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CONFERÊNCIA LATINO-AMERICANA E DOS EUA

Confira intervenção de Jimena Vergara da FT-QI na abertura da Conferência Latino-americana e dos EUA

Confira a intervenção de Jimena Vergara, integrante da Fração Trotskista - Quarta Internacional (FT-QI), na primeira mesa da Conferência Latino-Americana e dos EUA que começou ontem, 30, e irá até o dia 1 de agosto com grandes debates entre as organizações revolucionárias do continente americano.

sexta-feira 31 de julho| Edição do dia

Ontem, 30, ocorreu o primeiro debate da Conferência Latino-Americana e dos EUA, com o tema "Crise mundial e a rebelião no Império". A conferência está sendo impulsionada pela Frente de Esquerda dos Trabalhadores da Argentina, reunindo organizações e partidos socialistas de todo o continente americano, e acontecerá até o dia 1 de agosto.

Confira a programação:

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É hoje a primeira mesa da Conferência Latinoamericana e dos EUA, chamada pelos partidos da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores da Argentina! Acompanhe hoje, às 18h30 a mesa Crise Mundial e Rebelião no Império ao vivo, no Youtube e Facebook do Esquerda Diário! E siga todas as mesas nesses dias 30 e 31 de julho e a Conferência principal no dia 1º de agosto! Links nos destaques do perfil! #live #youtubelive #facebooklive #americalatina #latinoamerica #eua #estadosunidos #blacklivesmatter #vidasnegrasimportam #georgefloydprotests #Esquerda #EsquerdaBrasileira #lutadeclasses #protesto #ato #Revolução #Comunismo #Socialismo #Revolucionario #Leninismo #Trotskismo #Marxismo #Marx #Lenin #Trotsky

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Veja também a íntegra do primeiro dia da conferência:

Conferencia Virtual Latinoamericana y de los EE. UU.: primera mesa-debate

Con panelistas de América Latina y Estados Unidos, hoy comienza la mesa-debate Crisis mundial y rebelión en el imperio. Exponen Jimena Vergara (Left Voice de EE. UU., FT-CI), Luis Meiners (Socialist League de EE. UU., LIS), Néstor Pitrola (PO, Argentina) y Miguel Sorans (IS, Argentina).
Con la participación de Christian Castillo del PTS Argentina y la FT-CI y dirigentes de otras corrientes políticas de la izquierda de México, EE. UU. y Venezuela. También podés seguirlo en YouTube.

Publicado por Esquerda Diário em Quinta-feira, 30 de julho de 2020

Jimena Vergara foi uma das representantes da FT-QI, junto com Christian Castillo. Ela faz parte do Left Voice sessão dos Estados Unidos da rede internacional de diários que o Esquerda Diário integra.

Confira aqui sua intervenção:

"Olá, boa tarde, camaradas!

Falo da cidade de Nova Iorque, onde moro, trabalho e milito, mas nasci na Cidade do México, assim minha primeira língua é o espanhol. Eu nasci para a vida política com a grande greve da UNAM que sacudiu todo o país entre abril de 1999 e fevereiro de 2000, quando fomos desalojados e presos pelo governo de Zedillo. Bom, estamos realizando essa conferência em meio a uma crise capitalista acelerada pela pandemia, como os camaradas já colocaram antes, do coronavírus, a nível mundial. E a situação internacional antes da pandemia já vinha impactada pela luta de classes na França, no Chile, na Bolívia, no Líbano e em outros países. Então de alguma forma com a pandemia se abriu um parêntese nesta dinâmica, mas ao mesmo tempo acelerou as contradições capitalistas latentes desde a recessão de 2008. Então, eu vou dedicar meu tempo para falar centralmente dos Estados Unidos porque considero que a situação na principal potência do mundo ilumina as tendências mais gerais da situação mundial desde o ponto de vista geopolítico, econômico-político e social.

