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Dia do Estudante | Libelu, a juventude trotskista contra a ditadura e as lições para o Brasil de Bolsonaro

Linha de frente no combate à ditadura, defesa central da aliança operário-estudantil e rompimento político e estético com todo tipo de caretice. Essa foi a corrente estudantil Libelu. E nesse dia do estudante, em meio a ataques às Universidades e à classe trabalhadora, enquanto Bolsonaro e militares esbravejam retóricas golpistas, resgataremos algumas das lições, erros e acertos dessa juventude trotskista que marcou os anos 70 com sua combatividade, para melhor enfrentar os desafios que estão colocados para nós hoje sob o nefasto governo de Bolsonaro e Mourão.

Giovana PozziCoordenadora Geral do Centro Acadêmico do Teatro da UFRGS (CADi)

quarta-feira 11 de agosto | Edição do dia

"Só há liberdade quando se luta por liberdade", essa foi a frase, do filósofo holandês Espinoza, que em 1976 inspirou o nome da corrente estudantil trotskista Liberdade e Luta, a Libelu.

Ainda sobre eles, Paulo Leminski escreveu:

Para a Liberdade e Luta

Me enterrem com os trotskistas
Na cova comum dos idealistas
Onde jazem aqueles
Que o poder não corrompeu

Me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

Mas que corrente é essa eternizada na poesia de Leminski e que rompeu com toda caretice, inovando política e esteticamente na luta frontal e intransigente contra a ditadura? A Libelu era a corrente estudantil no Brasil da OSI (Organização Socialista Internacionalista), uma das organizações do movimento trotskista internacional da época, que se referenciava em Pierre Lambert.

Aqui no Brasil, a Libelu atuava principalmente dentro da USP e marcou a segunda metade da década de 70 não só por sua sedução e combatividade, mas principalmente pela sua irreverência e ousadia em levantar a bandeira de abaixo à ditadura. Essa história também foi contada no documentário Libelu - Abaixo a ditadura, de Diógenes Muniz.

Nessa época, o Movimento Estudantil da USP era composto principalmente pelas correntes Refazendo, Resistência, Caminhando (PCdoB) e Liberdade e Luta, a Libelu. E enquanto para a maior parte do Movimento Estudantil levantar a bandeira de “abaixo à ditadura” nas ruas significava atrair mais repressão, limitando nossas aspirações às “liberdades democráticas” sem se colocar abertamente e com todas as letras contra a ditadura, a libelu defendia a retomada da palavra de ordem “Abaixo a ditadura” nas ruas em aliança com a classe trabalhadora. O ex-militante da Libelu, Josimar Melo, explica essa defesa:

“A gente propunha que a palavra-de-ordem ‘Abaixo a ditadura’ fosse assumida por todo o movimento, em função de estar analisando que a crise da ditadura militar entrava em grau de aguçamento bastante grande – e por considerar que todas as lutas que os setores populares estavam levando e estavam se generalizando a partir de 77, colocavam de forma cada vez mais candente a questão do governo, a questão do responsável pela manutenção de toda aquela situação, que era a ditadura.”

Esse acerto da análise conjuntural por parte da Libelu se fez provar pouco tempo depois, já no início dos anos 80 quando a palavra de ordem “Abaixo à ditadura” estava no centro das reivindicações estudantis e operárias, abrindo espaço para um questionamento cada vez mais profundo do regime. Momento em que as greves operárias tomam toda centralidade no cenário político do país, com os trabalhadores entrando em cena com seus métodos de luta, através de greves e assembleias, que não iremos desenvolver aqui, mas vale a pena conhecer.

Leia mais: A rebelião operária contra a ditadura e as origens do PT

Por ora, voltemos aos debates estudantis que estavam fervilhando no final dos anos 70. Um dos debates centrais entre as correntes e o conjunto do movimento estudantil era como e quem podia derrubar a ditadura.

Como sabemos, após os fortes processos que ocorreram no país (e no mundo) em 1968, novamente com protagonismo dos estudantes se levantando contra a ditadura e incentivando a classe trabalhadora a fazer o mesmo, a ditadura recrudesceu com medo que seu regime fosse ameaçado, época em que AI-5 foi decretado. Todo esse processo, combinado a processos internacionais, fez com que muitos setores da esquerda rompessem para a estratégia guerrilheira e foquista, desarmando profundamente a esquerda brasileira.

Pros militantes da Libelu, que partiam de reivindicar a tradição trotskista, a derrubada da ditadura se tratava de uma tarefa histórica do conjunto do movimento de massas e só poderia ser realizada com uma estratégia científica e independente que fomentasse a aliança operário-estudantil. Ou seja, nada a ver com o guerrilheirismo, uma estratégia que, pelo vértice contrário do marxismo, é isolada da massa de estudantes e trabalhadores.

