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20 de Novembro | Conheça 10 exemplos de luta negra no Brasil escravista

Neste dia da Consciência Negra é importante rememorar as lutas, greves, quilombos e revoltas protagonizados por negros e negras no Brasil escravista. Essas história são parte de reafirma que o negro dócil é um mito e que eles sempre se organizaram para lutar contra o regime escravista e por sua liberdade.

sábado 20 de novembro | Edição do dia

Coleção Iconografia Avulsa/Brasiliana Fotográfica Digital: Escravizado Mina

1. Quilombo dos Palmares (1590-1695)

No final do século XVI surge na então capitania de Pernambuco (hoje Alagoas) o maior quilombo das Américas e que enfrentou durante aproximadamente 1 século bravamente a repressão escravista, o Quilombo dos Palmares. As primeiras informações sobre Palmares datam de 1590, sobretudo, de expedições mal sucedidas que esbarravam com a bravura dos negros e negras aquilombados.

Em 1678 a Coroa Portuguesa tenta um “acordo de paz” com o quilombo, que tinha como líder até então, Ganga-Zumba que se inclina e aceita. O acordo garantia a liberdade aos já palmarinos mas exigia submissão às leis coloniais e também que a população palmarina se responsabilizasse por entregar aos senhores ou à justiça os novos moradores que surgissem fugidos de engenhos e fazendas. Aí que emerge o nome de Zumbi. Junto a outros escravizados, ele se rebela e não aceita qualquer acordo com a Coroa e a elite escravocrata. Por conta desse erro imperdoável de Ganga-Zumba, os próprios palmarinos o assassinam, pois sabiam que na prática um acordo de paz com seu inimigo custaria muito sangue e sua própria liberdade. Só em 1694 é realizada pela Coroa uma grande investida contra Palmares que destrói parte considerável do Quilombo. Zumbi conseguiu fugir, só sendo derrotado em 1695, no 20 de novembro que marca a morte do líder negro.

O Quilombo de Palmares resistiu na memória e na luta dos escravizados. Sua organização política para administrar os vasto território e a população palmarina na Serra da Barriga; as atividades econômicas e agrícolas; as redes de relações com escravizados, comerciantes e taberneiros da cidade, tudo isso mostrou as autoridade e principalmente aos negros que com sua luta poderiam construir um sistema onde não seriam mais propriedade de ninguém.

2. Revolta dos Malês (1835)

Sua importância consiste em ter sido uma revolta que aconteceu num centro administrativo importante do Império, além de ser uma província com destacada relevância econômica por conta de sua produção açucareira. Centenas de negros escravizados em sua maioria muçulmanos, desde várias freguesias de Salvador, elaboraram um aplano de altíssimo nível organizativo e bastante articulado que tinha como objetivo de se enfrentar com as elites locais e suas forças de repressão e, evidentemente, tomar a cidade de Salvador. Por conta de uma delação externa, a polícia conseguiu invadir a casa onde congregava o núcleo dirigente da Revolta. Por mais que tenha sido um movimento desarticulado desde o seu início, a Revolta dos Malês se alastrou por toda cidade, com embates físicos, os negros revoltosos mostraram que sabiam articular um plano audaz e que não só tinham o objetivo de lutar por sua liberdade como também de se enfrentar contra os poderes e as elites locais.

