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Rosa, Trótski e Lênin: Greve de massas, greve política e a luta contra Bolsonaro e Mourão

João Salles

Rosa, Trótski e Lênin: Greve de massas, greve política e a luta contra Bolsonaro e Mourão

João Salles

Na virada do século XIX para o século XX, e consequentemente a transição para a fase imperialista do capitalismo, se abriram debates e hipóteses estratégicas acerca da tática da Greve de massas e de seu caráter político na preparação da insurreição e da revolução socialista. Neste artigo buscaremos discutir, com base nesses três autores, reflexões em torno do papel da greve geral, sua relação com o partido e com a auto organização dos trabalhadores e dos povos oprimidos na luta contra o governo de extrema direita de Bolsonaro e do “partido fardado” dos militares.

Evidentemente estamos tratando de uma situação bastante diferente entre os debates travados naquele momento e o Brasil dos dias atuais. Estes revolucionários debatiam em um período marcado por grandes ascensos operários e revoluções como a revolução russa de 1905, enquanto seguimos hoje uma situação reacionária bastante profunda no país. Ainda assim, os elementos da conjuntura política, onde se fazem notar os atos de rua e os debates que os sucedem, colocam na ordem do dia a discussão sobre os rumos do movimento. É buscando contribuir ao debate que recorremos à história e à teoria marxista presente nessas importantes elaborações da tradição revolucionária dos socialistas.

O período da virada do século XX foi marcado por choques que preconizaram a categórica definição de Lênin sobre a época de “Crises, Guerras e Revoluções” e que permitiu aos marxistas revolucionários o desenvolvimento das ferramentas necessárias para construir a estratégia da tomada do poder pelo proletariado. Os debates suscitados em meio a degeneração da II Internacional das social-democracias são cruciais para pensarmos a atuação dos socialistas hoje no Brasil, bem como em todo mundo.

Cada qual com sua contribuição - e também suas contradições - podemos ver que o processo de aproximações sucessivas operado pelas alas à esquerda do movimento operário marxista internacional, sobretudo esses grandes dirigentes citados a título, diz ainda muito sobre a realidade que vivemos hoje, de crise capitalista internacional aprofundada pela catástrofe sanitária da pandemia pela Covid-19, e da problemática de fazer emergir a classe trabalhadora organizada como fator preponderante e hegemônico do movimento de massas em sua luta revolucionária contra a exploração e opressão capitalistas.

No Brasil nos deparamos hoje com cenário de crise política inédito do governo Bolsonaro e dos militares, com a condução do combate a pandemia marcada pelo negacionismo descarado e responsável pela degradação da condição de vida das massas com um neoliberalismo agressivo e autoritário. Por sua vez, esse governo é fruto de um golpe institucional no país, operado sobretudo por setores não votados da política como foi o caso da Lava-Jato e do STF, articulados com o Congresso Nacional, tutelado pelos militares e que abriu avenidas para seu filho ilegítimo: a extrema direita de Bolsonaro e seu clã obscurantista. Por sua vez, todos esses atores intervencionistas da política foram muito bem fortalecidos pelos anos de conciliação de classes do PT na presidência.

O fato é que o verdadeiro conteúdo das saídas institucionais, por dentro da dita “legalidade”, se faz evidente e o movimento que desatou nas ruas contra Bolsonaro é hoje canalizado para uma estratégia parlamentar e eleitoral das burocracias políticas e sindicais do PT, para eleger Lula junto a uma frente ampla com os capitalistas. Parte da oposição ao PT tenta hoje se diferenciar agitando a consigna de Greve Geral (como é o caso do PCB, setores do PSOL, da UP e o PSTU), mas subordinam essa a política de pressão parlamentar em Arthur Lira (PP-AL) e no Congresso Nacional pelo impeachment junto a setores da direita, como Kim Kataguiri e Joice Hasselmann, e para que assuma o racista e general da reserva Mourão. Uma política funcional ao regime do golpe, tentando emplacar sua terceira via, e a Lula já que o cálculo é o desgaste da extrema direita visando as eleições de 2022.

Apontando no sentido oposto a esse institucional é que deve-se discutir uma alternativa política independente dos trabalhadores e como conquistá-la, vejamos que lições é possível apreender da tradição marxista revolucionária para pensar a tarefa estratégica da vitória dos trabalhadores na atualidade. Como disse Lênin: “Sem teoria revolucionária, não pode haver movimento revolucionário”.

