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CHILE: ATO ANTICAPITALISTA E INTERNACIONALISTA

Leticia Parks, dirigente do MRT, no Ato Anticapitalista: “É necessário pôr em ação a gigante classe trabalhadora brasileira para enfrentar Bolsonaro e o imperialismo”

A editora do Esquerda Diário e dirigente da agrupação Pão e Rosas foi uma das participantes internacionais do Ato Anticapitalista, e se referiu à complexa situação política do Brasil após o triunfo da extrema direita com Bolsonaro, e os desafios da esquerda revolucionária para enfrentá-lo.

domingo 18 de novembro| Edição do dia

Leticia Parks, que participou junto aos setores que se mobilizaram contra o ascenso da extrema direita de Jair Bolsonaro, junto a milhares de mulheres do movimento #EleNão, expressando a raiva contra os planos de ajuste e miséria impostos pelo imperialismo ianque. Como militante do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) do Brasil, faz um chamado a enfrentar Bolsonaro de forma independente do PT de Lula, que governou com os capitalistas e deixou passar o golpe e os ataques dos golpistas.

Leticia Parks ressaltou a partir do exemplo chileno o avanço da extrema direita no Brasil “A classe operária chilena está fragmenta em milhares de categorias, fruto do subemprego e da enorme precarização de um país que tem suas riquezas tomadas quase totalmente pelas transnacionais imperialistas. Tudo isso firmado e calculado durante a ditadura de Pinochet com a ajuda de alguém que no Brasil se fala muito nesses dias, Paulo Guedes, economista reacionário brasileiro. Esta figura que colaborou para que o cobre chileno fosse totalmente vendido para as empresas privadas dos EUA e da Europa, que colaborou com a ditadura pinochetista, hoje está lado a lado com Bolsonaro, como seu futuro Ministro.

Por fim fez um chamado “Temos que lutar agora! Não vamos esperar 2022 para derrotar Bolsonaro! É necessário uma enorme unidade na ação de todos os sindicatos, em combate à paralisia das centrais sindicais e de suas burocracias locais. Temos que tomar nossos sindicatos e entidades estudantis em nossas mãos”.

Acompanhe o discurso completo de Leticia Parks, dirigente do Pão e Rosas Brasil e editora do portal Esquerda Diário:

Boa noite/tarde companheiras e companheiros

É um grande prazer ser parte deste ato internacionalista com vocês.
Venho para lhes falar de um país que é um gigante na América Latina. O Brasil tem a sexta maior população do mundo, um território gigante com riquezas incalculáveis. Nesta enorme crise que vive o capitalismo, as aves de rapina do imperialismo norte-americano tentam há anos saquear, ainda mais, nossas riquezas, e sabem que para isso tem que impor uma superexploração e derrotas ao verdadeiro gigante brasileiro que é sua classe operária. Somos 130 milhões de trabalhadores no Brasil, a maior classe operária da América Latina.

Com a chegada de Trump à Casa Branca e a ascensão das tendência nacionalistas nos países centrais, se escancara a decadência imperialista, que não se recuperou da enorme crise que eclodiu em 2008 e que agora quer impor ainda mais subordinação às economias dependentes como as nossas da América Latina, utilizando sua influência sobre o poder judicial e por trás de um discurso de “combate a corrupção”, aumentar a exploração e destruir os direitos trabalhistas e do povo pobre para ganhar com a privatização das estatais e dos recursos naturais. Para implementar com mãos duras este projeto apoiaram Bolsonaro, este racista, machista e LGBTfóbico para ser presidente de nosso país.