Bom, vocês lembrarão que era um sábado, dia 20 de junho, quando o presidente Trump se apresentou descolado frente ao auditório semi-vazio do Bok Center na cidade de Tulsa, em Oklahoma, no seu lançamento de campanha rumo às eleições presidenciais em novembro, como disse Bill Mcdermott que é um dos mais influentes CEOs da comunicação dos Estados Unidos, os discursos de Trump costumavam ser cafeína para os seus seguidores e agora seus atos de proselitismo costumam ser mais bem um sonífero. Havia passado um mês que tinha estourado este novo capítulo da saga do movimento Black Lives Matter. E Trump decidiu lançar sua campanha nada menos que na cidade na qual em junho de 1921, bandas paramilitares de homens brancos armados pelos políticos locais massacraram a população negra queimando casas e comércios. É que desesperado pela sua estrondosa queda nas pesquisas de opinião, Trump está aproveitando a polarização social para alçar sua base conservadora e racista. Segundo as pesquisas, o nada carismático candidato democrata, Joe Biden, está superando o atual presidente de 9 a 14 pontos.

Trump diz que as pesquisas mentem e que ele tem o apoio da maioria silenciosa. E ainda que nem maioria, nem silenciosa, é verdade que Trump segue mantendo seus votos duros e ainda que não ganhe a presidência em novembro, o trumpismo existe como fenômeno político em Estados Unidos. Donald Trump é um produto da gestão da crise capitalista de 2008, feita por Barack Obama e o Partido Democrata, efetivando um resgate capitalista descomunal, criando lucros exuberantes para Wall Street, criando uma multidão de trabalhadores precários, marginalizando setores de massas ao nacionalismo reacionário por um lado ou ao reformismo redistributivo de Bernie Sanders. Então o Trumpismo afunda suas raízes na crise da ordem neoliberal e na decadência da hegemonia estadunidense, onde se combina o surgimento de potências competidoras, como China, e fracassos estrondosos como as guerras do Iraque e do Afeganistão.

Trump modificou a agenda política global empurrando o regime estadunidense ao unilateralismo no campo geopolítico, contra os nostálgicos da ordem liberal multilateral e impôs o protecionismo que até os democratas liderados por Joe Biden, se ganham a presidência, vão continuar. O aspecto mais estratégico desta agenda do ponto de vista dos interesses do imperialismo ianque é o enfrentamento com a China, que desenvolve o perfil de uma nova Guerra Fria segundo os think tanks da geopolítica mundial, Trump embarcou em uma Guerra Comercial com a China desde 2018 com o objetivo de contê-la e ganhar a competição pela primazia tecnológica, uma guerra de sanções muito disruptiva para o capitalismo mundial, porque se choca com a estrutura globalizada das cadeias de valor por um lado, e também porque atenta contra os lucros capitalistas das grandes multinacionais ianques geradas pela exploração de trabalho barato na China. É que Trump não conseguiu convencer o setor do capital hegemônico que se beneficiou da relocalização produtiva na China, no México ou no Vietnã a voltar para casa, porque para fazê-lo teria que abaixar dramaticamente o valor do salário nos Estados Unidos.

Desde então Estados Unidos e a China avançam em uma espiral de tensões crescentes, desde a confrontação nos âmbitos comerciais e tecnológicos, até a competição armamentista e a luta pela influência global, ainda que a China o faça de um lugar de desigualdade militar. O choque entre protecionismo e os defensores da globalização vai ser uma fonte de tensões e crise permanente no período histórico aberto pela crise do consenso neoliberal burguês. Então, para além das viragens conjunturais marcadas pela corrida eleitoral rumo a novembro nos Estados Unidos, as tensões diplomáticas entre Washington e Beijing prometem escalar. E a propaganda anti-China na imprensa neoliberal no estilo moderado do The New York Times, ou no estilo estridente das fake news da Fox, tem o mesmo objetivo, responsabilizar a China pela pandemia e portanto, pela crise econômica e o desemprego nos Estados Unidos, que busca criar uma base social interna para políticas hostis.

