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FORA BOLSONARO, MOURÃO E MILITARES | Como Mourão virou mal menor para o PSOL?

Em entrevista ao canal UOL em seu programa ao vivo da manhã, Guilherme Boulos afirmou que frente a Bolsonaro qualquer coisa é melhor, inclusive um possível governo Mourão através do impeachment. Como Mourão virou mal menor para o PSOL?

terça-feira 1º de junho | Edição do dia

“Um governo Mourão seria mais frágil e ao ser mais frágil não tomaria as posições desumanas do governo Bolsonaro”, é o que diz Guilherme Boulos na entrevista concedida ao vivo na manhã dessa segunda-feira, 31 de maio, ao canal UOL.

Convidado para opinar sobre os atos de sábado, que colocou dezenas de milhares de manifestantes nas ruas contra o governo Bolsonaro e outras pautas em especial ligadas ao combate à pandemia. Essa política do Boulos de "escolher o melhor militar" é totalmente tributária da concepção do PT acerca das alas "aceitáveis" e "menos aceitáveis" no Exército, como se “Mourão não tomaria as medidas desumanas de Bolsonaro". Não à toa defendem a mesma política, sem qualquer crítica contundente do papel das altas patentes no golpe institucional.

Perguntado sobre o que nos esperaria com um governo Mourão, Boulos responde que nada seria pior do que Bolsonaro, e que o militar no poder tenderia a fazer um governo fraco, já que Bolsonaro cairia pela ação das massas no impeachment. Em primeiro lugar, como é possível acreditar que o governo de Mourão, um militar defensor da ditadura, pode ser um “mal menor” frente ao bolsonarismo?

Na história política recente, os militares estiveram à frente de regimes autoritários, de perseguição aberta aos movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda. Mourão frequentemente defende o golpe e declara que Ustra e outros torturadores são seus heróis. Recentemente defendeu a chacina no Jacarezinho. No ano passado, durante as manifestações antifascistas, disse que os manifestantes eram marginais que deveriam ser duramente reprimidos e levados “às barras da lei”.

E agora nossas manifestações devem ter como horizonte levá-lo ao governo? Entre Bolsonaro e Mourão, não temos que escolher ninguém, é preciso lutar pela derrota deste governo de conjunto, inclusive pela saída de todos os militares da política, uma expressão clara de um rumo de autoritarismo que percorre o sistema político brasileiro de forma aguda desde o golpe institucional de 2016, que veio para aprofundar ataques que o próprio PT já vinha fazendo.

Mas há ainda um outro erro na análise - e na política - de Boulos, a ideia de que o impeachment configura uma ação das massas. O impeachment é um mecanismo bonapartista desse regime político que exige uma maioria no Congresso de pelo menos dois terços, ou seja, exige o apoio inclusive da maioria dos partidos de direita e dos setores burgueses que eles representam, exige um amplo pacto das classes dominantes, em meio a suas disputas, para apoiar a entrada de um novo governo.

A confiança de que uma ação deste tipo, ou seja, não das massas, mas sim pelo alto e com o objetivo de desviar e conter a insatisfação de massas, para que ela não vá além e ameace o regime, pode representar em si mesmo o interesse das massas, ou se que o caminho apontado pela esquerda deva ser o daquilo que cabe em um pacto como esse, tem a ver com um erro que compõe o conjunto da política que defende Boulos: a ideia de que temos que pressionar os setores arqui-reacionários do chamado “centrão” para que mudem de posição, e de que REDE, PDT, PSB entre outros partidos burgueses representariam um “polo progressista” para os rumos do país.

O “centrão” é composto pelos mesmos atores do golpe institucional de 2016, além de partidos que foram importantes articuladores de todas as reformas que compõem o quadro da barbárie da pandemia no Brasil, dentre elas a lei do teto dos gastos, a reforma trabalhista e da previdência, todas elas indissociáveis da fome e das mortes que fazem parte do cotidiano da trabalhadora e do trabalhador brasileiro.

O que mostra o reacionarismo dessa saída, é que o próprio Boulos é obrigado a admitir quando é indagado pelo entrevistador, que Mourão manteria a mesma política econômica de Bolsonaro. Isso quer dizer, ataques, privatizações, reformas e um sem número de retrocessos que hoje fazem com que nossa classe esteja em um situação miserável, com recordes de desemprego e a fome atingindo níveis históricos.

Ainda que o discurso pareça radical, a “não espera” por 2022 com a expectativa da resolução nas mãos de um congresso de golpistas e num governo “conciliador” de Mourão (!), preservando todos os militares e perdoando os golpistas, é assumir a permanência do conjunto do regime do golpe, para uma saída eleitoral petista em 2022, com Lula à frente, como o próprio Boulos também aponta em sua entrevista.

Esse é o conteúdo que defende Boulos e quase todas as correntes da esquerda, que de uma forma ou de outra, sem defender uma saída que busque derrotar o conjunto do sistema político do golpe - como seria uma assembleia constituinte livre e soberana, na qual batalharemos para desfazer toda a obra do golpe - termina por aceitar o rumo autoritário da política brasileira, naturalizando inclusive um dos maiores símbolos desse rumo que é a presença dos militares na política.

Lutamos por outra perspectiva, e inclusive para que esse conteúdo das nossas manifestações possa ser debatido democraticamente em assembleias de base, e não em reuniões de cúpulas dos que se consideram donos do movimento de massas. Apenas assim é possível fazer ser ouvida a voz das massas trabalhadoras e da juventude.




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