×
Rede Internacional

DEBATES NA ESQUERDA | Valério Arcary e os países "maduros e não maduros" para um partido revolucionário

Segue sendo insuportavelmente incômoda para o Resistência a tradição do trotskismo na Argentina. Mais ainda que o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) e a Frente de Esquerda (FIT) tenham conquistado projeção eleitoral em segmentos de massas com um programa de independência de classe, e uma construção baseada na luta de classes.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

terça-feira 22 de dezembro de 2020 | Edição do dia

Ler os recentes artigos de Valério Arcary, dirigente do Resistência/PSOL, gera certo constrangimento. Mas ultrapassando essa primeira sensação, os mesmos escritos são muito ilustrativos sobre como determinadas tendências respondem aos embaraços provocados por sua própria política. Tão grandes foram as proezas oportunistas do Resistência, que sentiu-se a necessidade de alvejar a política que se opõe a esse caminho. Comparando a esquerda no Brasil e na Argentina, Valério inquire onde se encontrariam os revolucionários, e ficamos sabendo que estes estão no próprio Resistência, que “defende a independência de classe”, e não com aqueles que queremos construir um partido leninista de combate.

Segue sendo insuportavelmente incômoda para o Resistência a tradição do trotskismo na Argentina. Mais ainda que o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) e a Frente de Esquerda (FIT) tenham conquistado projeção eleitoral em segmentos de massas com um programa de independência de classe, e uma construção baseada na luta de classes. O mais notável é que Valério não faz essa análise para refletir as experiências internacionais que chocam os destinos, de um lado, da FIT, e dos fracassos de formações neorreformistas como Syriza, Podemos, La France Insoumise, de outro. É assim porque o Resistência abandonou há muito o internacionalismo – são desconhecidas quaisquer relações internacionais que esse grupo estabeleça.

A noção marxista de que é impossível ter uma política correta no plano nacional sem ter uma análise da situação mundial e uma atuação no plano internacional foi abandonada há muito pelo Resistência.

Nessa curta jornada investigativa somos convidados a abandonar a história: “a história não pode ser o que decide”, apesar de sua importância. Talvez faça bem lembrar a Valério que por muitos anos desempenhou um papel destacado na direção do PSTU; e que no momento do golpe institucional, tendo dado um primeiro passo correto ao romper com essa organização que atuou como "quinta roda" da Lava Jato, acabou incorrendo no erro simétrico oposto: estar cada vez mais subordinado à política e aos métodos petistas. A história (inclusive recente) é muito importante para a caracterização das tendências políticas. Por isso, abandoná-la não é um bom remédio, e ademais abre caminho a ideias desenraizadas do processo histórico e promovidas a categorias da razão pura.

Bem, a história importa muito para entender determinados processos de pensamento. Esse artigo embaraçoso de Valério corresponde às façanhas do Resistência no curto período de 30 dias. Nas eleições dos EUA, essa corrente do PSOL, em primeiro lugar o próprio Valério, conseguiu gerar simpatia a Joe Biden, indicando possibilidade de voto no Democrata imperialista como forma de rechaçar o xenófobo Trump. Nas eleições municipais brasileiras, não mediu esforços para aliar, no Recife, a diluição na campanha de Marília Arraes do PT (coligada no segundo turno com ilustres direitistas como PTC, PL, Podemos e PTB), com o chamado de voto no golpista Eduardo Paes do DEM do Rio de Janeiro, partido herdeiro do ARENA da ditadura militar, constrangendo inclusive os aderentes da já lamentável teoria do “mal menor”. Não espanta que no segundo turno de São Paulo tenha louvado acriticamente a frente ampla do PSOL com burgueses e golpistas da Rede, PSB e PDT.

