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EDITORIAL

Os próximos passos na luta antifascista e antirracista no Brasil como parte da luta internacional 

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 9 de junho| Edição do dia

No último domingo as ruas foram tomadas pela juventude, pelos negros e pelos trabalhadores em manifestações antifascistas e antirracistas, pela primeira vez desde o começo da quarentena. Até então era o bolsonarismo que ia às ruas, em manifestações sempre pequenas, contestando a própria existência da Covid-19 ou então agredindo opositores, como as enfermeiras em Brasília. As manifestações antirracistas e antifascistas, que reuniram dezenas de milhares pelo país, se inserem no marco de uma importante mudança internacional com a reação popular contra o assassinato de George Floyd. Sua filha dizia "meu pai mudou o mundo". Desde 1968 não se viam manifestações deste calibre no Estados Unidos, e seus impactos transcendem muito a conjuntura e os resultados imediatos que possam alcançar. A convergência entre negros e brancos, tantos nas manifestações nas ruas quanto no apoio popular - e este é um grande fato político: o apoio é majoritário no conjunto da população do país, e inclusive entre a população branca - é superior à vista em qualquer processo anterior na história daquele país. Os EUA como potência imperialista do mundo definem muito os rumos do capitalismo internacional. Um levante tão profundo e com apoio tão massivo terá consequências que ainda não podemos medir, e abre um novo momento da situação política internacional.

É o que estamos vendo em diversos países, como na Inglaterra onde os manifestantes derrubaram a estátua de Edward Colston, traficante de escravos do século XVII. As manifestações se alastraram e o Brasil não ficou fora desse processo. Assim como nos Estados Unidos, vemos no Brasil, o maior país negro fora da África, o racismo se aprofundando a cada dia. A polícia assassina segue matando a juventude negra nas favelas e periferias e também reprimindo brutalmente aqueles que se manifestam, como vimos com as 112 detenções em Belém e a brutal violência na dispersão do ato em São Paulo. As mortes por coronavírus só aumentam e atingem principalmente os negros, além da precarização do trabalho e o desemprego que jogam milhões na miséria. Foi também na última semana que a revolta aumentou ainda mais com a morte de Miguel, filho de Mirtes, empregada doméstica que passeava com o cachorro de sua patroa quando a patroa abandonou a criança sozinha no elevador. Miguel terminou caindo do prédio, um retrato dramático da exploração e opressão de gênero e raça no Brasil. Tudo isso quando os números de mortes por covid-19 no país crescem exponencialmente e o governo busca esconder os dados.

Aqui toda essa revolta se combina com uma importante crise política, que viemos analisando no Esquerda Diário. Estes são motivos suficientes para se manifestar nas ruas, seguindo as medidas de distanciamento social e com equipamentos de segurança sanitária, como muito bem argumentou Letícia Parks em vídeo que viralizou nas redes sociais na mesma semana. Devemos sim nos manifestar em defesa dos trabalhadores, dos negros e da juventude como forma de unificar as fileiras operárias, unindo trabalhadores negros e brancos sem nenhum tipo de concessão à tentativa da burguesia em nos dividir e entendendo que são os capitalistas os nossos inimigos. Os atos recentes mostram o erro da concepção de que "não podemos nos mobilizar porque isso provoca a direita e abre espaço para um golpe", pois o que aconteceu foi o contrário, os atos deixaram a direita na defensiva. Essa é a política mais correta e que devemos aprofundar, sempre debatendo como potencializar a organização dos trabalhadores nos locais de trabalho que seguem em atividade e quais são as pautas que devemos levantar nesse momento. 

Sobre a organização dos trabalhadores foi chamativa a participação, especialmente em São Paulo, dos entregadores da Rappi e outras empresas de aplicativos. Em sua maioria jovens negros, este setor vem sendo um dos mais precarizados e explorados em meio à pandemia. Começa a se expressar também que podem ser vanguarda da resistência aos ataques do governo Bolsonaro e Mourão. Foi sintomático o fato de que estavam junto aos milhares que seguiram em marcha, apesar da maior parte das correntes de esquerda ter mantido sua manifestação apenas no Largo da Batata. Na última sexta-feira, inclusive, organizaram uma paralisação, fechando a Avenida Paulista em São Paulo, denunciando as péssimas condições de trabalho, como não ter o que comer e não ter banheiros para utilizar, já que ficam o dia inteiro na rua. São parte de uma geração de jovens trabalhadores em todo o mundo que podem ser quem primeiro enfrentará a tentativa dos capitalistas de descarregarem a crise nas nossas costas. Por isso, é extremamente importante a iniciativa do Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS) na Argentina, que está organizando junto a milhares de jovens trabalhadores a Rede Precarizados, com atos e paralisações em todo o país. Aqui no Brasil, o Quilombo Vermelho se coloca na perspectiva de contribuir fortemente com a organização dos entregadores que no domingo anunciaram que "vão ser os Panteras Negras do Brasil".

Para que essa luta não seja fagocitada por distintos setores do regime temos que ter clareza de que nossa luta antirracista e antifascista precisa apresentar uma saída política. Em primeiro lugar, não caindo na armadilha de acreditar que a saída de Bolsonaro, em si mesma, seria uma resposta e, por isso, levantar a bandeira de Fora Bolsonaro e Mourão. Além disso não iremos cansar de insistir que, diante da magnitude da crise política nacional, os trabalhadores precisam defender uma política independente, não somente deste governo racista e reacionário, mas de todos aqueles que foram inclusive parte de colocar esse governo aí. Se Rodrigo Maia ou o STF fossem aliados na nossa luta, por que teriam aprovado a reforma da previdência e tantos ataques, que destroem a vida dos trabalhadores, em especial os negros? 

