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8 de MARÇO | A greve para além do local de trabalho

Reflexões quanto ao papel da organização das mulheres dentro e fora do local de trabalho.

Lina HamdanEstudante de Artes Visuais na UFMG

segunda-feira 8 de março | Edição do dia

(Imagem: filme "Salt of the earth" de Herbert Biberman, 1954)

As mulheres estão na luta de classes seja como trabalhadoras assalariadas, seja como trabalhadoras não remuneradas responsáveis pelo cuidado e limpeza da casa, seja ambas as coisas, o que é mais comum hoje.

Estava lendo um texto de uma companheira do Pão e Rosas da França sobre o papel das comissões das mulheres nas lutas de trabalhadores e gostaria de compartilhar algumas questões e reflexões.

No mundo e em especial no Brasil, estamos passando por um aprofundamento da crise capitalista, com a crise sanitária sendo um dos fatores que mais reverbera na redução da nossa qualidade de vida. E são as mulheres mais afetadas, tanto em casa, quanto no trabalho, no desemprego, nos estudos. A palavra aprofundamento não é atoa. O que vemos é uma degradação que já vinha acontecendo antes da pandemia, em que vimos nossos direitos serem destruídos e o autoritarismo de algumas instituições e poderes escalarem.

Mas esses retrocessos vêm acompanhados de uma resposta que pode ainda estar em fase de nutrição, mas que desde já, em seus pequenos rebentos, mostra sua face feminina no mundo todo. E no Brasil uma face particularmente negra.

Trabalhadoras da saúde, da limpeza, professoras, terceirizadas. São essas as que se colocam primeiramente em posição para arrancar seu direito a vacinas e à segurança sanitária ou não deixar passar demissões. São as operárias de Myanmar que enfrentam o golpe. São as intransigentes estadounidenses lutando pelas vidas negras. As argentinas pelo aborto legal, seguro e gratuito. As mulheres estão na linha de frente da pandemia, das greves, da luta de classes cotidiana ou explosiva. E nesta história as comissões de mulheres no mundo são uma tradição de grande importância, em períodos de lutas e greves ou não, ainda pouco difundida.

Dentro dos locais de trabalho as comissões são grandes ferramentas das mulheres como forma de expandirem e organizarem sua força, suas múltiplas visões e ideias, e também de convencer os trabalhadores homens a lutarem juntos contra as condições díspares entre os sexos, inclusive devido a que o fato de mulheres terem piores salários e condições de trabalho está ligado a precarizar também o conjunto dos trabalhadores.

Mas há um tipo de organização de mulheres que ainda guarda pouca tradição: comissões de mulheres em greves em locais de trabalho cuja categoria é exclusivamente masculina. As esposas de grevistas se juntam para organizar seu papel na luta, já que os ataques, como as demissões generalizadas, as afetam tanto quanto a seus maridos. São exemplos ainda raros nos quais a esquerda revolucionária organizada internacionalmente na Fração Trotskista vem construindo uma tradição de impulsionar.

Exemplos que, com muita claridade, escancaram, na greve de um trabalho produtivo, o papel das mulheres no trabalho reprodutivo e a fortaleza da aliança do conjunto de nossa classe, homens e mulheres na luta por interesses que não são separados. E para além disso, as mulheres se colocam num papel muito além do aspecto logístico ou de apoio.

Num dos exemplos que Philomène nos trás, de uma greve de mineiros ingleses retratada no filme "O sal da terra" de Herbert Biberman, as comissões de mulheres tomavam o locais de seus maridos nos piquetes de greve já que estes estavam sob ameaça de prisão caso fizessem piquete. E elas extrapolam as demandas iniciais, trazendo as questões "domésticas" pro "ambiente do trabalho" exigindo, no caso, a instalação de água quente em suas casas.

Outra importante experiência é a trazida pelas camaradas do Pão e Rosas Argentina, em que uma comissão de mulheres foi composta na gráfica Donnelley (hoje Madygraf, sob controle dos próprios trabalhadores) que empregava somente homens. Além da comissão de mulheres ter sido parte completamente ativa no processo de tomada da fábrica, uma das principais batalhas dessa comissão foi a luta no seio dos trabalhadores da empresa pelo direito à identidade de gênero de um trabalhador trans em uma empresa 100% masculina, contra a intimidação da direção.

São exemplos que mostram o papel das mulheres, e também das LGBTS, na linha de frente da luta contra a exploração e a opressão patriarcal, trazendo para o local de trabalho os problemas sociais muito mais amplos do que as margens corporativistas querem permitir.

Frente ao avanço dos empresários e patrões, do governo Bolsonaro e do Congresso, das decisões de uma justiça com caráter de classe, que aprofundam o desemprego, os trabalhos informais e inseguros, a aparentemente interminável incerteza cotidiana, não podemos separar as questões do trabalho de todas as demais questões da vida. E como estudante e trabalhadora informal, entendo que não podemos separar nossos anseios urgentes da luta dos trabalhadores de conjunto, como as direções burocráticas de sindicatos e do movimento estudantil fazem. São essas separações que levam nossas lutas a duras derrotas, das quais muitas vezes é difícil se reerguer.

Como disse Letícia Parks, querem nos colocar no lugar de perdedores, mas não existem perdedores em nossa classe. A luta de classes é linda. Ela corta os véus opressores para escancarar que a vida privada é política. Façamos com que os trabalhadores tomem para si as demandas das mulheres e que o movimento de mulheres esteja cada vez mais ligado à luta de cada trabalhadora e trabalhador.

Lina é estudante de Artes Visuais na UFMG. Nesta coluna, irá abordar quinzenalmente sobre temas ligados à arte e à juventude, tentando conectar o que acontece no Brasil com outros locais do mundo.




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