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ANÁLISE | O que a reunião da CIA com Bolsonaro revela sobre a crise política?

Desde que surgiram as denúncias de corrupção dentro do Ministério da Saúde a crise política no Brasil ganhou novos contornos. Nesse artigo iremos analisar alguns deles.

Danilo ParisProfessor de sociologia

segunda-feira 5 de julho | Edição do dia

Como analisamos nesse artigo, a conflagração dos escândalos, e abertura de conflitos maiores no interior do regime político tem, entre outras razões, uma correspondência com a política do Partido Democrata norte-americano, que atuou no último período para “destrumpizar” o governo Bolsonaro. Essa linha de "pressão extrema" do imperialismo, teve seu ponto alto na denúncia dos irmãos Miranda. Foi um tiro de calibre grosso, direcionado ao Centrão, mas também para os militares e ao próprio Bolsonaro que o imperialismo americano não permitirá qualquer "jogo próprio" em relação às vacinas, em função do desalinhamento expresso em 2020, quando suas vacinas ficaram para o fim da fila. Vale notar que os militares nunca estiveram tanto em evidência, e há um claro giro da mídia para enfatizar isso. Coronéis é a palavra mais ouvida na CPI e o MPF abriu inquérito contra Pazuello. Contra coronéis, vale destacar, e não generais, com exceção de Pazuello que é um general três estrelas, e está muito comprometido com a crise sanitária.

O recado dado pela CIA

Como toda crise com mais intensidade tem o seu grau de dinâmica caótica é muito importante hierarquizar os acontecimentos para não nos perdemos na turbulência. Por isso, é importante buscar as determinações principais, para depois avaliar seus efeitos, diretos e colaterais.

O principal fato da última semana foi o encontro do chefe da CIA, William Burns, com a cúpula do governo Bolsonaro. A princípio, foi anunciado que seria com o general Ramos (Casa Civil) e Augusto Heleno (GSI). Depois, sabe-se que além deles participaram o próprio Bolsonaro e Alexandre Ramagem (ABIN). O encontro constava na agenda oficial do GSI, mas não de Bolsonaro, que depois assumiu ter participado. A agência de inteligência ianque não necessitaria agendar um encontro com o governo, caso fosse seu interesse mantê-lo oculto. Seu modus operandi poderia ser através de métodos secretos, e por isso, torná-lo público tinha objetivos evidentemente políticos. Bolsonaro reconheceu que esteve na reunião, uma indicação de que saíram com algum tipo de acordo, e tanto ele como o imperialismo quiseram sinalizar isso para todos, dos governistas aos oposicionistas, ao anunciar a reunião publicamente. Logo após a reunião, já na live da última quinta (1º), Bolsonaro atacou a "vacina da China", usada por São Paulo. Uma declaração para agradar o imperialismo dos EUA e indicativo de que o acordo pode pode se dar em função da “extrema pressão” para garantir os interesses dos EUA contra a China (o que ideologicamente pode servir para Bolsonaro inclusive), o que só reforça todos os problemas da ilusão de que Biden pode ser um aliado na “luta contra Bolsonaro”, farsa que parte importante da esquerda nacional embarcou.

Esse fato confirma algumas hipóteses do que viemos analisando. A linha do imperialismo é buscar disciplinar Bolsonaro, minando as principais figuras trumpistas no interior do governo (Weintraub, Ernesto Araújo e Salles), ao mesmo tempo que emite um “recado” para os pilares de sustentação do governo, como os setores do Centrão, os militares, e também de pastores evangélicos. Como sabemos, a preocupação estratégica fundamental do imperialismo e do Partido Democrata é a China. Bolsonaro "destrumpizado", e com sua disposição "anti-China" é um posto avançado na América Latina que interessa, e muito, do ponto de vista da geopolítica internacional. Sobretudo no Cone Sul, atravessado pelo fenômeno de luta de classes, o imperialismo ianque viu a derrota de importantes aliados como eram o Chile, o Peru e a Colômbia. Para o PD, além da "diplomacia das vacinas" (fator de hegemonia chave no mundo da pandemia), a corrida pelo 5G, a política de grãos, e ser um sócio privilegiado na localização para as privatizações, são grandes interesses que estão em jogo.

Esse caminho não será sem contradição, uma vez que o agronegócio - outro pilar de sustentação de Bolsonaro - tem relações materiais de dependência com a China. Não à toa, Todd Chapman, embaixador norte americano, esteve com grandes grandes sojeiros, quase por todos os estados do país, para tentar buscar pontes para não abandonar esse setor para influência chinesa.

