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Crônica | Por que se tornou mais fácil acreditar no fim da humanidade do que acreditar na possibilidade de construir conscientemente um futuro livre do capitalismo?

Veja aqui a Crônica de Virgínia Guitzel.

Virgínia GuitzelTravesti, trabalhadora da educação e estudante da UFABC

sexta-feira 17 de setembro | Edição do dia

Começando mais um quadrimestre, e me surge essa angústia em forma de pergunta em meio a uma aula de Desenvolvimento e Sustentabilidade. Vejo as pessoas da minha sala bem desanimadas, Mais uma vez estamos estudando como o capitalismo está destruindo o planeta, e como isso tem acontecido de um jeito cada vez mais acelerado. Esse é daqueles temas espinhosos que a gente tem dificuldade até de olhar, porque quando a gente encara mesmo, parece que não tem saída.

Mas eu me pergunto, como para a nossa geração, que tem nas mãos as possibilidades de olhar para o passado, para entender que o capitalismo “é só o presente”, que não foi sempre assim, que muitos que nos antecederam deixaram experiências valiosas sobre como atacar esse sistema predatório pela raíz, eu me pergunto, como ainda assim parece mais concreta a perspectiva apocalíptica a la Black Mirror ou outras séries distópicas que se multiplicam nos streamings que “maratonamos” cotidianamente.

Minha cabeça volta pra aula: ainda nem passamos das apresentações, do cronograma da matéria, de quando a aula vai ser síncrona ou assíncrona e em qual plataforma de estudo. A inquietação me toma de novo, “não consigo sequer conhecer meus colegas de turma, nem falar de refletirmos juntos e a fundo sobre o que estudamos pra pensar como transformar essa realidade”. E olha só a contradição, apesar de estarmos numa universidade pública, federal, grande parte da produção científica e ideológica ainda é, no fundo, colocada a serviço de reproduzir essa mesma sociedade que queremos transformar, de reproduzir a lógica do lucro acima das vidas e da ciência, uma lógica predatória do meio ambiente e da própria humanidade, onde a própria pandemia é expressão disso.

Mais uma vez “volto para a aula”, o professor indicou dois documentários para introduzir o tema da matéria, o “Dia da Terra” e “A Sombra de um Delírio Verde”. Esse segundo relata a história de um povo originário chamado Guarani-Kaiowá, o que me fez lembrar de como soube de sua luta, em um momento em que o movimento estudantil que buscava se contrapor à direção da UNE, levantava a luta indígena como parte de suas bandeiras.

A batalha contra a construção da Usina Belo Monte foi a primeira vez que tive contato com a luta indígena para além dos relatos folclóricos dos livros da escola, que os tratavam como povos atrasados, que tinham parado no tempo, em 1500, quando os portugueses chegaram aqui. Os emocionantes relatos dos líderes indígenas nesses congressos estudantis eram uma fonte de energia para uma recém convertida ao marxismo, e que começava a entender que o motor da história é a luta de classes. Nessas falas eu lembro que transbordava a combatividade dos indígenas pelo seu direito ao futuro, em que um deles inclusive ameaçava explodir com dinamites se fosse preciso para que o governo (na época do PT, vejam a ironia) não avançasse sobre as suas terras. Nesse momento lembro que tudo o que eu achava saber não passava da própria narrativa dos “vencedores”, que buscam apagar a heróica resistência do passado e, assim, qualquer perspectiva de superação da miséria presente no futuro.

Certa vez, um grande amigo chamado Iuri, deu uma palestra sobre o tema da dialética para um monte de jovens em um acampamento da Faísca. Ele começou de uma maneira inusitada, falando sobre cientistas, físicos e matemáticos em particular. Ele foi contando sobre os avanços com que cada um, em seu tempo, foi contribuindo para a história e para o conhecimento de uma maneira geral, em que os sucessores se apoiavam sobre os ombros de seus antecessores para conseguir enxergar cada vez mais longe.

Foi então que Iuri perguntou a todos ali se, quando um matemático superava o outro, encarávamos aquele primeiro como um fracasso. E complementou: teria sido em vão o trabalho do primeiro, uma vez que anos depois seriam descobertos seus eventuais erros e limitações? Na lógica capitalista, provavelmente essa seria uma das sínteses do fracasso, mas para o marxismo revolucionário, em seu método científico de enxergar a realidade através do materialismo histórico, um contundente “não” seria a resposta.

Sem a dedicação e desenvolvimento desses que nos antecederam, com as condições e potencialidades que tinham à mão, sejam eles matemáticos, indígenas, povos escravizados, o próprio proletariado, não teríamos hoje condições de enxergar, tampouco ir, para muito além da miséria do possível que temos hoje. O passado de lutas e resistências, de inacreditáveis e revigorantes histórias de insubordinação e insurreição, não podem ficar restritos à ideia de um passado que já acabou, pelo contrário, esses processos são uma experiência acumulada que pode ser ponto de apoio no presente para acumular as forças materiais e morais necessárias para a superação definitiva da miséria (material e de perspectiva) da sociedade em que vivemos.

Minha cabeça percorre todas essas experiências pessoais para tentar entender porque ainda é tão preponderante, inclusive nos meus colegas de sala, o ceticismo e o pessimismo que restringem nossa visão do futuro, onde parece que o horizonte possível se reduz a viver com a depressão, com o agravamento dos problemas ambientais, com os preconceitos e a desigualdade social.