Rosa Luxemburgo e a origem do debate sobre a Greve de massas

O debate remonta às polêmicas travadas entre Rosa e Émile Vandervelde, trabalhista belga e dirigente da II Internacional. A Bélgica era na época, assim como é hoje, uma monarquia constitucional e que detinha colônias na África (Congo belga a maior delas) além de territórios na Ásia e na América Central. Isso não é mero detalhe, um novo fenômeno passou a reestruturar a fisiologia da classe operária, sobretudo europeia, na virada do século XX pautada na espoliação imperialista: A formação de estratos privilegiados dos trabalhadores, com melhor remuneração e ocupação de posições estratégicas na produção capitalista, a base social da burocracia sindical que se formava, a chamada aristocracia operária.

Os anos de 1891 e 1893 foram marcados por greves gerais políticas selvagens no país, com confronto nas ruas e que a vitória da última foi capaz de arrancar o direito ao sufrágio universal masculino a partir dos 25 anos. Ainda que não fosse igualitário, ou seja, o peso do voto dos burgueses e nobres era maior do que dos explorados e oprimidos, essa conquista permitiu que no ano seguinte o POB (Partido Operário Belga, membro da II Internacional) fosse eleito para o parlamento com 27 deputados pela primeira vez na história.

Importante ressaltar que as greves não eram novidade, o próprio Programa de Erfurt da Social-Democracia Alemã datado de 1891 tinha como base o desenvolvimento da luta sindical e parlamentar por reformas, um suposto acúmulo de forças para um socialismo futuro que não se sabia quando chegaria. Mas é no ano de 1902, em meio a uma crise econômica e crescente desemprego na Europa, que o revisionismo parlamentarista da II Internacional cobrará um preço alto em uma greve desatada de maneira espontânea, e traída descaradamente após a derrota de uma reforma eleitoral que tramitava no parlamento.

Rosa de pronto polemizou com os dirigentes do POB, que no início do movimento grevista e da luta pela reforma eleitoral se aliaram à oposição liberal “em nome” desse direito democrático. Mas o preço pago por essa aliança era justamente o de rebaixar o programa defendido, no caso opondo o partido a luta pelo direito ao sufrágio das mulheres (com o argumento estúpido de que seriam de mentalidade mais atrasada) e ao mesmo tempo a burguesia industrial, representada pelos liberais, domesticava o movimento operário e se utilizava da força social e pressão parlamentar para conseguir concessões para si.

O cálculo aqui era de não defender os princípios, ceder aos interesses dos liberais que mesmo após sucessivas traições garantiam defender o direito ao sufrágio igualitário, desde masculino.

Dessa forma a greve já começava com limites claros impostos pelo inimigo, impossibilitando a “liberdade de ação” do movimento operário que tinha subjugada sua iniciativa pela burguesia. A greve desatada, mesmo sem o consentimento dos dirigentes sindicais, durou 10 dias com confrontos violentos e mortes pelo país após o giro do POB em convocar os trabalhadores para a luta. No entanto a reforma eleitoral é rechaçada, um cenário já previsto pois era apoiado pela minoria no parlamento, e rapidamente após o fracasso da via legalista, os trabalhadores foram convocados a retornar aos seus postos de trabalho de mãos vazias.

A derrota da greve, causada pela traição de sua “falsa direção da guerra” [1] em nome da aliança com os liberais, marcou um período de desmoralização do movimento operário. Analisando o fato de maneira brilhante é que Rosa chegará a conclusão de que a reação da burguesia ao ver a força do movimento se deu pelo fato do caos introduzido no sistema capitalista a partir da greve, e que a força para conquistar os direitos democráticos emanava justamente daí, diferentemente do que pregavam os dirigentes do trabalhismo belga simpáticos ao revisionismo, e que poderia disso se desenvolver a hipótese estratégica da revolução. Por sua vez, essa força social só não se desenvolveu pela opção política do POB, e apontava os sinais do “cadáver insepulto” que se tornava a II Internacional, que viria a se consolidar após a aprovação dos créditos de guerra por parte da social-democracia alemã.

