Política

ELEIÇÕES 2016

Voto nulo para vereador? Por que não apoiar quem defende que todo político ganhe igual a uma professora?

As pesquisas indicam um crescimento do número de votos nulos, brancos ou de pessoas que não irão votar. Esse número é ainda maior para vereador. Algumas ideias em debate com quem pretende anular seu voto para vereador.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

quarta-feira 28 de setembro| Edição do dia

Algumas ideias em debate com quem pensa em anular seu voto para vereador

As pesquisas eleitorais mostram um crescimento da população que declara que votará nulo, em branco ou simplesmente não votará. Elas foram feitas para prefeito. Para vereador, historicamente, o número de votos nulos é muito maior. Não faltam motivos para revolta nas eleições. Elas parecem, e em vários sentidos são, um jogo de cartas marcadas, de ladrões sorridentes, milionários que se fingem humildes, aqueles que falam em trabalhador mas governam para elite, apresentadores de TV e bispos de igrejas se valendo de sua influência, amigos de empreiteiras, agressores de mulheres, mentirosos contumazes, todos eles prometendo o avesso do que farão.

Depois de Junho de 2013 e um grito de “não nos representam” se esperava isso na juventude. Mas as pesquisas apontam uma parcela ainda maior de votantes que declaram que votarão nulo entre as pessoas acima dos 40 até os 55 anos de idade. São votantes que votavam no PT e se desiludiram com seus ataques aos direitos dos trabalhadores e por assumir os mesmos métodos corruptos de governo do PSDB, PMDB, PP, etc.

Queremos neste artigo oferecer algumas ideias em debate com alguns dos motivos (de esquerda) de por que muitos jovens e trabalhadores argumentam que votarão nulo. Buscaremos debater como melhor expressar essa raiva, que também sentimos, do podre e corrupto sistema político brasileiro. Uma delas é para nós fortalecer as vozes de candidaturas do MRT pelo PSOL que defendem entre outras coisas que “todo político ganhe como uma professora”.

1- Jogo de cartas marcadas, para os empresários e para os privilegiados

As coligações, as regras eleitorais e as relações legais – e corruptas – com os empresários garantem que políticos se perpetuem e outros, desconhecidos empresários e políticos dos grandes partidos com seus tempos de TV e recursos, ganhem atenção. Oferecem às vezes novas caras e discursos para o velho descaso com a saúde e educação, propostas de privatização, ataques aos trabalhadores. Novidades para garantir seus super-salários e benefícios enquanto milhões padecem o desemprego. “Não sou político” repete um empresário em São Paulo, cartolas do futebol em BH, e outros exemplos pelo país.

Não bastasse o tempo de TV e o dinheiro, os partidos dos empresários querem restringir o sistema político brasileiro. Querem excluir a esquerda de ter qualquer tempo de TV e até mesmo de ter plenos direitos de representação no parlamento. Alegam que precisam diminuir o número de partidos, mas seu objetivo é calar quem possa criticar suas medidas.

É um jogo de cartas marcadas, frágil, que não pode resistir a críticas. Diana Assunção, editora do Esquerda Diário e candidata a vereadora pelo PSOL em São Paulo fez um vídeo denunciando a censura à esquerda que ocorre nas eleições:

O melhor a fazer nesse cenário é deixar os empresários com eles mesmos, decidindo sobre nossas vidas? Ou ter vozes lá dentro criticando suas medidas para potencializar uma grande força “aqui fora” para lutar contra todo o regime político?

2- Os políticos só pensam em si mesmos e nos empresários

Essa ideia tão presente nas conversas no trabalho, no bar, no transporte público é muito verdadeira.

Os políticos da elite vivem vidas separadas dos trabalhadores, recebem salários de donos de empresas para poder melhor conviver com esses, melhor servi-los. Karl Marx dizia que o Estado não passava de “um balcão de negócios da burguesia”. Vemos isso nas propostas legais como a reforma da previdência onde querem que trabalhemos dez anos mais, enquanto eles se aposentam aos 50 anos, ou menos, e recebem fortunas. Vemos isso também quando roubam dinheiro de estatais, ou quando recebem por “fora” algum dinheiro de privatizações, nas diferentes modalidades do balcão de negócios que praticam PT, PMDB e PSDB.

Mas precisa ser assim? Precisa existir esse fosso que separa “nós”, “deles”? O fosso é imenso como mostramos nesse vídeo que coloca em números alguns dos privilégios dos políticos:

Esse fosso só existe se “nós” não estamos organizados. Se somos milhares organizados para fazer greve, manifestações, rapidamente mudam de opinião.

O que precisamos é organizar essa força para se enfrentar com os empresários e os políticos dos empresários. Podemos nos organizar melhor “aqui fora” se tivermos uma voz ecoando e multiplicando as denúncias das relações espúrias das câmaras com as prefeituras e empresários, ou não?

3- Voto nulo porque não tenho “quem me represente”

Como mostram as estatísticas, uma parte do eleitorado está “órfão” do PT. Educou-se por anos, senão décadas, a votar 13 de cabo a rabo nas eleições. Você que é de esquerda vai deixar mais filhotes da ditadura terem mais voz ou vai batalhar para erguer uma voz que supere a experiência do PT? Que não se venda aos empresários? Que não busque acordos com Sarney, Renan, Maluf, Collor, Feliciano?

