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Empresas Unicórnio, Ifood e USP: a ciência a serviço da escravidão capitalista

Em reunião de dirigentes da universidade, realizada no final do ano passado, a USP se vangloriou de ter no seu “DNA USP” vínculos com empresas como Ifood e 99, startups unicórnio que valem mais de um bilhão de dólares. A precarização do trabalho parece ser motivo de orgulho para os dirigentes da melhor universidade pública do país e é bastante lucrativa para os novos “empreendedores”.

Patricia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

Marcello Pablito

dirigente do MRT e fundador do Quilombo Vermelho

quinta-feira 20 de fevereiro| Edição do dia

A Universidade de São Paulo costuma liderar os rankings que aliam as universidades do país e da américa latina. Figura também nas listas internacionais e é vista com bastante respeito pela população, que diga-se de passagem, sustenta a universidade. Não à toa, quando a grande mídia precisa de uma opinião de respaldo, está lá algum especialista da USP para dizer A ou B a respeito de alguma questão.

Dito isso, é fundamental pensarmos a serviço de que está essa universidade? E como os dirigentes da universidade tem se portado diante das mazelas da população, dos trabalhadores, da juventude e dos estudantes.

Em nota publicada no Jornal da USP “Dirigentes da USP discutem a gestão da Universidade em encontro” a Agência USP de Inovação (Auspin) se gaba de ter ex-alunos que criaram startups (empresas formadas por “jovens iniciantes”) como Ifood e 99, que hoje são chamadas de unicórnios, pois valem mais de UM BILHÃO de dólares. A universidade se vangloria do incentivo ao empreendedorismo, mesmo às custas do aumento da precarização do trabalho.

A Ifood foi criada por 4 ex-alunos USP. O aplicativo de entrega de refeições até compra de supermercado domina o mercado de entregas. O que parece uma ideia “genial” para um mundo onde cada segundo importa, pedir comida só tocando o celular, é sintoma de uma sociedade decadente, da degradação capitalista. Primeiro, se pensarmos numa sociedade onde o “tempo é dinheiro” não se tem tempo para comer, nem dinheiro. O mote de empresas como Ifood, Rappi e Uber Eats é você ter mais tempo... para trabalhar. Você come sentado na sua estação de trabalho com pressa, tudo gira em torno de poder trabalhar mais, ser mais produtivo. O projeto dos patrões, tão brilhantemente exposto no filme (quase profético) Tempos Modernos, está a um passo de ser implementado. A reforma trabalhista de Temer já possibilita a diminuição do horário de almoço para 30 minutos. Um retrocesso na luta dos trabalhadores. Bolsonaro e sua carteira verde-amarela com contratos de trabalho cada vez mais precarizados é a cereja do bolo.

Mas ainda tem mais! São milhares de jovens, majoritariamente negros, que trabalham de forma precária para esses aplicativos. São 12 a 16 horas de trabalho diárias, de segunda a segunda, sujeito a chuva ou sol, sem local para descanso e sem direitos garantidos. Além disso, a manutenção da motocicleta ou da bicicleta (são milhares de jovens pedalando para ganhar a vida), combustível, acidentes, atrasos, tudo é por conta do entregador. Isso, porque a “genialidade do aplicativo” é justamente arregimentar um número enorme de “empreendedores parceiros” sem nenhum vínculo empregatício. Os entregadores realizam todo o trabalho de retirada e entrega do produto. Os restaurantes fazem a comida. O aplicativo lucra a partir da exploração dos entregadores e das taxas que cobra dos restaurantes. Mais nada.

O aumento do desemprego é prato cheio para esses novos “empreendedores”. Com o mesmo “DNA USP” também está no aplicativo de motoristas 99 (ex-99 taxi). Cobrando entre 16,99 % a 25% de cada corrida aplicativos como Uber e a própria 99 funcionam no mesmo método crowdwork da Ifood e cia. O “parceiro” é o dono do carro e arca com todos os custos da manutenção a gasolina. Muitos desempregados ou mesmo empregados trabalham horas e horas a mais para garantir a renda para sustentar a família. Todos os riscos da violência urbana e do trânsito são por conta do motorista. Mais uma vez o aplicativo lucra com a super-exploração de milhões de trabalhadores que lutam contra o desemprego e os baixos salários. Alguns chegam a lugar um carro ou bicicleta (no caso de entregadores) para garantir trabalho num país de mais de 11 milhões de desempregados onde o salário mínimo é de R$ 1.045,00.