Mas é somente após a revolução russa de 1905, em seu livro Greve de massas, partido e sindicatos, que Rosa afirmará a hipótese estratégica:

Por meio do desenvolvimento interno lógico de eventos sucessivos, a greve de massas se transforma em uma insurreição aberta, uma barricada armada e combates de rua em Moscou. Os dias de dezembro em Moscou concluem o primeiro ano da revolução como o ápice da linha política de ação e do crescente movimento de greve de massas. Ao mesmo tempo, os acontecimentos em Moscou mostram em um pequeno ensaio o desenvolvimento lógico e o futuro do movimento revolucionário como um todo: sua conclusão inevitável em uma insurreição geral aberta, que por sua vez não pode ocorrer exceto através da escola de uma série de revoltas parciais preparatórias, que por enquanto podem terminar com “derrotas” externas parciais e, se consideradas individualmente, parecem “prematuras”. [2]

Apesar do insight inteligentíssimo, e de demonstrar ao longo do livro a importância da confluência entre os processos grevistas e a atuação da social-democracia russa, acaba por não derivar a conclusão estratégica mais apurada no combate a esse fenômeno de burocratização do movimento operário: a formação de um novo tipo de partido, discussão que travava Lênin no seio da Social Democracia Russa desde 1901.

Para construir o raciocínio de como o processo de greves que se inicia na Rússia em 1902 com os trabalhadores das oficinas ferroviárias de Rostov, se alastrando em diversas direções do império em 1903, chegando em Janeiro de 1905 a greve da fábrica Putilov em São Petersburgo, posição estratégica na indústria e para o início da revolução. Isso é, a força operária desatada no movimento a partir das posições estratégicas levou, fatalmente, à insurreição de Dezembro em Moscou.

Contudo esses elementos fundamentais na perspectiva estratégica da revolução, o potencial contido na fortaleza das posições estratégicas e a tática de ampliar a “liberdade de ação” da classe operária a partir da greve de massas, desatando em seu caráter político, deixam de lado um outro aspecto crucial. Para além do debate do partido contra a degeneração da II Internacional e o combate à burocracia sindical, o papel dos sovietes é secundarizado. Citado apenas uma vez no livro, será nos sovietes que a greve de massas política se delineia mais claramente como hipótese estratégica da revolução.

Trótski, 1905: O papel dos sovietes e da auto organização

Para compreendermos mais claramente essa limitação no pensamento de Rosa, afirmando que a insurreição é a conclusão lógica da greve de massas política, recorremos ao trecho de uma palestra de Trótski na Sociedade de Ciências Militares em Moscou no ano de 1924:

É preciso reconhecer que o período da insurreição é considerado insignificante por muitos comunistas ocidentais que ainda não se livraram de sua forma fatalista e passiva de abordar os principais problemas da revolução. Rosa Luxemburgo é nisso o exemplo típico mais expressivo e talentoso. Psicologicamente, entendemos isso sem dificuldade. Ela havia sido treinada, por assim dizer, na luta contra o aparato burocrático da social-democracia alemã e os sindicatos. Incansavelmente, ela havia mostrado que este aparato sufocava a iniciativa do proletariado. Ela só viu uma saída através de um impulso irresistível das massas para derrubar todas as barreiras e defesas construídas pela burocracia social-democrata. A greve geral revolucionária, que se espalhou por todos os limites da sociedade burguesa, tornou-se para Rosa Luxemburgo um sinônimo de revolução proletária. No entanto, seja qual for a sua força, a greve geral não resolve o problema do poder, apenas o destaca. Para tomar o poder, a insurreição deve ser organizada, contando com a greve geral. Toda a evolução de Rosa Luxemburgo sugere que ela acabaria por admitir isso. Mas quando ela foi retirada da luta, ela ainda não havia dito sua última, ou sua penúltima palavra. No entanto, recentemente no Partido Comunista Alemão ainda havia uma corrente muito forte em direção ao fatalismo revolucionário. A revolução está chegando, disseram, vai provocar a insurreição e nos dará o poder. Quanto ao partido, seu papel, neste momento, é fazer agitação revolucionária e esperar os resultados. Nessas condições, colocar categoricamente a questão do período da insurreição é tirar o partido da passividade e do fatalismo, é colocá-lo diante dos principais problemas da revolução, particularmente, antes da organização consciente da insurreição para expulsar o inimigo do poder. [3]

A palestra evidentemente acontece anos após a Revolução de Outubro em 1917, ano em que a posição de Trótski e de Lênin confluem de maneira decisiva. Mas é importante ressaltar que nem sempre foi assim, e nesse sentido a visão de Trótski, um tanto ingênua, de um movimento de massas que empurrasse o partido rumo a revolução, conflui com a crítica de Rosa ao debate de partido que Lênin travava na época. Trata-se de um debate central, como podemos observar nas palavras de Trótski, para a preparação da insurreição e a tomada do poder.