3. Quilombo do Malunguinho (1814-1835)

O Quilombo do Malunguinho, também conhecido como Quilombo do Catucá ficava situado na Floresta do Catucá que ia de Recife até Goiana. O que marcam a trajetória de luta desse quilombo foi que ele surgiu em meio às disputas oligárquicas da região, enquanto os de cima disputavam a direção e a clientela da província de Pernambuco no marco da consolidação do Império brasileiro, os escravizados se rebelaram e fugiram para a mata do Catucá. O número de fugitivos aumentava à medida que as disputas entre as elites se aprofundaram como na revolução liberal de 1917 e na Confederação do Equador de 1924, fato é que a atividade do Quilombo passou a ser um grande problema para a manutenção da ordem escravista da província. O Quilombo do Catucá ficava muito próximo às cidades de Recife e Olinda, há indícios que seu contato com a cidade se deu por meio de escravizadas lavadeiras que utilizavam o rio Capibaribe e Beberibe. Decerto, o negros do Catucá não estavam isolados, mantinham relações com escravizados de engenhos próximos e trabalhadores livres, essa era uma das grandes armas dos quilombolas para se antecipar às investidas e expedições contra o quilombo. A ação dos quilombolas ia além da organização e defesa do quilombo, suas inúmeras investidas contra engenhos, o roubo de gado, etc, faziam com que as elites locais temessem ainda mais o Quilombo do Malunguinho. As autoridades à época reconheciam que a solidariedade racial entre quilombolas, escravizados e libertos constituía a força do quilombo.

4. Quilombos de Iguaçu e Sarapuí (Baixada Fluminense/RJ)

O Quilombo de Iguaçu e Sarapuí na primeira metade do século XIX, resistiu durante anos a várias expedições das autoridades, ao ponto de a historiografia que pesquisou sobre a atividade dessa comunidade de fugitivos chamá-lo de “pequeno Palmares”. As pesquisas que nos contam sobre sua trajetória também o define como uma “hidra no recôncavo da Guanabara", por conta dificuldade encontrada pela polícia do Império em destruir o quilombo. A resistência e a luta desses negros aquilombados, sem sombra de dúvidas é uma marca fundamental desses quilombos, eles dominavam o rio Sarapuí e seus afluentes a ponto de chegarem até a Corte no Rio de Janeiro. O domínio das matas e da arte de confundir seus adversários faziam com que qualquer investida militar contra o quilombo fosse algo bastante perigoso e difícil. Mas atividade do quilombo não se restringia a isso apenas, os Quilombos de Sarapuí e Iguaçu conseguiram se estabelecer e resistir contra o regime escravista porque haviam alcançado um certo nível de hegemonia tanto no recôncavo da Guanabara quanto na cidade onde a população trabalhadora e taberneiros os avisavam quando as autoridades iam atacar os quilombolas. Sua capacidade de resistir contra essas investidas eram tão grandes que esses quilombos conseguiram desenvolver uma intensa atividade agrícola, chegando a comercializar com escravizados de engenhos próximos e comerciantes da cidade. Na prática esse negros e negras mostravam às elites e as forças policiais que podiam não apenas se organizar política e economicamente em mocambos e quilombos, mas também tinha a capacidade criar uma sociedade onde não mais seriam propriedade de ninguém, lutando por sua liberdade.

5. Revolta escrava em Campinas (1832)

A revolta tinha o objetivo de conseguir a alforria, se levantar contra seus senhores e assim conquistarem a liberdade. A grande maioria dos envolvidos trabalhavam em plantações, mas alguns, desempenhavam ofícios especializados (tropeiros, ferreiros e cozinheiros), os líderes tinham postos de confiança nas fazendas, como no trabalho doméstico. A grande maioria dos participantes no plano de revolta vieram do Congo Norte, alguns de Angola e também de Moçambique, ou eram ladinos ou também crioulos. A organização da revolta deveria passar desapercebidos pelos senhores e pelos capatazes, por isso eles se reuniam a noite. Um de seus líderes, João Barbeiro, liberto, que vivia em São Paulo, se comunicava com Marcelino, um escravo tropeiro que viajava frequentemente para lá. Diogo Rebolo que era uma espécie de liderança espiritual ficou responsável pela organização do plano na Vila de Campinas. Ele guardava o dinheiro arrecadado que os escravos conseguiam principalmente através do comércio de alimentos que plantavam em seus dias de folga com o objetivo de enviá-lo à João Barbeiro em São Paulo através de Marcelino e fazer azagaias (uma lança curta geralmente feita de madeira) e comprar pólvora. Além disso, um escravo ferreiro ficou responsável por fabricar armas. O plano tinha sido concebido para ser posto em prática na Páscoa, mas foi descoberto antes disso, os envolvidos e as lideranças foram interrogados e punidos, as armas e o dinheiro arrecadados nunca foram encontrados.