Diante de desagradáveis constrangimentos políticos, a teoria é escravizada para enquadrar a amarga realidade aos atos dos apóstolos do possibilismo. Afinal, como conter o debilitamento organizativo e o descontentamento da própria militância do Resistência, obrigada a votar em Paes e no DEM, se não dizer que “isso é o viável” para a esquerda brasileira? E que ninguém se atreva a criticar o Resistência, sob o risco de receber espalmado no rosto todos os seus vícios sectários. Os critérios para analisar toda e qualquer tendência política – a saber, aquilo que faz na realidade, seu programa e sua estratégia – não pode ser utilizada para avaliar o Resistência, segundo Valério; somos obrigados a usar como critério aquilo que o Resistência pensa de si mesmo para dar um veredito sobre sua política, e aceitar as consequências.

Pode parecer “menos sectário”, especialmente consigo mesmos, mas devemos dizer que isso “não parece muito marxista”. Apesar de romantizar sua política, não precisamos ir além do voto no DEM de Eduardo Paes para concluir que, no “laboratório da história”, o Resistência passou longe da independência de classe.

Esclarecido isto, podemos passar à principal “categoria pura” que Valério nos quer deixar. A saber: diferentemente da Argentina, no Brasil não há espaço para construir partido revolucionário. Pobres de nós, pecadores, que não entendemos o “fracasso da tática revolucionária”, e que não aceitamos o voto no DEM.

Até então, para os marxistas, que objetivam a transformação revolucionária da realidade, determinada forma de partido deve responder a determinada época; mesmo aqueles que, como Daniel Bensaïd, histórico dirigente do trotskismo francês, defendeu a dissolução da ex-LCR (Liga Comunista Revolucionária) no Novo Partido Anticapitalista (NPA), em 2009, justificando-a com a ideia de que havia surgido no mundo uma nova época distinta daquela época aberta com a Revolução Russa de 1917, fechada definitivamente com a restauração capitalista na União Soviética e no Leste europeu. Mas Valério parece considerar que determinados partidos respondem a determinadas características endógenas de determinados países, suas possibilidades tendo de ser buscadas na “evolução econômico-social e política nos dois países”. As diferenças históricas – teimosa história que não esquece os autores que se esqueceram dela! – entre Argentina e Brasil, inegáveis para além da interpretação que se tenha delas, explicariam porque certos experimentos partidários estariam fadados a fracassar em nossa República dos Bruzundangas. Em síntese, diferentes países comportam diferentes tipos de partido, e no Brasil “promissor” é a construção de partidos amplos como o PSOL. Bastaria para isso mirar os modestos, resultados eleitorais e “descobrir” o espaço político que o PSOL veio galgando no regime.

Não precisamos ser naturalistas para entender que nem tudo o que cresce é virtuoso. A direitização da política nacional do PSOL nessas eleições, que abandonou qualquer combate ao regime do golpe institucional (aumentando sua integração nesse regime golpista), aliando-se com DEM, MDB, PSC, PSDB, Rede, PSB, PDT e muito mais a nível nacional, não foi um elemento menor para o desenho de seus resultados eleitorais. Responder corretamente ao problema do golpe institucional é certamente importante (ainda que algumas correntes do PSOL, como a CST e o MES, tenham apoiado o impeachment e a Lava Jato de Sérgio Moro); mas não é a única tarefa. Uma resposta correta exige independência de classe diante de todos os experimentos de conciliação dos governos ditos “progressistas” na América Latina na década de 2000. Coisa que se vê do outro lado da fronteira com a Frente de Esquerda argentina (voltamos em seguida sobre ela), e não do que desse lado por parte do PSOL.

Reconhecer as diferentes trajetórias nacionais, entre distintas formações econômico-sociais, não significa negar o caráter de época e os nexos internos da economia mundial capitalista, muito menos de flexibilizar o caráter do partido que precisamos segundo fronteiras nacionais.

