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Coluna | Os impactos da guerra da Ucrânia na economia do Brasil

A reacionária guerra na Ucrânia já está em sua terceira semana. Para além da tragédia humanitária que aflige os trabalhadores ucranianos, esta guerra ocorre no momento em que a economia mundial ainda tenta se recuperar do dano causado pela Covid-19.

terça-feira 15 de março | Edição do dia

Atualmente está em curso um processo inflacionário global. Nos Estados Unidos, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 7,9% em fevereiro, a maior em 40 anos. Na Zona do Euro, o mesmo índice chegou a 5,1% em janeiro. É praticamente um consenso entre economistas e os meios de comunicação de que a guerra na Ucrânia irá aprofundar este processo.

Isto já pode ser sentido no Brasil, no reajuste do preço dos combustíveis anunciado na última quinta-feira, que deverá levar a gasolina para mais de R$ 8 em diversos estados. As sanções sobre a Rússia, incluindo a proibição americana de importar petróleo e gás natural, tem levado ao aumento do preço do petróleo, dado que a Rússia é um dos principais produtores globais, e a principal fornecedora energética da Europa. Segundo analistas do banco Goldman Sachs, o preço do barril de petróleo pode chegar, em seu pico, a 135 dólares. Hoje, o preço do barril está em cerca de 112 dólares, contra um preço médio de 74 dólares em dezembro do último ano.

O uso do petróleo e a necessidade de combustíveis para o transporte de outros bens fazem com que o aumento nos seus preços tenda a gerar aumento nos preços dos outros produtos, o que deverá pressionar ainda mais a inflação no Brasil, que em fevereiro chegou a uma alta de 10,54% no acumulado de 12 meses. Ao contrário do que o governo federal e o mercado diziam, a inflação brasileira está acelerando no início de 2022, e não retrocedendo. As previsões do mercado para o IPCA no fim do ano tem sido constantemente revisadas para cima.

A inflação para o mês de fevereiro não leva em conta ainda o mega-aumento no preço dos combustíveis anunciado pela Petrobras, sendo que a gasolina é o item com o maior peso no cálculo do IPCA, e os combustíveis já haviam sido responsáveis pelo avanço da inflação em 2021. A Associação Nacional das Empresas de Transporte Público (NTU) já usa este novo reajuste da Petrobras para defender o aumento do preço das passagens pelo país, o que iria impactar ainda mais a queda da renda dos trabalhadores brasileiros.

Outro fator a impactar os preços globalmente serão as commodities agrícolas. Rússia e Ucrânia são importantes exportadores de produtos como o trigo, e suas produções serão, em grande medida, retiradas do mercado global, seja pela diminuição da produção, seja pelas sanções, seja pela decisão de priorizar o abastecimento dos mercados internos, seja pelo bloqueio dos portos do sul da Ucrânia, no Mar Negro e no Mar de Azov. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos prevê que as exportações de trigo de Rússia e Ucrânia irão diminuir em cerca de 12%, ou 7 milhões de toneladas, em relação às previsões iniciais. Segundo a FAO, o preço global dos alimentos poderia subir entre 8% e 22%, e a África, Ásia e Oriente Médio seriam as regiões mais atingidas.

No Brasil, a estiagem de 2021 levou à quebra da safra de diversos grãos, como a soja, carro chefe das exportações brasileiras e o arroz. O aumento dos preços internacionais das commodities pressiona também os preços internos a subirem, como já ocorreu em 2020. Em fevereiro, o preço médio da soja era 19,5% maior que o de dezembro. A agricultura brasileira é bastante dependente dos fertilizantes russos, e a disrupção deste mercado pode diminuir a produção brasileira, nesta safra e na próxima.

Outro fator a influenciar a inflação no Brasil é o preço do dólar. 2022 tem sido, até agora, um ano onde de valorização do real, após a taxa de câmbio fechar 2021 em R$ 5,57 por dólar, e o real tem se valorizado inclusive após o início da guerra na Ucrânia. O aumento do preço das commodities pode aumentar o valor total das exportações brasileiras, o que fortalece a moeda nacional. Outro fator que contribui para esse fortalecimento é o brutal aumento da taxa básica de juros, a Selic, pelo Banco Central. O fortalecimento do real, no entanto, pode ser revertido conforme o avanço da instabilidade política e econômica global, que tende a levar os fluxos de capitais rumo à opções de investimentos consideradas seguras, como os títulos da dívida dos Estados Unidos, e com o ciclo de aumento das taxas de juros americana e europeia, que também gera uma tendência à saída de capitais do Brasil.