6. Greve negra de ganhadores na Bahia (1857)

Essa greve foi organizada e realizada por ganhadores, trabalhadores livres e escravizados que trabalhavam ao ganho, isto é, aqueles que se dedicavam ao trabalho urbano, seja na circulação de pessoas e mercadorias ou desempenhado alguns tipos de ofício como a carpinteiro, pedreiro, caixeiro, sapateiro, etc. O movimento grevista começou a partir de uma decisão da câmara dos deputados em Salvador de regulamentação do trabalho no ganho. A medida obrigava os ganhadores a usarem uma chapa de metal pendurada no pescoço, uma medida que visava o controle e vigilância do trabalho no ganho que gerou uma paralisação de uma semana nos transporte de mercadorias na província. Os ganhadores se mobilizaram para a greve através dos cantos, forma de organização do trabalho de rua onde os ganhadores encontravam os serviços de transporte e também a partir de elementos étnicos culturais. Os nagôs estiveram na vanguarda dessa paralisação.

O que chama a atenção nessa paralisação foi que os escravizados e trabalhadores livres paralisaram suas atividades por conta de um motivo político, o de controlar e regulamentar o trabalho ao ganho. Utilizar uma placa no pescoço também era considera um insulto por aqueles trabalhadores, naquela época este tipo de objeto era apenas utilizado por animais de tração, além é claro de substituir no pescoço algum elemento cultural ou religioso de determinada etnia por uma placa de ferro.

7. Conspiração do “Divino Mestre” (1846)

Essa foi uma conspiração organizada por um grupo religioso dirigido por Agostinho José Pereira, o Divino Mestre, um pasto negro que recebeu esse nome por pregar a fé cristã aos adeptos de sua seita e também alfabetizar negros. As autoridades na época suspeitavam que esse grupo religioso nada mais era que um disfarce para preparar uma insurreição de escravos. Divino Mestre tinha 47 anos, livre, sabia ler e escrever, suspeita-se, inclusive que tivesse participado da Sabinada na Bahia, tinha cerca de 300 seguidores por toda a cidade de Recife e foi preso junto a 16 negros e interrogado. Na casa de Agostinho foram encontrados uma Bíblia que estava grifada as partes que fala sobre o fim da escravidão e textos sobre o Haiti dentro os quais havia um intitulado ABC. As autoridades não transcreveram esse documento, portanto não podemos saber o conteúdo desses papéis. Mesmo assim, a apreensão e o interrogatório de Divino Mestre e seus seguidores mostra que a atividade de seu grupo não era apenas religiosa. De fato, havia a intenção de organizar e reunir a maior quantidade de negros e negras dispostos a luta pela fim da escravidão, aprendendo com as lições da Revolução do Haiti. O grupo foi preso e desarticulado antes mesmo que pudesse desenvolver qualquer plano de insurreição. No entanto é interessante notar que o espectro do Haiti não só rondavam as mentes das autoridades e elites locais, ele era um medo real. As aspirações de liberdade de negros e negras passavam por conhecer e aprender com a experiência haitiana.

8. Revolta das Carrancas (1833)

Nos atuais municípios de Carrancas, Cruzília e São Tomé das Letras, nas fazendas de propriedade dos Junqueira, em 13 de maio de 1833, Ventura Mina, escravo da extinta Fazenda Campo Alegre, liderou um grupo de mais de 30 escravos numas das revoltas mais importantes do estado de Minas Gerais. O plano insurrecional tinha o objetivo de exterminar os donos e suas respectivas famílias das fazenda Bela Cruz e Campo Alegre. Numa das fazendas os revoltosos chegaram a matar integrantes da família de José Francisco Junqueira, família tradicional da região. Os insurgentes degolavam os senhores e colocavam suas cabeças à mostra em frente a Casa-Grande. A simbologia e força dessa revolta deixou aterrorizados escravistas de Minas Gerais e das províncias mais próximas. Não foi à toa que em 10 de junho de 1833, foi enviado um projeto sobre o julgamento dos crimes de escravos à Câmara dos Deputados para reforçar as penas e a repressão para quem repetisse o que aqueles escravizados fizeram em Carrancas. A revolta foi punida severamente, mas esse 13 de maio também pode ser entendido como um prelúdio da força e da fúria negra que viria arrancar a abolição anos mais tarde.

