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"Polêmicas desnecessárias" | Mafalda, Madonna, escravidão, camisinha, HIV e mais: o que Bolsonaro censurou no ENEM 2019

O Enem 2019 foi esquartejado pelos censores do governo Bolsonaro, como aponta documento de servidores do Inep que não havia sido divulgado até então. Mafalda, Madonna, Chico Buarque, Donald Trump, escravidão, Palestina, camisinha e HIV, ditadura militar… foram ao todo 66 questões carimbadas com o grande NÃO do negacionismo obscurantista do governo Bolsonaro.

quinta-feira 18 de novembro | Edição do dia
Parte de uma tirinha da Mafalda criticando a censura dos tempos da ditadura militar

Jack, o Estripador teria ficado orgulhoso do esquartejamento feito pelos censores do governo Bolsonaro. Da Mafalda ao uso de camisinhas para previnir AIDS, ao total foram 66 questões excluídas da prova de 2019, a maioria com a justificativa esdrúxula de “Gera polêmica desnecessária”. Dada a dificuldade de interpretação de texto da galera da direita, já está correndo por Brasília o boato de que a prova do Enem de 2019 foi o documento mais extenso que integrantes do alto escalão do governo conseguiram ler desde o início do mandato (quiçá de suas vidas...).

As revelações foram feitas pela Revista Piauí nessa quinta-feira. As censuras abrangem questões relacionadas a: Mafalda, Papa don’t preach, da Madonna, um poema do Ferreira Gullar e outro do Paulo Leminski, uma letra de Chico Buarque, uma charge contendo um padre e um fiel falando de pecado, um poema de Manoel de Barros, uma questão de biologia falando sobre camisinha, prevenção e HIV, hanseníase e sistema carcerário, abolição da escravidão e persistência da pobreza, violência policial na Bahia, feminismo, relação entre governo Trump e Palestina, sociedade judaica na Palestina, armamento e até canibalismo entre animais foi censurado.

Tínhamos muitas convicções de que a interferência ideológica rolava solta, mas só agora saíram as provas. A crise no Enem ganhou um novo episódio com essa divulgação, mas recentemente 37 servidores entregaram seus cargos há poucas semanas da realização da prova (que ocorrerá nos próximos domingos, dia 21 e 28 de novembro).

Os censores

Segundo a matéria da Piauí, Bolsonaro mandou criar uma comissão para analisar ideologicamente as questões. O seleto grupo era composto por homens de altíssimo grau de estupidez, como um ex-aluno de Ricardo Vélez Rodrigues (então ministro da educação), o presidente do Inep na época, Marcus Vinicius Rodrigues, e um procurador de Justiça. George Orwell, se estivesse vivo, estaria abismado com o Miniver ganhando corpo em pleno 2021.

Os três negacionista se reuniram ao longo de dez dias em março daquele ano e rejeitaram as questões usando carimbos de “sim” e “não”. A justificativa para cada questão censurada era sucinta, igual à capacidade de pensamento do trio ternura. Não sabemos se eles demoraram os dez dias para conseguir ler a prova inteira, mas esse foi o tempo que ficaram analisando todas as questões. Os alunos do ensino médio têm 4 horas e meia para fazer cada prova.

As censuras

Reza a lenda argentina que aquele que censurar uma tirinha da Mafalda arderá nos sete fogos do inferno por toda a eternidade. A tirinha em questão pode ser lida acima e mostra uma Mafalda ácida e dona de si mesma, tudo o que o bolsonarismo odeia – afinal, mulheres que sabem o que querem, desejam estudar e mandar em suas próprias vidas, para a extrema-direita misógina, “Gera polêmica desnecessária”.

A música Papa don’t preach, da Madonna, fala de gravidez na infância, outra “polêmica desnecessária” (como se essa não fosse a realidade de milhares de jovens brasileiras…). Para o bolsonarismo, gravidez indesejadas, ou mesmo fruto de estupros, são milagres de Deus que não podem ser interrompidas (como vimos no bárbaro caso das seguidoras evangélicas de Damares indo em frente ao hospital para impedir um aborto de uma guria de 10 anos que havia sido estuprada). “Polêmicas desnecessárias”…

Ao todo foram 28 questões, das 66, censuradas pelo mesmo argumento esdrúxulo. Mas além desses, houve também os casos de “descontextualização histórica do texto” ou “leitura direcionada da história”, como foi o caso de uma canção de Chico Buarque em que o censor sugere “substituir ditadura por regime militar” sic. Justo o Chico, que na ditadura lançava suas músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide para burlar o olhar obtuso do censor!

As “leituras direcionadas da história” serviram para censurar 19 questões da prova. Uma questão versava sobre a escravidão no país e falava sobre a “persistência das condições precárias dos pobres negros no Brasil” e, evidentemente, foi censurada. Uma outra questão, sobre segurança pública, foi censurada por ser “Ofensivo à força policial baiana”, pois uma das alternativas falava da violência policial na Bahia (cuja PM é uma das mais racistas e assassinas do país).

Uma questão sobre a relação entre Trump e Palestina foi cortada, bem como outra sobre a Liga das Nações e a “implantação da sociedade judaica na Palestina do início do século XX”. Ambas faziam, supostamente, “leitura direcionada da história / geografia”.

O negacionismo não se restringiu às humanidades. Ele passou também pela área de ciências da natureza. A “polêmica desnecessária” dessa área ocorreu em uma questão sobre os cuidados com o vírus HIV e dizia que a camisinha era “o meio de prevenção mais barato e eficaz” na prevenção contra a AIDS. A comissão de censores fez escandaloso corte afirmando que a questão fazia “Direcionamento do controle de saúde”. A questão é que o bolsonarismo, aliado aos ultrarreacionários cristãos, são radicalmente contra qualquer tipo de anticoncepcional e querem controlar o corpo das mulheres a qualquer custo.

Houve também censuras, digamos, exóticas, para não dizer grotescas. Uma questão de ciências da natureza falava sobre canibalismo entre animais e foi censurada porque, pasmem, “Induz o jovem a comportamento antissocial”. A mente bolsonarista é realmente algo surreal. Eles realmente acham que se o jovem souber que existe canibalismo entre animais, talvez ele queira comer o coleguinha… trata-se de uma estupidez profunda em níveis talvez nunca antes imagináveis.

Censuram a ciência, a crítica e a reflexão

Nada do que foi censurado era satânico ou algo que o valha. Eram textos que, como a fala cáustica de Mafalda fez, nos fazia refletir sobre a vida. Outros sobre a história do país, sobre a vida das jovens mulheres, sobre como se prevenir da AIDS ou apenas sobre práticas comuns entre animais. A afronta ao bolsonarismo, aqui, era a mera reflexão crítica. Eles o fazem pois sabem que o pensamento crítico, a reflexão e a ciência possuem potencial subversivo, em especial contra as desigualdades sociais, as violências, as bárbaries cometidas pelo Estado e pelo capitalismo.

Não que o Enem propagasse ideais comunistas, bem longe disso na verdade. A bem dizer, ele é um filtro social que, como todo filtro social, serve para impedir que pessoas mais pobres possam adentrar a universidade pública. Por trás da retórica “democrática” do Enem, há uma longa lista de pessoas que ficaram de fora do ensino superior, muitos que não tiveram acesso à educação de qualidade em suas escolas, realidade acentuada pela pandemia e o precário ensino remoto.

Mas mesmo assim Bolsonaro e seus censores se empenham em retirar conteúdos potencialmente subversivos de uma prova de vestibular.




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