Opinião

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Pandemia, desigualdade e neoliberalismo

sexta-feira 29 de janeiro| Edição do dia

A publicação dos relatórios da Oxfam sobre a desigualdade já são uma data do calendário econômico mundial tão tradicional quanto a reunião do Fórum Econômico Mundial, com a qual a publicação coincide: uma espécie de “Congresso da Internacional” do capital financeiro, geralmente sediada em Davos, Suíça, mas que, este ano, ocorre virtualmente devido à pandemia da Covid-19, que já dura mais de um ano e, apesar do início da vacinação em muitos países, ainda está longe de terminar.

Em 2017, a confederação internacional de ONGs tornou-se famosa ao denunciar que o patrimônio dos oito homens mais ricos do planeta tinha se igualado ao da metade mais pobre do planeta, isto é, de 3,5 bilhões de pessoas. Desde então, a desigualdade continuou a aumentar e, em 2020, este aumento tornou-se ainda mais drástico, contrariando toda as alegações demagógicas de que o vírus afeta a todos igualmente e, por isto, “estamos todos no mesmo barco”. Nunca houve um aumento tão sincronizado da desigualdade entre os vários países do mundo desde que indicadores sociais começaram a ser estimados, há mais de um século atrás.

Entre 18 de março e 31 de dezembro, os bilionários acrescentaram US$ 3,9 trilhões às suas fortunas, que já chega a US$ 11,95 trilhões, ou o valor de todos os gastos dos governos do G20 relacionados à pandemia, entre aquisição de material médico-sanitário e transferências de renda para as famílias, em menor medida, e, em muito maior, para salvar o capital financeiro dos efeitos danosos do vírus sobre sua rentabilidade. O relatório afirma ainda que a pandemia provocou a pior crise de emprego em 90 anos. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), meio bilhão de pessoas vive na miséria e passa fome por estarem, hoje, desempregadas ou subempregadas. Este impacto foi maior entre as mulheres do que entre os homens. Só na América Latina, estima-se que 40 milhões de pessoas perderam seus empregos e 52 milhões tornaram-se pobres. Em 2030, até 501 milhões de pessoas podem estar abaixo da linha da pobreza em todo o mundo.

Em contrapartida, os mais ricos já recuperaram suas perdas. Em números-índice, a riqueza destes, que era de 100 em fevereiro e caiu para 70,3 em março, atingiu novamente os 100 em fevereiro de 2020, sendo que, para re-estabelecer o patamar de riqueza que tinham antes da crise de 2008, estes mesmos super-ricos precisaram de cinco anos! Neste mesmo período de 2020, os 10 homens mais ricos do mundo lucraram US$ 540 bilhões, o que, segundo a Oxfam, seria suficiente para custear a vacina para toda a população mundial e ainda conter o aumento da pobreza. Os mais pobres, por sua vez, precisarão de 14 vezes esse tempo para recuperarem a riqueza que perderam durante a pandemia, ou nada menos que uma década!

É evidente, por um lado, que as restrições à atividade econômica solaparam ainda mais o “regime” econômico mundial, que já começava a se modificar a partir da eleição de Trump, da guerra comercial e das tendências, mais em geral, ao nacionalismo econômico que se fortaleceram desde então, apesar de que promessas de retorno das indústrias para os países centrais e são extremamente difíceis de serem cumpridas e, entre estas dificuldades, talvez a maior seja que impor aos trabalhadores de tais países padrões chineses de remuneração é condição sine qua non. Mas, por outro lado, o que os sucessivos relatórios da Oxfam descrevem são características definidoras da globalização neoliberal que, entretanto, dificilmente serão superadas até que o próprio capitalismo o seja.

A liberalização comercial e financeira, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação, informática, etc., e a restauração do capitalismo nos Estados operários da Europa oriental e na China possibilitaram ao capital recuperar parcialmente a lucratividade que tinha perdido nos anos 1970 e fins dos 1960 transferindo a produção para onde quer que os baixos salários compensassem a distância do mercado consumidor. Esta nova forma de organização internacional da produção, porém, emprega menos e paga menos, o que implicou um aumento da concentração de renda e um divórcio, inédito na história do capitalismo, entre as taxas de lucro e de acumulação: uma fração cada vez maior dos lucros é aplicado especulativamente ao invés de ser reinvestida em ampliação da capacidade produtiva, já que as perspectivas de retornos sobre tal investimento são cada vez mais modestas em comparação com o rendimento das aplicações financeiras. O próprio consumo popular torna-se financeirizado, isto é, condicionado ao endividamento das famílias. O capital moldou o mundo à sua imagem, ainda mais do que quando Marx e Engels o afirmara, no Manifesto Comunista.

Ironicamente, esse capitalismo “mundializado” e financeirizado é raquítico e propenso a choques financeiros recorrentes, e os apelos a alguma forma de re-edição do capitalismo “fordista” do pós-Segunda Guerra Mundial, cujo crescimento seja impulsionado pela ampliação do consumo dos assalariados, têm sido igualmente recorrentes desde a Grande Recessão, que não foi só mais uma entre essas crises financeiras, mas o resultado do esgotamento da globalização neoliberal. Mas o que é omitido por estes apelos utópicos é o caráter absolutamente excepcional do “boom” do pós-guerra, que não só é indissociável da própria guerra como também da colaboração indispensável do stalinismo para impedir a ocorrência de processos revolucionários na Europa ocidental. Além de crerem que o capitalismo senil pode reproduzir aquele comportamento excepcional na ausência de convulsões e catástrofes tão dramáticas quanto as do século passado, os keynesianos parecem não saber explicar por que os “Trinta Anos Gloriosos” chegaram ao fim, a não ser repetindo a máxima minskiana: “a estabilidade gera instabilidade”.




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