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PROTESTOS NOS EUA

EUA: Após assassinatos, conta de Facebook fez chamado a atacar os protestos em Wisconsin

Uma conta de Facebook autointitulada “Kenosha Guard” havia feito um “chamado às armas” para atacar os manifestantes. Nesta quarta-feira, foi detido um jovem de 17 anos, que disparou e assassinou duas pessoas na noite de terça. Trump, em sua conta no Twitter, anunciou o envio de agentes federais.

Juan Andrés Gallardo

Buenos Aires | @juanagallardo1

sexta-feira 28 de agosto| Edição do dia

Há patriotas dispostos a tomar armas e defender nossa cidade dos bandidos essa noite?”, se lia na postagem de uma conta de Facebook autodenominada “Kenosha Guard” (Guarda de Kenosha), em referência à cidade que foi tomada por sucessivos protestos após o brutal ataque racista da polícia a um jovem negro, alvejado com sete tiros nas costas e que ficou paralítico.

O site The Verge publicou imagens da conta, que foi desativada na rede social assim que detiveram um jovem de 17 anos que, na noite de terça-feira, se dirigiu ao protesto com uma metralhadora e assassinou dois manifestantes.

Em um comunicado na manhã de quarta-feira, o grupo declarou que não tinha conhecimento de um de seus membros como autor dos disparos, mas não desaprovou o tiroteio, nem o assassino. “Não sabemos se o cidadão armado estava respondendo o chamado às armas da Milícia da Guarda de Kenosha. Assim como o assassinato de Jacob Blake, precisamos que todos os fatos e provas sejam expostos antes de fazer um julgamento. Deus abençoe e protejam-se, Kenosha!”.

A declaração foi publicada quando os manifestantes já haviam denunciado Kyle Rittenhouse como responsável pelos assassinatos, um jovem branco de 17 anos que foi finalmente detido na manhã desta quarta-feira. Rittenhouse morava em Antioch, no estado de Illinois, e se indica que deliberadamente viajou por 40 minutos até Kenosha, em Wisconsin, para disparar e matar dois manifestantes, e logo depois regressou à sua casa, onde foi detido.

Rittenhouse chegou na noite de terça-feira em Kenosha, e percorreu as manifestações com sua metralhadora, junto a outro grupo de pessoas armadas que diziam defender locais comerciais e ameaçavam os manifestantes. Também saudou os policiais que chegavam no local após reprimir os protestos no centro da cidade com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Em um dado momento, manifestantes repreenderam Rittenhouse, que tropeçou e começou a disparar sua metralhadora, assassinando dois deles e ferindo gravemente um terceiro.

Para além do fato de Rittenhouse agir em resposta ao chamado do grupo de Facebook ou não, o certo é que o crescente racismo e a polarização social estimulada por Trump abre espaço à multiplicação de milícias supremacistas brancas que atuam em comum acordo com as forças repressivas do Estado, que lhes dão carta branca para atacar manifestantes.

Apesar dos brutais assassinatos da noite de terça-feira, Trump dobrou a aposta em sua conta no Twitter nesta quarta: “NÃO aceitaremos saques, incêndios, violência e anarquia nas ruas dos Estados Unidos. Minha equipe acaba de sair de uma ligação com o governador Evers, que concordou em aceitar assistência federal (Portland deveria fazer o mesmo!)...”.

O governador ao qual Trump se refere é o democrata Anthony Evers, que já havia decretado estado de emergência e ativado a Guarda Nacional, e agora aceita a intervenção federal. Estes agentes federais são os mesmo que, há algumas semanas, causaram danos nos protestos em Portland, violentamente atacando manifestantes.

Se ainda havia dúvidas sobre a atuação conjunta entre o governador democrata e o presidente republicano, Trump fez questão de esclarece-las num segundo tweet: “HOJE, enviarei a polícia federal e a Guarda Nacional a Kenosha, Wisconsin, para restaurar a LEI e a ORDEM”.

“Lei e ordem” é justamente a campanha levada adiante por Trump para responder ao movimento Black Lives Matter, o qual acusa de bandidos e radicais, ao mesmo tempo que acena às milícias que se armam para reprimir os protestos – como fez na última segunda-feira, na Convenção Republicana que o nomeou para a reeleição, ao convidar para discursar um casal que ameaçou manifestantes com metralhadoras e pistolas logo após o assassinato de George Floyd.

A ação comum entre as milícias e a polícia tem raízes ainda mais profundas, que se encontram na própria natureza do capitalismo e do Estado nos EUA. Desde a fundação das primeiras polícias locais, a mando dos latifundiários e da Ku Klux Klan, inicialmente para amedrontar e perseguir escravos, depois para segregar os negros e, finalmente, para manter a política punitivista à toda comunidade negra. Esta última inclui o encarceramento massivo da população negra, e sua estigmatização diante da desigualdade social e econômica permanente. Esta política foi sustentada e respaldada tanto pelos democratas como pelos republicanos.

O movimento Black Lives Matter, que ressurgiu com força diante do assassinato de Floyd e, agora, com o brutal ataque contra Blake, vem para questionar o racismo institucional, logo no início da campanha eleitoral que elegerá o próximo presidente dos EUA em novembro.




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