Juventude

Balanço das gestões de 2020 Letras e Pedagogia USP

Confira o balanço das gestões do CAELL e CAPPF neste ano de 2020, que vivenciamos a pandemia do coronavírus e a absurda política dos governos de colocar o lucro acima das vidas, assim como uma série de ataques a juventude e aos trabalhadores, mas também os levantes em defesa das vidas negras e uma série de processos de lutas e mobilizações em todo o mundo. Fortalecer as entidades estudantis pra lutar contra Bolsonaro, Doria, Covas e todos os ataques dos golpistas e dos capitalistas!

Clara Pereira

Diretora do Centro Acadêmico Professor Paulo Freire

quarta-feira 23 de dezembro de 2020| Edição do dia

O ano de 2020 vai ficar marcado na história como o ano da pandemia do coronavírus, em que mais de 1,5 milhão de pessoas morreram, que, de distintas maneiras, marcou profundamente as relações sociais, escancarando de forma crua e ampla a irracionalidade e mazelas do capitalismo, que em nome de manter uma casta minoritária de banqueiros e empresários ultra bilionários, coloca o planeta e o meio ambiente, a vida da maioria da população e o futuro da humanidade em risco. O ano de 2020 foi marcado por um aprofundamento da miséria da classe trabalhadora e da juventude, com inúmeros ataques dos governos privatistas e neoliberais às condições de trabalho, aumentando os níveis da chamada uberização, flexibilizando contratos e cortando salários. Os ataques também vieram em cheio à educação e à saúde, com importantes cortes às bolsas de pesquisa, orçamento público e precarização destes espaços.

Diante disso, coloca-se a necessidade de reflexão sobre o papel das entidades estudantis no combate aos ataques de Bolsonaro, Mourão e dos atores golpistas que saíram fortalecidos destas eleições, todos na linha de frente da implementação dos ataques e da precarização de vida.

Em meio ao governo negacionista de Bolsonaro e dos discursos demagógicos de Doria, que não forneceu sequer condições mínimas para combater a pandemia, observa-se também, com o resultado dessas eleições, o fortalecimento do chamado “centrão”, que sabemos que nada mais são do que partidos de direita que existem para nos atacar. Articulados entre si, cada um desses atores é responsável pelas mais de 185 mil mortes nessa pandemia e pelo agravamento da precarização da vida e do trabalho, a partir da aprovação de ataques que procuram descarregar a crise sobre as costas dos trabalhadores e da juventude, sendo este último setor afetado pelas inúmeras medidas que atacam a educação no nível básico e superior.

Com a ampliação do desemprego e o aumento dos postos precários de trabalho, combinados a redução do auxílio emergencial, essa mesma juventude ainda lida com a implementação antidemocrática e excludente do formato de ensino virtual, que configura mais uma barreira no acesso à educação para os alunos mais pobres. Para além disso vimos ataques à autonomia das universidades federais e a autoorganização estudantil, com as intervenções autoritárias de Bolsonaro em diversas universidades como a UFRGS, UFPB, UFFS, IFRN e UFERSA, absurdo movimento que sabemos que tende a aumentar no próximo ano.

Nós das gestões Pulso Latino, que está no CAELL, e da gestão Pra Poder Contra-atacar, no CAPPF, ambas compostas por militantes da Faísca e estudantes independentes, desde o início denunciamos a forma autoritária que o ensino remoto estava sendo imposto aos estudantes, e o quanto sua adoção estava inserida no campo dos ataques à educação para atender setores empresariais. Nesse sentido, apontamos que o ensino remoto, ao passo que tinha como intuito precarizar e baratear a formação, também seria responsável por excluir centenas de estudantes que não correspondem ao perfil de aluno para o qual a universidade é projetada, como temos observado agora. São centenas de estudantes que, seja por falta de condições materiais (computadores, acesso à internet e a espaço de estudos) ou por questões subjetivas (questões familiares e psicológicas decorrentes da crise sanitária, econômica e social), não têm conseguido seguir a graduação.