Partidos revolucionários: para uns, e não para outros

A desistoricização do processo de constituição de partidos políticos com um programa revolucionário não é nova. Eduard Bernstein, um dos principais dirigentes da socialdemocracia alemã, considerou que Marx e Engels haviam exagerado as tendências do capitalismo às crises e a importância da luta de classes. Bernstein via um crescimento cada vez mais harmonioso das forças produtivas que tornava possível um futuro socialista sem a necessidade de revolução. Os grandes choques, crises, guerras e revoluções pareciam gradualmente ficar para trás, como coisas do século XIX. Sua conclusão foi negar a necessidade de um partido revolucionário para a próspera Alemanha, e afirmar a pertinência de que o Partido Socialdemocrata Alemão (SPD) se tornasse um partido “amplo” de massas (que unia a retaguarda da classe operária com sua vanguarda). Karl Kautsky também “teorizou” sobre a impertinência de um partido revolucionário na rica Alemanha industrializada, a partir de 1910, no calor da sua elaboração sobre a estratégia de desgaste, segundo a qual a chave passava por um acúmulo de forças em que a perspectiva revolucionária ia sendo progressivamente relegada a um futuro indeterminado – concepção combatida brilhantemente por Rosa Luxemburgo. Finalmente, os mencheviques russos, que defendiam estrategicamente o papel coadjuvante da classe trabalhadora numa revolução que colocasse todo o poder político nas mãos da burguesia russa (produto da queda da autocracia), entre 1903 e 1917, traduziam essa concepção na impossibilidade do surgimento de um partido revolucionário na atrasada Rússia. O Partido Bolchevique, dirigido em 1917 por Lênin e Trótski, seria uma aberração política tão impermissível quanto a própria Revolução de Outubro. Ambos ocorreram, apesar de tudo, porque atendiam às necessidades da história.

Todos eles, cada um a seu momento e com particularidades próprias, se opunham em comum à possibilidade da revolução socialista em nossa época, e por isso negavam a necessidade de um partido revolucionário, e davam razões “nacionais” para isso. Na segunda metade do século XX, a partir da implosão da Quarta Internacional em 1953 produto do cenário aberto pela Segunda Guerra Mundial, várias correntes do trotskismo abandonaram a perspectiva da independência de classes e a crença na possibilidade da revolução, concluindo daí o abandono da construção de partidos revolucionários, alterando o eixo “nacional” do argumento.

A “tese” dos países maduros e não maduros para a construção de um partido revolucionário é uma pálida repetição, atrasada e talvez sem a mesma criatividade, das pressões materiais que uma etapa de derrotas impõe sobre a classe trabalhadora, favorecendo suas tendências conservadoras – ainda que em nosso caso a etapa neoliberal, plena de derrotas, esteja padecendo todas as crises existenciais oriundas da Grande Recessão de 2008.

Brasil e Argentina: qual o debate?

A transição pós-ditadura na Argentina se deu, sem dúvida, com uma ruptura maior. Mas houve claros limites ao debilitamento do peronismo: mesmo depois do ciclo de governos militares, de Juan Carlos Onganía a Alejandro Lanusse (1966 a 1973), seguido pelo ciclo entre Jorge Videla e Reynaldo Bignone (entre 1976 a 1983), o peronismo seguiu sendo a corrente hegemônica no interior do movimento operário, com suas distintas alas. Os governos de Carlos Menem, Eduardo Duhalde, Néstor e Cristina Fernández de Kirchner atestam essa influência. Não havia um “terreno virgem” para a construção de partidos revolucionários no movimento operário argentino, como dá a entender Valério; esse espaço “saturado” pela burocracia peronista, e por sua “ala esquerda” kirchnerista, seguiu tendo um peso específico importante para a contenção da luta de classes e de uma consciência revolucionária nos meios operários, o que se mostrou muito útil no pós crise de 2001 com as jornadas revolucionárias que abriram caminho à década kirchnerista.

