Opinião

TRIBUNA ABERTA

Comunicação popular, artes e transformação social

quinta-feira 13 de abril de 2017| Edição do dia

A comunicação popular é fundamental para avançarmos no processo de construção de uma sociedade cujos princípios norteadores estejam calcados em uma dimensão ético-política de caráter progressista, ou, mais além, do reconhecimento de valores como a cidadania plena, a não discriminação étnica, de gênero, de orientação sexual, de cor, que, a meu juízo, está indissociavelmente ligado à transformação do modo de produção e distribuição da riqueza social.

No contexto atual, a prevalência da estratégia neoliberal controla os canais de veiculação da informação em todas as instâncias da sociedade. A chamada “grande mídia” tem penetração direta e ostensiva no cotidiano de cada cidadão do país. Representantes do consórcio entre Estado e Capital, aqueles que detém concessões públicas (sim, vale lembrar que os canais de radiodifusão são de possessão do estado que “cede” a grupos privados o espaço) e ganham o direito de operar canais de rádio e TV, montam sua programação, de forma clara ou sub-repticiamente – a depender do interesse em jogo – de modo a disseminar um pensamento coletivo que atenda à manutenção da ordem vigente, ou seja, favorável ao capital. Isso se dá, pelas mais variadas táticas, do jornalismo “racional” às telenovelas produtoras de sentimentalismos.

Diante disso, é urgente que aqueles que se propõem a combater esse quadro, se armem para enfrentar a batalha no mesmo campo. Os instrumentos, de certo, serão bem diversos, haja vista que não temos ao nosso lado um arsenal financiado por milhões de dólares. Todavia, o que temos deve ser mais implacável: a força da classe trabalhadora. Essa mesma classe trabalhadora que é objeto das intenções dos senhores da mídia. Somos nós e somos muitos. Muitos mais que não estão conosco no momento e precisamos que estejam. Nesse sentido, necessitamos pensar como ampliar as sendas para chegar aos milhões de trabalhadores e trabalhadoras e juntarmos forças na luta contra os mandos e desmandos do grande capital, que afetam deliberadamente o nosso modo de existir.

A popularização das ideias se faz por muitos caminhos. Das tradições da esquerda, podemos ressaltar, em maior ou menor grau, o jornalismo, a literatura acadêmica, periódicos, panfletos. Comícios, assembleias, reuniões públicas, rodas de conversa. E outras manifestações quase sempre mantidas no corpo a corpo, ombro a ombro.

O contexto histórico vigente exige que ampliemos nossas possibilidades de comunicação. A tecnologia disponível tem contribuído para essa finalidade, barateia-se o custo da produção de matérias, especialmente no nível virtual, dando azo, por exemplo, a que possamos veicular ações de repressão por parte de órgãos governamentais que não estariam de forma fidedigna sendo reproduzidos nos canais de TV.

Mas um ponto para o qual gostaria de chamar atenção é que não nos esqueçamos das artes. Buscar apoio na literatura, no teatro, na poesia, na música. E, pelo movimento dialético, estimular que as expressões artísticas também possam clarificar mais a necessidade de uma transformação da realidade social. A experiência estética é capaz de abrir vias de reflexão no campo político e social que talvez, em dado momento histórico e em circunstâncias determinadas, sejam viabilizadoras do reconhecimento do processo de produção e reprodução da vida social pelo sujeito (individual e coletivo).

Não se trata de constranger as artes numa seara política, panfletária, mas nos valermos dessa forma de expressão e de conhecimento irmanada a um projeto societário em direção à emancipação humana.

CANÇÃO

(Bertolt Brecht)

Eles tem códigos e decretos.
Eles tem prisões e fortalezas.
(sem contar seus reformatórios!)
Eles tem carcereiros e juizes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que eles pensam que nós, como eles,
seremos destruídos?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.
Eles tem jornais e impressoras
para nos combater e amordaçar.
(sem contar seus estadistas!)
Eles tem professores e sacerdotes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que precisam a verdade temer?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.
Eles tem tanques e canhões,
granadas e metralhadoras
(sem contar seus cassetetes!)
Eles tem policia e soldados,
que por pouco dinheiro estão prontos a tudo.
Sim, e para que?
Terão inimigos tão fortes?
Eles pensam que podem parar,
a sua queda, na queda, impedir.
Um dia, e será para breve
verão que anda poderá ajudá-los.
E de novo bem alto gritarão: Parem!
Pois nem dinheiro nem canhões
poderão mais salvá-los.

(Tradução Paulo Cesar de Souza)




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