Gênero e sexualidade

ENCONTRO DE MULHERES ECETISTAS

Trabalhadoras dos Correios se reúnem para discutir a questão da mulher na categoria

De 24 a 26 de maio será realizado em Recife-PE o XVIII Encontro Nacional de Mulheres da FENTECT, federação que coordena os sindicatos dos trabalhadores dos Correios. Conversamos com Natália Mantovan, atendente comercial de Campinas, militante do grupo de mulheres Pão e Rosas e do MRT, que será uma das delegadas pelo SINTECT-CAS.

quarta-feira 20 de maio de 2015| Edição do dia

Esquerda Diário - Qual a importância de um encontro de mulheres ecetistas?

Natália Mantovan – Considero fundamental que as mulheres trabalhadoras tenham espaços de discussão e organização, então não seria diferente nos Correios. Nossa categoria protagoniza diversas lutas contra o sucateamento e a privatização da empresa, mas ainda não foi suficiente para reverter esse processo, e só haverá avanços com a unificação da categoria pela base.

Essa unificação começa pela participação das mulheres, que são minoria entre carteiros, mas são bastante expressivas entre atendentes, OTTS e nos postos terceirizados, como entre temporários e no setor de limpeza, mas que por uma combinação da precarização com a opressão que sofrem as mulheres, muitas vezes não conseguem se organizar e participar dos espaços políticos.

Muitas são mães, são responsáveis pela limpeza e alimentação em suas casas, são oprimidas pelos seus companheiros, que querem dizer o que elas devem ou não fazer, tudo isso dificulta que estejam nas assembleias, que tomem a frente da luta.

No caso das terceirizadas, são consideradas como se não fizessem sequer parte da categoria, e impedidas de se organizar. Isso acontece porque a sociedade capitalista se aproveitou da opressão que existe historicamente, que fez com que durante centenas de anos as mulheres fossem consideradas “inferiores” ou submissas aos homens, para explorar mais, levando a que tarefas tidas como “típicas de mulheres”, como faxina, recebam menos, ou nem sequer recebam, como é o caso do trabalho doméstico, um trabalho que a maioria das mulheres faz de graça. Por isso, é dever dos Sindicatos e da Fentect impulsionar espaços onde nós possamos discutir, nos informar, nos formar e ser sujeitos políticos.

ED - Como se expressa a opressão dentro da ECT?

NM – Acho que várias formas, assim como em toda a sociedade. Uma das formas é através do trabalho terceirizado, que já comentei. Na limpeza, a maioria são mulheres, e negras. E foram os primeiros postos a ser terceirizados. Hoje recebem os mais baixos salários, que muitas vezes atrasam, vários direitos trabalhistas são desrespeitados, as condições de trabalho são ruins.

Além disso, há casos de assédio moral, em que muitas vezes os chefes se aproveitam da questão de gênero para impor cobranças e metas com mais intensidade com as trabalhadoras. Mas há também assédio sexual, direto ou velado através de comentários e “piadas”, especialmente no caso das carteiras, e toma dimensões maiores com as trabalhadoras temporárias, já que, em média, são mais jovens e em maior proporção feminina do que entre as efetivas. Mas acho que nós, mulheres ecetistas, precisamos pensar além da categoria, pois fazemos parte da sociedade e temos que combater além das questões específicas do cotidiano da ECT, a opressão que existe que leva mulheres trabalhadoras a enfrentarem dupla jornada, violência, e tantas outras faces da opressão.

ED - Em sua opinião, o que deveria ser discutido no encontro?

NM - Este ano a classe trabalhadora brasileira tem sofrido diversos ataques, com as MPs 664 e 665 que retiram direitos trabalhistas, o PL4330 ampliando a terceirização, e sabemos que as mulheres trabalhadoras são as mais atingidas pela precarização. Nos Correios, como tenho escrito neste Esquerda Diário, há um processo privatização em curso, levado a cabo pelo mesmo governo petista, que nos ensina que não basta ser mulher e dizer que está do lado dos trabalhadores para de fato nos representar, muito pelo contrário. Foi este mesmo governo dito “dos trabalhadores”, mas que esteve sempre a serviço dos empresários, banqueiros, em aliança com os partidos mais conservadores aos quais dizia se opor, foi neste governo que grandes ataques passaram e estão passando, que o trabalho terceirizado saltou de 4 milhões para 12,7 milhões de trabalhadores.

O Encontro de Mulheres deveria servir para impulsionar as mulheres ecetistas a se organizar e ser linha de frente tanto para discutir quanto para mobilizar em cada unidade nossas companheiras e companheiros contra esses ataques, contra este governo que, mas também contra a oposição de direita que como temos visto frente a votação dos ataques, não é em nada melhor para os trabalhadores do que o próprio PT. Por isso temos que ter uma perspectiva de ser parte ativa na conformação de uma terceira via, uma alternativa a este cenário nacional. Mas para isso, a organização deveria começar desde muito antes do Encontro.

Em Campinas, houve um Encontro de Mulheres Regional para eleger as delegadas, onde foi possível um bom debate sobre as opressões, mas esses espaços tem que ser cotidianos. As delegadas devem participar das discussões políticas e ir ao encontro defendendo um programa. Sei que nos Sindicatos dirigidos por correntes da esquerda antigovernista, como os ligados à Intersindical e à Conlutas, há espaços como estes para discussão, porém ainda são em geral poucos e muito rotineiros, com pouca construção na base da categoria. Por outro lado, a maioria dos sindicatos de ecetistas ainda são dirigidos pelo governismo do PT e da CUT, e do PCdoB e sua CTB, e tem sido importantes aliados do governo e da direção da empresa para nos atacar e dividir as lutas.

A Fentect, embora seja atualmente dirigida majoritariamente por setores antigovernistas, segue filiada a CUT, e na prática ainda muitas vezes o movimento sindical combativo dos Correios acaba refém dessa burocracia, que enterra as lutas. É fundamental que as mulheres também sejam parte ativa desta discussão. Acho que o Encontro deveria tirar como orientação impulsionar comissões de mulheres, organizadas pela base, para discutir cotidianamente nossas demandas e nossa atuação política nos locais de trabalho. Outra questão chave é que não basta lutar contra a terceirização e o PL4330 e virar as costas as companheiras e companheiros terceirizados que já realizam o mesmo trabalho em condições ainda mais precárias, temos que combater a terceirização exigindo a efetivação desses companheiros e companheiras, para que tenham os mesmos direitos, e que os próximos contratos sejam todos efetivos.




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