Política

RESPOSTA AO EDITORIAL DO ESTADÃO

Estadão, trabalhador não tem medo de trabalhar. Já vocês, tem muito medo do trabalhador!

Amanhece a véspera da paralisação geral do dia 28 e logo cedo nos deparamos com uma enxurrada de reacionarismo desesperado em defesa do golpista Temer. É o jornal Estadão, que lança logo em seu editorial, sem nenhuma assinatura, um verdadeiro manifesto de como falar asneira sobre o que pode ser a maior greve geral das últimas décadas.

Iaci Maria

Estudante de Pedagogia da PUC-SP

quinta-feira 27 de abril de 2017| Edição do dia

O editorial começa logo na introdução chamando os grevistas de “ergofóbicos”, insinuando que eles tem medo de trabalhar e irão parar nessa sexta apenas para emendar o fim de semana com o feriado do 1º de maio – que, diga-se de passagem, é justamente o dia do trabalhador. Bem, sem nem comentar que o editorial de um jornal de grande porte e influência nacional está chamando um amplo setor de trabalhadores de vagabundos, esse argumento de que a paralisação é porque há um “medo de trabalhar” já é furado se olhar a pauta da paralisação: é justamente em defesa do direito de trabalhar. O fato de que os trabalhadores não querem ser absurdamente explorados, não estarem dispostos a trabalhar sem direitos, já que na noite de ontem a CLT foi rasgada e, menos ainda, trabalhar nessas condições até morrer sem se aposentar, isso tudo não significa medo de trabalhar. Isso significa muito desejo de trabalhar, mas fazer isso com condições minimamente dignas, porque nossas vidas valem mais do que os lucros dos empresários.

Depois ainda segue, jogando a paralisação na conta do PT, como se essa enorme mobilização que vai acontecer fosse um plano diabólico para defender esse partido que, segundo o Estadão, é o culpado por todos os males do país. Ora, aí temos que escolher por onde começar pra mostrar o quanto esse editorial é uma tentativa desesperada de desmoralizar o 28A.

Pois bem, primeiro é preciso termos nítido em mente que a classe trabalhadora quer parar. Trabalhadoras e trabalhadores querem parar, e isso nada tem com uma defesa do PT. Se os editores do Estadão se dessem ao trabalho de dar uma volta na rua ao longo dessa semana, poderiam ver que por onde passassem, se respirava revolta e vontade de parar. Sentia-se no ar o cheiro do ódio contra as reformas de Temer e seus aliados golpistas e, não por menos, a aprovação de Temer chegou a míseros 4% essa semana! E muito pelo contrário de ser uma defesa do PT, o que viemos denunciando aqui no Esquerda Diário ao longo do último mês é justamente que as centrais sindicais deram 45 dias de trégua para o governo e exigimos da CUT e a CTB, com suas direções ligadas ao PT e PCdoB respectivamente, que preparem uma greve geral real e efetiva até derrubar Temer e suas reformas, em vez de ficar preparando terreno para as eleições de 2018. Se esse dia 28 é dia de paralisação no país inteiro, é porque trabalhadores e trabalhadoras mostraram disposição de luta no 15M e pressionaram as centrais a justamente não ficarem em uma defesa do PT e convocarem a luta contra os ataques que estamos sofrendo.

Segundo e não menos importante, o Estadão coloca o escândalo de corrupção no país todo também na conta do PT. Enquanto isso, defende ferrenhamente as reformas trabalhistas e da previdência. Bem, por um lado, as últimas delações da Odebrecht mostram que a escandalosa corrupção, como chama o Estadão, não começou nos últimos anos de PT, e sim existe já há 30 anos. Passou PSDB pela presidência, passou PT, teve golpe e entrou PMDB, todos delatados, e o que tem em comum é que a corrupção ficou. Isso porque ela é estrutural ao capitalismo, como já debatemos aqui nesse outro artigo, e todos os partidos da ordem estão afundados até o pescoço em cada caso de corrupção. Isso inclui o PT, mas não apenas.

Por outro lado, é uma cara de pau sem tamanho do Estadão falar em políticos corruptos como se fosse o arauto da ética e moral política, quando vem esforçadamente propagandeando as reformas que são defendidas justamente por uma corja de corruptos delatados. Ontem o texto da reforma trabalhista foi aprovado, rasgando a CLT, e o Estadão comemora isso. Só não diz que uma enorme parte daqueles deputados que na calada da noite retiraram nossos direitos são todos parte dos esquemas de desvio de dinheiro e tem seu nome citado ao menos uma vez nas delações da Odebrecht.

Por fim, o editorial do Estadão tenta menosprezar a paralisação do 28A, como se fosse apenas de meia dúzia de trabalhadores e que a greve do transporte público é que iria impor a greve aos outros trabalhadores. Mas é obrigado a dar o braço a torcer de que até mesmo as escolas particulares vão aderir a essa paralisação. Nas ruas o sentimento é massivo: tem que parar! Aqui no Esquerda Diário abrimos uma enquete sobre a necessidade de que as centrais sindicais preparem uma greve geral até derrubar Temer e as reformas e o resultado é que a gritante maioria é a favor. A própria Veja, conhecida revista de direita, abriu uma enquete sobre ser a favor da greve ou não e está “perdendo em casa”, já que a maioria é a favor da greve.

É Estadão, vocês tentam dizer que trabalhador tem medo de trabalhar, mas isso é só para disfarçar o desespero de vocês e do governo golpista, que está vivendo de vitórias e derrotas, recuando e avançando, e provavelmente ansioso para o que será o 28A. Não é o trabalhador que tem medo de trabalhar, Estadão. São vocês que estão com muito medo da capacidade dos trabalhadores de paralisar e incendiar esse país, fazendo com que as reformas que apenas nos atacam e servem para garantir o lucro dos empresários não sejam aprovadas.

“Se os cães ladram, é sinal que avançamos”, já diria Dom Quixote. Se o jornal da burguesia grita de desespero, estamos no caminho certo. E precisamos ir por muito mais, o 28A deve ser apenas o começo, o início de um forte plano de lutas. É urgente que as centrais sindicais preparem uma greve geral real, efetiva, até a derrubada de Temer e suas reformas. Mais que isso, que essa luta seja a força necessária para impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que mude as regras do jogo, desse sistema que só existe se for na base da exploração, opressão e corrupção. Se há uma crise no país – e no mundo – que sejam os capitalistas, que a criaram, que paguem por ela. Não aceitaremos que nossos direitos sejam retirados sob a justificativa de que é para sair da crise, como diz o Estadão. Que essa nova Constituinte imposta pela luta acabe com os privilégios dos políticos e seus salários milionários, e que decida pelo não pagamento da dívida pública, tirando dos capitalistas e empresários e não do bolso do trabalhador.




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