Mas voltando à discussão do papel dos sovietes. Trótski, que foi vice-presidente e presidente do soviete de São Petersburgo, em seu livro 1905, introduz uma problemática crucial para a hipótese estratégica da revolução, ao menos na Rússia: a questão das reservas estratégicas do proletariado, sua concentração de forças no momento decisivo do combate e a questão da hegemonia operária.

O principal método de luta usado pelo Soviete era a greve geral política. A força revolucionária de tais greves consiste no fato de que, agindo a despeito do capital, desorganizam o poder do Estado. Quanto maior, mais completa é a “anarquia” causada por uma greve, mais perto está a greve da vitória. Mas com uma condição apenas: a anarquia não deve ser criada por meios anárquicos. A classe que, pela interrupção simultânea do trabalho, paralisa o aparato produtivo e com ele o aparato centralizado do poder, isolando partes do país umas das outras e semeando confusão geral, deve ser ela mesma suficientemente organizada para não se tornar a primeira vítima da anarquia que ela mesma criou. Quanto mais completamente uma greve torna a organização estatal obsoleta, tanto mais a própria organização da greve é ​​obrigada a assumir funções de Estado. Essas condições para uma greve geral como método de luta proletário eram, ao mesmo tempo, as condições para a imensa importância do Soviete dos Deputados Operários. [4]

Vemos que os sovietes adquirem um caráter decisivo e surgem da necessidade concreta de coordenar as lutas em curso. A possibilidade de paralisar as funções de Estado a partir da greve geral política se trata justamente de ser a representação máxima das instâncias de auto organização da classe. Ao mesmo tempo demonstra como o proletariado, ainda que minoria em um país como a Rússia, se postula como sujeito da revolução com seus métodos de luta e congregando os setores não organizados da classe e seus aliados (como a maioria camponesa) na articulação entre as posições estratégicas, naquilo que vai se gestando da dualidade de poder. Trata-se disso a necessidade de “assumir funções de Estado”. Para isso é necessário cada vez mais “diminuir” as reservas estratégicas e colocá-las no campo de operação do movimento de greve e da luta das massas exploradas e oprimidas. Quanto mais se aproxima o momento decisivo do combate, isso é, a insurreição, menores devem ser as reservas e maior o teatro de operações da guerra.

Ainda que esteja se delineando cada vez mais a hipótese estratégica da revolução, os sovietes não necessariamente cumprem essa finalidade. Tendo sido base do governo provisório de Kerensky sob a direção de sua maioria pelos mencheviques e os SRs (Socialistas Revolucionários) após a Revolução de Fevereiro em 1917, essa finalidade só pode ser conquistada a partir da atuação consciente do partido revolucionário de vanguarda, da organização do partido de quadros leninista, voltado para o combate na luta de classes, atuando como tribunos do povo, em sinergia com os sovietes.

Lênin e o partido: o papel das escolas de guerra e do conceito de tribunos do povo

A luta fracional que travou Lênin durante anos no seio da Social Democracia Russa se dava contra a influência da teorização de Kautsky, dirigente da Social Democracia Alemã e da II Internacional. Ao separar dois momentos, os de “paz” e de “guerra”, e definir “duas estratégias” cada qual para seu tempo (Estratégia de desgaste para os momentos de “paz” e Estratégia de abatimento para a “guerra”) Kautsky assimilava cada vez mais o peso do conservadorismo da aristocracia operária e da burocracia sindical na política do partido. Lênin num primeiro momento aponta o Estado policial tsarista e a ilegalidade do trabalho da social democracia como os fundamentos da sua teoria de partido e contra os liquidacionistas da ala direita na Social Democracia Russa. Mas será somente em 1914, no desatar da Primeira Guerra Mundial e da traição da Social Democracia em aprovar os créditos de guerra e seguir suas burguesias na carnificina, que generalizaria tal teoria.

