Opinião

Em defesa da alegria: carta de um pai a dois jovens revolucionários

sexta-feira 13 de novembro| Edição do dia

(Foto: EFE / FUNDACIÓN BENEDETTI)

Publicamos abaixo a carta de um pai a seus filhos, dois jovens lutadores, em defesa da luta revolucionária e da alegria que devemos buscar, como já dizia Trotsky quando falava que a vida é bela.

Filhos, a eleição tá chegando, falta pouco. E quero dizer que sinto profundo orgulho do que vocês estão fazendo, do seu trabalho. É trabalho, sim, é dedicação, é afeto pelo mundo, e é generosidade. Sei que não é a primeira vez que vocês trabalham em política e em eleições, e sempre, toda e cada vez, senti, e muito, este orgulho. Se vocês não notaram, a falha foi toda minha, peço perdão. Sinto orgulho e alegria pelos homens que vocês se tornaram.

Vem aí um momento delicado, o resultado das eleições. Se a Bancada Revolucionária não se eleger, vamos ficar tristes, ou melhor, vamos deixar de ficar muito alegres como ficaríamos se a Bancada se elegesse – fora outros tantos resultados ruins, e mesmo horrorosos que virão. Vocês são fortes, e aguentam o tranco. Mas, deixa pra lá, não quero falar destes trancos e horrores, isto vocês já conhecem. Mas, esse será o resultado das eleições, não o do trabalho.

O trabalho vai continuar, eu quase que peço que vocês continuem fazendo este trabalho. Sei que vocês não pensam em parar, eu nem precisava pedir, mas peço. Porque é bom para a vida, para a vida de vocês e a daqueles que lhe são próximos, sua mãe, eu, os amigos queridos, os amores. Para a vida.

A política verdadeiramente de esquerda é uma paixão, mas é ingrata, cansa, dói. Ganhamos poucas vezes, perdemos muitas. Mas, ganhando ou perdendo, um tiquinho da vida mudamos para melhor, e isto é uma vitória enorme.

A política verdadeiramente de esquerda, além de defender o que é justo, e humano, e solidário, deve sempre defender aquele rio de possibilidades que passa por debaixo disto tudo, talvez não nos demos conta, mas ele, o rio, está lá: a alegria! Domingo, talvez não ganhemos, mas queria muito que ficássemos alegres. Vocês tentaram, deram muito de si, juntos com outros - aos quais também peço aqui que fiquem alegres: esta luta pela vida que nos é próxima, palpável, dentro de cada um de nós e dentro da pessoa querida ao nosso lado, esta briga ganhamos, ganhamos sempre que lutamos, e ninguém tira da gente!!

Quero dar pra vocês uma coisa que me é cara, de verdade: a poesia do uruguaio Mario Benedetti DEFENSA DE LA ALEGRIA. Eu a conheci na voz do meu querido catalão Joan Manuel Serrat, com mínimas adaptações na poesia para ser musicada. Vocês talvez já tenham ouvido lá em casa. Ponho também um link pra ouvir a canção no Youtube. Não é a gravação que eu tenho em casa, é ao vivo no Chile em 1990, e o Chile é um tremendo exemplo de como a alegria vale todo o ouro deste mundo.

Todo o ouro deste mundo, todo o amor que houver nesta vida (obrigado Cazuza). Filhos, vocês são muito mais e melhores do que eu podia sonhar antes de ser pai. De todo coração, obrigado.

DEFENSA DE LA ALEGRÍA

Defender la alegría como una trinchera
Defenderla del escándalo y la rutina
De la miseria y los miserables
De las ausencias transitorias
Y las definitivas

Defender la alegría como un principio
Defenderla del pasmo y las pesadillas
De los neutrales y de los neutrones
De las dulces infamias
Y los graves diagnósticos

Defender la alegría como una bandera
Defenderla del rayo y la melancolía
De los ingenuos y de los canallas
De la retórica y los paros cardiacos
De las endemias y las academias

Defender la alegría como un destino
Defenderla del fuego y de los bomberos
De los suicidas y los homicidas
De las vacaciones y del agobio
De la obligación de estar alegres

Defender la alegría como una certeza
Defenderla del óxido y la roña
De la famosa pátina del tiempo
Del relente y del oportunismo

De los proxenetas de la risa
Defender la alegría como un derecho
Defenderla de Dios y del invierno
De las mayúsculas y de la muerte
De los apellidos y las lástimas
Del azar y también de la alegría?




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