Essa voz não pode ser somente uma voz no parlamento. Parte de superar a experiência com o PT é superar a ideia que nós trabalhadores e jovens não podemos fazer política, devemos ficar parados esperando alguém fazer por nós. Nos sindicatos esperando a direção e, de dois em dois anos, votar em quem indicam. Essa “passividade”, espera e falta de tomar em nossas mãos os rumos da política, é um dos motivos da situação que temos.

Precisamos acabar com esse fosso entre nós e “quem nos representa”, organizar uma grande força militante diária, cotidiana que tire lições da conciliação dos interesses dos trabalhadores com os empresários e com a direita que o PT tanto praticou. Participar das eleições para tirar a influência dos reacionários e de todos empresários entre os trabalhadores, participar dessas corruptas câmaras para denunciá-las e fortalecer nossa luta cotidiana nos locais de trabalho. Fazer nossos “representantes” viverem como nós, com nossos salários, e levarem à frente nossas ideias ou retirá-los de lá. Isso só faremos tendo uma grande voz e organização.

4- O problema é no sistema todo, não vou mudá-lo na minha cidade

Essa é outra ideia verdadeira que leva uma parte das pessoas a anular seu voto. O problema é todo o regime político brasileiro. Em última instância, o problema não é sequer o regime político é o próprio capitalismo que se serve dele como melhor forma de garantir os negócios em nosso país. Quando eles têm alguma agenda que estão com dificuldade de avançar na rapidez que querem, como a dos ataques que Dilma iniciou e Temer está acelerando, eles rasgam as leis, como fizeram agora com o golpe institucional – o impeachment.

Para se enfrentar com um “problema tão grande”, tão “sistêmico”, precisamos saber com quais ideias e como lutar.

Se o problema é o capitalismo precisamos é de uma força anticapitalista que lute para acabar com esse sistema de miséria para nossas vidas e até mesmo de destruição selvagem do planeta. Essa ideias são o socialismo. E precisamos levá-las a cabo com nossa organização sabendo que nenhum empresário nem seus políticos abrem mão de seus privilégios de mão beijada. Usam seu dinheiro, suas TVs para terem só os “seus” na política e falam que nossa “cidadania” é votar de pouco em pouco. Nos censuram com sua reforma política para impedir que os trabalhadores formem novos partidos, nos perseguem nas fábricas quando denunciamos algo, arrumam capangas para nos amedrontar na rua e são capazes de muito mais. Nossa organização terá que além de ser socialista, ser revolucionária, saber que a elite não tem nenhum freio para garantir os seus negócios. E mostrar nesses períodos de politização, mesmo com as cartas marcadas, que podemos ter ideias simples e fortes que influenciem muitas pessoas.

A amplíssima maioria dos trabalhadores, dos jovens e setores oprimidos ainda não veem que precisamos nos enfrentar com o “sistema” todo. Ficamos parados esperando esse dia acontecer, ou nos organizamos e buscamos dar uma voz política a nossa luta – para apoiar nossas greves e reivindicações, defender nossos direitos?

5- “Que todo político ganhe igual a uma professora” e outras ideias simples para fortalecer a luta contra o regime político e o capitalismo

O fim dos regimes políticos stalinistas (na União Soviética, Alemanha oriental, etc) foi aproveitado pela elite em todo mundo para manchar a ideia de socialismo. Quiseram nos fazer acreditar que não havia alternativa a não ser defender esse sistema capitalista e suas formas de governo. Mais e mais pessoas veem os limites desta democracia dos ricos e da corrupção. Mas não sonham, lutam por algo novo. Como fazemos essa ponte?

Uma ideia simples que pode ajudar nisso é a que os candidatos do MRT pelo PSOL levantam, continuando a campanha que o Esquerda Diário faz há mais de um ano: “que todo político ganhe igual a uma professora”. Lutar contra o privilégio dos políticos ajuda a entender que esse fosso não precisa existir.

Essa ideia junto a outras, como todo cargo político ser eleito e revogável, acabar com as atuais câmaras de vereadores e instituir uma representação de milhares de pessoas, sem privilégios, desde cada bairro, poderia nos ajudar nessa “ponte” anticapitalista que passa também por lutar contra o pagamento da dívida pública que suga os recursos para os banqueiros enquanto padecemos péssimas condições de saúde, educação, transporte; estatizar as empresas que foram privatizadas não para colocá-las na mão de gerentes políticos mas sim de seus trabalhadores. Essas e outras ideias são parte do programa que defendem os candidatos do MRT nesta eleição, continuando o que defendemos todos os dias. Diana Assunção, editora do Esquerda Diário, candidata a vereadora em São Paulo, sintetiza alguma dessas ideias em seu programa, que também é defendido por Carolina Cacau no Rio de Janeiro, Danilo Magrão em Campinas, Maíra Machado em Santo André, no ABC paulista, e Flávia Valle em Contagem em Minas Gerais.

Simples como essa “que todo político ganhe como uma professora”, que farão como fazem os deputados de nosso grupo irmão na Argentina, o PTS, recebem como uma professora e doam o restante para as lutas dos trabalhadores. Ideias simples e fortes como essas podem servir de pontes iniciais para nossa organização nos locais de trabalho e estudo para se organizar contra todo o “sistema”, levar à frente um programa anticapitalista, socialista e revolucionário. Essa luta pode se expressar nas eleições, e precisa ganhar força a cada dia, uma maneira disso é fortalecer instrumentos para difundir e fortalecer sua luta, como o Esquerda Diário que você pode ver aqui como ajudar a fortalecer.




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