Sem nos deter aos pormenores do processo, vejamos a conclusão que Lênin chega em seu escrito de 1906 - As lições da insurreição de Moscou, sobre a insurreição de Dezembro de 1905 em Moscou, na qual a fração bolchevique cumpriu papel destacado atuando combinada ao soviete local:

Dezembro confirma claramente outra tese profunda de Marx, esquecida pelos oportunistas: a insurreição é uma arte, e a regra principal desta arte é a ofensiva, uma ofensiva extremamente intrépida e de firmeza inquebrantável. Não assimilamos suficientemente esta verdade. Não estudamos e ensinamos suficientemente às massas esta arte, esta regra da ofensiva a todo custo. Agora, nosso dever é consertar essa falha com toda a energia. Não basta agrupar-se em torno de consignas políticas: também é necessário agrupar-se para a insurreição armada. Quem é contra, quem não se prepara para isso, deve ser impiedosamente expulso das fileiras dos partidários da revolução; jogado no campo de seus adversários, traidores ou covardes, pois se aproxima o dia em que a força dos acontecimentos e as circunstâncias da luta nos forçarão a distinguir entre amigos e inimigos por este signo. Não devemos pregar a passividade, nem simplesmente "esperar" o momento em que a tropa "passe" ao nosso lado; Devemos lançar mão de todos os métodos possíveis para proclamar a necessidade da ofensiva intrépida, o ataque a mão armada, a necessidade de exterminar os chefes e lutar com a maior energia pela conquista do exército vacilante. [5]

Vemos que Lênin extrai a confirmação da hipótese estratégica da revolução na insurreição de Moscou, que por sua vez foi o ponto culminante do movimento das greves de massas, e indo além. No mesmo escrito afirma que as massas chegaram a conclusão da passagem da greve geral política para a insurreição antes de seus dirigentes, incluído aí os bolcheviques. Dessa forma pode-se derivar que a necessidade de um partido que atue conscientemente com essa perspectiva estratégica no movimento operário é a condição para que a insurreição se desenvolva em uma revolução vitoriosa. Para isso era necessário que os militantes bolcheviques soubessem extrair as lições desse processo e das outras lutas que vieram a se desenvolver nos anos seguintes como escolas de guerra, onde mesmo em momentos de “paz” se atua na luta de classes com esse objetivo, sem esperar passivamente que a situação se desenvolva para tal.

Este é um aspecto importante da “virtude guerreira” do partido, mas que se tratando da revolução não basta só a “preparação militar” neste sentido, mas que deve estar ligada profundamente a educação política dos quadros enquanto tribunos do povo, definido como aquele:

[..] que saiba reagir contra toda a manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza e qualquer que seja a camada ou a classe social atingida; que saiba sintetizar todos estes factos para traçar um quadro de conjunto da brutalidade policial e da exploração capitalista, que saiba aproveitar o mais pequeno pormenor para expor perante todos as suas convicções socialistas e as suas reivindicações democráticas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico-mundial da luta emancipadora do proletariado. [6]

Essa combinação de elementos, junto a todo processo preparatório do Partido Bolchevique, dão as bases para a experiência da maior revolução operária da história, onde a classe trabalhadora russa tomou o céu de assalto em sua triunfante Revolução de Outubro em 1917.

Passado esse resgate histórico e teórico sobre a Greve de massas, seu caráter político, a relação com instâncias últimas de auto organização (sovietes) e o papel do partido, trataremos de desenvolver reflexões e apontamentos em torno da crise política no Brasil, o movimento de rua contra o governo Bolsonaro e a necessidade de uma estratégia e um programa independente dos trabalhadores e do conjunto dos setores explorados e oprimidos.

Para onde deve apontar a luta contra Bolsonaro, Mourão e os ataques capitalistas?

Ao avançarmos mais de um século no tempo as diferenças na situação são definidoras. Como abordamos de início, a situação da Europa era efervescente, com a luta de classes aflorando em seus mais diversos aspectos. Hoje, no país, a situação reacionária é o que prima, com um cenário defensivo para os trabalhadores, um governo de extrema direita sustentado pelos militares e um regime político golpista e autoritário empenhado em descarregar a crise capitalista nas costas dos explorados e oprimidos. Estamos falando de um país atrasado e dependente, com traços semi coloniais que se aprofundam. A crise capitalista internacional que vivemos reatualiza a época de “Crises, Guerras e Revoluções” e a generalização das hipóteses estratégicas sobre a revolução nos deixam armas poderosas para pensar a atuação dos revolucionários no Brasil, e ainda que pesem as diferenças de caracterização recorreremos a essas teorizações para contribuir na reflexão da luta revolucionária pelo fim do capitalismo e pelo socialismo.

