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REABERTURA DAS ESCOLAS | Para viabilizar retorno inseguro às aulas, Doria manipula dados de contaminação em escolas

Todos os setores da sociedade estão sofrendo os impactos provocados pelo negacionismo genocida de políticos e empresários. A Educação é um desses setores que desde o início colhe os frutos nefastos de uma política direcionada aos interesses econômicos. E agora, no pior momento da pandemia no estado de São Paulo e no país, Doria manipula dados de contaminação em escolas para viabilizar retorno inseguro às aulas.

segunda-feira 5 de abril | Edição do dia

O descalabro da gestão da pandemia pelos governos no Brasil é bastante óbvio e todos os dias nos deparamos com tristes estatísticas, que entretanto poderiam ser evitadas. Todos os setores da sociedade estão sofrendo os impactos provocados pelo negacionismo genocida de políticos e empresários. A Educação é um desses setores que desde o início colhe os frutos nefastos de uma política direcionada aos interesses econômicos de um nicho altamente lucrativo – a rede privada de ensino.

Em 2020, em São Paulo, ao longo de parte do ano letivo a escola ficou fechada e os profissionais da educação se reinventaram, sem o auxílio material do governo Estadual ou Municipal, para dar conta do ensino à distância, aprender novas formas tecnológicas para ministrar suas aulas e manter em dia o trabalho escolar burocrático e pedagógicos, além de orientar seus estudantes e familiares no acompanhamento dos conteúdos e atividades. Assim como a própria comunidade escolar nunca teve o problema de exclusão digital e falta de acesso à educação no formato remoto, resolvido por estes governos, que ignoraram as precárias condições de vida dos estudantes da rede pública.

Com o passar dos meses em que as escolas permaneceram fechadas, as pressões das entidades privadas aumentaram significativamente, mesmo com os cortes de gastos quando demitiram em massa professores e professoras, quando ampliaram a jornada de trabalho com o ensino remoto sem a garantia de hora extra ou qualquer outro benefício material para auxiliar o professorado com a nova rotina estabelecida. O Movimento Escolas Abertas foi um exemplo claro da pressão que a educação privada impôs para a reabertura das escolas.

No segundo semestre de 2020, a retomada insegura das escolas públicas e privadas foi decretada e o ensino híbrido estabelecido, já que os governos não garantiram a segurança sanitária necessária para a retomada de todos os estudantes e profissionais da educação. Isso poderia ser feito através de testagem em massa de forma periódica, EPIs para todos, aumento do quadro de limpeza e apoio nas escolas – com garantia e ampliação dos direitos trabalhistas dessas mulheres que assumiram a linha de frente e sem condições sanitárias são parte do índice de adoecimento pela pandemia com a reabertura insegura, além da construção com a comunidade escolar de um protocolo sanitário efetivo, vacinação para todos, e tudo isso sendo controlado por comissões formadas pela comunidade escolar ao lado de trabalhadores da saúde. Na ausência destas questões mínimas, foram organizados rodízios e aulas presenciais para uma quantidade controlada de alunos de acordo com a fase do Plano São Plano.

Apesar das falas falaciosas tanto do Governador João Dória (PSDB) quanto do prefeito Bruno Covas (PSDB) de São Paulo, os casos de contaminação e óbitos de profissionais da educação, alunos e seus familiares quando tiveram que circular na cidade para se locomover até as unidades educacionais e se arriscaram num ambiente em que não havia controle algum de combate à contaminação pelo novo Coronavírus aumentaram consideravelmente. Os casos de subnotificação das contaminações nas escolas é um descaso com a vida da comunidade escolar.

Recentemente, o Secretário da Educação do Estado de SP Rossieli Soares, apresentou um boletim de casos de Covid-19 notificados na comunidade escolar no período em que as escolas estiveram abertas entre janeiro e março de 2021. Segundo o estudo apresentado não houve disseminação generalizada do Coronavírus nas unidades escolares.

Segundo o Governo do Estado de SP, a taxa de incidência de contaminação na Educação foi 33 vezes menor do que a registrada no Estado de São Paulo devido aos cumprimentos dos protocolos de segurança sanitária pelas escolas, profissionais da educação, estudantes e seus familiares, ou seja, a transmissão entres aqueles que frequentaram presencialmente a escola é inferior à contaminação comunitária. Essa conclusão foi usada como argumento por Rossieli Soares ao afirmar categoricamente que a escola é um ambiente seguro e que as pessoas não se infectam no ambiente escolar, mas sim nas suas casas.

Entretanto Wanderson de Oliveira, Integrante da Comissão Médica da Educação, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, não apresento total confiança e clareza no estudo, ele afirmou: “Não tenho dúvida de que (a incidência na escola) é muito menor (do que na população em geral), eu não tenho certeza absoluta do quão menor é. Da mesma maneira, eu não tenho certeza de quanto é na comunidade. Segundo a literatura, para cada caso que eu sei, tem 10 a 12 que eu não sei.”