Os dois partidos estão juntos na tarefa de manter a liderança dos Estados Unidos e recolocar a China na condição de nação atrasada, objetivo no qual até agora tem fracassado. Então, a partir do Left Voice batalhamos para que a esquerda e os trabalhadores dos Estados Unidos nos oponhamos aos interesses agressivos da burguesia imperialista ianque e desmentir a ideia de que a queda dos salários e das condições de vida dos trabalhadores estadunidenses é produto dos trabalhadores chineses e mexicanos, são as multinacionais e suas cadeias de valor a nível mundial que colocam os trabalhadores de um país contra o outro, em competição, à serviço de aumentar seus lucros e isso precisa ser feito sem dar nenhum apoio para a burocracia do Partido Comunista chinês que em conjunto com a nascente burguesia associada aos capitais imperialistas administra empresas que fazem investimentos na África,na América Latina e em outras regiões de caráter diretamente capitalista, com alguns traços imperialistas, extrativistas, coisa que denunciamos na convocatória desta Conferência.

Então, o American First trumpista significou a formulação popular da ofensiva contra a China e uma ofensiva imperialista redobrada sobre os povos oprimidos do mundo, como no México, onde o governo progressista de AMLO vem cumprindo pontualmente as ordens de Trump, nas questões migratórias e para reabrir a indústria dependente dos Estados Unidos, às custas da vida de milhões de trabalhadores na fronteira norte. A ofensiva contra a Venezuela, contra o Irã, contra Cuba e contra o povo palestino hoje ameaçado pela anexação da Cisjordânia e a redobrada ofensiva israelense.

Mas esta ofensiva não acontece nas condições de relativa estabilidade neoliberal prévias à crise de 2008. A pandemia atua como acelerador das contradições latentes do sistema imperialista mundial abrindo uma crise apenas comparável com a da Grande Depressão de 1929: queda da produção, do comércio, do consumo, um salto no desemprego (acima dos níveis da crise de 2008) e como diziam antes, uma queda histórica do Produto Interno Bruno em 2020.

Agora, como a principal potência do mundo chegou nesta crise? Muitas correntes da esquerda se negam a utilizar o marxista revolucionário Antonio Gramsci porque foi utilizado pelo reformismo. Negar-se a utilizar Gramsci é como negar-se utilizar Lenin porque foi utilizado pela casta burocrática stalinista para justificar sua prática política. Nós temos feito um esforço teórico para recuperar criticamente Gramsci para enriquecer a teoria revolucionária de Marx, de Engels, de Lenin, de Trotski, de Luxemburgo.E Antonio Gramsci utilizou o conceito “crise orgânica” para descrever um momento de agitação econômica, política e social que surge do fracasso de uma “grande empresa capitalista gerando uma crise de hegemonia na classe dirigente. E esta definição permite prever o emergir de situações pré-revolucionárias. O crack de 2008 colocou a ofensiva neoliberal globalizadora em crise, gerando elementos de uma crise orgânica que é o substrato tanto das tendências ao cesarismo ou bonapartismo encarnado por Trump, como da luta de classes que estamos presenciando.

O movimento Black Lives Matter colocou em xeque uma das instituições, também como já disseram antes, mais reacionárias do Estado imperialista estadunidense, que é a polícia. Em nenhum momento desde a criação formal dos departamentos de polícia nos Estados Unidos (que surgem das patrulhas à serviço dos proprietários de escravos), a ideia da sua eliminação foi tão popular. O assassinato de George Floyd despertou a ira popular e levou 24 milhões de pessoas às ruas segundo o New York Times.

Essa mudança de atitude é também em grande parte produto de uma vanguarda de militantes jovens de todas as raças e trabalhadores que saíram às ruas imediatamente depois do assassinato de Floyd e desde então seguiram marcando e protestando, agora desafiando a invasão militar e federal ordenada por Trump em cidades como Portland, Seattle e Chicago. Demonstrando, no caso de Trump, seu caráter de bonapartismo débil que ainda que não possa prescindir da câmara de representantes e do senado para governar, se apoia no Departamento de Justiça liderado pelo obscuro fiscal general Bill Barr, na Guarda Nacional e no Exército para decretar ordens executivas reacionárias e reprimir brutalmente as manifestações.