Pelo ódio destilado por Bolsonaro, Mestre Moa, lutador antirracista e mestre de capoeira, foi assassinado por um apoiador de Bolsonaro. Pelo ódio lgbtfóbico que alimenta, aos gritos de Bolsonaro Presidente Laysa, uma mulher trans foi assassinada. Pelo discurso de intolerância e de aniquilação da esquerda, Charlione, um jovem de 23 anos, foi cruelmente assassinado apenas porque votava em Haddad, o candidato do PT. Em nome de sua candidatura, os candidatos a governador e deputados do Rio de Janeiro e de seu partido romperam uma placa de homenagem a Marielle Franco. Marielle era uma mulher negra, lésbica e vereadora de esquerda, e seu assassinato fruto do golpe institucional de 2016, o mesmo golpe que pariu a Bolsonaro e a extrema direita, é uma ferida aberta que dói no peito de todos os que lutam contra o racismo, a LGBTfobia e o capitalismo que nos oprime e explora, que utiliza cada ferramenta podre da opressão para aprofundar a ganância capitalista.

Enquanto o bolsonarismo deixa muito claro quem são seus inimigos, nós que
lutamos mantemos suas memórias vivas na luta contra o imperialismo e os ajustes. Por isto, antes que siga, convido a vocês dizerem comigo:

MARIELLE PRESENTE!

MESTRE MOA PRESENTE!

LAYSA PRESENTE!

CHARLIONE PRESENTE!

AGORA E SEMPRE!

O imperialismo esteve por trás de todos os passos à direita que o regime brasileiro deu. Com a chamada operação Lava Jato, conseguiram retirar Dilma da presidência, sequestrando assim milhões de votos e colocando Temer no governo uma marionete mais servil aos interesses imperialistas. Nos locais onde estamos, o MRT e o Esquerda Diário, discutimos com os trabalhadores e jovens que sob o discurso de “combate a corrupção” esta ofensiva imperialista da Lava Jato veio para debilitar os monopólios nacionais e os sindicatos, abrir caminho para que venham as transnacionais imperialistas para explorar todas as riquezas do país.

Com Temer na presidência foi arquitetada a aprovação da reforma trabalhista em 2017, contra a qual tivemos um importante levante da classe trabalhadora, que no dia 28 de abril de 2017 fez a maior paralisação nacional dos últimos 20 anos. No metrô de São Paulo e no sindicato de trabalhadores da Universidade de São Paulo, construímos uma corrente que convocou os trabalhadores para que a luta seguisse, que era necessário impor todas as forças de nossa classe em uma nova paralisação nacional que só terminasse com a queda de Temer. Enfrentamos o golpe institucional sem nunca prestar nenhum apoio político ao PT, que nos sindicatos alimentava a passividade que impediu que uma nova paralisação, de 30 de junho, poderia ter a força de derrotar as reformas de Temer. Saímos nesse momento em todas as cidade com uma grande campanha para que a greve fosse tomada em nossas mãos pela classe operária, superando os limites da burocracia sindical.

Mas a impotente estratégia eleitoral do PT impediu que a classe vencesse e o golpe se aprofundou. No começo deste ano, as pesquisas diziam que Lula ganharia as eleições no primeiro turno, se pudesse concorrer. Mas o golpismo necessitava mais do que um governo de conciliação como foi o PT. Necessitam uma mão de ferro que aplique velozmente as reformas e faça com que a classe trabalhadora pague pela crise. Quando prenderam Lula, impedindo assim sua candidatura, nossa juventude, nossos professores, em todos sindicatos que atuamos, defenderam o direito do povo decidir em quem votar, um direito que direito que um setor da esquerda que se diz trotskista ignorou apenas porque tinha críticas ao PT, e assim, terminou por apoiar o golpe institucional e a prisão de Lula. Nossas candidaturas estiveram a serviço de enfrentar a manipulação eleitoral, e enquanto ocorriam as eleições, chegamos a 7 milhões de acessos no Esquerda Diário, nossa ferramenta de comunicação, porque fazíamos campanha contra Bolsonaro, o autoritarismo do poder judicial eleito por ninguém, composto por uma casta que vive como milionários, atuando em nome dos interesses imperialistas. Para esses 7 milhões dizíamos a todo tempo: necessitamos retomar nossas ferramentas de luta que são os sindicatos e entidades estudantis, necessitamos criar nossos mecanismos de organização de base, para que a luta e seus caminhos estejam em nossas mãos. Tudo isso companheiros, sem prestar nenhum apoio político ao PT.