Essa imprecisão na análise dos dados é causada pela forma como ele foi realizado o cálculo, e não nos enganemos, foi intencional, parte da política de subnotificação orientada pelo governo do PSDB, como vieram denunciando até aqui trabalhadores da educação e familiares dos estudantes. Levaram em consideração o total de alunos matriculados no Estado 9,96 milhões dividido pelo número de casos entre os profissionais e alunos 4,084 mil. O problema é que o número de alunos foi muito reduzido, pois as escolas poderiam atender apenas 35% dos estudantes, muitas atenderam um número muito menor do que o estabelecido pelo Plano SP porque o retorno era opcional; ou seja, 1,1 milhão de alunos não foram presencialmente para a escola, mas foram incluídos no boletim epidemiológico.

Outro fator extremamente subnotificado são os casos de contaminação entre professores e funcionários que não foram considerados no cálculo referente à população na escola, mas sim nos casos registrados de Covid-19 na cidade de SP, essa é mais uma evidência que deixa clara a manipulação dos dados e o discurso mentiroso de que os alunos e profissionais da educação não são contaminados nas escolas.

Em contraposição aos dados do boletim epidemiológico divulgado, o SINPEEM, Sindicato do Profissionais em Educação no Município de São Paulo, atualizou em seu site um balanço de casos de contaminação informados por seus filiados nas unidades escolares que trabalham. Todos os dias havia a inclusão de novos casos nas escolas. Esses registros contradizem o dado do boletim que indica que apenas 35% das escolas municipais notificaram casos de Covids-19.

Fora o fator, de que em Greve desde 10/02, muitas das educadoras dessa rede não voltaram às aulas quando Covas e Padula reabriram as escolas, o que faz também com que o número de contatos possíveis no retorno tenha sido imensamente minimizado pela decisão da categoria de não aceitar retornar às escolas sem segurança sanitária, em defesa das vidas de toda a comunidade escolar.

Segundo a APEOESP, maior sindicato de Professores da América Latina, os casos de contaminação por Covid-19 em pessoas que trabalharam presencialmente nas escolas estaduais entre janeiro e março foi de 2,339 caos em 1,070 escolas com 59 óbitos. Se no boletim epidemiológico os profissionais da educação e os funcionários atingidos pela Covid-19 e que perderam suas vidas fosse registrado corretamente, certamente o resultado seria outro, demonstraria a total falta de condições estruturais que as escolas estaduais apresentam e, consequentemente o retorno das aulas não seria propagandeado por Dória e Rossieli sem questionamentos de parcelas mais amplas da sociedade, que saberia a real condição das escolas públicas.

O que todos presenciamos com relação a insistência da reabertura insegura das escolas pelas autoridades é um absoluto descaso com a vida das comunidades escolares, é a confirmação que se faz o que é necessário para encobrir da população a real situação das escolas, chega ao ponto de manipular e distorcer os dados do boletim epidemiológico realizado por um comitê médico criado pelo Estado subnotificando os casos de contaminação de óbitos e contaminação pelo novo Coronavírus. É uma absurdo que se coloque nas costas da população a culpa pelo avanço e recrudescimento da doença sendo que é o Estado que não dá o direito à quarentena ao trabalhador ou qualquer auxílio digno que ele possa contar para garantir a sua sobrevivência e de sua família.

É imprescindível que a comunidade escolar junto com os trabalhadores da saúde sejam os protagonistas para resolver quando e como é seguro retornar presencialmente para as salas de aula. Para indicar se as unidades estão aptas ou não para atender todos os protocolos de segurança sanitária e assim preservar a vida de todos que nela circularão. Não são discursos mentirosos e boletins epidemiológicos manipulados que devem decidir o retorno das aulas, muito menos a ganância insana pelo acúmulo dos lucros dos empresários da educação privada! A vida da classe trabalhadora e da comunidade escolar está acima dos lucros capitalistas!

Exatamente por isso, exemplos como a greve das educadoras da cidade de São Paulo são extremamente importantes e vitrines de lutas que podem se dar em todos os estados do país, da comunidade escolar cruzando os braços em defesa da vida. Por isso é inaceitável que as entidades sindicais e as Centrais, como a CUT e a CTB, não coloquem toda sua estrutura para dar condições para que essa luta triunfe, abrindo um profundo debate sobre o que realmente é necessário para reabertura das escolas serem viáveis, construindo uma solidariedade nacional às educadoras, inclusive em outras categorias que dirigem. Além da garantia de um fundo de Greve, que até agora não fizeram o SINPEEM e qualquer uma das entidades que compõem o Fórum que “dirige” esse conflito sem qualquer democracia de base e escuta dos trabalhadores.

Leia a declaração do Movimento Nossa Classe Educação: Nenhuma mãe sem sustento por lutar! Contra o corte de salário de Covas e Padula.

Por isso chamamos todas e todos trabalhadores da educação, assim como as organizações que defendem uma política de auto-organização e independência de classe, a construírem um forte polo anti-burocrático, que possa, com a mais genuína democracia de base, fazer essa luta triunfar, arrancando das mãos das burocracias toda estrutura necessária para que essa luta triunfe e seja exemplo aos trabalhadores de todo o país contra os irresponsáveis governos que nos empurram para uma normalização das mortes e contaminações como se nossas vidas não valesse nada.

Veja mais: Apesar da direção do SINPEEM educadores criam fundos contra o corte de ponto de Covas.




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