O movimento se nacionalizou, foram derrubadas dezenas de estátuas racistas e os manifestantes estabeleceram assembleias gerais, ocupações das ruas e praças. A resposta cruel e incompetente do governo à pandemia do coronavírus, que provocou, como já disseram antes, mais de 150.000 mortes, e a crise econômica resultante, revelaram quão profundamente insustentável é o capitalismo imperialista e comoveram particularmente a juventude, que é uma juventude endividada para toda a vida, precária, consciente da crise climática, anti-opressão e anti-racista que efetivamente viu na candidatura de Bernie Sanders uma alternativa a crise social provocada pelo capitalismo. Então, a luta contra a opressão negra explodiu outra vez nos Estados Unidos, e nas condições da pandemia está demonstrando sua centralidade, vou voltar neste ponto na minha segunda intervenção.

E também um aspecto muito interessante é que as mobilizações comoveram a classe operária estadunidense. Uma onda de luta operária militante está atravessando os Estados Unidos, com mais de 800 ações operárias, greves, paralisações desde o começo de março. Esta onda se dá como apoio ao levantamento contra a política e o temor de serem forçados a trabalhar em meio à pandemia. Por um lado os trabalhadores organizados os sindicatos, particularmente à esquerda da AFL-CIO estão cumprindo um papel chave nas mobilizações contra a polícia como demonstram os dois dias de ações de trabalhadores portuários que fecharam portos em todo o país em mini-greves para declarar sua solidariedade com a luta negra.

Também o massivo movimento operário precário estadunidense da Amazon, Trader Joe’s etc., está ativo. Um feito muito expressivo no interior do movimento operário são os chamados para expulsar os sindicatos da polícia das centrais sindicais, já que esses sindicatos são a principal proteção dos repressores contra a comunidade negra e latina. O enorme sindicato de professores de Los Angeles, que é o segundo maior do país, o sindicato de professores de Chicago, o sindicato de escritores, o Conselho Trabalhista do Condado de Martin Luther King que representa mais de 100.000 trabalhadores na área de Seattle, a Associação de Auxiliares de Voo, todos parte da AFL-CIO, aprovaram resoluções para exigir da direção a expulsão dos sindicatos de polícia da central. No Left Voice, por exemplo, impulsionamos uma declaração de trabalhadores da saúde que estiveram à frente da luta contra a pandemia, para exigir dos sindicatos que expulsem os policiais do movimento operário, que atraiu mais de mil assinaturas de trabalhadores do setor. Acredito que está na hora de a esquerda de todo o mundo aprenda este exemplo para banir a ideia nefasta de que os sindicatos de policiais possam ter alguma coisa a ver com a classe trabalhadora.

As tentativas do regime de sufocar os levantamentos pela força fracassaram e somente uma grande operação do Partido Democrata, que é o coveiro dos movimentos sociais nos Estados Unidos, encabeçada por Barack Obama conseguiu cooptar parcialmente o movimento para levá-lo para as urnas e evitar por hora que a revolta popular avance rumo a uma situação revolucionária.

Para nós a tarefa dos revolucionários nos Estados Unidos, e à serviço disso está o Left Voice e a Rede Internacional La Izquierda Diario, é unificar o movimento anti-racista com a luta dos trabalhadores da “primeira linha” frente à pandemia e a luta contra a crise econômica. Isso implica dar uma batalha decidida contra a burocracia sindical como a direção da AFL-CIO que se nega expulsar os policiais do movimento operário, unificar as fileiras operárias entre sindicalizados, precários e desempregados. A auto-organização desde as bases, isso implica a unidade de luta entre brancos e negros, nativos e imigrantes, é fundamental. É necessário retomar a tradição de organização dos trabalhadores nos Estados Unidos que protagonizaram a greve geral de Seattle em 1919 com o soviet de Washington por trás, os conselhos de desempregados multirraciais dos anos 30, as greves de Minneapolis e Toledo.

