Educação

Barreiras Ilusórias Precisam Ser Demolidas

quarta-feira 26 de agosto| Edição do dia

Foto: fragmento da obra de Tarsila do Amaral - "Operários"

Sou professor no ensino superior em uma importante instituição pública brasileira de ensino, pesquisa e extensão universitária. Ao todo tive a possibilidade de frequentar o processo de escolarização como estudante por duas décadas. Por isso, após completar e defender publicamente um trabalho de tese, cheguei a receber o grau mais elevado que o sistema educacional pode conferir: o grau de doutor. Dentre minhas atribuições profissionais hoje, faço pesquisas em minha área de especialização, contribuindo para a consolidação e o avanço de conhecimentos. Há uma década a orientação do percurso formativo de novos doutores, vários dos quais tornaram-se meus colegas de profissão, também professores no ensino superior brasileiro, compõe essas minhas atribuições profissionais.

A breve descrição autobiográfica acima é reveladora de uma situação que é diferente da média do coletivo, obviamente ainda que tal situação em si mesma não me coloque de modo algum em posição de superioridade em relação a qualquer trabalhador, cidadão ou pessoa. Ela é diferente porque o sistema de produção da vida material e de sociabilidade que ora é hegemônico, orientado para a usurpação da riqueza socialmente produzida por pouquíssimos e seu extremo acúmulo naquelas mãos, funciona também na repressão do máximo florescer das potencialidades humanas. A maioria das pessoas se torna cedo prisioneira da condição de rotinas absolutamente extenuantes de venda de sua força de trabalho como única via para manter-se vivas, com pouquíssimas oportunidades para desenvolver-se em atividades de pensamento e reflexão crítica, arte, ciência e cultura e delas apropriar-se.

Com inestimável desperdício de potencialidades humanas, que permanecerão para sempre desconhecidas, a pauperização das condições da educação pública, em especial da escola básica, é um dos mecanismos de reprodução de reservas de força de trabalho com vistas apenas ao barateamento e super-exploração. Potencialidades que jamais serão desenvolvidas e, portanto, jamais darão a contribuição que poderiam ao bem coletivo. Há ainda a fração de não proprietários dos meios de produção e de desprovidos de poder sobre o capital financeiro que serão facilmente iludidos pelas seduções do consumo e do marketing, negligenciando a oportunidade dada pelo tempo do qual puderam gozar para a formação educativa assim como a chance para o alargamento de suas consciências, e entregando suas forças e capacidades à servidão ideológica dos interesses das burguesias, no afã do “sonho” (macabro...) de delas ser parte.

Porém, o risco de um grave erro paira sobre aqueles que, como eu, tiveram a oportunidade de desenvolver potencialidades e vocações para o estudo, reflexão e pesquisa e que têm consciência do processo histórico em curso. Este é o risco da anestesia de nossas ferramentas críticas e, decorrentemente, de nossa capacidade de autoconhecimento sincero de pertencimento de classe. O risco de sermos seduzidos a crer que habitamos irrevogavelmente as mais rarefeitas altitudes da intelectualidade, e que de lá só nos cabe olhar a distâncias seguras a luta de classes. O erro grave é fracassar em perceber que as lutas de todos os trabalhadores são nossas. O risco é iludir-se de que os capitalistas deixarão de apostar suas fichas em nosso rebaixamento, ou mesmo nossa destruição, se tal for uma tática que atenda a seus interesses.

Há barreiras ilusórias que precisamos demolir. São barreiras que podem tamponar nossa visão de onde nos encontramos na etapa da história à qual pertencemos como sujeitos. Quando nós, trabalhadores docentes ou altamente escolarizados de universidades, deixamos de nos atentar e de respondermos de modo organizado, coletivo e combativo a uma situação como a ameaça aos empregos, no meio de uma pandemia e em um cenário de escalada do desemprego, dos trabalhadores terceirizados que garantem a funcionalidade de nossos campi universitários, entregamo-nos prisioneiros passivos para sermos trancafiados atrás de barreiras ilusórias. Temos, por outro lado, o apoio no exemplo de nossas juventudes. Tal como noticiado pelo Esquerda Diário, centros acadêmicos e o movimento estudantil em várias universidades têm se mobilizado em solidariedade contra as ameaças aos trabalhadores terceirizados nas universidades. É a esse tipo de ação em nossas comunidades que precisamos juntar nossas forças.

Não podemos, tampouco, colocar a territorialidade de nossos campi como novas barreiras. Todos os ataques articulados pelos capitalistas à classe trabalhadora, neste momento de extrema crise sistêmica, são também ataques ao que buscamos nas universidades: arte, cultura, ciência, capacidade crítica, inclusão e democracia. A crise atual traz ao horizonte o recrudescimento da barbárie capitalista, mesmo que ao preço do esmagamento total de todos os frágeis vestígios de democracia conquistados lenta e laboriosamente ao longo de décadas de lutas. Assim, nossos coletivos como trabalhadores docentes ou de elevada escolarização não podem de modo algum parar em questões coorporativas ou limitar-se ao imediato de nossos cotidianos em nossas instituições. Ao nos posicionar na luta contra demissões em empresas multinacionais como a Latam e na luta dos trabalhadores dos correios, com total independência em relação às agendas e objetivos burgueses, demolimos barreiras que com toda a certeza foram erigidas na verdade para nos destruir, asfixiando-nos.




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