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Opinião | Os preços dos combustíveis, guerra e crise capitalista

Para explicar o absurdo aumento dos combustíveis que estamos vendo país afora, precisamos levar em conta dois aspectos fundamentais: o impacto da reacionária guerra na Ucrânia e das sanções imperialistas em uma economia mundial que já vinha com debilidades importantes e a política nefasta e privatistas de preços de Bolsonaro, Guedes e dos militares para a Petrobras.

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

sábado 12 de março | Edição do dia

O preço do petróleo do tipo Brent, referência para os mercados europeu e asiático e também usado pela Petrobrás, já subiu 20,55% desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, que já dura duas semanas. Os preços recentemente chegaram à marca histórica de cerca de US$ 140/barril, um valor quase 20% maior que o mais alto pico do petróleo na crise de 2008. Houve um aumento de mais de 40% em um mês.

Isso se dá porque a Rússia tem um papel bastante relevante no mercado internacional, como uma das principais exportadoras de petróleo e gás natural, com produção de cerca de 7 milhões de barris por dia. A dinâmica da guerra, por si só, havia elevado os preços do barril de petróleo, mas a nova sanção imperialista imposta pelos EUA de proibição à compra do petróleo russo pressiona ainda mais a restrição de oferta.

É diante disso que a Petrobras anunciou um aumento da gasolina em 18,8%, do gás de cozinha em 16,1% e do diesel em 24,9%. Algumas cidades brasileiras já registraram preços na casa dos R$10,00 e filas enormes nos postos até acabar todo o combustível. Mas não são apenas fatores externos que impactam nessa dinâmica.

A Petrobras adota desde 2016 a chamada Política de Paridade de Importação (PPI), ou seja, deixa atrelado o valor da gasolina vendida em reais no Brasil aos preços internacionais em dólares. Isso beneficia única e exclusivamente os acionistas imperialistas, enquanto avança a passos largos a privatização da estatal. Essa política de entrega vem sendo realizada desde o governo tucano de FHC, mas foi continuada também pelo PT, chegando a níveis ainda piores no governo Temer e agora com Bolsonaro.

As vendas a preço de banana de refinarias, bem como a política de preços atual, em um país com auto-suficiência energética, é parte da obra econômica do golpe institucional de 2016, financiado pelo imperialismo para aprofundar os ataques que o PT já havia fazendo, capitaneado pelo conjunto do mais reacionário e podre da classe dominante brasileira, do agronegócio, bancada evangélica, militares, Congresso, STF etc. Descarregar a crise nas costas dos trabalhadores, abaixando seus salários, terceirizando, reduzindo seu padrão de vida e fazendo-os pagar pelo aumento dos preços - isso tudo é essencial para a burguesia continuar acumulando capitais em um momento de crise. Mas, como dizia Marx no Manifesto Comunista, a burguesia assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar os poderes infernais que invocou.

O fato é que a economia internacional já vinha de uma instabilidade importante, e a chance de maiores choques se torna ainda mais possível enquanto dura o conflito militar. A pandemia escancarou uma série de falhas no modelo de internacionalização produtiva baseada no modelo “just-in-time”, com várias interrupções na cadeia de suprimentos e a persistência de gargalos nas cadeias de abastecimento; as transformações econômicas impostas com as paralisações das cadeias de abastecimento escancararam uma potente contradição desse modelo. Essa dinâmica já estava aumentando significativamente os níveis globais de inflação, acompanhados com a desaceleração do crescimento da China e o baixo crescimento dos EUA. A guerra, nesse sentido, é mais um grande golpe, com consequências ainda não vistas que irão se alastrar por anos na vida das massas em todo o mundo.

