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Temer comunista? O que os liberais querem com isso?

No último domingo (04/09), o Instituto Liberal lançou um artigo em seu blog chamado “Michel Temer: Apenas mais um comunista”, e, atualmente tem sido esse o discurso dos liberais frente ao golpe: O golpe não existe, o Estado é um golpe por si só e o Estado é comunista. Segundo o artigo “o comunismo é a busca pelo controle total da sociedade”, logo, Temer é comunista.

sexta-feira 9 de setembro| Edição do dia

Iremos por partes então. Para os liberais tudo é esquerda. Qualquer coisa que se relacione a organização partidária, ao Estado, a esfera pública e qualquer forma de controle ou autoritarismo é esquerda – como se historicamente, os patrões não tivessem seus partidos e ferramentas para defenderem seus interesses e de suas propriedades. A direita é o liberalismo: qualquer coisa que se relacione a liberdade, tanto do mercado e das instituições, quanto dos indivíduos da sociedade – como se fosse possível em uma sociedade de classes a liberdade plena de todos os indivíduos, livres da opressão e da desigualdade social e econômica.

O artigo se inicia colocando todos num grande saco comunista: PT, PSDB e PMDB. Depois menciona alas do parlamento de extrema-esquerda, tudo porque se associam historicamente ao PCB, “o partido comunista mais antigo do Brasil, que existe há quase cem anos.” Basta essa informação pra assustar os liberais. De maneira equivocada, fica realmente difícil entender a conjuntura política do país se não analisarmos historicamente as transformações dos partidos e da própria esquerda no Brasil e no mundo.

Os liberais não compreendem os avanços da social-democracia, do reformismo e do populismo como um fenômeno da realidade, até porque não os enxergam. Não compreendem que com a degeneração da União Soviética e com a entrada de capital estrangeiro da burguesia internacional, a esquerda mundial se degenera como um todo. E a partir daí, surgem todo tipo de fenômenos: a própria degeneração autoritária das políticas stalinistas, a burocratização, o retorno a social-democracia, os recentes fenômenos neo-desenvolvimentistas e assistencialistas, todos pintados de esquerda, mas que mais defendem o mercado mundial do que qualquer outra coisa.

É interessante ver que não se analisa nenhum crescimento dos grandes latifúndios e dos bancos e o avanço da terceirização durante o período de Lula e Dilma, por exemplo. Eles creem que os sindicatos pelegos das patronais na verdade, estão implantando algum tipo de comunismo dentro das fábricas. Tudo isso comprova que os liberais desvinculam os interesses privados da política nacional, como se não houvesse por detrás de quem governa, um gigantesco empresário – seja do banco, da bala, do boi, etc – que disputa pelo seu pedaço do bolo dentro da ditadura do capital, que procura mais concessões e mais partes da legislação que lhes possa favorecer e por isso se vincula algum partido.

As poderosas famílias por detrás desse jogo político que vemos diariamente nos processos do Senado estão lutando entre si, mas também estão fazendo coligações, estão fazendo tratados e alianças, buscando maior influência e poder econômico. E não porque são todos comunistas, mas porque vivemos num sistema que permita que uma casta de privilegiados – com propriedades, capital e muito estudo – comande o resto da população mundial que não tem desses mesmos privilégios historicamente retirados: o capitalismo.

O que é a Esquerda?

Afinal, o que então caracteriza a esquerda? Temos que partir do ponto básico que distingue o método de compreensão da sociedade: ela é dividida em classes. Existem duas classes irreconciliáveis e com interesses distintos: A classe dos que tem meios de produção – a burguesia — e a dos que tem apenas sua força de trabalho — os trabalhadores.

A esquerda deve necessariamente partir dessa análise para atuar na realidade, logo, é uma força que não deverá se aliar de nenhuma maneira com os capitalistas e seus interesses, seja por financiamentos, por coligações e nem defendendo partidos e organizações dos patrões, nem em nome da governabilidade nem em nome da classe trabalhadora. A esquerda é a organização e a força da própria classe trabalhadora, em seus próprios métodos históricos.

