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DIREITO AO ABORTO | Damares quer um dia de conscientização dos riscos do aborto, o que na prática é comemorar as mortes por abortos clandestinos

O governo Bolsonaro, muito bem representado por Damares Alves e com o apoio dos setores religiosos mais reacionários que compõe a bancada da bíblia, lançou-se em uma ofensiva contra as mulheres desde seu primeiro dia de governo. O discurso de posse do presidente conclamava todos a uma guerra santa contra o marxismo cultural e uma suposta ideologia de gênero em nome de Deus, da família e dos bons costumes. E, seguida coube a sua fiel escudeira proclamar o início de uma “nova era” onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa.

Patricia GalvãoTrabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quinta-feira 8 de abril | Edição do dia

Assim como as famigeradas Cruzadas do século XI o discurso religioso esconde interesses econômicos das classes dominantes. Em 1095 o Papa Urbano II incitava a guerra contra os ditos “infiéis” atendendo às necessidades de uma nobreza feudal parasitária em crise, desviando o anseio das massas camponesas exploradas e famintas por pão com a promessa de que na Terra Santa onde emana mel e leite, todos os problemas seriam resolvidos dando fim a ocupação muçulmana na região.

No Brasil do século XXI, o inimigo infiel, são os oprimidos. As mulheres, as negras e negros, as LGBTs. Para redimir os grandes empresários sedentos por lucros cada vez maiores é preciso, mais uma vez, desviar os anseios das massas trabalhadoras por pão, sempre com a ajuda da Igreja (Católica e Evangélica) e da mídia burguesa.

A cruzada contra o aborto já teve como vítima uma criança de 10 anos estuprada pelo tio. O exército incansável de Damares Alves, com a ajuda da anti-feminista Sara Winter, tentou a todo custo impedir que essa criança pudesse realizar um aborto de forma segura. Gritaram “assassina” para a menina. Queriam que a criança se tornasse mãe no momento que se tornou vítima da violência de gênero. Quiseram chamar um feto de criança, mas roubaram a infância e estavam dispostas a arrancar a vida dessa menina de 10 anos.

Quem assinou a procuração que deu plenos direitos a Damares e aos fundamentalistas religiosos de falaram em nome dos não nascidos? Provavelmente foi o mesmo que declarou, a revelia, que o útero de cada mulher pertence a Deus, ao Estado e aos Patrões.

Como um novo episódio, uma nova incursão contra as mulheres, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos abriu nesta terça-feira, 6 de abril, uma consulta pública para um projeto de lei que institui o Dia Nacional do Nascituro e de Conscientização sobre os Riscos do Aborto, a ser “celebrado” todo dia 8 de outubro.

A proposta afirma que o objetivo é “promover o direito à vida de todas as pessoas, independentemente de sua condição.” Além da elevação de um amontoado de células à uma pessoa, choca a hipócrita defesa da vida quando 4 mil pessoas por dia têm esse direito roubado, fruto de uma política genocida de Bolsonaro e dos capitalistas, planejada por décadas de privatizações e sucateamento da saúde, que privaram milhões do direito à segurança alimentar enquanto envenenavam as mesas das famílias com litros de agrotóxicos. São mais de 330 mil mortos no Brasil pela covid-19. Pessoas que tiveram o direito à vida arrancado bruscamente por esse governo assassino.

Mas falemos das crianças. Foram quase mil bebês mortos na pandemia, enquanto Bolsonaro bradava “E daí?” diante das mortes. O governo sistematicamente boicotou qualquer iniciativa de combate à pandemia, desde a mínima testagem, até a distribuição de oxigênio e vacinação em massa.

O número de pessoas que sofrem com insegurança alimentar grave, ou seja, que passam fome, aumentou para 19 milhões, incluindo crianças. Até 2019, ano em que Bolsonaro declarou que “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, morriam em média 17 pessoas por dia de fome, sendo parte considerável as crianças. Com a pandemia não é difícil de acreditar que esses números são muito maiores hoje. O Brasil ainda tem altíssimos índices de mortalidade infantil, a maioria dessas mortes causadas por desnutrição desde o nascimento. Quem grita pela vida dessas crianças?