O chefão da CIA também visitou outros países, como a Colômbia, epicentro de fortes manifestações e até mesmo com a Venezuela que até então sofria hostilidades de diferentes figuras do estado norte-americano. O encontro entre Bolsonaro e Burns, não significa que ele tenha se tornado o preferido do partido do atual presidente norte americano, assim como Maduro, nunca foi. Seus representantes legítimos estão na direita neoliberal que agora se diz opositora a Bolsonaro, a chamada “terceira via”. Não foi uma casualidade que Eduardo Leite (PSDB) tenha se declarado gay, para tentar cavar algum espaço "liberal-progressista". A operação de marketing do governador, que declarou voto em Bolsonaro nas presidenciais, contou com o suporte da rede Globo e de Pedro Bial, vendo na atual crise uma esperança de enfim emplacar algum nome que melhor lhe convenha. E seguem ensaiando outras possibilidades, como Datena, Santos Cruz, Sérgio Moro, Ciro e outros, que também podem se candidatar em chapas em comum.

As atuações de setores da oposição de direita na crise política

Aos representantes da terceira via, em particular do PSDB e PSD, não interessa a queda no curto de Bolsonaro, o que parece também se conectar com essa linha do imperialismo norte americano de não estar decidido a uma linha destituinte. Interessa a linha de aumentar o sangramento. Justamente porque ainda não tem um nome, e tem compromissos mais orgânicos com o capital financeiro, que está descontente com Bolsonaro, mas parece ter mais reservas quanto à imprevisibilidade de um cenário destituinte, e mais ainda, de paralisação do Congresso e das reformas. As entrevistas de Kassab, FHC e Leite, esquivando-se quando perguntados se a prevaricação e a corrupção justificam a queda de Bolsonaro, além do fato de não terem assinado o "super pedido" de impeachment, correspondem a esses fatores. Ainda, quem se compromete com a queda também precisa assumir compromisso com o governo de transição, e não interessa a ninguém estar à testa dos ministérios nessa situação e perder o posto de "oposição", ainda mais sob a presidência do Mourão. A experiência traumática no governo Temer, que resultou em péssimos resultados eleitorais para quem sustentou o golpista, diz muito sobre os cálculos atuais.

O MBL foi o primeiro dos setores de direita com discurso abertamente destituinte, e ainda que isso seja irrelevante do ponto de vista do regime mais de conjunto, ganharam expressão, inclusive sendo convidados por figuras do PSOL, como Ivan Valente, para se jutar às manifestações, o que felizmente não ocorreu no 3J. Política semelhante tem o Vem pra Rua e agora o Partido Novo surge anunciando que está pelo impeachment. Já o PSDB convocou e compareceu ao ato, por ora somente em São Paulo, com sua demagogia nojenta enquanto está aprovando junto com Bolsonaro a Reforma Administrativa, o PL490 e as grandes privatizações. Setores do PT aumentaram o peso dessas movimentações para disseminar a ideia que a direita estaria se infiltrando nos atos.

Fazem isso para seguir mantendo o controle das manifestações, apresentando sua própria narrativa de Junho de 2013, com a tese de que elas abriram espaço para direita. Porém, “esquecendo-se” que sua política econômica, na época encabeçada pelo Joaquim Levy, provocou cortes e atacaram diretos da classe trabalhadora e que foram os seus governos que reprimiram as manifestações, que aprovou a lei antiterrorista, e que pela própria política de boicote de seus sindicatos e entidades estudantis, deixaram caminho aberto para que a Rede Globo e os “movimentos” financiados por grandes setores econômicos atuassem para desviar o descontentamento popular para uma agenda de direita.

Fruto do desgaste de governo há um "senso de oportunidade" - ou talvez ação coordenada - com fortes investidas do Supremo. Estamos vendo o momento de maior enfrentamento da corte contra Bolsonaro desde o "pacto" firmado em meados do ano passado após a entrada de Braga Netto na Casa Civil, e o escândalo da prisão de Queiroz, junto ao surgimento do Black Lives Matter nos EUA, que deixaram Bolsonaro mais na defensiva. O nível de ativismo do judiciário se expressou na articulação política dos ministros costurando a adesão de 11 partidos contra o voto impresso, que conquistou assinaturas de aliados do Planalto como de Ciro Nogueira do PP e de Valdemar Costa Neto do PL. Somado a isso, o inquérito das fake news busca atingir os filhos do clã, e Rosa Weber arrancou de Aras e da PGR, quase em tom de ameaça, ao menos a abertura do inquérito sobre a denúncia de prevaricação.

