Gênero e sexualidade

Violência contra Mulher

Lucrar com nossas pautas não é estar do nosso lado, a globo não luta contra as opressões

Se por um lado a emissora rede Globo diz assumir o papel de paladina da luta contra as opressões, transmitindo novelas, reportagens e séries embandeiradas da luta das mulheres, dos negros e dos LGBTs, por outro, sistematicamente silenciou vítimas de abuso sexual e moral, como acontece no caso Marcius Melhem

sábado 5 de dezembro de 2020| Edição do dia

No caso específico de Marcius Melhem, o humorista era ex-diretor do núcleo de Humor da rede Globo. O "incidente", que teve como estopim a denúncia do assédio cometido contra Daniela Calabresa, depois dela ter sido, entre outras coisas, imobilizada por Melhem, que a jogou contra a parede e esfregou sua genitália no corpo da humorista, contou com o depoimento de diversas outras atrizes que sofreram com episódios parecidos.

Quem é Marcius Melhem?

O humorista e ex-diretor do núcleo de Humor da rede Globo, Marcius Melhem, possui uma longa e bem sucedida atuação na emissora global. Contando com 17 anos de casa, o ator é o responsável pela última reestruturação do programa de humor Zorra Total, atual Zorra. Em entrevista oferecida à revista Piauí sobre a antiga abordagem estereotipada do programa, ele disse: “Se eu disser que desde o início me incomodou, estarei mentindo. Porque cresci vendo esse tipo de humor, e você naturaliza (...) A questão da mulher gostosa, objetificada, foi a primeira coisa que me causou desconforto.”

Cinicamente lúcido, as diversas histórias de assédio que o acompanham e que vieram à luz após uma longuíssima batalha de mais de um ano travada por corajosas mulheres e homens, tornam tal declaração fortemente insuportável e repugnante. Foi justamente através desse esteriótipo de “mulher gostosa” que Melhem buscou justificar o seu assédio sexual contra Daniela Calabresa, quando, após ter jogodo-a contra a parede e esfregado sua genitália em seu corpo, disse no dia seguinte que “Eu não tenho culpa do que aconteceu! Quem mandou você (Dani Calabresa) estar muito gostosa?”

Diretamente proporcional ao nível de asco gerado por essa hipocrisia, tal caso carrega uma verdade: Melhem metonimicamente representa a contradição das grandes empresas que desejam se embandeirar das pautas de gênero, raça e sexualidade com o único objetivo de esvaziar todo conteúdo verdadeiramente revolucionário e subversivo dessas lutas para os tornar palatáveis ao sistema. Ao buscar transformar o humor produzido na maior rede televisiva do país em politicamente correto enquanto ele próprio praticava o oposto, Marcius é a parte podre que representa o todo asqueroso da mídia capitalista, cujo objetivo é vender, vender e vender a nossa luta, enquanto abusam dos corpos das mulheres que estão em cena.

Globo paladina das opressões?

Principalmente no último período, com o bolsonarismo e a polarização mais profunda advinda da crise orgânica, a rede Globo, historicamente posta pela esquerda no seu devido lugar, o da direita golpista, começou a ser chamada pelos setores mais reacionários de feminista, gayzista e antirracista. Utilizando-se da representatividade, a telecomunicadora, possuidora de uma das maiores fortunas do Brasil, é como um lobo em pele de cordeiro: Coloca nos jornais âncoras mulheres negras; nas novelas, personagens homossexuais e trans; e vende histórias de mulheres empoderadas e feministas liberais, construindo a falsa noção de que por dentro do capitalismo é possível viver em uma sociedade igualitária e livre de opressão.

Durante o caso Marcius Melhem, a Globo buscou convencer a todos que lidava com tais casos de abusos sexuais ocorridos dentro dos seus estúdios e por meio de um de seus diretores da forma mais progressista possível. Escondendo-se atrás do seu programa de compliance, que na teoria deveria proteger as vítimas de abuso, mas, na prática, silenciou-as e acobertou o assediador. Como nota final dada pela emissora sobre o caso antes das vítimas decidirem torná-lo público, a Globo publicou:

“A Globo e Marcius Melhem, em comum acordo, encerraram a parceria de 17 anos de sucessos. O artista, que deu importante contribuição para a renovação do humor nas diversas plataformas da empresa, estava de licença desde março para acompanhar o tratamento de saúde de sua filha no exterior. Como todos sabem, a Globo tem tomado uma série de iniciativas para se preparar para os desafios do futuro e, com isso, adotado novas dinâmicas de parceria com atores e criadores em suas múltiplas plataformas. Os conteúdos de humor, assim como os de dramaturgia diária e semanal, continuam sob a liderança de Silvio de Abreu, diretor de Dramaturgia da Globo.” - Não declarando nada contra os abusos, assim a Globo mostra sua verdadeira face, aquela que sela acordos “bem sucedidos” com abusadores.

Como se esse caso não bastasse para ver de qual lado o canal se encontra, lembro aqui que a Globo não só apoiou o golpe institucional de 2016, como foi um dos principais agentes para que ele ocorresse. Golpe esse que abriu espaço para o Bolsonaro e todos os ataques contra os trabalhadores que a Globo também apoiou, os quais levaram a morte de incontáveis negros, mulheres e LGBTs por covid e pela situação precária da saúde.

É possível extinguir as opressões por dentro do capitalismo?

A resposta curta e verdadeira é: não.

Mesmo que não tenha sido o capitalismo quem criou o patriarcado, utiliza-se dele para fragmentar a classe trabalhadora entre homens e mulheres, enfraquecendo as nossas fileiras, e com o objetivo de justificar os menores salários para as mulheres, garantindo maiores lucros para os patrões. A pauta da representatividade, tão levantada pela Globo, deseja levar algumas poucas mulheres para o topo, não questionando a divisão entre topo e chão. Nós, socialistas revolucionários que acreditamos em um feminismo socialista, queremos abolir a separação entre exploradores e explorados. Somente com uma revolução que questione e reconstrua a nossa sociedade desde a raíz, é que será possível criar bases materiais e culturais para a emancipação de todos os oprimidos!

Rede Globo, as nossas bandeiras não vão ser negociadas!




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