Desde as gestões, defendemos que, frente à pandemia, a universidade deveria colocar amplamente sua produção científica à serviço das necessidades da população, desde as ciências biológicas, até mesmo as humanas. Com isso, buscamos denunciar como a implementação desse formato de ensino se deu completamente por fora de um grande debate entre os três setores que compõem a universidade (estudantes, trabalhadores e professores) sobre o papel que esta deveria cumprir na sociedade diante de uma crise pandêmica, sem também terem tido espaços democráticos para discutir e decidir quanto ao método de ensino desde a suspensão das aulas presenciais.

Ao longo deste ano, nossas gestões mantiveram contato com os professores para buscar garantir que nenhum estudante fosse prejudicado, realizando reuniões abertas e assembleias enquanto espaços de discussões democráticas, para que todos os estudantes fossem parte de opinar sobre como nos posicionar e que lutas travar nos nossos cursos. Buscamos outros centros acadêmicos da USP para questionar em conjunto o ensino remoto imposto pela reitoria e diversas direções de institutos de forma autoritária e com parâmetros excludentes, elitistas e arbitrários. Ao mesmo tempo que buscamos fomentar a organização dos estudantes, fosse contra as medidas inflexíveis do ensino remoto que prejudicava centenas de estudantes, fosse contra os ataques dos governos, como a luta no HU da USP.

Para nós, é papel central das entidades estudantis se colocarem a serviço da organização dos estudantes em cada curso, em aliança com os trabalhadores efetivos e terceirizados da universidade. Essa é a perspectiva que viemos buscando fortalecer, denunciando a postura de passividade da atual gestão Nossa Voz do DCE, composta pelo PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude, que ao longo de todo o ano não travou uma forte batalha contra a implementação do ensino remoto da reitoria, levando a frente a mesma política adotada pela UNE. Ao mesmo tempo, viemos colocando a importância de que as entidades dirigidas pelo PSOL, PCB e UP também fomentassem a autoorganização dos estudantes contra o ensino remoto, para além de fortalecerem a aliança com os trabalhadores terceirizados e efetivos da universidade, na luta do HU e na batalha contra as demissões em massa das trabalhadoras terceirizadas que vimos ao longo da pandemia.

Para nós da Faísca, um centro acadêmico tem a responsabilidade de promover espaços de discussão e politização dos estudantes, para a atuação desde o dia a dia do curso até a participação em lutas a nível nacional, o que demarca uma forte diferença entre nossa concepção de entidade e aquela levantada pelos partidos mencionados anteriormente que no movimento estudantil reproduzem com afinco aquilo que suas direções fazem no cenário político nacional, como vimos nas últimas eleições, em que o PT, repetindo os mesmos erros do passado, se coligou em mais de 140 cidades com o PSL, ex partido de Bolsonaro, e o PSOL, que em diversas cidades estabeleceu alianças com diversos partidos golpistas, abrindo mão de construir uma alternativa de independência de classe nas eleições.
Na universidade, observou-se também os reflexos da desigualdade estrutural da sociedade, à medida que a política adotada pelos governos permitiu o acesso ao isolamento social somente a uma parcela da população. Com efeito, na USP, enquanto boa parte dos professores e dos estudantes puderam se resguardar frente ao período atual, inúmeros trabalhadores tiveram que seguir trabalhando, sem qualquer garantia. Foi o caso dos trabalhadores do Hospital Universitário, que por descaso da Reitoria e da Superintendência do HU, que seguiam fielmente as orientações de Doria e não forneciam o mínimo a esses trabalhadores, como testes, EPIs, contratação emergencial de funcionários e liberação do grupo de risco, por vezes não fornecendo sequer máscaras suficientes para uma jornada de trabalho, chegou-se ao ponto da USP deixar trabalhadores morrerem. Desde as gestões fizemos questão de fortalecer as mobilizações e lutas desses trabalhadores prestando solidariedade e apoio, além de compartilhar o ódio por tantos absurdos.