A inflação alta no Brasil e o aumento das taxas de juros no exterior irão contribuir para a ampliação do ciclo de alta da Selic, tanto em sua duração quanto em sua intensidade, ou seja, a taxa de juros deve subir mais e se manter alta por mais tempo. Isto leva a um maior custo da dívida pública para o governo federal, e a maiores cortes de gastos em outras áreas, especialmente nos gastos sociais.

Um ponto importante a ser ressaltado é que, ainda que o Banco Central use a alta da inflação para justificar a subida dos juros, o principal fator para esta subida são os lucros que isso irá gerar ao mercado financeiro. O mecanismo pelo qual o aumento dos juros levaria a uma diminuição da inflação é a contração da demanda, com a diminuição de investimentos por parte das empresas e de consumo por parte das famílias. No entanto, a inflação do Brasil hoje não é puxada por um aumento da demanda, dado que a economia ficou praticamente estagnada no último ano, onde o país chegou a entrar em recessão técnica. O aumento de 4,6% do PIB é explicado muito mais pela base de cálculo menor, gerada pela recessão de 2020, do que por um reaquecimento da economia brasileira. Para 2022, as previsões são de estagnação, com o último boletim Focus prevendo aumento de 0,42% do PIB.

A atual inflação brasileira pode ser explicada por alguns fatores. O primeiro é a desvalorização do real, que aumenta os custos de produtos importados e torna mais lucrativa a exportação e menos interessante o mercado interno. Outro fator fundamental, talvez o mais importante, é o aumento dos preços administrados, como o da eletricidade, mas especialmente o dos combustíveis. A política de preços da Petrobras, ao buscar seguir os preços internacionais, gerou o maior lucro da história para seus acionistas, muitos dos quais estrangeiros, ao custo do aumento do preço da gasolina, diesel, etanol e gás de cozinha. O aumento do dólar, ao tornar os combustíveis mais caros em reais, contribui fortemente para o aumento dos preços domésticos.

O atual ciclo de alta da Selic iniciou-se em março de 2021, quando esta era de 2%. A previsão é que, na reunião do Copom deste mês, a Selic chegue a 11,75%. No mesmo período, o IPCA acumulado em 12 meses passou de 6,1% para 10,54%. Ainda que exista um gap temporal entre a mudança na política monetária e o seu efeito na inflação, o efeito dos aumentos nos juros tem sido extremamente baixo na variação da inflação e, segundo as previsões para o IPCA de 2022, seguirá sendo. No entanto, a resposta do Banco Central é aumentar ainda mais os juros, incentivado pelos economistas da Faria Lima.

Como dito anteriormente, esse aumento dos juros terá um impacto nos gastos do governo federal. Segundo a Folha de São Paulo, uma Selic média de 12% em 2022 fará o governo federal gastar R$ 900 bilhões a mais do que em 2021 com os pagamentos da dívida pública. Para que isso possa ser pago, o governo federal irá buscar fazer sangrar ainda mais os servidores públicos, as universidades federais, o SUS etc. Em ano eleitoral, as tentativas de Bolsonaro de fazer concessões para buscar ampliar sua popularidade, irão aumentar seus atritos com o mercado, como já vem ocorrendo, e irão aumentar também as pressões sobre executivo e legislativo para que se ampliem os ataques, como o PL 191/2020, apelidado de “x-tudo”.

Pode-se resumir o impacto da guerra na Ucrânia sobre a economia brasileira, então, em dois eixos, profundamente interligados. O primeiro é o aumento da inflação, com aumento dos preços do petróleo e das commodities. O segundo é o impacto sobre a dívida pública e a política fiscal do governo federal, que deverá intensificar os cortes de gastos. Ainda é incerto qual será o impacto sobre o PIB e a débil recuperação pós-pandemia. Neste ponto primam fatores que devem levar a uma desaceleração econômica, como a alta de juros e o corte de gastos, a manutenção da disrupção dos fluxos globais de comércio e das cadeias de suprimentos. Mas o aumento do preço das commodities, que compõem parte importante das exportações brasileiras e que tem sido o motor do mínimo crescimento que se viu nos últimos anos, atua como um fator que pode levar a algum incremento do PIB, mas que não mudaria o panorama geral de queda das condições de vida dos trabalhadores no Brasil.




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