"A gente acha, ao contrário da Resistência, que o problema principal - em 1968 - foi o isolamento do ME, não em relação ao resto da pequena burguesia, mas sim em relação à classe que tem capacidade de dar uma alternativa histórica para a sociedade, ou seja, a classe operária" Militantes da Libelu no jornal do DCE da USP em 1977

Além disso, a maioria das correntes alimentava a ideia de que havia setores da burguesia nacional em disputa, como se esses estivessem dispostos a lutar em defesa das liberdades democráticas dos trabalhadores e da juventude. Essa era uma das ilusões vendidas pelas correntes stalinistas, como o PCB, honrando sua tradição de traição à classe trabalhadora. Como seria possível setores da burguesia, que auxiliaram até ali a manter o regime ditatorial, estarem ao lado dos interesses da classe trabalhadora? Aí está uma outra divergência fundamental entre a Libelu e as demais correntes. No periódico AGORA UNE, número extra, de setembro de 1978, há um texto intitulado “Ditadura, não: voto nulo e constituinte”, no qual a Libelu repudiava os candidatos do MDB e apoiava as reivindicações dos
trabalhadores e a necessidade de um partido operário e independente. Segundo a publicação:

“A incapacidade da ditadura de continuar reprimindo como antes faz com que o MDB (qualquer de seus setores) e os generais “progressistas” da FNR procurem cada vez mais decididamente encontrar formas mais eficazes de controle do movimento de massas. Mas, enquanto não acham a solução (se é que vão achá-la), não dão um passo efetivo para acabar com o regime, não se dispõem a lutar ao lado dos trabalhadores contras as péssimas condições de vida, os baixos salários, a inexistência de liberdades democráticas em qualquer nível. E, se não o fazem, é porque não podem e não querem: estão comprometidos em demasiado com esse mesmo regime ao qual se dizem oposição; aproveitaram-se durante anos da superexploração a que foram submetidos os trabalhadores; e a repressão contra os trabalhadores não os incomodou nesses 14 anos. Se hoje falam, é porque é o máximo que podem fazer. E quem os obriga a falar é o movimento de massas, que deles não precisou e não pediu licença para existir.”

Cito ainda o exemplo dado por Thiago Flamé, em sua resenha sobre o documentário “Libelu - Abaixo a ditadura”:

“[...]enquanto toda a esquerda se manteve dentro do MDB em 1978, a Libelu chamou a boicotar as eleições, votar nulo e apontou a necessidade de um Partido Operário Independente – que também a diferenciava de todo o resto da esquerda, inclusive trotskista (lembrando que nesse momento, nessas mesmas eleições, a Convergência Socialista, outra das correntes trotskistas da época referenciada no argentino Nahuel Moreno, apoiou a candidatura de ninguém menos que FHC para o Senado). Isso colocava os jovens da Libelu em rota de colisão, não somente da ditadura enquanto tal, mas também da transição pactuada que Geisel e Golbery se colocaram como objetivo. Transição à qual toda a esquerda da época se adaptava, acotovelando-se para encontrar seu lugarzinho ao sol no novo regime que os generais ambicionavam construir – mais ou menos como acontece nos dias de hoje.”

Essa luta política constante e toda estética da Libelu fazia sucesso entre a juventude. Isso porque o radicalismo e a combatividade dos libelus tinha luta decidida contra a caretice stalinista que limitava a liberdade artística, sexual e criativa da juventude.

Imagina, pros stalinistas dos anos 70, o rock, a guitarra elétrica, o soul e o funk eram músicas imperialistas(!), só a canção de protesto e o samba de raiz eram dignas. Por certo que essa censura à liberdade artística afastava a geração de jovens que queria ter o mundo em suas mãos. A estes, a Libelu atraía de forma fascinante.

Enquanto os stalinistas confeccionavam cartazes com foices, martelos e figuras cinzas, assexuadas e uniformizadas, reivindicando essa como a única arte de esquerda possível, a LIBELU desenhava no centro do seu cartaz um gatinho com o escrito “nem todos os gatos são pardos”. Um banho de criatividade que potencializava a arte como transformadora da realidade e conseguia agrupar em torno de si uma juventude rebelde, crítica, com sede de revolução e que não aceitava nenhum tipo de amarra criativa.

Leia mais em: O papel da arte na Revolução permanente (parte 3): o gatinho da LIBELU

Essa liberdade estética e artística bebia da fonte do que o marxismo revolucionário defendia pra cultura: “O que queremos: a independência da arte para a revolução. A revolução, para a libertação definitiva da arte”, escreveram Trotsky e André Breton no manifesto por uma arte revolucionária, fonte de inspiração dos libelus.

Mas é preciso fazer os balanços necessários. A Libelu foi um meteoro. Brilhou muito, ofuscou as outras correntes, mas durou pouco. Chegou a organizar centenas de estudantes em pouquíssimo tempo, mas logo se dissolveu. Apesar da defesa da aliança operário-estudantil, a libelu, nos seus curtos anos de vida, foi incapaz de se ligar ao movimento operário e se limitava a um sectarismo que por fim a levou para um giro oportunista em 1980, quando a corrente entra para o PT e logo se adapta à direção lulista.