Mesmo antes da guerra, em 2021, os combustíveis já lideravam a alta da inflação. No IPCA, principal índice inflacionário de referência, as altas acumuladas no ano passado foram de mais de 40% para os combustíveis de veículos no Brasil e 30% para os residenciais, muito acima da inflação geral (de 10,06% em 2021). A combinação do entreguismo de Bolsonaro e militares com a crise estrutural e histórica do capitalismo, expressa nessa guerra, se entrelaçam. As taxas de acumulação dos capitalistas já não consegue manter seus níveis pré-pandêmicos, algo que vem de uma debilidade também estrutural escancarada pela crise de 2008 na contradição entre o trabalho produtivo e a financeirização da economia, além das dívidas públicas cada vez mais gigantescas.

Nesse sentido, as sanções terão impactos indiretos em toda a cadeia produtiva. Além do custo relevante do petróleo e gás, toda a produção industrial que depende dos derivados será impactada. É o caso de plásticos, borracha e petroquímicos. O aumento nos preços de commodities agrícolas como o trigo são consequência direta também da guerra. Diante da invasão e tentativa de cercar o litoral sul, até Odessa, por parte de Putin, isso poderia piorar ainda mais. Além disso, metais como paládio e o gás neon, produzidos no país, são insumos críticos para produção de semicondutores - fundamentais na fabricação de tecnologias de ponta como o 5G, sistemas de satélites etc. Taiwan é o maior fabricante de semicondutores do mundo e é a menina dos olhos de Pequim para avançar em uma disputa à altura, mediante a alta tecnologia e seu emprego também militar, com o imperialismo estadunidense.

É nesse sentido que as disputas geopolíticas entre os Estados e a economia se entrelaçam, demonstrando uma rede complexa do mundo da internacionalização produtiva e suas contradições. Mas a história das sociedades até aqui é a história da luta de classes. Esse entrelaçamento complexo e mundial coloca uma grande contradição para a burguesia: hoje, a classe operária nunca foi tão grande, é a esmagadora maioria em quase todos os países do mundo, com um proletariado cada vez mais feminino, negro e imigrante. Cada vez mais se mostra crucial uma perspectiva radical e anticapitalista para que sejam os capitalistas que paguem pela crise, o que necessariamente precisa partir de uma visão internacionalista e de classe.

Nesse sentido, a luta no Brasil contra o aumento abusivo dos preços se cruza com a luta dos iraquianos contra a carestia de vida, das assistentes sociais e enfermeiras na Alemanha contra a guerra no 8M, das greves selvagens na Rússia por recomposição salarial. Todas estão interligadas por laços econômicos e de classe - e é preciso dizer também, de raça e de gênero - pelas consequências de uma guerra reacionária na qual ambos os lados são bandos reacionários. Diante de profundas crises e guerras, levantes, revoltas e revoluções estão cada vez mais colocadas para as novas gerações. O que falta aqui é, justamente, o elemento consciente e político, que questione o conjunto do sistema e qual o sujeito capaz de transformar isso em revolução, em uma sociedade sem exploração e opressão a nível global.

Se coloca mais do que nunca a atualidade do que Lênin denominou como uma época de “crises, guerras e revoluções”, a época imperialista do capitalismo. Fazendo jus à política internacionalista proletária dos bolcheviques, com Lênin e Trótski a frente, é preciso rechaçar essa guerra reacionária, pela imediata retirada das tropas russas da Ucrânia! Fora a OTAN e o imperialismo da Europa Oriental! Essa luta está intimamente ligada com uma perspectiva de unidade da classe trabalhadora internacional. Batalhamos no Brasil pelo Fora Bolsonaro e Mourão, combatendo o conjunto das instituições que nos trouxeram até aqui, como o Congresso e o STF, e com a revogação de todas as reformas ultraneoliberais; pela revogação dos preços do combustíveis e do gás, com uma Petrobras 100% estatal sob gestão dos trabalhadores e controle operário!

Editorial MRT: Diante da guerra na Ucrânia, é necessária uma batalha internacionalista por uma posição independente dos trabalhadores

Saiba mais sobre os efeitos da guerra no Brasil com o último programa do "Brasil não é para amadores", live quinzenal de análise política do Esquerda Diário:




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