Cenários e hipóteses

Por ora, a situação não parece evoluir rapidamente para um cenário destituinte, do ponto de vista da "vontade dos de cima". Flávio Bolsonaro já deu entrevistas louvando o Centrão. Lira e Pacheco deram declarações contrárias à abertura do processo de impeachment. Barros segue como líder no Congresso e o governo acabou de liberar novo contingente bilionário do orçamento secreto para garantir sua sustentação.

O que sim existe é uma disputa muito mais forte entre as frações no interior do governo, além das oposicionistas. Uma hipótese, levantada pelo jornalista Luís Nassif, é que os escândalos Covaxin e Davati, correspondem a disputas de interesse no interior do Ministério da Saúde. Elas ocorrem porque a situação econômica e sanitária, a melhor colocação de Lula na corrida eleitoral, o maior debilitamento do governo, e a ainda débil terceira via, coloca uma "crise de projetos", que retroalimenta a crise política. Cada setor querendo buscar sua localização frente a 2022, em um cenário de fortes indefinições em 2021. Aqui está uma dinâmica da crise política que é um jargão entre os analistas políticos: todo mundo sabe como ela começa, mas ninguém como termina. Esse fator é importante porque uma vez aberta a caixa de pandora, há uma imprevisibilidade dos acontecimentos, que têm relativa independência do sentido geral. Por autopreservação, ou por realocação de aliados, momentos mais fratricidas podem se colocar, o que agora parece acontecer com Damares Alves, que está em litígio com o blogueiro Oswaldo Eustáquio e o pastor Marco Feliciano.

Existe uma dupla dinâmica na crise política. Há o pólo "conservador" da crise, isso é, que pode alimentar crises políticas, mas evitando rupturas e cataclismas. Ainda assim, a consideração de que a dinâmica da crise política não é linear, é importante para irmos acompanhando dia a dia. Nesse pólo estão todos os atores do regime, entre as mais diferentes variantes, do PT à terceira via, passando por Congresso e militares. Por outro lado, há uma tendência centrífuga, que também é alimentada pela crise política, que pode levar a um esgarçamento do controle da situação. Novas investidas começam a ser vistas pelos dois lados. A PF ressuscitou um inquérito de 2012 contra Renan Calheiros, por denúncias de propinas delatadas por executivos da Odebrecht e agora estourou novas denúncias com envolvimento direto de Bolsonaro no esquema das rachadinhas quando era deputado federal, feitas por sua ex-cunhada.

Maiores "fissuras" entre vários setores do regime, podem ser vistos por novos setores como uma oportunidade para mais atividade. Essa tendência não se expressou 3J, onde os atos mantiveram sua proporção, no entanto com menos presença do aparato petista. Do mesmo modo, a bandeira do impeachment ganhou mais peso nas manifestações, fruto da política articulada entre vários partidos de esquerda, junto com setores da direita, como Kim Kataguiri (MBL), Joice Hasselmann (PSL) e Alexandre Frota (PSDB), que dias antes da manifestação protocolaram o "super pedido" de impeachment. Essa amálgama bizarra de oposicionistas contou com a ajuda dos grandes veículos de mídia, que promoveram essa ação e a vincularam com as manifestações, justamente para impedir que o descontentamento social pudesse escapar das vias institucionais.

É preciso acompanhar os fatores objetivos, econômicos e sociais, para uma avaliação dessa dinâmica. Há indicadores, bastante débeis, de melhora econômica, mas em grande medida se explicam pela elevação de preços de commodities, que impactam os enormes lucros dos monopólios, mas não a economia real, como mostram os indicadores do desemprego, que se mantém em níveis históricos. Também irá contar a própria evolução da pandemia, e no memento, vemos usam queda da quantidade de mortos e do contágio na pandemia. Ainda, o governo acabou de prorrogar o auxílio emergencial, que algum papel pode cumprir para evitar um aumento exponencial da reprovação do governo. Para fechar a alquimia de incertezas, a crise energética se mostra cada vez mais real.

Todos os sinais do regime apontam para uma intensificação da crise, e como toda a crise, pode produzir efeitos inesperados. A situação de fome, desemprego e inflação são seus componentes explosivos, que gera preocupações permanentes em diversas alas do regime político. Ao mesmo tempo em que Lula foi relocalizado pelo regime preventivamente para evitar irrupções na luta de classes, o conjunto da crise, não só política, mas em sua totalidade, atualiza a possibilidade de mudanças abruptas na situação.




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