Mises, o patrono e guru do Instituto Liberal já disse no seu polêmico livro “Estudo Econômico Sob Socialismo” que não importa o que a esquerda diga sobre a degeneração da URSS, o que aconteceu lá foi culpa da destruição do mercado e da taxação de preços e salários por fora de um mercado livre, por isso o gigantesco país entrou em colapso. Mas nem de longe menciona os 11 exércitos imperialistas em guerra contra o Estado operário, a própria fome e as condições climáticas do território ou séculos de Czarismo que levaram o país a miséria. Sem falar que mesmo nessas condições, o país disputou lado a lado a corrida armamentista e tecnológica contra o império dos EUA e que teve a constituição democrática mais avançada da história, sendo inclusive o primeiro a avançar em questões das mulheres e LGBT.

Porém, como disse Marx: o ser social é produto das condições sociais determinadas historicamente, e não ao contrário. Ou, segundo CLR James, que coloca a frase do autor de maneira mais poética: os homens fazem a sua história, a medida que ela os permite fazer. O que quero dizer com isso?

Os liberais hoje, no Brasil, percebem certos estranhamentos ou problemas sociais e econômicos de maneira “acertada”, porém, erram na hora de compreender a raiz do problema, erram na hora de entender os movimentos da realidade e logo, erram na hora do veredito final e de como vão atuar, muito por não terem o método de análise da história, mas principalmente porque partem de uma visão da sua condição social e política.

O liberalismo brasileiro é particularmente difundido entre os pequenos empresários, a pequena-burguesia com suas pequenas e médias empresas e dentro das universidades. Muitos inclusive têm origem na classe trabalhadora, mas que ascenderam socialmente num período de estabilidade econômica do capital, muito inclusive por políticas assistencialistas.

Aliás, a própria grande burguesia entendeu a necessidade do Estado e nem sequer ousa falar de seu fim. Os grandes proprietários e patrões se apoiam nessa ferramenta tão útil como mesa de negociação com outros setores da burguesia e para defender os seus interesses contra a classe trabalhadora.

Inclusive, o liberalismo, por não ter o método, não compreende os movimentos do capital internacional. Não compreende o período de estagnação da economia, o período de crescimento econômico, nega o período de “crises, guerras e revoluções” e associa todo mal que ocorre ao seu tão precioso mercado ao autoritarismo estatal comunista. As consignas dos liberais hoje são pelo fim do imposto e pelo fim das leis trabalhistas, pois culpam as conquistas dos trabalhadores pela crise ao mesmo tempo em que fecham os olhos para os privilégios dos verdadeiros inimigos: os grandes empresários, que ainda lucram no período de crise.

Materialismo x Liberalismo

O método que tanto menciono no decorrer do artigo que falta nos liberais é o materialismo histórico dialético. Apesar da complexidade e do peso histórico na realidade, o método em si é simples e fundamental para compreender tudo.

Enquanto os liberais analisam um problema social ou econômico de maneira isolada, como um médico, quando o profissional se depara com tumores no corpo do paciente, ou então com pressão alta, ele não se pergunta porque determinado corpo desenvolveu tumores ou desenvolveu pressão alta. Ele vai se aproximar desse fenômeno que empiricamente constatou, que “recortou” do organismo (e pode até atribuir uma relação lógica entre um ou outro elemento no organismo, e frequentemente o faz), mas o que ele não vai se perguntar é porque o organismo ou o sistema desenvolveu tal caminho e não outro, porque algumas pessoas desenvolvem tal caminho e não outro, ou porque determinado grupo populacional desenvolve determinados problemas em vez de outros, a dialética faz justamente o contrário.

A busca por analisar um elemento da realidade é também compreender tudo que o criou, tudo que ele foi, tudo que ele é e tudo que ele pode se tornar ou criar. Enquanto a filosofia “comum” entende o mundo em fotografias estáticas, o materialismo vai entender justamente o filme todo: os movimentos que fazem entre uma fotografia e outra, quem segura a câmera e com que intuito fotografou. Método que durantes os séculos foi forçosamente retirado das escolas e academias, tanto que nem sequer o estudamos.

Quando a falta deste método se mistura com os interesses econômicos particulares de um setor da sociedade, afastado da complexidade total da realidade social e dos movimentos cotidianos dos trabalhadores, afundado na bolha universitária, surgem teorias como esta: entender que o Estado é sim uma ferramenta de manutenção da ordem estabelecida, mas não conseguir enxergar quem de fato controla essa ferramenta. A partir daí é dizer que o Hitler foi de esquerda, que o PT é de esquerda e que o Temer golpista é de esquerda. Todos estão misturados num gigantesco saco comunista.

Veja o artigo do Instituto Liberal na íntegra aqui




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