9. Revolta no Serro e Diamantina (1864)

Trabalhadores livres, artesãos de uma fazenda serrana de aguardente, lideraram um grupo de escravizados que chegava a ter 400 integrantes. O intuito deles era se reunir na igreja do Rosário no alto da cidade do Serro, descer e atear fogo nas casas dos mais ricos negociantes da cidade para então invadir o quartel da Guarda Nacional e tomar seu armamento. Os escravizados que participaram desse levante desempenhavam em sua grande maioria ofícios especializados e no meio urbano, eram pedreiros, tropeiros, mineiros, sapateiros, ferreiros, carpinteiros e marceneiros. Trabalhavam para distintos senhores na região entre o Serro e a Diamantina. Suas vastas redes de relação eram uma arma poderosa para organização da revolta, além disso, para surpresa dos senhores, muitos deles sabiam dizer sobre a Proclamação da Emancipação assinada por Abraham Lincoln em 1863. A revolta foi denunciada por um escravizado ao seu senhor e conseguiu ser contida antes que aquele plano fosse consumado, ainda mais num Império que se preparava para a Guerra do Paraguai. Mesmo assim, nas lavras da Diamantina os escravizados iniciaram o plano de fugir e atacar engenhos, a repressão contra revolta durou meses até que chegasse ao fim com a punição de seus líderes. Essa revolta sem sombre de dúvida foi uma das mais importantes revoltas na província de Minas Gerais, coração da extração e exploração de minérios, ali os escravizados mostraram o potencial explosivo da aliança entre trabalhadores livres escravizados que anos mais tarde arrancariam com a luta a abolição da escravidão no Brasil.

10. Greve de carpinteiros do Arsenal da Marinha de Recife (1852)

A greve se iniciou no dia 23 de Novembro de 1852, 28 carpinteiros do Arsenal da Marinha de Pernambuco entraram em greve exigindo aumento salarial, muito deles ainda exigiam o referente a horas trabalhadas durante o tempo de almoço, um direito comum as relações de trabalho à época ainda que não explicita em lei. A paralisação causou grandes prejuízos financeiros ao Estado. De qualquer forma, o que chama a atenção dessa greve é que as autoridades sabiam que não foi algo pensado no calor da luta, ela havia sido preparada e premeditada pelos trabalhadores. Além disso, ela se insere num plano mais geral, nas paralizações que ocorreram ao longo dos anos 1850, a greve de ganhadores na Bahia em 1857 e a greve de tipógrafos em 1858 no Rio de Janeiro. No que diz respeito à província de Pernambuco, a greve de carpinteiros do Arsenal da Marinha em Recife, foi uma mostra de como as mobilizações de trabalhadores e populares que ocorreram ao longo da década de 1840 não cessaram com a derrota da Insurreição Praieira .

Aquele período foi marcado por uma disputa oligárquica entre o partido praieiro e o partido conservador pela direção da província pernambucana e por uma forte mobilização popular e de trabalhadores livres por direitos e antilusitana. Esses trabalhadores livre e libertos em sua grande maioria negros, descentes de escravizados, entraram em cena colocando nas ruas seu ódio contra a opressão portuguesa na província e pela nacionalização do comércio a varejo, onde os trabalahdores nacionais eram excluídos pelos comerciantes europeus. A greve dos carpinteiros mostra a força de trabalhadores negros que mesmo depois do desfecho sangrento da insurreição praieira não deixaram de se organizar e lutar pelos seus direitos.




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