Com as contradições políticas e sociais surgidas do governo kirchnerista na década de 2000, momento de bonança internacional pelo superciclo dos preços das matérias primas (e com certa recomposição subjetiva das massas), começou a se desenvolver nas fábricas processos de “sindicalismo de base”, classistas e antiburocráticos, em alguns lugares da Argentina, em especial na província de Buenos Aires. Tendo como base a saída à luta de amplos segmentos da classe trabalhadora para "ganhar sua parte" nesse ciclo econômico favorável internacionalmente, a cristalização desse fenômeno (que depois, com a FIT, deu origem a um "sindicalismo de esquerda", entre os apoiadores operários da Frente de Esquerda nas fábricas através do país) foi o resultado da intervenção decidida dos revolucionários de participar e impulsionar um movimento da realidade. Nesse caso concreto, resultado da iniciativa do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), que havia se inserido nas fábricas no período anterior. Essa inserção prévia nas fábricas e a participação decidida em grandes processos de luta de classes em toda a década (Zanon e Brukman; Mafissa; Kraft; Lear e Donnelley-Madygraf; Pepsico) foi fundamental para o fortalecimento e ampliação da influência da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, especialmente a partir de 2013, com um programa de enfrentamento à hegemonia do peronismo na classe operária e nas massas, de independência de classes e que dizia abertamente seu desígnio de uma governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

No Brasil tampouco havia “espaços virgens” para a construção de partido revolucionário; este só poderia ver assentada suas bases enfrentando os limites da estratégia da conciliação petista, que passou por várias fases heterogêneas de desenvolvimento. Não tendo a mesma origem que o peronismo, uma corrente nacionalista burguesa, o PT emergiu do seio das grandes greves operárias do ABC paulista contra a ditadura militar, sob a liderança de Lula e dos “sindicalistas autênticos”. Surgido como um partido operário em 1980, adquiriu hegemonia sobre a classe trabalhadora, mas o fez sem nunca ter possuído um programa revolucionário e internacionalista, desenvolvendo como parte do seu DNA a vocação de integrar o movimento dos trabalhadores aos limites permitidos pelo regime burguês que saía da ditadura militar, o que implicava aceitar a tutela dos militares sobre o processo da Constituinte de 1986-88.

Com sua experiência na presidência dos assuntos capitalistas no país, terminou de estabelecer-se como um partido operário-burguês, tendo uma base social votante tributária aos trabalhadores (ainda que enfraquecida) e diretamente vinculado à defesa da governabilidade institucional do Estado capitalista. As Jornadas de Junho de 2013, que tiveram como estopim a estafa contra o aumento do preço no transporte público, tinham um grande potencial de fazer emergir uma força social à esquerda do PT. Com o governo de Dilma Rousseff, a resposta petista foi repressão e concessões mais poderosas à direita, a fim de extirpar as massas das ruas, num momento em que já se havia terminado a bonança dos preços das commodities e diminuído o fluxo de dólares aos países da periferia capitalista, resultado da crise de 2008. A direita se aproveitou do momento para fazer valer seu programa reacionário, que tinha como aríete a Lava Jato e que redundou no golpe institucional.

Apesar de Valério “esquecer” do papel do PT em abrir caminho para a direita (como esquecer da repressão comum entre Haddad e Alckmin em São Paulo, durante os protestos de 2013?), a política petista foi responsável direta para o desenlace de 2016. Sua influência hegemônica no movimento de massas foi utilizada por Lula, o PT e suas centrais sindicais para paralisar as massas e desmoralizá-las no curso político que levou a Bolsonaro. É um indício de como a esmagadora maioria da esquerda brasileira, inclusive a corrente de Valério, não buscou tirar lições do conciliacionismo petista e das correntes “pós-neoliberais” na América Latina.

Essa é a discussão concreta. Disso se segue uma diferença notável entre Brasil e Argentina: está na decisão de uma organização revolucionária de superar pela esquerda o peronismo, enquanto no Brasil as organizações da esquerda que historicamente se adaptaram ao PT buscam repetir-lhe tragicamente os mesmos passos de conciliação de classes.