Toda energia que outrora defendia a revolução socialista acabou canalizada pros limites do regime democrático-burguês. Outra parte, que não se diluiu no PT, entrou em peso nas instituições burguesas, como os vários militantes que adentraram a redação da Folha de S. Paulo. Toda a rebeldia se esvaiu rapidamente.

Para entender mais profundamente a Libelu e sua política, precisamos retomar alguns aspectos do movimento trotskista internacional. Em primeiro lugar o fato de que ao longo da década de 30, a burocracia estalinista perseguiu e assassinou importantes dirigentes da oposição de esquerda, inclusive o revolucionário russo Leon Trotski, fundador da IV Internacional. Isso fez com que a tarefa de analisar o novo marco histórico que se colocava após a segunda guerra mundial, com a derrota do nazismo e o pacto entre EUA e URSS, ficasse a cargo de jovens dirigentes revolucionários, o que trouxe muitas dificuldades para retomar os fios de continuidade com a tradição do marxismo revolucionário.

As debilidades para analisar e responder os processos históricos e os diferentes acontecimentos da luta de classes resgatando as melhores lições da tradição revolucionária da qual o trotskismo era a continuidade, levou a que o movimento trotskista se fragmentasse em diversas correntes centristas. Uma análise mais detalhada dessas divisões extrapola em muito os limites desse artigo, no entanto, é fundamental termos em mente que a organização internacional da qual a Libelu era ligada, a OSI, era uma dessas correntes centristas do movimento trotskista. Isso não é um simples detalhe, mas parte essencial do que explica essa organização revolucionária que emergiu no seio do movimento estudantil na luta contra a ditadura. Entender os erros e acertos dessa corrente, para pensar os desafios de construir uma corrente revolucionária no movimento estudantil hoje, passa em especial por resgatar esse balanço como parte da batalha por retomar os fios de continuidade do marxismo revolucionário à luz dos desafios do século XXI.

Voltando aos anos finais da década de 70, Aa virada brusca na orientação da Libelu foi resultado da política consciente de sua direção. Pierre Lambert, principal dirigente da Organização Socialista Internacionalista (OSI), da qual a Libelu fazia parte, defendia uma aliança com setores da burguesia contra o imperialismo. Ou seja, dar as mãos ao amigo da onça. Na França, a OSI apoiou o governo burguês de Miterrand. Uma estratégia falha que levou ao liquidacionismo da OSI e, por consequência, da Libelu no Brasil.

A juventude de hoje tem muito a aprender com a experiência da Libelu, seus erros e acertos. Rebeldia intransigente, aliança operário-estudantil, inventividade criativa e independência de classe. São tarefas atuais. Nosso presente e futuro está sendo roubado diariamente pelos capitalistas, com a aprovação de privatizações, cortes nas Universidades, avançando na precarização do trabalho, na retirada de direitos, na destruição do meio ambiente e por aí vai.

O movimento estudantil precisa dar uma resposta à altura e para isso precisamos nos organizar a partir de cada entidade estudantil do nosso curso e Universidade, batalhando para que elas sejam verdadeiras ferramentas de luta e auto-organização, e que travem cada batalha lado a lado da classe que move o mundo, a classe trabalhadora. Esse caminho passa por um combate decidido para que a nossa principal entidade estudantil a nível nacional, a UNE, atualmente dirigida pelo PT, UJS/PCdoB e Levante, organize de fato os estudantes desde as bases, de maneira democrática com assembleias com direito a voz e voto.

Além disso, ser consequente com as lições que a trajetória da Libelu traz, significa ver que a conciliação de classes é uma armadilha para a juventude anticapitalista e comunista. Não há saídas por dentro das instituições burguesas, caminho pelo qual PT insiste em trilhar, depois de anos conciliando em seus governos, agora novamente Lula busca figuras como FHC, Sarney e outros da direita para viabilizar sua eleição em 2022. Nossas ambições não cabem dentro dos limites da democracia burguesa, queremos um mundo livre de toda opressão e exploração. E para essa tarefa, nossa única aliada é a gigante classe trabalhadora, que pode paralisar esse país em uma greve geral que enfrente Bolsonaro, Mourão e o conjunto do regime golpista, colocando em cheque as regras do jogo para invertê-las e fazer que sejam os capitalistas que paguem pela crise.

É nessa perspectiva que construímos a Juventude Faísca, para levar a frente o legado do marxismo revolucionário na atualidade, que para nós é o trotskismo, e abrir caminho a uma sociedade livre de toda opressão e exploração.

“Apenas o fresco entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem assegurar os primeiros sucessos na luta; apenas esses sucessos podem fazer voltar ao caminho da revolução os melhores elementos da velha geração. Sempre foi assim. Continuará sendo assim” Trótski

Referências:

SEVILLIANO, D. C. Somos os filhos da revolução: Estudantes, Movimentos Sociais, Juventude e o fim do regime militar (1977-1985). 2010. 206 F. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.




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