Esta perspectiva só pode ser oferecida por uma esquerda revolucionária. Mas não se trata de fazer proclamações estéreis que não se encarnam nos setores reais da vanguarda e da esquerda sem luta política. Por isso nós do Left Voice estamos dialogando com os jovens socialistas do DSA, que cresceu exponencialmente até alcançar 70 mil membros, para que rompam com a política eleitoral de trabalhar dentro do Partido Democrata e apoiar candidatos como Sanders e, pelo contrário, por erguer candidaturas socialistas independentes. A estratégia da direção do DSA referenciada na Revista Jacobin é construir a esquerda dentro do Partido democrata, utilizando Kautsky para reivindicar uma “estratégia de desgaste” mas muito mais à direita que o próprio Kautsky porque o fazem dentro de um partido imperialista.

Nós estamos impulsionando um jornal que tem dezenas de milhares de acessos, buscando um reagrupamento dos militantes e jovens revolucionários, uma tática que poderíamos chamar de “iskrista” para o século XXI, contra as tentativas falidas de fundar “mini-partidos” que se auto-proclamam sem ganhar influência real na vanguarda e na esquerda. Isso nos está permitindo confluir com militantes trotskistas de tradição e cada vez mais jovens que despertam para a luta política.

Como disse nossa companheira, referência no movimento negro, Julia Wallace, no ato internacional que fizemos no dia 11 de julho, transmitido em 6 idiomas, com os camaradas com os quais construímos a Fração Trotskista: “Seria enorme para o movimento revolucionário mundial se das entranhas destes movimentos, e da convergência do melhor da tradição trotskista nos Estados Unidos, da luta operária e da renovada energia da juventude surja um partido revolucionário no coração do império que infalivelmente injetará energia para a reconstrução da quarta internacional”.

Obrigada"

Confira também a segunda intervenção:

"Oi camaradas, obrigada.

Eu queria debater primeiro com a consigna de “Fora Trump”, minha impressão é que como os Estados Unidos é uma república federal onde os "estados", ou províncias como dizemos na Argentina, tem muito peso e autonomia, com por exemplo, a direção das polícias pelos governadores e prefeitos. Minneapolis, onde mataram George Floyd está no estado de Minnesota, que é um blue state, um estado azul, desde os anos setenta do governador até o fiscal do distrito. Por isso Trump, como parte da estratégia eleitoral, tem que se enfrentar contra as grandes figuras democratas estatais como Andrew Cuomo em Nova Iorque. Então, eu acredito que a luta revolucionária deve levar em consideração que, como no Brasil, que o inimigo não é apenas o governo nacional (republicano) mas também os governadores, que em muitos casos são democratas. O problema é que dizer somente “Fora Trump” é uma simplificação equivocada do meu ponto de vista, mais ainda com eleições em três meses. E muito peso do mal menor, onde como já disseram, grandes figuras do movimento negro como Angela Davis o estão apoiando (NdT: apoiando Joe Biden), mas inclusive as vítimas da violência policial racista o estão apoiando. O “Fora Trump” seria lido nos Estados Unidos como “qualquer um que não seja Trump”, ou seja, um apoio implícito para Biden na campanha eleitoral que está muito próxima. Me dá a sensação de que o problema de fundo é subestimar a cooptação democrata e o peso do mal menor que vai operar rumo a essas eleições.

Em segundo lugar queria falar sobre a centralidade da luta de classes negra nos Estados Unidos, porque o assassinato de George Floyd comoveu os nervos da sociedade estadunidense. Este país foi fundado com a escravidão; os negros não tiveram direitos civis até 1965. Foi a luta anti-racista, com os trabalhadores negros e seus aliados da vanguarda, o que colocou um fim nas leis Jim Crow. Mas o Estado e os capitalistas dos Estados Unidos demonstraram uma criatividade ilimitada na sua capacidade para revitalizar e armar o racismo baseado no racismo estrutural, na brutalidade policial e no encarceramento massivo de negros. Desde a guerra de independência, passando pela guerra civil, a luta contra a segregação racial até hoje, as massas negras tem girado a situação da luta de classes demonstrando que uma das grandes tarefas revolucionárias nos Estados Unidos é a total emancipação das massas afro americanas. Agora, justamente por isso, porque é inegável a centralidade da luta negra, no Left Voice temos confrontado a posição do neo kaustismo da Jacobin, que opina que as demandas específicas contra a opressão racial estão circunscritas ou incluídas na luta pelas demandas do conjunto de toda a classe (o que chamam de class wide demands), diluindo o peso específico da opressão racial por um lado e o viés racial da própria crise sanitária e econômica que está afetando em primeiro lugar as minorias negras e latinas, como dizem todos os índices de comportamento da pandemia.