Viemos convocando a esquerda socialista que compartilha conosco a bandeira do Fora Bolsonaro e Mourão, como o PSTU e setores da esquerda do PSOL como o Contrapoder, a conformar um polo nacional que levante em unidade essa política, pressionando as grandes centrais sindicais e buscando uma atuação em comum nos processos que já começam a se desenvolver. Ao mesmo tempo, defendemos uma saída que não seja meramente o impeachment ou eleições gerais, como propõe a maior parte das correntes do PSOL e o PSTU, pois essas saídas só mudam os jogadores, sem mudar as regras do jogo, mantendo o regime político do golpe institucional totalmente intacto. 

A profundidade da luta que vemos surgir nos Estados Unidos contra os símbolos de dominação racista e capitalista deve nos levar a respostas também profundas. É necessário desenvolver a auto-organização e a mobilização das e dos trabalhadores, se apoiando na disposição para enfrentar o governo que se expressou neste domingo. Não só nos atos, que ainda são pequenos, mas também nas janelas dos prédios e casas, com panelaços, nos buzinaços de quem passava pelas manifestações, além das redes sociais. Desenvolvendo essa mobilização podemos derrubar o governo Bolsonaro, lutando para impor uma assembleia constituinte livre e soberana. Batalhamos para que os trabalhadores, a juventude e o povo negro assumam como sua essa bandeira pois ela significa um questionamento ao conjunto do regime político, e não apenas de alguns de seus atores. Em uma constituinte livre e soberana imposta pela luta será possível submeter ao voto popular todos os grandes problemas nacionais e os rumos do país, acelerando a experiência de amplos setores de massas com o regime democrático capitalista. No marco dessa batalha, defendemos a mais profunda auto-organização dos trabalhadores para garantir a soberania dessa vontade popular, e apostamos que nesse processo os trabalhadores poderão concluir que a resposta para acabar com os ataques, o sofrimento, o racismo e a opressão não se dará por reformas ou pela conquista gradativa de mais direitos, e sim por destruir essa sociedade de classes e lutar por um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Batalhamos pela auto-organização dos trabalhadores e pela unidade de todas as fileiras operárias para enfrentar os ataques do governo e dos patrões e defender nossos direitos. Exigimos que os sindicatos e as grandes centrais sindicais, como a CUT e a CTB, dirigidas pelo PT e pelo PCdoB, organizem os trabalhadores para garantir que essa unidade das fileiras operárias se dê na prática, unindo forças com os setores precários, com a juventude e com o povo negro, que hoje se colocam em luta. Para isso as centrais sindicais precisam abandonar sua política atual, que é de negociar as novas MPs de ataques aos trabalhadores, e construir um plano de lutas, começando pela convocação de uma paralisação nacional, como ocorreu recentemente na Itália.

Há aqui uma cínica divisão de tarefas. Enquanto o PT e Lula falam em "luta", "defesa dos direitos dos trabalhadores" e "derrubada do Bolsonaro", as centrais sindicais e sindicatos deixam os trabalhadores completamente abandonados e paralisados em meio à pandemia. Por isso, defender uma Constituinte que seja livre e soberana não será para retornar ao projeto de país do PT. Isso porque seus governos fortaleceram o poder econômico e político do agronegócio, das bancadas evangélicas e inclusive o poder arbitrário do judiciário, resultando na Lava Jato, e garantiram que os banqueiros lucrassem como nunca até então. Será para avançar num projeto de país onde realmente as maiorias populares, a classe trabalhadora, cada vez mais feminina e negra no nosso país, possam tomar as rédeas das decisões sobre os grandes problemas e avançar pra fazer com que sejam os capitalistas que paguem pela crise. 

Ao mesmo tempo consideramos fundamental o seguimento das manifestações, buscando que sejam cada vez mais massivas e sempre levando em conta as medidas de segurança sanitária. Isso porque, se as manifestações foram importantes e se inserem numa mudança mais profunda a nível internacional, ainda não são fortes o suficiente para as tarefas que estão colocadas. Precisam ser mais massivas e se combinar com ações de luta dos grandes batalhões da classe operária. Isso para que os trabalhadores intervenham de forma organizada nesse processo, lutando pelas vidas negras, denunciando toda a violência e repressão policial, exigindo que os assassinatos brutais dessa polícia, que não é parte da classe trabalhadora, sejam investigados de maneira independente. Gritando pelo Fora Bolsonaro e Mourão, defendendo todos os direitos dos trabalhadores que estão sendo arrancados neste momento, barrando as demissões e lutando por testes massivos, leitos, contratações e pela centralização do sistema de saúde, por um sistema de saúde único e sob controle dos trabalhadores. 

Neste sentido, convidamos todas e todos a participarem dos Comitês Virtuais do Esquerda Diário e atenderem ao chamado do Quilombo Vermelho com nossas companheiras Letícia Parks, Marcello Pablito, Carolina Cacau, Odete Cristina, Flávia Telles e outras companheiras à frente, para construir uma luta negra anticapitalista e revolucionária. Convidamos também todos a buscar respostas profundas para os grandes problemas atuais que estão colocados para o marxismo revolucionário: nessa semana se inicia o curso "Leon Trotski: Vida e Pensamento", com Edison Urbano, no Campus Virtual do Esquerda Diário, uma contribuição nossa para pensar as tarefas do marxismo revolucionário, o trotskismo, hoje. Nós do MRT estamos colocando todas nossas forças nesta perspectiva e por isso iremos organizar no próximo final de semana uma Conferência Nacional com delegados eleitos nos estados para debater a profundidade do processo internacional em curso e as tarefas preparatórias dos revolucionários no Brasil na batalha por construir um partido revolucionário e internacionalista. 




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