Duro com os revolucionários, suave com o PT

A desistoricização se converte em omissões históricas importantes no relato do Resistência. Ao mencionar as diferenças frente ao processo de transição da ditadura na Argentina, uma ruptura mais profunda, Valério diz que no Brasil a ruptura se deu com maior concertação porque a direção do movimento de massas “nunca escapou das mãos dos representantes da fração burguesa liberal”. Mas e Lula e a burocracia sindical dos “autênticos”? É como se Lula não existisse como direção das grandes greves do ABC, iniciadas em 1978, que fizeram irromper na cena política o movimento operário, que aglutinou atrás de si todos os setores sociais opositores à ditadura, e que foi derrotado pela estratégia de conciliação de classes dos “autênticos” de Lula. Nessa leitura da transição brasileira, o PT está perdoado por ter construído ativamente a contenção da classe trabalhadora dentro de limites aceitáveis para a doutrina de segurança nacional dos militares, e em última instância pelo bloqueio da possibilidade de derrubada da ditadura por via revolucionária. Do perdão vem a esperança. Ainda que “improvável” depois de quatro anos do golpe institucional, Valério não considera impossível que “a corrente majoritária do PT, paralisada pela inércia, venha a se dividir liberando forças para uma nova direção”.

Parafraseando Trótski, que em 1934 expunha com sagacidade, em diversas cartas, as características políticas do centrismo, Valério é corajosamente duro com os que querem construir um partido revolucionário no Brasil, mas arrulha como uma pomba para a direção reformista do PT. O centrismo no movimento trotskista possui distintas formas de expressão, de oportunistas a sectárias, o que se relaciona com diferentes graus de “liquidacionismo”, mais aberto (os que declaram o fim da estratégia revolucionária e a necessidade desconstruir partidos de acordo com isso) ou mais encoberto (os que têm uma prática que conduz a resultados parecidos). O Resistência se inscreve nessa última vertente.

Esse é um grande critério para classificar social e politicamente uma corrente de esquerda. O apetite por alianças com burgueses e golpistas, a vocação por chamar voto no DEM, os malabarismos para explicar por que os golpistas do PSB em Recife são ruins, mas os de São Paulo são bons, compõem um quadro que leva à repetição da tragédia da conciliação de classes petista no Brasil, não importa quão largamente se fantasie com os “jantares de Marx com Bakunin e Lassalle”...

A verdade é que nossa época exige uma estratégia para construir as bases de partidos revolucionários a nível nacional e internacional. Ao contrário disso, o Resistência justifica seu inveterado nacional-trotskismo falsificando a importância da experiência da esquerda argentina para toda a América Latina.

Não está descartado teoricamente que, em determinadas fases, a construção de um partido leninista de combate passe pela atuação em algum partido anticapitalista amplo. Um exemplo notável é o da França, no mesmo NPA que mencionamos anteriormente. Nossos companheiros da Corrente Comunista Revolucionária (CCR), membros da Fração Trotskista, se incorporaram ao NPA e criticaram desde o início as bases programáticas fundacionais do partido, indicando que o objetivo tinha de ser um partido revolucionário dos trabalhadores, sem ambiguidade estratégica. Através dos processos da luta de classes, como o dos Coletes Amarelos (Gilets Jaunes) em 2018 e a luta contra a reforma da previdência de Macron em 2019, nossos camaradas da CCR, que editam o Révolution Permanente, tiveram um papel muito ativo e alcançaram um importante fortalecimento militante e em influência política, tornando-se a principal corrente de extrema esquerda no NPA e enfraquecendo a direção majoritária oportunista desse partido amplo. Pode-se constatar esse fato lendo a imprensa burguesa na França, como a nota do Le Parisien que reflete o enorme impacto das aparições televisivas do dirigente ferroviário “revolucionário e marxista” Anasse Kazib, membro da CCR/NPA; ou essa nota de uma importante publicação especializada em mídias (Arrêt sur Images) ou o explícito reconhecimento do papel da CCR e do Révolution Permanente na “Coordenação RATP-SNCF” (rodoviários e ferroviários da região parisiense) durante a luta contra a reforma da previdência por parte da conhecida revista International Socialism, impulsionada pela corrente referenciada no Socialist Workers Party da Grã Bretanha, que Alex Callinicos integra (e com a qual mantemos diferenças históricas).