Um post asqueroso de um grupo pró-vida imagina uma suposta advogada feminista que não pode nascer pois foi abortada. São capazes de imaginar uma vida plena aos fetos, mas, na vida real, pouco se importam com o futuro das crianças, menos ainda das mulheres. São os mesmos que defendem as medidas anti-operárias que roubam das crianças o direito ao futuro. São os que permitiram ao governo golpista congelar por 20 anos os gastos com saúde e educação. Nesse post de uma vida fictícia interrompida por um aborto, esses reacionários usam nosso grito de nenhuma a menos nos apontando seus dedos sujos de sangue, quando eles querem perpetuar a morte de mulheres por abortos feitos de forma clandestina e insegura.


A página Vida sim, aborto não no dia 8 de março publicou essa foto com os dizeres: Hoje nossa página faz uma homenagem a todas aquelas mulheres que nunca tiveram direito algum, pois lhes foi negado o direito de nascer.

Religiosos acusam as mulheres de odiarem as crianças. O Papa Francisco chegou a comparar as mulheres que abortam aos nazistas. Mas, esses mesmos religiosos acobertam os inúmeros casos de abusos sexuais e pedofilia envolvendo padres e pastores.

Acusam as mulheres de promiscuidade, mesmo aquelas que são vítimas de estupros, mesmo as casadas e recatadas, e transformam a maternidade em uma punição à sua luxúria. Mas ao homem é justificável o impulso sexual por sua natureza.

Dizem, às vítimas de estupro, que um erro não justifica outro. Mas quando essas vítimas terão direito à reparação, se as querem punir com uma maternidade não desejada fruto de uma violência inimaginável?

O governo Bolsonaro fala em um dia de conscientização sobre os riscos do aborto. Acrescentemos ao texto dia de conscientização sobre os riscos do aborto [por métodos inseguros]. Estimam-se mais de um milhão de abortos todos os anos, sendo a 5ª causa de mortes maternas. São mais de 15 mil casos de complicações por aborto que chegam ao SUS todos os anos, 5 mil graves, causando mutilações e sequelas graves. Restringir ainda mais o direito ao aborto, que no Brasil só é garantido, à duras penas, em caso de estupro, anencefalia e risco de vida às mães, só vai fazer aumentar essas estatísticas.

Ao contrário de uma idealização da vida de quem não nasceu, a vida agora está em risco e o futuro é sombrio. Quem nasceu mulher carrega nas costas a dupla jornada, o desemprego, os piores salários, a precarização do trabalho. As meninas que mal conheceram o mundo vão ter que trabalhar até morrer, trabalhando em aplicativos sem nenhum direito garantido, tendo seu suor arrancado pelo patrão, seu corpo objetificado pela mídia e violentado pelo patriarcado e suas filhas terão o mesmo destino e a filha da filha. É esse o futuro que os capitalistas querem reservar para nós mulheres.

Aos que querem defender a vida desde à concepção, respondam: qual a sua concepção de vida? Conseguem conceber uma vida a revirar o lixo a procura de pão, a sentir a fome doer e no desespero comer comida apodrecida?

Aos que ficam imaginando como seria a vida dos fetos cujas mães decidiram pelo aborto, dada a miséria que vivemos hoje, será que conseguiriam convencer essa pessoa imaginária a nascer tendo um destino deplorável de exploração e miséria?

Aqueles que defendem a vida, que vida é essa? Não poder se vestir sem ser violentada, não poder respirar sem antes garantir casa limpa, comida feita e roupa lavada, receber menos que um homem trabalhando mais, ter seu suor roubado pelo patrão, seus anos de vida roubados pelo estado e ver seu prazo de validade expirar antes dos 50 anos e morrer porque disse não ao marido, ao namorado ou a um estranho? Porque no capitalismo a vida das mulheres vale quase nada. Seu trabalho, seu corpo, sua vida valem menos do que o direito ao pão.

Quem luta pela vida são as milhões de mulheres que tomaram as ruas da Argentina pelo direito ao aborto. As mulheres de Mianmar em luta contra o golpe militar. As mulheres do Chile, da Espanha, da Polônia. As mulheres que gritaram que “as vidas negras importam” contra violência policial. As operárias da Ford que lutam contra as demissões que vão deixar milhares de famílias sem ter o que comer. Quem luta pela vida são as professoras que denunciam o retorno irresponsável às aulas em meio ao descontrole da pandemia. São as trabalhadoras da saúde, são as trabalhadoras que estão na linha de frente do combate à pandemia. Elas lutam pela vida enquanto os governos planejam a morte.

Nós mulheres defendemos a vida nossa, dos nossos filhos, da nossa classe. E, pelas nossas vidas, lutamos pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito.




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