Um raciocínio importante para desenvolver é sobre o fenômeno da burocracia sindical e a conquista de maiores concessões pela espoliação imperialista de suas burguesias e as posições estratégicas ocupadas . Inclusive essa mesma burocracia é quem viria a cumprir o papel de “polícia” no movimento operário, limitando a atuação socialista e contra a qual seria necessário desenvolver uma força material, isso é, um partido de novo tipo, como teorizou Lênin, para superar seu entrave. Isso é crucial para entendermos também a situação reacionária em que vivemos, onde a passividade e a traição por parte da burocracia para manter seus privilégios, hoje em nome da frente ampla articulada entre o PT de Lula e os capitalistas, contribui para conter a potencialidade da classe trabalhadora e isolando os processos de luta acaba por construir a derrota, tal qual fizeram os burocratas belgas do POB.

Se por um lado é impossível pensar um processo de tipo “clássico”, podemos dizer que o processo de formação da direção que hegemonizaria o PT a partir do Novo Sindicalismo e dos sindicalistas autênticos carrega traços dessa lógica tratando-se do papel das burocracias sindicais. Isso porque surge do movimento grevista dos metalúrgicos de grandes empresas multinacionais, uma posição estratégica durante o período de crise da ditadura militar, e que tinha como centro da sua reivindicação o reajuste salarial da categoria e melhores condições de trabalho. A atuação dos sindicalistas autênticos e de Lula no processo, que depois conformaram a CUT e essa direção do PT, foi de limitar a um horizonte corporativista o processo de luta, controlá-lo e impedir que se desenvolvesse o ascenso operário desatado em uma saída política dos trabalhadores para a crise da ditadura militar.

Após esse processo a influência desse mesmo setor no sindicalismo brasileiro se ampliou ainda mais. Hoje vemos que o PT, e partidos que o orbitam como o PCdoB, têm um peso de direção em diversos sindicatos e categorias que ocupam posições estratégicas: metroviários de São Paulo, petroleiros da Petrobrás, os ferroviários da CPTM, setores dos transportes e logística, dos eletricitários entre outros. Ainda que pese o elemento de ataque à estrutura sindical após o golpe institucional de 2016 e a reforma trabalhista - aprovada com a traição das centrais sindicais, importante dizer, vemos que estão longe de perder seu poder de fogo como analisamos aqui. [7]

Sendo assim vemos que o postulado das posições estratégicas está vigente e na toada dos atos de rua e da crise sem precedentes no governo, o momento para convocar uma greve geral é mais do que oportuno. Essa seria uma chance de ouro para fazer emergir a classe trabalhadora com seus métodos de luta, paralisando setores estratégicos da produção, gerando prejuízo ao capital e ao paralisar funções de Estado colocar em xeque tanto o governo como o próprio regime político autoritário que o sustenta e apoia os ataques e reformas que precarizam a vida e o trabalho.

Ainda que hoje não tenhamos um movimento grevista forte pelo país vimos diversas categorias despontarem no último período, ainda que em lutas defensivas, e que o principal problema não se trata de uma indisposição da classe em lutar. O principal entrave segue sendo a política das direções do movimento de massas, que buscam separar e isolar as lutas em curso para evitar que a luta de classes dê a tônica da conjuntura política em um processo que ameaçaria os acordos firmados com os capitalistas pelo PT nessa frente ampla para 2022.

Frente esse fator objetivo do entrave que representa a burocracia nos rumos do movimento organizações como o PCB, até mesmo alguns setores do PSOL, da UP e o PSTU tem levantado de maneira oscilante a consigna da Greve Geral, mas atrelando essa a uma pressão parlamentar pelo impeachment junto a setores da direita.

Como vimos já no debate de Rosa sobre as greves de massas e as greves gerais políticas, é de que essas servem enquanto uma tática para ampliar a “liberdade de ação” dos trabalhadores em luta ao mesmo tempo que reduz a da classe inimiga. Vimos também que atrelar a tática da greve à pressão parlamentar e os acordos com a direita sempre foram a receita do fracasso e da desmoralização. É necessário manter a iniciativa dos trabalhadores rumando ao horizonte político independente, exigindo suas reivindicações e confiando única e exclusivamente em sua força auto organizada para conquistá-las, e não da obtenção de uma maioria parlamentar no reacionário Congresso Nacional.