O que está por trás da posição da Jacobin é a concepção socialdemocrata de se subordinar à aristocracia operária branca, sindicalista, corporativa e chauvinista, se negando a formar um movimento operário que tome como própria a luta contra a opressão. Nós, eu acredito que a esquerda, queremos aprender com os erros da esquerda nos Estados Unidos que por um lado se dissolveu nos “movimentos sociais” renunciando unificá-los com a classe operária e construir um partido de combate na tradição de Lênin como um amplo setor da hoje extinta ISO, International Socialist Organization, ou que por outro se concentrou em fazer sindicalismo sem batalhar para que a classe operária estadunidense rompa com este corporativismo imposto pela burocracia sindical e abrace como própria a luta contra a opressão racial. Nossa perspectiva é a de lutar contra a opressão com hegemonia proletária para enfrentar o Estado capitalista de conjunto. Agora, quem pode fazer com que esse programa se encarne em setores reais? Não se pode renunciar à tarefa de construir uma organização revolucionária.
***
Trotsky deu uma importância fundamental para pensar com uma grande imaginação de intransigência estratégica as vias para construir uma organização revolucionária nos Estados Unidos e o fez em luta política com Cannon e a direção do SWP. Dos frutos da experiência das greves de Minneapolis e Toledo e as iniciativas de Trotski surgiu o SWP estadunidense em 1934 como fruto da fusão da Liga Comunista da América e o Partido dos Trabalhadores da América que era dirigido por Muste.

Depois no ano de 35, 34 e 35, Trotski começa a dar uma luta política dentro do SWP para ter uma tática especial no Partido Socialista estadunidense, o que foi chamado de entrismo ou giro francês, que se estava nutrindo de novos trabalhadores e elementos jovens que tinham sido impactados pelos eventos internacionais como a derrota do proletariado alemão e o ascenso do fascismo e começaram a se radicalizar.

Em junho de 1940, novamente em discussão com Cannon, que se negou e a direção do SWP propõe apoiar criticamente a candidatura presidencial do Partido Comunista dos Estados Unidos, seguindo a lógica de influenciar a vanguarda com luta política, neste caso os operários de base e simpatizantes do PC que seguiam fiéis ao partido.

Falo disso porque estas iniciativas elaboradas em cinco anos de intensa intervenção do SWP tinham o objetivo de buscar que o programa revolucionário se encarnasse na vanguarda e isso é impossível sem táticas audazes e luta política, com uma intransigência programática. Seguindo o método de Trotski, a emergência de uma organização revolucionária nos Estados Unidos não pode se dar sem essa luta política. No DSA, táticas especiais para a vanguarda e os fenômenos políticos mais dinâmicos, clareza programática, experiências comuns na luta de classes onde for possível da esquerda e da vanguarda. E por isso quero resgatar o que disse antes, que o Left Voice, com uma orientação que poderíamos chamar de iskrista, o que estamos fazendo é tentar influenciar essa vanguarda e a esquerda por meio da luta política e o programa com o objetivo de organizar os elementos revolucionários ou aqueles que girem para posições revolucionárias hoje dispersos em um país continente, federalizado, onde é necessário unificar a vanguarda sob claras bandeiras programáticas e fazer uma experiência nos fenômenos mais de esquerda assim como na realidade com criatividade, com flexibilidade tática e intransigência ideológica, seguindo Lênin."




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