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CORONA VÍRUS

#QuedateEnCasa: uma missão quase impossível para as precarizadas

O “pedido” do presidente de “ficarmos nas nossas casas” deixa muito a desejar, sem declarar quarentena para os trabalhadores, nem garantir as licenças pagas por responsabilidade das empresas, a realidade de muitoas de nós, estudantes, mães e trabalhadores, fica cada vez mais complexa.

terça-feira 17 de março| Edição do dia

Artigo traduzido do Izquierda Diario Argentina. A hashtag #QuedateEnCasa significa fique em casa.

No fim da tarde de domingo, o presidente (NdT: Alberto Fernández, da Frente de Todos) anunciava uma quantidade de medidas que deixam muito a desejar para uma grande quantidade de trabalhadores. Há um tempo, o Ministro do Transporte disse que a partir da quarta-feira (25) não existirão meios de circulação. A hashtag #quedateencasa segue invadindo as redes sociais com vídeos e conselhos que buscam dar tarefas com as quais ocupar o tempo livre da quarentena.

Enquanto muitas de nós tratamos de nos organizar para ver como fazer, porque nos nossos trabalhos não existe “fique em casa”, vemos Ministros como Trotta declarando na TV que não são férias, como se os trabalhadores pudessemos dedicar tempo ao lazer ou para preparar uma viagem.

Entre minhas companheiras de estudo no terciario (NdT: Faculdades de formação de professores na Argentina), onde nos preparamos para sermos trabalhadoras da educação, a maior parte somos mulheres que desenvolvemos tarefas de limpeza, cuidado de crianças e idosos, sem nenhum registro, trabalhando de forma precária ou terceirizada. E quando soubemos da notícia, estourou nossa raiva. Como pode ser que não possamos estudar, mas sim trabalhar? Como fazemos para nos organizarmos se, além de tudo, como muitas, somos mães solteiras ou chefes de família? O Sr Ministro sabe que o leite está ao redor de 60 pesos?

Estamos fazendo malabarismos para que nossas crianças não saiam nas ruas. Porque ainda que as crianças não sejam população de risco, o Presidente da OMS anunciou que existiam casos de crianças mortas… E tudo isso escutamos enquanto fazemos chamadas aos nossos avós, pais ou alguma amiga que nos salve para podermos ir ao trabalho em algum meio de transporte lotado. Claro, porque sem declarar a quarentena para os trabalhadores e trabalhadoras, nem garantir as licenças pagas (seja qual seja a relação contratual) e isso sem falar da proibição de demissão, estamos obrigadas a sair das nossas casas.

Trabalhar desprotegidas

E o que acontece então com aqueles pais que não tem com quem deixar seus filhos?
Então falo com minha companheira do Normal, o terciario onde estudo, e Mariela me comenta que também não tem com quem deixar seus filhes. Ela, que trabalha como terceirizada da limpeza em um hospital conta que “estamos em uma situação difícil. Minha companheira por exemplo me pediu que cuidasse da filha”, e fecha a conversa dizendo que “no âmbito do trabalho segue sendo praticamente a mesma coisa, com exceção que me pedem que eu limpe tudo com alvejante em vez de usar produtos multiuso… Mas por ser pré-paga vem gente que pode chegar a ter Coronavírus ou estar gripados ou algo do gênero, e tenho que ter cuidado constantemente. O que acontece é que quando chego em casa tenho que tomar banho imediatamente, pelo próprio cuidado em si e porque tenho dois menores de cinco anos em casa”.

E obviamente que em uma situação de crise sanitária as empregadas da limpeza nas clínicas tem trabalho em dobro e pelo mesmo pagamento. Mari ainda por cima não é efetiva, trabalha como terceirizada como muitas das nossas companheiras que se dedicam a tarefas de limpeza expondo suas vidas. Isso fica evidente quando acontecem pandemias como esta, com as que não recebem nem os insumos necessários, nem a proteção necessária. Mas assim como o Estado busca “se lavar as mãos” em relação aos trabalhadores, terceirizando a mão de obra, mas também são estas mulheres (e muitas outras mais) as que são silenciadas pelos meios de comunicação e jornalistas que não mencionam como vamos levar adiante uma quarentena na qual nos obrigam a trabalhar desprotegidas.

Grupo de risco: a superexploração em casa e a ameaça da perda de emprego

No meu caso, fico em casa com minha filha, trabalhando no computador enquanto a cuido, porque ela está doente com laringite e eu sou parte do grupo de risco, me controlam o tempo todo. Esperam que eu tenha o mesmo rendimento trabalhista, quando tenho que cuidar da minha filha de 3 anos ao mesmo tempo, limpar a casa, garantir sua alimentação e cuidado. Mas não é o caso de todas, nem sequer da maioria. Gise, outra das minhas companheiras do terciario, que trabalha em uma clínica privada, me comenta: estamos em um momento de muito trabalho, estamos sobrecarregadas e recebendo a mesma grana. Ao mesmo tempo que não declaram quarentena para todos, se não vamos trabalhar nos descontam 6000 pesos por dia descontado. Alguns vem trabalhar inclusive doentes”.

Barbi, que trabalha em uma escola, me conta em um áudio que na sua escola “na semana passada a diretora comprou sabonete e repelente do próprio bolso porque o governo não mandou. E as aulas ainda não estavam suspensas”.

Ela trabalha na Capital Federal, em uma escola primária, como auxiliar. Seu testemunho se soma a outras denúncias de professores que contam e viralizam como não existem nem insumos básicos para limpar e desinfectar nossos espaços de estudo, enquanto denúncias do governo Larreta saem vêem a luz, por entregar sanduíches nas escolas como se essa fosse uma “medida anti-crise”, depois que 37 crianças se intoxicaram por consumir essa mesma comida em péssimo estado.

O Estado deve garantir abastecimento de álcool em gel, luvas, máscaras, sabonete e tudo que é necessário para levar adiante uma correta esterilização. Que as empresas que produzem estes elementos ou medicamentos coloquem sua produção em função de combater a pandemia e não em especular com as nossa vidas. O não pagamento da odiosa e ilegítima dívida permitiria que exista dinheiro para poder garantir as licenças, espaços seguros para as famílias nas ruas e a realização massiva de exames. Podendo conformar um sistema de saúde único, estatal e sob a gestão de seus trabalhadores à serviço de atenuar a crise sanitária.

Parece uma piada de mal gosto, mas é mais complexa ainda quando se lembra que na zona sul o problema mais urgente é a presença cada vez mais alta de casos de dengue. Que não nos digam que são eles os que cuidam da saúde, da educação e do alimento das crianças.

Já é noite, minha filha dorme, e eu penso que em cada uma das minhas companheiras existe uma realidade difícil e diferente, mas também comum: somos jovens, somos mães, trabalhamos e a maioria precarizadas, sem direitos, sem chegar ao fim do mês, fazemos malabarismos para poder estudar… e estamos mastigando raiva.

Que nos unamos aos nossos companheiros e companheiras de trabalho e estudo, aos professores, a toda a comunidade educativa e às famílias trabalhadoras das escolas, que ergamos Comissões de Segurança e Higiene em cada lugar de estudo e trabalho, para que as medidas indispensáveis sejam garantidas, como as licenças pagas e o acesso à saúde, porque em primeiro lugar estão nossas vidas. E sim… não estamos de férias.

Artigo de Giselle Quiña, estudante do Joaquín V. González e militante do Pan y Rosas




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