COLUNA

Romeu Zema: morde, assopra e a fidelidade com Bolsonaro, dividindo a responsabilidade pelas mortes

Douglas Silva

Estudante de Ciências Sociais da UFJF

sexta-feira 16 de abril| Edição do dia

Zema, sem sombra de dúvidas, parece ser o governador mais alinhado a Bolsonaro. Depois de surfar na onda bolsonarista nas eleições de 2018, assim como [bolso]Doria, o qual hoje se lançou à oposição oportunista, o governador de Minas Gerais continua se negando a criticar a condução da pandemia pelo governo federal e, todavia, a sua própria condução, a qual levou o estado, somente no início do mês, a bater novo recorde de mortes, chegando a 500 óbitos em um dia. Além do mais, o estado se encontra atrás de inúmeros outros quando se compara a vacinação da população, o que levou vários analistas a estipularem que, no ritmo do governo estadual, MG levaria mais de 5 anos para vacinar toda a população.

Na última entrevista para Folha de São Paulo, Zema criticou a falta de centralização do combate à pandemia pelo governo federal. Entretanto, para o empresário, o Planalto parece estar ocupado por alguma entidade que não pode ser classificada nem nomeada, pois para buscar um dedo de distância da catastrófica condução da crise sanitária por Bolsonaro, Zema prefere utilizar da artimanha de não nomear culpados, mas apenas encobrir a própria responsabilidade e a de sua catapulta eleitoral. Pois enquanto o governador faz demagogia com a “onda roxa”, só na grande BH 62% dos internados são garis e faxineiras que seguiram trabalhado ao longo de toda a pandemia.

Desta forma, a condução de Zema na crise não se distancia daquela promovida pelo governo federal, pois somente em Minas Gerais chegamos a 5.180 contaminações e 386 óbitos no último domingo, e somado a todo o período da pandemia chegamos a mais de 28 mil vidas ceifadas pela condução da crise sanitária pelo governo estadual.

Mas, agora, o governador do NOVO parece poder visualizar uma possível nova crise no horizonte mineiro, pois depois de ver a queda do ex-dirigente da pasta da saúde, Carlos Eduardo Amaral, no início de março, por conta do escândalo envolvendo os fura-filas da vacinação, enquanto a maioria da população nem recebeu sua primeira dose, Zema se viu no dia de ontem (15), mais uma vez, envolto em mais um caso de fura-filas. Entre os vacinados, estaria o próprio secretário de Saúde, Fábio Baccheretti. A “segunda onda” de fura-filas no estado chega no momento em que nem sequer a vacinação dos idosos com até 64 anos foi concluída.

Quando traçamos as aproximações de Zema com Bolsonaro, na verdade, estamos tratando do fato de que a responsabilidade do presidente na catastrófica condução da crise sanitária no Brasil não se faz de forma única e exclusiva pelo Planalto, mas é parte do modus operandi dos inúmeros atores do regime político brasileiro, entre eles presidente, governadores e prefeitos. Afinal, enquanto Bolsonaro dizia que o coronavírus era uma “gripezinha”, Zema dizia que era preciso deixar o vírus “viajar”. De fato, a pandemia viajou por Minas e até agora continua elevando os números de infectados e mortos ao passo que, depois do início do processo de imunização no estado no fim de janeiro, mal chegamos as 900.000 pessoas vacinadas com a segunda dose, o que leva o governo estadual a amargar em 20,1% do grupo prioritário definido pelo Ministério da Saúde.

Agora, enquanto Bolsonaro começa a enfrentar a formação de uma CPI no Senado, imposta pelo bonapartismo judicial, a mesma que se estende para governos estaduais e municipais, Zema, como demonstrou na entrevista para a Folha, mantém sua posição de quem defende Bolsonaro como um “perseguido”, mas uma defesa que começa a se colocar de forma mais cautelosa, buscando se guardar frente a sua condução da crise em MG. Tal movimento de “morde e assopra” do governador se expressa principalmente nas cartas escritas pelos governadores criticando Bolsonaro, pois ele mesmo faz questão de lembrar como assinou algumas e deixou de assinar outras.

Nessa semana, além dos novos casos dos fura-filas, Zema também parece ter que se enfrentar com questionamentos vindos de vários municípios do Estado sobre a falta de repasse de verbas para a saúde mesmo que – de acordo com dados no Portal da Transparência – exista uma diferença de quase R$ 10 bilhões entre receita e despesa em 2021. A falta de repasse de verbas para a saúde nos municípios não se faz por fora do projeto político defendido por Zema desde o início de seu governo. Como representante do empresariado, o governador é parte daqueles responsáveis pelo sucateamento da saúde pública, o que levou o governo estadual a ocupar o segundo lugar (no ano passado) como o estado que menos investiu em saúde durante a pandemia, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro.

A condução da crise sanitária feita por Zema segue em consonância com a mesma promovida por Bolsonaro, similaridades que conectam como o combate a pandemia não é tarefa que se possa esperar do presidente, governadores ou prefeitos. Pois a crise que se instalou hoje no país, chegando a bater todos os dias novos recordes de mortes, é parte inseparável de todo o processo que nos arrastou até aqui, a saber, toda a crise política e abertura para figuras como Bolsonaro que tiveram o caminho livre inclusive por aqueles que nos últimos tempos buscam se localizar na oposição ao governo ou que tentam, com demagogia, traçar uma linha de distanciamento da condução da pandemia como sendo puro e simplesmente uma falta de centralização do combate pelo governo federal, como busca fazer crer o governador mineiro. Talvez seja o momento de se perguntar de norte a sul do país se a centralização do combate à pandemia não deveria estar nas mãos da classe trabalhadora e não de governos que já se demonstraram representantes fieis dos capitalistas e, agora, do próprio vírus.




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