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Mulheres de Colete Amarelo: a determinação daquelas que não tem nada a perder

Desde o começo do movimento dos coletes amarelo, todo mundo notou a presença das mulheres no coração da mobilização. Pisando as ruas, os pedágios tomados, a Champs-Elysées e em numerosas manifestações, as mulheres estão na linha de frente.

quarta-feira 26 de dezembro de 2018| Edição do dia

As mulheres da Comuna hoje

O próprio Emmanuel Macron buscou se dirigir especificamente a isso em seu discurso de 10 de dezembro: se aproximou e saudou “a raiva sincera” da “mãe solteira, viúva ou divorciada, que já não encontra, que não tem os recursos para manter seus filhos e chegar até o fim do mês.” Pretendendo ter entendido essas “mulheres de coragem”, o interesse que motivou o presidente a se endereçar a elas mostra, sobretudo, o potencial explosivo do combate dessas guerreiras de colete amarelo.

De fato as mulheres são as primeiras afetadas pelo custo de vida. São as mais mal pagas, aquelas que estão nos empregos precários ou no trabalho em tempo parcial, as primeiras a pedirem auxílios sociais, e são as primeiras vítimas do desemprego.

Além disso as ruas e as manifestações estão cheias de mães solteiras. Assistentes sociais, trabalhadoras domésticas, operárias, enfermeiras, e até ferroviárias, elas explicam a dificuldade de chegar até o fim do mês, explicam a angústia de não poder oferecer a seus filhos uma vida estando muito pouco defesa pela assistência social.

É assim que Ghislaine Tormos, operária na montadora PSA (que junta a Peugeot e Citroën e outras marcas) explica que são as mulheres que perdem seus dias de trabalho se as crianças ficam doentes. Também são elas que fazem as compras e enchem as geladeiras e quem sentem os preços dos produtos aumentando ano a ano, enquanto isso, os salários estão estancados.

Torya, ferroviária, conta como às vezes precisa ficar sem eletricidade para conseguir comprar os produtos de primeira necessidade. Na greve do ano passado contra a reforma do sistema ferroviário ela denunciava a privatização dos serviços públicos. De fato, são as mulheres, novamente, as mais afetadas. Exemplo disso é a luta contra o fechamento da maternidade de Blanc, com esse fechamento se impunha que as mulheres tinham que seguir uma hora de estrada para chegar até um hospital.

É fato que são as mulheres as que mais duramente sentem a precarização econômica. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França, mais de um terço das famílias monoparentais estão abaixo da linha de pobreza. E além disso, as famílias monoparentais são, em sua maioria, compostas por mulheres sozinhas. Mais que isso, segundo Alex Spire, diretor de investigação no Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) remarca que elas recebem pouquíssima ajuda: “Para além do subsídio às famílias monoparentais, elas têm escassas cobertura porque o sistema foi pensado para um modelo de um homem que trabalha e que se responsabiliza de um lar com uma mulher e filhos.”

Como consequência disso as mulheres são parte daqueles que tem tudo a ganhar e nada a perder. A raiva que se expressa desde o dia 17 de novembro é também a erupção na cena política daqueles que aprenderam a aguentar tudo sem nunca dizer nada. Determinadas para irem até o fim e dar sua vida por um futuro melhor, muitas das mulheres nos coletes amarelos dizem que se manifestam pela primeira vez na vida. Elas provaram o fruto da revolta depois de anos de sofrimento silencioso.

Nas ruas, bloqueios e manifestações as mulheres lembram aquelas palavras de Jules Vallès sobre as mulheres da Comuna em 1886: “Mulheres por todos lados. Um grande sinal. Quando as mulheres se envolvem, quando a dona de case empurra seu marido, quando ela arranca a bandeira negra que flutua sobre as panelas para coloca-la entre dois paralelepípedos é porque o sol se levantará em uma cidade em revolta.”

Artigo original publicado no site em francês da rede Esquerda Diário, Revolution Permanente




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