Isso porque, companheiros, o PT governou meu país por 13 anos. No começo, com a ajuda do crescimento econômico, deu concessões aos trabalhadores, enquanto a burguesia e o capital financeiro tiveram lucros recordes. Quando veio a recessão o PT atacou o necessário para manter estes lucros intocáveis, e diante do rechaço que começava a gerar nas massas, buscou ajuda em alianças com os mesmos partidos do centro e da direita que depois apoiaram o golpe. Em junho de 2013, quando a juventude se levantou tomando as ruas por todo o país, em busca de mais direitos, a aliança partidária que traiu o PT não era mais capaz de dar concessões. Dilma governava e fechou os olhos para a repressão que prendeu lutadores e feriu gravemente outros. Rafael Braga, um jovem negro, segue preso ainda hoje, sob o silêncio do PT. Quando esta revolta da juventude incendiou e explodiu na classe operária, com uma onda de greves por todo o país, em especial nas obras de construção civil do próprio governo federal, o PT foi o agente da repressão, enviando tropas federais para impedir estas lutas.

Não há dúvidas, companheiros. O PT governou para os ricos. Foi removido do governo porque as necessidades de ajustes eram mais profundas do que o próprio PT era capaz de fazer.

O imperialismo manipulou as eleições com a ajuda desta casta de juízes formados nos EUA. Moro, o juiz que agora será o “super-ministro” de Bolsonaro, manipulou as eleições para beneficiar a extrema direita, todos servos de Trump, dos bancos e das grandes companhias petroleiras norte-americanas. O problema é que toda a direita mais tradicional do país foi brutalmente golpeado pelo discurso de combate a corrupção. Bolsonaro era uma figura muito secundária, tinha meros 8% da base eleitoral da direita, mas frente ao fracasso dos partidos tradicionais, que além disso foram prejudicados pela associação com Trump, Bolsonaro começou a crescer.
Com a chegada da recessão mais forte do século, a situação do país é de profunda crise social. 27 milhões de desempregados, aumento de preços, desvalorização dos salários. Níveis altíssimos de violência urbana. Assim, junto a imagem de um candidato que “não é político”, Bolsonaro somou o discurso de combate à violência, com um programa radical de direita que respondia às angústias de muitos trabalhadores.

De pouco em pouco, se tornou o agente preferido do imperialismo para alterar a relação de forças mais à direita no Brasil, para fazer com que nossa classe pague pela crise. Alertamos em nosso diário, nos sindicatos, nas universidades, e escolas. Bolsonaro é o mensageiro do imperialismo, quer vender o país, quer ser um ajustador voraz, impor as reformas com violência, e assim fazer com que paguemos pela crise. É uma espécie de Temer blindado, protegido pelo resultado eleitoral e com mãos mais duras contra os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda. Seu tipo de bonapartismo, como afirmou o grande revolucionário Leon Trotsky, “é a expressão da dependência mais servil ao imperialismo estrangeiro”. Assim, lutar contra as tendências bonapartista de Bolsonaro nos coloca o enorme e apaixonante desafio de pôr abaixo o imperialismo no Brasil e em toda a América Latina, companheiros!

De todos estes ataques de que falo, vocês já os conhecem bem. Foi aqui, no Chile, que o neoliberalismo triunfou brutalmente sobre o sangue de milhares de mortos pela repressão ditatorial. O que querem hoje fazer no Brasil com nossos direitos, com nossas aposentadorias, já o fazem aqui no Chile há anos. Acabaram com a educação pública, a saúde pública, os direitos trabalhistas, a estabilidade de emprego. A classe operária chilena está fragmentada em milhares de categorias, fruto do subemprego e da enorme precarização, de um país que tem suas riquezas tomadas quase totalmente pelas transnacionais imperialistas. Tudo isso firmado e calculado durante a ditadura de Pinochet, com a ajuda de alguém que no Brasil tem se falado muito hoje em dia, Paulo Guedes, economista reacionário brasileiro. Esta figura que ajudou a que o cobre chileno fosse vendido para as empresas privadas dos EUA e da Europa, que colaborou com a ditadura pinochetista, hoje está lado a lado com Bolsonaro, como seu futuro Ministro.

