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Editorial MRT | Militares desfilam por cima da fome e dos ataques: qual resposta nossa classe precisa dar?

Entre memes diante do ridículo e calafrios pela memória da ditadura, o desfile militar de Bolsonaro foi um passo adiante na retórica golpista. Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional também fez seu desfile: ataques, ataques e mais ataques. É preciso que a esquerda se unifique nos processos de luta que estão em curso, como a greve da MRV em Campinas, que começa a se estender para outras cidades.

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

quinta-feira 12 de agosto | Edição do dia

A última semana foi marcada por uma ofensiva na postura de Bolsonaro em relação a sua nova agenda do “voto impresso”. Enquanto mais de 20 milhões de pessoas passam fome no Brasil e fazem fila para comer osso, os militares revivem a ditadura. O desfile militar tinha um objetivo duplo: pressionar mais a votação no Congresso e ganhar posições em sua retórica golpista. Ocorreu depois do governo dos EUA enviar um representante para tentar “conter Bolsonaro”, uma tentativa claramente mal-sucedida, entre outros objetivos como o 5G e as preocupações com a China.

Ainda que estejamos vendo certo descrédito com os militares, que viraram chacota nacional, ambos objetivos foram relativamente alcançados, uma vez que a votação foi mais apertada do que a maioria dos analistas previam e o recado militar foi dado. O resultado disso é um processo ainda maior de degradação deste regime político no qual o governo, responsável pelas centenas de milhares de mortes no país, utiliza subterfúgios como o voto impresso para impor uma agenda de maior limitação aos direitos democráticos mais elementares, ao mesmo tempo em que segue aplicando ataques duríssimos contras as massas.

O rechaço a essa política de maior militarização do governo e do regime é urgente. A bandeira por Fora Bolsonaro, Mourão e os militares deve voltar a vigorar com força como mote central dos movimentos que se organizam nas manifestações de rua e nos processos de luta em curso pelo país. Entretanto, nosso ódio aos militares e sua herança da ditadura, bem como ao Bolsonaro e tudo que representa, não pode nos fazer fechar os olhos para alguns outros “desfiles” em curso: a quantidade de ataques contra a nossa classe, a juventude, os setores oprimidos e indígenas atingiram níveis escandalosos. Desde o golpe institucional em 2016, a burguesia conquistou posições importantes contra a nossa classe com a reforma da previdência e a reforma trabalhista, além da lei da terceirização irrestrita. De lá para cá se somaram muitos novos ataques. Mas, somente nas últimas semanas, podemos elencar alguns ataques históricos e emblemáticos, em particular a privatização dos Correios.

Depois da privatização da CEDAE no Rio de Janeiro, que foi usada por Bolsonaro como um caso “exemplar”, a privatização dos Correios é um emblema para avançar em cada vez mais privatizações que entreguem os serviços públicos e também as riquezas naturais nas mãos do capital financeiro e do chamado “setor privado”, degradando as necessidades de uma população que sofre com a pandemia, com o desemprego e com a inflação. Combinado a isso, o Congresso aprovou a MP 1045 que avança na precarização do trabalho e na retirada de direitos elementares como as férias e o 13º. As reformas tributárias e administrativa, que contém uma série de medidas de ataques aos trabalhadores em nome de “retirar privilégios”, também estão a pleno vapor. É a agenda de Paulo Guedes avançando para descarregar a crise capitalista nas nossas costas e impor uma situação de miséria para a população.

Ao mesmo tempo, os indígenas continuam sendo um alvo importante do governo Bolsonaro com a PL 490 e o Marco Temporal. Do ponto de vista dos direitos democráticos, vimos recentemente mais uma mostra do reacionarismo do judiciário, o qual não podemos depositar nenhuma confiança e que é parte desse processo de degradação do regime político: manteve preso por 14 dias, mesmo após um mandato de soltura, o entregador e ativista político Galo. Essas são apenas algumas das medidas que estão em curso contra a classe trabalhadora e o povo pobre.

A pergunta que recorrentemente viemos colocando em nossos editoriais é: se há tanta raiva contra Bolsonaro e todos esses ataques, por que essa raiva não está organizada em uma luta coordenada? Em nossa visão é porque as grandes centrais sindicais, como a CUT e a CTB, são dirigidas por partidos como o PT e PCdoB, que não querem organizar essa raiva em forma de luta de classes, mas sim mantê-la como descontentamento eleitoral rumo a 2022, garantindo que qualquer tipo de iniciativa seja fragmentada, espaçada no tempo e minoritária. Já foram muitos dias de luta e seguem havendo datas e manifestações, cada uma com uma pauta diferente, sempre legítima, porém fragmentada, dispersando energias e forças dos que querem se organizar para lutar. Porque para enfrentar Bolsonaro, Mourão, os militares e todos os ataques, não se trata de ações simbólicas ou manifestações controladas cujo objetivo é eleger Lula e sua “Frente Ampla”, inclusive com a direita, e sim de organizar efetivamente a classe trabalhadora e a juventude.

