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Mulheres vermelhas na prisão de Ventas

Sobre "A voz adormecida", de Dulce Chacón

quinta-feira 17 de setembro| Edição do dia

Os romances sobre a vida na prisão são duros e difíceis, independentemente de os motivos do cativeiro estarem orientados pela ação política das personagens ou pela obrigação de agir “fora da lei” burguesa com o intuito de sobreviver às margens das matrizes do Capital. O claustrofóbico tema da prisão também costuma ser representado literariamente de maneira metafórica ou mesmo sob a condição de cenário para o desenvolvimento da narrativa – em obras clássicas francesas do século XIX, como O Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas (1844) e Os Miseráveis, de Victor Hugo (1862), o cárcere é retratado em tom de denúncia. Na América Latina existem inúmeras obras que tem narrado os horrores cotidianos destes confinamentos –ora em forma de romances, ora de memórias –na tentativa de biografar estas experiências. Entre todas elas, em particular deste lado do Atlântico, destacam-se livros como Muros de Agua (1941), do mexicano José Revueltas e, mais recentemente, Estação Carandiru (1999), de Drauzio Varella. Ambos construídos a partir das experiências vividas na prisão –Revueltas como preso político encarcerado por comunistas e Varella como profissional da saúde que atuava na hoje extinta prisão paulistana.

Nos primórdios do presente século, a poeta e escritora espanhola Dulce Chacón (1954-2003) publicava, um ano antes do seu falecimento, um impactante livro que, embora possa ser inserido na história dos “romances da prisão”, distanciava-se muito das poéticas (e das políticas) clássicas deste subgênero. Publicado originalmente em 2002, o romance A voz adormecida (La voz dormida) –e lançado no Brasil em 2004 pela editora Difel (Difusão Europeia do Livro) –, o livro recebeu o importante prêmio de livro do ano do Grêmio dos Livreiros da Espanha. A autora de Estremadura foi uma das vozes mais importantes das letras da Andaluzia e de toda a Espanha desde que publicou sua primeira obra – o livro de poesia Querran ponerle nombre, de 1992 – até a despedida triunfal, embora prematura, de sua carreira literária.

É uma tarefa difícil falar do livro sem vender a trama. Basta dizer que o romance está construído com base nos testemunhos e memórias de mulheres que estiveram encarceradas desde o final da Guerra Civil Espanhola (1936-1939)– a maioria delas durante todo o período franquista, entre 1939 e 1975. Essas mulheres, militantes de várias facções da esquerda espanhola, e que eram chamadas pela epítome de “vermelhas” durante o regime franquista, “despertam” suas vozes e contam suas histórias para a autora, que reconstrói de forma magistral a vida cotidiana e os mais profundos sentimentos destas heroínas da causa social. Para equilibrar e resgatar estas memórias, Dulce Chacón constrói quatro personagens principais que sintetizam ou articulam esse conjunto diverso e plural formado pela memória das mulheres que viveram as maiores atrocidades na prisão madrilenha de Ventas. Assim, conhecemos Hortênsia, Reme, Tomasa e Elvira, que construirão uma sólida amizade, mitigando parcialmente as privações e horrores da prisão.

Embora seja uma obra de ficção, o livro está baseado na história de mais de uma dezena de mulheres e a veracidade dessas vozes que são acordadas no romance de Dulce Chacón reconstrói tanto suas façanhas na militância quanto os detalhes mais íntimos e privados de suas vidas dentro e fora do cárcere. Neste sentido, o livro é também um exercício de história oral, que na forma de ficção histórica reconstrói de maneira excepcional as vidas que se entrelaçam nesse duro contexto. Assistimos, desta forma, às misérias e esplendores destas vidas silenciadas. Vemos de perto a amizade, a solidariedade e o amor entre estas mulheres que, por vezes, conseguem se impor diante dos horrores da terrível repressão. Assistimos também a momentos desoladores: em certo momento, uma antiga companheira de luta se transforma em agente do serviço de inteligência do Estado ganhando alguns privilégios dentro do espantoso contexto em que vivem; em outra passagem da trama, é narrada a indescritível tristeza e aflição de uma prisioneira que, depois de anos, recebe pela primeira vez a visita dos seus filhos, ainda crianças, na prisão e eles não a reconhecem.

Porém, o livro não carece de esperança. A leitura dele nos surpreende imaginando a liberdade das presas mediante alguma reviravolta narrativa ou mesmo pela melhora das condições humanas no cárcere. Estas esperanças se fortalecem quando conhecemos e acompanhamos a vida da Pepita, irmã de umas das presas que, durante uma visita, se apaixona por um militante do Partido Comunista Espanhol também encarcerado. O amor, a amizade e a solidariedade dentro de uma Espanha profundamente conservadora ajudam a continuar a leitura desta reconstrução de memórias historicamente silenciadas tanto pela sociedade espanhola pós-franquista quanto pela própria esquerda. Um romance belamente triste e profundamente humano.

Uma adaptação do romance foi levada ao cinema pelo diretor espanhol Benito Zambrano em 2011, da qual nada tenho adizer porque nãoa assisti. Ainda palpitam as imagens e lembranças evocadas pela leitura da magnifica obra de Dulce Chacón, memórias que não desejam ser perturbadas, ainda, pela forma audiovisual.




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