Mas não será simples, companheiros, para Paulo guedes, Bolsonaro, o poder judiciário e os militares, aplicarem os ajustes desta maneira no Brasil. As pessoas que votaram em Bolsonaro, iludidas com seu discurso anticorrupção e antiviolência não assinaram um cheque em branco para as reformas. Além dos quase 50 milhões que votaram contra ele, e mesmo dentro do seu eleitorado há um rechaço às privatizações e às reformas. Há também uma enorme vanguarda que pode se ativar para criar uma resistência forte contra os ataques. Enquanto crescia Bolsonaro durante as eleições, crescia um movimento por #EleNão, que se tornou internacional e chegou a colocar centenas de milhares nas ruas no mês passado, em diferentes capitais do país. Este movimento protagonizado pelas mulheres, expressão da maré feminista que incendeia o mundo, poderia, junto ao rechaço que se expressou mais em geral nas eleições, se converter em resistência ativa e contundente, com os métodos de luta da classe trabalhadora junto à juventude, às mulheres, os negros e os LGBTs, organizados em seus locais de trabalho e estudo.

A potência que há em nossos países para pôr fim a tão grande exploração é enorme. O problema é que não importa o tamanho que chegaram nossas lutas, no caso do #EleNão no Brasil, a direção do PT não fez nada para que a saída superasse os limites eleitorais. Nos sindicatos que dirigem, seguiram alimentando a separação entre o político e o sindical e a completa paralisia. Alimentaram uma enorme passividade, e hoje querem fazer alianças “pela democracia” com apoiadores do golpe, uma aliança para que possam substituir Bolsonaro nas próximas eleições e assim administrar este decadente neoliberalismo a partir de 2022. Por que acreditar que a dita resistência virá destes 100 parlamentares - entre esses, o centro e a direita golpista, burgueses latifundiários com interesses muitíssimos distantes dos de nossa classe? Esta estratégia parlamentar se baseia em ações de exigência a ministros e juízes, todos eles apoiados pelos interesses imperialistas, que não fazem nada para debilitar o poder burguês e a ingerência imperialista.

Enquanto no parlamento se aliam com inimigos dos trabalhadores, nos sindicatos e movimentos sociais o PT mantém um discurso de esquerda, mas não faz nada mais que algumas ações totalmente impotentes para frear a marcha do golpe e dos ajustes. Dizemos com todas as ferramentas que reunimos no MRT. Temos que lutar agora! Não vamos esperar 2022 para derrotar Bolsonaro! É necessário uma enorme unidade na ação de todos os sindicatos em combate à paralisia das centrais sindicais e de suas burocracias locais. Temos que tomar nossos sindicatos e entidades estudantis em nossas mãos!

Lamentavelmente, a oposição de esquerda ao PT no Brasil, o PSOL, tampouco cumpre este papel. Seus parlamentares deveriam utilizar suas posições e audiência para fazer um grande chamado às organizações dos trabalhadores, exigir que as centrais sindicais, em especial a CUT do PT, saiam da passividade e ponham em movimento esta força imparável da classe trabalhadora. Em lugar disso, fazem uma cobertura de esquerda a esta suposta resistência do PT, que na realidade é uma política de contenção da luta de classes. Do ponto de vista do programa, aceitam que no Brasil se pague uma dívida pública de 250 bilhões ao ano, um verdadeiro saque imperialista que mantém subjugado e escravizado nosso país.

Nenhuma destas estratégias e programas, companheiros, podem fazer frente à ingerência imperialista no Brasil. Para isto, é necessário pôr em ação este gigante que é a classe operária brasileira agora, não esperar 2022. Construir em todos os locais resistência e unificar a ação das categorias para que acabemos de uma vez por todas com a ingerência imperialista em nosso país e continente.

Nossa luta contra o imperialismo e a direita começa agora, companheiros!
Fora imperialismo do Brasil e de toda América Latina! Por uma federação das repúblicas socialistas da América Latina!

Muitas graças, companheiros.




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