Greve da MRV em Campinas: uma luta que pode virar uma grande causa popular

Como apontamos, o fato de uma organização efetiva nas bases não estar ocorrendo deve fazer com que a vanguarda debata sobre esse tipo de situação para buscar as vias de construir um pólo com uma política distinta das burocracias sindicais. O exemplo da greve da MRV é emblemático. Há um mês em greve os combativos trabalhadores e trabalhadoras da MRV lutam por melhores condições de trabalho e pelo seu PLR, que em nossa visão, inclusive, deveria ser incorporado ao salário diante de uma empresa recorrentemente acusada de trabalho análogo à escravidão. Essa luta, se tomada pelo conjunto da esquerda como uma luta emblemática, poderia vencer impactando em vários outros setores. A esquerda poderia dar um grande exemplo girando forças e energias para que os 700 trabalhadores da MRV possam vencer.

Cada processo de luta da nossa classe em uma situação como a que vivemos hoje é valioso e deveria ser transformado em uma causa popular de todos os oprimidos e explorados. Nos sindicatos, centrais sindicais e entidades estudantis que dirigem e também através dos mandatos parlamentares, a esquerda poderia contribuir nesse sentido. Nós, do Esquerda Diário e do MRT, estamos dedicados a essa solidariedade ativa tendo colocado de pé, junto com outras correntes políticas, o Comitê de Estudantes da Unicamp em apoio à greve, incorporado os piquetes todos os dias e feito ações em distintos pontos da MRV, como na Arena do Galo em Minas Gerais, que gerou comoção entre os operários em greve. Diante do início da expansão da greve para outros canteiros faremos um panfletaço nacional, como MRT e Esquerda Diário, incentivando o crescimento e a solidariedade com a greve.

Dessas experiências, se elevadas ao patamar político de enfrentamento ao governo de conjunto, pode sair uma força poderosa para enfrentar todos os ataques, impondo que as grandes centrais coloquem de pé um plano de luta real que organize, por exemplo, uma forte paralisação nacional. O próximo dia 18 precisaria ser um passo neste sentido, entretanto, sem assembleias de base, esse objetivo vai ficando distante. É por isso que, enquanto as burocracias continuarem dividindo, fragmentando e propondo ações controladas, é preciso que a esquerda continue defendendo uma política alternativa que possa acumular forças em locais de trabalho para impor às direções burocráticas que organizem um verdadeiro plano de luta. E por isso que nós seguiremos insistindo na necessidade de avançar na auto-organização dos trabalhadores para que possam tomar a defesa dos seus direitos em suas mãos. Porque quanto mais tempo passa, maiores são os ataques e a desmoralização da nossa classe. Não podemos aceitar.

Por exemplo, na greve da MRV vem se expressando novamente o que aconteceu na luta da LG e suas terceirizadas, ou mesmo na greve dos metroviários de São Paulo, que mesmo a esquerda que se diz socialista ou comunista não coloca todas as suas forças para tirar essas lutas do isolamento, o que é crucial para que elas possam triunfar e impactar em outros setores da classe trabalhadora, os quais estão vendo seus direitos serem retirados brutalmente sem resistência por responsabilidade das burocracias.

Mesmo as correntes que falam da necessidade de construir uma greve geral não tem uma prática diferente frente às lutas que surgem da classe trabalhadora. Não basta discurso. Não vai haver paralisação nacional, greve geral e plano de lutas se as poucas lutas que surgem ficam isoladas. O MRT e o Esquerda Diário foram reconhecidos pelos operários da MRV como quem está dando projeção nacional e internacional para sua luta, imaginemos se toda a esquerda colocasse seu peso para fazer essa luta vencer e se coordenar com cada uma das outras que ocorrem isoladamente no país? É preciso construir pela base a solidariedade ativa e uma coordenação das lutas, combinando com um trabalho unificado de toda a esquerda na base das grandes burocracias sindicais para impor que saiam da paralisia. A esquerda precisa se unificar na luta de classes e não com a direita em pedidos de Superimpeachment que só desmoralizam e desconstroem a luta.

Resgatar os conceitos de Trótski na prática é a melhor homenagem à sua tradição

A forma que atuamos nessa luta dos operários da construção civil em Campinas nesse momento é parte da nossa concepção de partido leninista de combate, onde cada luta precisa ser uma verdadeira “escola de guerra”, como apontava Lenin. Os últimos anos no Brasil, em meio a uma situação reacionária, colocaram poucas oportunidades de lutas, o que só implica em mais centralidade para cada uma que surge, mais ainda quando se trata da classe trabalhadora com seus próprios métodos clássicos, como a greve. É necessário uma esquerda que recoloque a centralidade da classe trabalhadora como sujeito na luta de classes e para responder a crise no Brasil e do capitalismo, em aliança com todos os setores explorados e oprimidos.

Nós do MRT batalhamos por isso na luta de classes concreta, assim como fazemos na Fração Trotskista em cada país onde atuamos. Resgatar esses elementos chave da tradição revolucionária na prática é a melhor homenagem que podemos fazer a Leon Trótski, no mês em que se completam 82 anos de seu assassinato por parte do stalinismo, como expressamos em debate com distintas correntes que se reivindicam trotskistas. As novas provas da crise ambiental e climática recentes só reforçam que o capitalismo precisa acabar e que resgatar o marxismo revolucionário da nossa época, o trotskismo, se mostra mais necessário e atual do que nunca.




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