Toda esta atuação está a serviço de construir as bases de um partido revolucionário na França, e prospera, como mostra a própria realidade. A ameaça de ruptura do NPA por parte da atual direção mandelista é uma resposta direta à nova correlação de forças interna, causada não por um processo eleitoral, mas como resultado direto da intervenção na luta de classes.

O papel do Resistência no interior do PSOL é o de fortalecer a linha oportunista da atual direção majoritária desse partido amplo, de separação taxativa do terreno da luta de classes e de maior integração ao regime do golpe. O Resistência faz isso enquanto perde militantes aos cântaros. Por que isso seria um sinal de “maior viabilidade”?

A grande experiência da FIT argentina e uma mudança para toda a esquerda latino-americana

Já a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) na Argentina, que está composta pelo PTS, o PO, a Izquierda Socialista e o MST, é por seu programa de independência de classe e de defesa explícita de um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo uma alavanca importante para a defesa da constituição de partido revolucionário. Mas não garante de maneira fatalista que assim seja. Sempre defendemos que a FIT é uma importante conquista tática, mas que não substitui um partido unificado dos trabalhadores socialistas. E para que esse partido surja, sobre as bases conquistadas, não é possível ocultar as enormes diferenças de programa, estratégia e prática política entre as forças que o compõem. Diferenças que ficaram claras, por exemplo, no principal conflito da luta de classes na Argentina em 2020, a dos trabalhadores de Guernica por direito à terra e moradia, contra a repressão do governo Alberto Fernández. Nessa batalha de classes, o PTS girou todas as suas forças para unificar os segmentos formais e informais da classe trabalhadora, atuando junto aos moradores de Guernica, desvelando a verdade através do La Izquierda Diario contra as mentiras da grande imprensa, utilizando as tribunas parlamentares para avançar a luta extraparlamentar. Essa decisão tornou o conflito um tema nacional, que desprestigiou o governo peronista/kirchnerista diante da brutal repressão policial para o despejo das famílias. Algo bem distinto das outras correntes da FITU, que se destacaram ou pela omissão ou pelos obstáculos ao surgimento de organismos de auto-organização democráticos entre as famílias em luta.

Isso ocorre não por “messianismo argentino”, ou porque esse país pode comportar um tipo de partido que outros não podem. É uma decisão estratégica atuar dessa forma. Por isso, o PTS, que é a força política predominante na esquerda argentina, busca discutir fraternalmente com as demais organizações que compõem a FIT a necessidade de abrir o debate programático e estratégico entre as correntes, e explorar as possibilidades para avançar no projeto comum de um partido leninista de combate, que como se debateu na Conferência Nacional do partido passa por construir instâncias de auto-organização entre os setores mais precarizados da classe trabalhadora e liga-los aos setores com melhores direitos, avançando a construção de frações revolucionárias no movimento de massas.

A experiência da FIT pode abrir caminho à construção das bases de um partido revolucionário na Argentina, o que modificaria a história da esquerda em toda a América Latina e no mundo. O desprezo de Valério por essa perspectiva sintetiza uma mentalidade rotineira que se move por clichês, cético de qualquer possibilidade de que o marxismo revolucionário volte a se fundir com a classe trabalhadora na forma de partido.

No Brasil o enfrentamento à extrema direita não é a única tarefa: é preciso superar o PT dialeticamente pela esquerda, e construir um partido revolucionário. A história nos mostra que os que renunciam a essa perspectiva em nome da construção de partidos amplos como estratégia terminam repetindo os fracassos de experiências como o Syriza e o Podemos, que fortaleceram o reformismo em seus países. A lamentável política do Resistência robustece o PT, ou reedita sua experiência no PSOL, sem sua originária base operária.




Comentários

Deixar Comentário


Destacados del día

Últimas noticias