhora.
Quero deixar minha imensa gratidão para uma mulher chamada Maria que entre tantas patroas que nem merecem ser mencionadas aqui, ela me tratou com respeito e igualdade, me fez enxergar que sou capaz de ir além dos meus limites, um dia ela me disse "se você pode sonhar, pode realizar" referindo ao meu sonho de fazer faculdade.
Mais tarde eu descobri que é uma fala do Walt Disney (chupa, Guedes!)
Em 2022 vou entrar para faculdade, farei Psicologia.

FELIZ DIA DA EMPREGADA DOMÉSTICA!”

Por Isaura Benevides


Nota Editorial Esquerda Diário:

Reproduzimos aqui integralmente o relato de Isaura, 40 anos, para o dia da empregada doméstica “comemorado” no dia 27 de abril, mesmo dia de seu aniversário. Dessa forma, esse texto não expressa integralmente a linha editorial desse diário. No entanto, o Esquerda Diário se coloca à disposição para dar voz aos trabalhadores contra este sistema e para veicular denúncias contra quaisquer tipos de abusos de patrões e governos. Estamos sempre abertos para espalhar os gritos de resistência diários daqueles que mais precisam. Estamos com vocês!

O texto foi escrito em 2020 como um desabafo em suas redes sociais, mas ela não teve coragem de publicar. Agora, de volta ao trabalho após estar afastada para se recuperar da COVID, Isaura oferece ao Esquerda Diário um forte depoimento que exemplifica a realidade de milhares de trabalhadoras domésticas por todo o Brasil. Fruto do racismo estrutural e estruturante na nossa sociedade, Isaura e muitas outras são tratadas como subumanas, renegadas ao quartinho dos fundos, ao talher de menor qualidade separado, ao desprezo.

Bolsonaro, Mourão, os militares e todos os golpistas desse regime podre, que incluem o judiciário e o Congresso Nacional, estão todos juntos para impor reformas ultraneoliberais e precarizar o trabalho sobretudo das mulheres negras. Nesse sentido, só a classe trabalhadora pode colocar abaixo esse regime racista e podre, sem confiar em nenhuma das instituições golpistas, muito menos administrá-lo com as reformas intactas como quer o PT ao esperar 2022 e se aliar à direita golpista. Este sistema não será superado sozinho, nem pode se reformar o suficiente para que garanta dignidade a todos os trabalhadores no Brasil e no mundo, especialmente os mais precarizados, os negros e negras, indígenas, LGBTIs, homens e mulheres trabalhadores. Pois então: que sejam os capitalistas que paguem pela crise! Fora Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas!

ESQUERDA DIÁRIO INDICA: Dia das Trabalhadoras Domésticas: um batalhão de mulheres negras da nossa classe

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