Buscando a experiência de um dos grandes que nos antecederam, um revolucionário chamado Leon Trotsky, que elaborou sobre o tema da revolução em todos os níveis, trago aqui a poesia de uma citação em que ele fala sobre o otimismo e o pessimismo (temas também candentes na virada do século passado quando ele escreveu o texto):

“O primeiro, geralmente, liga o otimismo ao misticismo: nada mais conveniente que, colocando a responsabilidade pelo curso das coisas terrenas em forças sobrenaturais, confiar inteiramente em sua benevolência e, cruzando os braços sobre o peito, ponderar sobre o fato de que “o mundo não foi criado por nós e não vai terminar junto conosco” [...]

O pessimista absoluto é o espírito da negação, o espírito da dúvida, um produto de momentos históricos difíceis, quando o porvir não é claro, e o futuro “ou é vazio ou é sombrio”, quando a desarmonia social atinge uma tensão suprema... Esse pessimismo pode criar um filósofo, um poeta lírico (Schopenhauer(7), Leopardi(8)), mas não pode criar um militante. Les éxtremités se touchent (os extremos se tocam). Os dois últimos tipos, apresentando, aparentemente, uma contraposição absoluta um ao outro, tocam-se em um ponto extremamente importante: ambos são passivos”.

E essas palavras me fazem sentido porque, afinal, não é esse justamente o caráter do nosso ceticismo muito bem instrumentalizado pelos de cima em tempos como esses? De olhar para trás e encarar todos os que nos trouxeram até aqui, através de suas experiências históricas, como derrotados. Alimentando a nossa impotência, nos empurrando para a passividade e o fatalismo, deixando as nossas forças potenciais inertes para deixar passar os “donos do mundo” e sua sanha predatória contra o nosso futuro?

Nessa lógica se aplica o longo período que estamos vivendo sem a experiência de processos revolucionários, que alimentam o discurso capitalista de que o “socialismo fracassou”, que tenta jogar na lama reacionária do stalinismo as experiências revolucionárias e suas potencialidades para a emancipação e libertação humana como as que tiveram lugar nos primeiros anos da revolução russa de 1917 e em outros processos que foram derrotados em várias partes do mundo.

Voltando ao mesmo texto do Trotsky, me lembro ainda do conselho ao qual me agarrei, quando ele diz:

Finalmente, o terceiro tipo, para o qual recomendamos reforçada atenção do leitor, não está conectado ao passado nem pela antipatia nem pela simpatia: o passado lhe interessa apenas na medida em que dele nasceu o presente, e o presente, na medida em que dá um ponto de apoio para a criação do futuro. E esse futuro, oh!, possui inteiramente suas simpatias, suas esperanças, seus pensamentos... Esse terceiro tipo pode ser caracterizado como pessimista do presente e otimista do futuro”.

Sei que a minha geração e as que vem chegando rapidamente, encontramos o capitalismo em estado terminal, mas que não vai cair por si só. Para se manter de pé, se arrasta moribundo recorrendo a figuras dos esgotos, como Trump, Bolsonaro, como também aquelas que riem numa mesa de banquete em cima da fome da maioria da população.

No entanto, a história não se torna o que eles querem, só porque eles “escreveram” até agora. Contra a “história oficial” temos o bom e velho Marx para lembrar que o verdadeiro motor da história é a luta de classes.

Esse motor é o que também me impulsiona a querer fazer parte dessa tradição de homens e mulheres que buscaram, cada um em seu tempo, estabelecer os fios de continuidade entre as experiências históricas de luta, mantendo viva nossas memórias, nossos aprendizados, nossas bandeiras.

Diante do horizonte cinza que o capitalismo descortina sob os nossos olhos, eu ainda defendo que há razões para ser um otimista do futuro a partir de experiências bem presentes, quando ainda seguimos com as cabeças levantadas, com nossos corações aquecidos pelo grito do Black Lives Matter, pelo grito dos povos originários em Brasília, em seus comitês de autodefesa na rebelião colombiana, na luta contra o golpe na Bolívia, na aliança operária-indígena em Neuquén na Argentina. A luta indígena é secular e parte fundamental da luta de classes na América Latina e ela deve nos trazer otimismo, porque não olhamos somente para a história que nos contam os vencedores, mas a força guerreira inquebrável que perdura até hoje.

Mesmo que as centrais sindicais que organizam milhares de sindicatos pelo país, e milhões de trabalhadores, façam de tudo para esconder a força que teríamos se estivéssemos organizados. Mesmo que os partidos políticos junto com a imprensa insistam em dizer que só podemos decidir em 2022 entre perder um braço ou uma perna, e viver de mal menor em mal menor. Mesmo que na acadêmia tenham nos dito que era o fim da história e que não podemos fazer mais do que assistir para onde os “donos do mundo” querem nos levar, nós podemos olhar para a história e encontrar Zumbi dos Palmares, e encontrar na sua recusa a abandonar a luta contra a escravidão - mesmo recebendo ofertas da Corte Real de libertação de Palmares em troca da desistência de ir por mais e mudar o mundo - um caminho a ser seguido.

O nosso passado é fonte de lições. Bolsonaro, Mourão, Militares e todo esses ratos que saíram do esgoto e gritam sobre terra plana e voto impresso são “apenas” o presente. O futuro é nosso, vamos ganhá-lo, porque a força dos nossos antepassados e dos milhões de explorados e oprimidos pelo mundo não está fracassada, é apenas um percurso difíicil, de um breve e curto momento dessa etapa, da luta pela libertação da humanidade de todas as formas atrasadas de opressão e exploração.




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