Mas partimos também de um problema anterior para além desse de limitar a “liberdade de ação” a uma saída que elegeria Mourão, um general da reserva racista e saudosista da ditadura militar. Justamente sobre como podemos impor a essas burocracias que se movimentem no sentido da luta defensiva nesse momento. Para isso seria necessário instaurar no movimento a tática da Frente Única Operária. É para onde apontamos ao propor a todos os setores da esquerda a conformação de um Comitê Nacional pela Greve Geral.

A partir desse comitê poderíamos batalhar por assembleias de base (a auto organização) em cada local de trabalho e estudo que pudessem votar inclusive exigência às Centrais Sindicais pela convocação da Greve Geral e coordenar as diferentes lutas em curso nessa perspectiva. Unindo a classe trabalhadora ao conjunto dos explorados e oprimidos como os povos originários na luta contra o PL 490, a juventude na luta em defesa da educação pública. Uma proposta que temos levantado e que ainda segue sem resposta. Isso torna gráfico que apesar de levantarem a consigna nada fazem de concreto para realizá-la e ainda terminam por fortalecer setores da direita condicionando-a a política do impeachment.

Essa força social que emergiria de uma greve geral como defendemos, enraizada na auto organização da classe, para que pudesse desenvolver ao máximo a liberdade de ação e a força dos trabalhadores e setores oprimidos deve necessariamente apresentar uma alternativa política independente que não se limite a apenas mudar os jogadores (Bolsonaro sai, e Mourão fica?) enquanto mantém intacta as regras do jogo nas mãos das instituições golpistas que ditam os rumos do país acima da soberania popular de maneira autoritária. Contra as bravatas golpistas dos militares e de Bolsonaro e contra todas as instituições dos capitalistas que hoje avançam em ataques e privatizações como o STF e o próprio Congresso Nacional.

Nesse sentido, de apresentar um quadro geral das opressões e do autoritarismo do regime, colocando abertamente nossas convicções socialistas e cada reivindicação democrática, se apóia no fato de que na luta contra um regime político autoritário cada demanda democrática carrega um alto valor. Isso porque para realizá-las é necessário nos auto organizarmos para impô-las aos capitalistas, sem qualquer confiança nas saídas dos mesmos e sem que esperemos as eleições de 2022, onde mesmo com uma eventual vitória do Lula deixaria todo um regime transmutado desde o golpe institucional. Por isso nossa luta por uma Assembleia Constituinte que seja verdadeiramente livre e soberana, que dissolva as instituições golpistas e que permita que façamos emergir a classe trabalhadora como o sujeito do processo em luta por suas demandas e se chocando com os interesses capitalistas, angariando seus aliados e avançando na perspectiva de um governo de trabalhadores que possa romper com esse sistema capitalista miserável.

É para essa política que voltamos todas as nossas forças e que inclusive estamos relançando o Esquerda Diário em sua nova etapa , trazendo a luta de classes na sua mão, e buscando unificar as diferentes lutas da nossa classe apontando um horizonte revolucionário e socialista, na batalha para construir um partido de tribunos do povo, que encare cada uma das lutas como verdadeiras escolas de guerra que nos permite tirar lições valiosas para preparar aquilo que é nosso sentido de existência: a arte de triunfar na guerra, preparar a insurreição da classe trabalhadora e de todos os setores explorados e oprimidos com o fim da revolução socialista, que necessariamente deve se expandir para a arena internacional e finalmente mundial.

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FOOTNOTES

[1Analogia com o conceito desenvolvido pelo estrategista militar e teórico da guerra, Carl von Clausewitz, em sua obra Da Guerra. Trata-se do momento onde o sujeito que conduz a estratégia encontra-se dividido frente aos interesses em relação ao oponente, nesse caso fazendo prevalecer as ambições das “falsas direções”, isto é, que condicionam o embate da guerra para favorecimento de interesses particulares. No caso a burocracia sindical e política do POB conduziu a greve (guerra) para a derrota no momento em que essa ameaçava sua aliança com os liberais no parlamento.

[2Rosa Luxemburgo, Massenstreik, Partei und Gewerkschaften, 1906, capítulo 3. Tradução nossa.

[3León Trotsky, Los problemas de la guerra civil. IPS-CEIP, 2009. Tradução nossa.

[4León Trotsky, 1905. Cap. 22. Tradução nossa.

[5V.I.Lenin. Las enseñanzas de la insurrección de Moscú. 1906. Tradução nossa.

[6V.I. Lênin, Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento. 1902. Tradução Editorial Avante, pg 48.
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João Salles

Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP
Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP
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