Os trabalhadores terceirizados, que são em sua maioria mulheres e negros, também foram obrigados a trabalhar, e ao longo deste ano prestamos solidariedade a esses trabalhadores muitas vezes invisibilizados, e denunciamos essa absurda situação que levou a mais de 15 mortes de trabalhadores da USP por COVID-19. Não só prestamos solidariedade a luta contra o descaso em relação as condições de trabalho, nossas gestões estiveram na linha de frente da denúncia da prática desumana da reitoria da USP que declarou redução de verba no contrato com empresas terceirizadas no meio de 2020, ocasionando a demissão de dezenas de trabalhadores terceirizados da área da limpeza e vigilância, deixando famílias sem salário em meio a uma pandemia.
Nós acreditamos que os trabalhadores são os que movem a Universidade e garantem seu funcionamento, e muitas vezes os governos e a própria reitoria tentam invisibilizar o importante papel que esses trabalhadores cumprem. Diante do nível de ataques, de diferentes formas, que estudantes e trabalhadores sofreram, vemos a unidade nas lutas como o caminho para derrotarmos todos os inimigos em comum, sejam os governos, seja a Reitoria, nos unindo com todos os trabalhadores explorados também de fora dos muros da universidade e como todos os setores oprimidos. Essa é a aliança que vemos como a mais estratégica para derrotar todos os ataques.
Esse ano também foi marcado pelas mobilizações dos entregadores de aplicativo, um setor majoritariamente jovem e negro, que não coincidentemente faz parte da parcela da população que dificilmente consegue passar no filtro social e racial que é o vestibular de uma universidade elitista como a USP. Pedalam 10 , 12, ou até 14 horas por dia para garantir seu sustento nesse momento de crise. Também achamos fundamental reivindicar essa luta, e construímos com alunos uma reunião de estudantes da USP que apoiavam a luta dos entregadores, colocando nossa força a serviço de apoiar essa batalha.
As manifestações do entregadores que vimos no Brasil não estão por fora do processo que ocorreu a nível mundial no qual negros e brancos saíram às ruas para dizer que “Basta de racismo e de mortes pela polícia assassina!”. A morte de George Floyd nos Estados Unidos foi o estopim de um grito que não podia mais ser contido, e tomou as ruas não só dos EUA mas também de diversos países, onde os manifestantes lutavam contra o racismo estrutural e pelo fim da polícia gritando que AS VIDAS NEGRAS IMPORTAM!
No Brasil, assim como em todos os lugares do mundo, a polícia cumpre o papel de assassinar o povo negro, pobre e das favelas em nome dos interesses dos governos e empresários, como foi o caso de Ágatha Félix, Edvaldo Rosa, Emilly e Rebecca, todos mortos pelas balas da policia que deixa claro que não está a serviço de nos proteger, mas sim de servir aos interesses da elite, garantindo que se mantenha a desigualdade social, onde uns têm muito e muitos têm tão pouco, e para isso estão a serviço de reprimir a luta dos trabalhadores sempre que se mobilizarem por melhores condições de vida. Por tudo isso, desde os centros acadêmicos, diferente das organizações de esquerda como PSOL e o PSTU, lutamos pelo fim da polícia, ao passo que nos colocamos contra a presença dessa instituição racista no nosso campus, que hoje se dá com aval da reitoria e durante esse ano reformou e implantou bases novas no campus.
Muitos de nós estudantes, além de ter que lidar com a pandemia e com o ensino remoto, tivemos que lidar com os ataques à educação que Bolsonaro e seus (vários) ministros da educação - sendo o último o pastor Milton Ribeiro - tentavam implementar, retirando verbas de áreas de pesquisas e bolsas, e no caso da USP já sentimos há anos o sucateamento da universidade promovido pela reitoria por conta dos Parâmetros de Sustentabilidade, que congela os gastos da universidade impedindo que haja contratação de professores, funcionários e investimento na já insuficiente permanência. Isso ao mesmo tempo em que o reitor e a burocracia universitária existente na USP ganham supersalários que ultrapassam 20 mil reais e têm o poder de decidir os rumos da nossa universidade, definindo, como nos últimos tempos, realizar um evento presencial, o “boat show”, colocando não somente os moradores do CRUSP em risco diante da pandemia, mas também deixando bastante claro as prioridades da reitoria que gasta com eventos de luxo e não com permanência.