A maior e mais elitista universidade do país se gaba de, nessa realidade, de incentivar a uberização da vida. A ironia da situação é justamente essa: uma universidade sustentada pela população, onde seus filhos não podem estudar, pois há um filtro social chamado vestibular e onde o conhecimento produzido nessa mesma universidade está a serviço de aumentar a precarização da juventude e dos trabalhadores que sustentam a universidade.

Os dirigentes da USP, todos eles muito bem remunerados, ainda mais com o aumento do teto salarial das universidades estaduais que passou de 23 mil reais para espantosos 39 mil, insistem nessa política de colocar todo o conhecimento da universidade a serviço da exploração capitalista, a serviço dos empresários e jovens ricos empreendedores. Não apenas com o incentivo e celebração dos startups unicórnios como a Ifood, 99, Nubank, entre outros. A pesquisa toda está vinculada aos interesses de grandes empresas. A ESALQ com suas relações profundas com a Monsanto, gigante dos agrotóxicos que há anos envenena a mesa de milhões de brasileiros; A AUSPIN (Agência USP Inovação) com projetos e parcerias com o banco Santander; A Escola de Educação Física e Esporte com pesquisa voltada para competições de alto rendimento e gigantes de materiais esportivos como a Nike; e um sem fim de acordos com pesquisas de cosméticos, fármacos, etc.

Além da pesquisa a serviço do capital, os dirigentes das universidades fecham mais ainda os muros da USP para a população. O Hospital Universitário, que atendia a região Oeste, está com os dois prontos-socorros (adulto e infantil) fechados. Recentemente a reitoria tentou ainda abrir a segunda porta, ou seja, a entrada de atendimento a convênios e planos de saúde privados, separando ainda mais o hospital dos interesses da população.

Enquanto a juventude perde a vida trabalhando para os aplicativos, sem poder estudar e com o futuro roubado pelas reformas trabalhistas e da previdência, os dirigentes da Universidade de São Paulo seguem na contramão das necessidades dos trabalhadores e do povo pobre. Ao invés de colocar todo o conhecimento que aqui é produzido a serviço da população, preferem erguer ainda mais o muro que separa a USP da classe trabalhadora e seus filhos, que só entram na universidade pela porta de serviço.

Veja aqui: Rappi: trabalho precário causa mais uma morte em São Paulo

A Reitoria, de forma escancarada através da AUSPIN, mas também em todas suas ações propagandeia uma suposta livre produção do conhecimento enquanto amarra essa produção nas teias da lógica empresarial e privatista com através das parcerias com fundações privadas gestoras de fundos patrimoniais(endowment). Dentro e fora dos muros da USP a lógica da sociedade dividida em classes, onde uma imensa parcela da população é explorada e oprimida por uma minoria proprietária dos meios de produção, os avanços tecnológicos que a universidade é capaz de produzir não está a serviço de permitir que a humanidade como um todo possa ter um maior controle da natureza e assim preservar o planeta e possibilitar reduzir a jornada de trabalho e acabar com o desemprego. A ganância capitalista nos fez voltar ao século XIX com jornadas de trabalho de 12 a 16 horas, contratos precários e sem carteira assinada ou garantia de aposentadoria, possibilitando com os aplicativos como Ifood ou 99 a super exploração na palma da mão.

Por isso, nós do movimento Nossa Classe juntamente com a juventude Faísca levantamos a necessidade questionar universidade dirigida a uma classe, a burguesia, para questionar toda a sociedade dividida em classes e baseada na exploração e opressão. Na USP lutar por um programa para universidade que inclui acabar com a estrutura de poder antidemocrática e estratificada da universidade onde uma casta de burocratas e donos de fundações privadas decidem seu rumo, para que estudantes e trabalhadores possam gerir a universidade e coloca-la verdadeiramente à serviço dos trabalhadores e do povo pobre.

Saiba mais: Por que entregadores de Ifood, Uber e Rappi não são empresários e "donos do meio de produção"?




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