Gênero e sexualidade

IGREJA CATÓLICA

O Papa declara guerra às mulheres

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

sexta-feira 17 de abril de 2015| Edição do dia

Depois das declarações homofóbicas e de incentivar a intervenção da Igreja católica na vida pública, agora o Papa ataca os direitos das mulheres.

Não contente em incentivar a abolição da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo na França e rejeitar a nomeação do embaixador desse país, o Vaticano volta a mostrar sua face medieval e agora critica a igualdade das mulheres.

Essa não é a primeira vez que o Papa critica as demandas de igualdade ou, como gosta de dizer ao Vaticano, a “teoria de gênero”. No inicio de 2015, Francisco falou com os jornalistas a bordo do avião papal e comparou a “teoria de gênero” com o fascismo.

Para a Igreja, nessa teoria se encontram as ideias que questionam o lugar “natural” da mulher na família, a heteronormatividade reprodutiva, e outras premissas tão caras à instituição, ou as políticas que incentivam o uso de métodos contraceptivos.

Em sua declaração pública no dia 15 de abril, o Papa voltou a falar sobre o tema. “Eu me pergunto, por exemplo, se a chamada teoria de gênero não será expressão de uma frustação ou de uma resignação que leva a eliminar a diferença sexual porque não se sabe lidar com ela”. Essa é a mensagem da Igreja para todas as pessoas que exigem ser tratadas como iguais sem que importe seu gênero, sua identidade ou sua sexualidade. Não é muito difícil ver a crosta medieval que recobre a intervenção papal.

De acordo com o Papa, “a diferença entre eles (homem e mulher) não é para competir ou para dominar, mas para que exista essa reciprocidade necessária para a comunhão e para a geração, à imagem e semelhança de Deus”.

Qualquer crítica a essa “comunhão e geração” é interpretada pela Igreja como um obstáculo ao plano de Deus. Assim expressou o Papa quando era cardeal na Argentina e encabeçou a reação contra a lei do casamento igualitário: “Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destrutiva ao plano de Deus”. E apesar do tão anunciado Sínodo da Família, segue o apartheid para os homossexuais.

As declarações do Papa não são ingênuas e não são ditas a toa, são parte da doutrina da Igreja. Por isso é fácil encontrar uma, duas, três declarações similares a cada semana que sustentam os preconceitos que alimenta cotidianamente a Igreja. Também confirma as críticas de quem já via na “renovação” que dizia levar Bergoglio ao Vaticano somente uma máscara para manter intocada a doutrina da Igreja católica.

A mensagem do Papa é clara: são bem vindas sempre desde que respeitem seu lugar e não questionem nenhum dos preconceitos que alimentam sua submissão e discriminação. “Essa complementariedade está baseada na união matrimonial e familiar para toda a vida, sustentada pela graça de Deus”. Não existe outro lugar para as mulheres que não seja o casamento, a maternidade ou a família, para o resto da vida. Já não se trata da heteronormatividade, dos estereótipos, da maternidade obrigatória ou da monogamia. Não é legítimo até mesmo exigir a igualdade? Em que ano estamos? 1630? O que está por vir? O questionamento do sufrágio feminino ou do trabalho fora de casa?

É a política, Francisco

Na Argentina, a Igreja Católica ainda deve dar explicações sobre sua colaboração com a última ditadura militar, como denunciam familiares e organizações de Direitos Humanos. Ela foi chave para a modificação do Código Civil, que nos leva de volta aos tempos anteriores a Vélez Sarsfield e aprova que “a existência da pessoa começa com a concepção”. É a mesma instituição que proíbe o uso de anticoncepcionais, bloqueia a distribuição de preservativos e impõe a educação religiosa nas escolas públicas de estados governados pelo kirchnerismo, como Salta.

Antes que se propague o nervosismo nos meios do papismo nacional e internacional, cabe esclarecer que ninguém espera declarações progressistas de uma instituição como a Igreja Católica. “É o Papa, o que esperavam? Por que se intrometem?”, perguntam. Porque quando a Igreja se intromete na vida das pessoas, exige voz e voto na modificação de códigos e leis e impõe suas regras, já não é uma questão de religião ou crença, é um problema político.
Os acordos com o governo são cumpridos rigorosamente pelo kirchnerismo. Foram bloqueadas todas as iniciativas para abrir o debate sobre o direito ao aborto (que é apoiado pela maioria da população), são mantidas as leis em que se permite o financiamento da Igreja com fundos públicos (em vigor desde a ditadura militar), e as antigas brigas com Bergoglio (inimigo do governo até o dia anterior à sua nomeação) foram escondidas. Em troca, o governo de Cristina Férnandez espera receber apoio na nova visita que irá fazer ao Vaticano no início de junho, no meio da campanha eleitoral.

O governo comunga com o Papa. A oposição de direita compartilha ou se silencia. A única voz que se levantou contra o obscurantismo e a interferência da Igreja é a Frente de Esquerda que nas ruas, no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas locais e na campanha eleitoral, defende claramente a separação entre a Igreja e o Estado, educação sexual e reprodutiva, direito ao aborto legal, seguro e gratuito, igual trabalho, igual salário. Isso que a Igreja chama “teoria de gênero” são direitos elementares, que hoje é negado à metade da população.




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