Grande parte dos ataques à universidade ocorreram em meio ao governo do PSDB, partido que segue governando o Estado com Doria e o município com Bruno Covas, este que se reelegeu nas eleições, assim como se elegeram outros setores da direita que também foram parte do golpe institucional de 2016, e hoje se fortalecem para atacar ainda mais os trabalhadores e os estudantes.
Tendo em vista que estamos em meio ao governo Bolsonaro, que se elegeu como fruto do golpe para aplicar ataques e garantir que sejam os trabalhadores a pagarem pela crise que os capitalistas criaram; que aplicou a Reforma da Previdência que acaba com nosso futuro, além de vermos tantos ataques ocorridos desde o governo do golpista Temer, como a Lei da Terceirização Irrestrita, e agora o fortalecimento dos partidos do centrão golpista, herdeiros da ditadura militar que querem seguir uma agenda de ataques, se coloca ainda mais a necessidade de entidades que estejam a serviço de promover a politização e a auto organização dos estudantes nos períodos de luta que virão, sejam contra os tantos ataques que os governos ainda querem passar, seja para um ano que se iniciará pela via do ensino remoto aprofundando todos os problemas aqui citados, seja para nos organizarmos por permanência na universidade, contra o sucateamento do CRUSP, e pela vida dos trabalhadores da universidade.
Nós do CAELL e do CAPPF sabemos da responsabilidade e dificuldades que se colocam em ser direção de Centros Acadêmicos nesse momento de crise e pandemia, mas acreditamos que o diálogo com os estudantes, espaços democráticos de discussões, e unidade com todos os trabalhadores de dentro e fora das universidades nos preparam para os desafios que estão por vir. É por isso também que ao longo de nossas gestões neste conturbado ano, estivemos ativos nas redes sociais da entidade, enviamos a todos os estudantes questionários para saber mais as opiniões, críticas e impressões dos estudantes sobre o ensino remoto e sobre o ano como um todo, organizamos reuniões abertas e atividades diversas (sobre o curso, como a Semana das Habilitações na Letras, mas também sobre o que acontecia fora da USP, como lives debatendo o movimento Black Lives Matter). A serviço disso colocamos as forças das nossas gestões, assim como questionamos o papel que cumpre hoje a gestão Nossa Voz do DCE livre da USP, entidade que representa todos os estudantes da universidade. Vemos uma paralisia dessa entidade em um momento em que deveríamos nos preparar para as lutas que serão necessárias, e nesse sentido vemos o quanto a atual gestão do DCE, composta pelo PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude seguem uma linha política que não se coloca a serviço de verdadeiramente organizar os estudantes, assim como esses partidos nas Centrais Sindicais que dirigem também seguem uma política de passividade, freando a luta dos trabalhadores.
Diante disso, se torna fundamental que as organizações de esquerda, como PSOL, questionem como sua atuação na universidade reflete um processo de adaptação maior do seu partido à estratégia petista, uma vez que não utiliza do potencial das suas entidades para combater a separação da luta entre trabalhadores e estudantes

Nós acreditamos na força dos estudantes, dos trabalhadores, das mulheres, dos negros e de todos os setores oprimidos para lutar contra Bolsonaro, Doria, Covas, e toda a extrema direita nojenta, e também a direita golpista que avança para aplicar mais ataques sobre as nossas costas. A nossa inspiração está nas fortes lutas que os estudantes foram parte fundamental, como no ano passado em que os atos ultrapassaram 1 milhão de pessoas nas ruas contra os cortes à educação do governo Bolsonaro; na luta dos negros e negras pelo Black Lives Matter; na garra das professoras e professores que lutaram ferozmente contra os ataques de Doria e Covas; na luta das mulheres que saíram as ruas pedindo Justiça a Mari Ferrer.
Contra todos os ataques à educação, à nossa vida e ao nosso futuro, vemos o papel que a juventude pode cumprir, confiando nas nossas próprias forças, sem nenhuma confiança que unidades com os setores golpistas, que estão lado a lado de Bolsonaro quando o assunto são os ataques econômicos a serem aplicados à juventude e aos trabalhadores, será a solução. A serviço de fomentar a auto organização dos estudantes, lado a lado dos trabalhadores, para batalhar contra todos os ataques é que colocamos a força das nossas gestões.




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