SEMANÁRIO

Realidade objetiva e potencial subjetivo: estatísticas sobre classes sociais a 8 meses de Bolsonaro 

Ricardo Sanchez

Realidade objetiva e potencial subjetivo: estatísticas sobre classes sociais a 8 meses de Bolsonaro 

Ricardo Sanchez

As classes médias foram uma base material para os fenômenos políticos que resultaram no golpe institucional de 2016 e na eleição de Bolsonaro. Novos dados estatísticos e sua confrontação com as tendências nacionais e internacionais da economia colocam interrogações sobre a possibilidade de esse fenômeno mostrar estabilidade. Tal questionamento se soma ao desenvolvimento do proletariado justamente onde o bolsonarismo é mais forte e à radical feminização do proletariado nacional. Somam-se perigos, instabilidades, mas também um renovado potencial subversivo e revolucionário. 

Até 2018, dois fenômenos andaram lado a lado na economia nacional e na morfologia das classes sociais: o crescimento da pequena burguesia e o aumento do trabalho precário, como o “conta-própria” (categoria que engloba todos os bicos, trabalhadores de aplicativos, pejotização, freelance, entre ). Esses fenômenos concomitantes foram um dos fatores objetivos a influenciar os fenômenos políticos e subjetivos que vivemos. 

Não trataremos neste artigo de todos outros fatores do golpismo, seu programa, seus atores legislativos, judiciários, militares, empresariais, nem dos fatores subjetivos produzidos pela (in)ação das direções de massa que foram decisivos para a situação a chegar aonde chegou. Trataremos aqui exclusivamente das forças objetivas das classes e camadas de classe, bem como de seu desenvolvimento. 

Até Bolsonaro um crescimentos das classes médias que influenciou os trabalhadores
De 2012 a 2018, a cada 4 novos desempregados surgiram cerca de 3 trabalhadores “conta-propistas” e um “empregador” – ou seja, um pequeno-burguês, fosse ele um caminhoneiro que empregava um ajudante, um salão de beleza, um food truck. Do ano passado pra cá, esse fenômeno cessou do lado pequeno-burguês. Agora, só cresce o trabalho informal e precário. 

Todas as estatísticas mostram essa deterioração, e ainda nem começamos a sentir os impactos da crise argentina e da muito provável recessão mundial.

Essa proporção entre “conta-própria” e “empregador” não foi homogênea no país, e segue não sendo. Até 2018 houve uma imensa desproporção na criação de “novos empregadores” em locais de maior dinamismo econômico ligado ao agronegócio. Justamente uma base de apoio fundamental do bolsonarismo e, para além dele, de todo golpismo e o bonapartismo, tome ele as vestes e as cores que tome. Esse setor dinâmico teve uma influência subjetiva nos conta-propistas e em outra medida nos trabalhadores formais e informais.

Para se aprofundar nessa caracterização sobre as classes médias e o agronegócio ver: “O PT plantou e Bolsonaro colheu: agronegócio e classes sociais no interior do país

As classes médias foram um fator importante para o golpismo. Sua deterioração ainda não começou. Mas elas pararam de crescer em quase todo o país; as principais exceções, como mostraremos, são locais de forte agronegócio, como o Mato Grosso do Sul e Goiás. 

As classes médias, aqui entendidas como setores intermediários entre burguesia e proletariado, pequenos proprietários, profissionais liberais, altas camadas do funcionalismo, forneceram base de massa a interesses de diversos setores burgueses e do imperialismo, especialmente o yankee. Essas classes também forneceram “oficiais” a esse movimento, sejam oficiais nos escritórios e nas fábricas e, de forma muito especial, de farda e de toga. O Exército e o Judiciário são compostos de quadros desproporcionalmente sulistas, interioranos e de filhos de pequenos e médio burgueses ou de juízes, procuradores e diplomatas. 

Para se aprofundar nesta relação de classe nos militares leia “Os militares voltam para a política, mas com qual política?”, e para se aprofundar sobre o judiciário: “O judiciário e os autoritarismos: o que 3 casos mostram da crise orgânica”

 

As estatísticas do PIB indicam uma tendência de que o Brasil já esteja vivendo uma nova recessão. Não à toa, há relevante debate de renomados economistas, até mesmo figuras proeminentes na criação do neoliberal Plano Real, de como o país está vivendo um “estancamento secular” ou uma decadência que vai durar por décadas. A reforma da previdência não muda isso, pelo contrário, tende a ter efeitos recessivos no médio prazo. 

Para se aprofundar veja “Manchete vs letras miúdas: a mentira do renascimento econômico com a Reforma da Previdência

O Brasil mostra-se como vanguarda do atraso ou, pelo menos, da recessão. E a recessão mundial ainda nem começou. Bolsonaro pode comemorar o quanto quiser a ligeira queda nas taxas de desemprego, qualquer análise mais aprofundada mostra um salto na precarização do trabalho e algo que deve atormentá-lo mais do que o sofrimento proletário: a estagnação das classes médias.

As perspectivas mundiais não são nada alvissareiras, a guerra comercial EUA-China parece estar precipitando a recessão mundial e a vingança dos mercados ao “voto-castigo” que os argentinos deram contra o macrismo contribuem com perspectivas ruins para a economia nacional. 

Uma recessão mundial levará a um menor consumo e valor das commodities, que já representam estarrecedores 74% da pauta de exportação brasileira, enquanto a crise na Argentina ameaça as vendas da produção industrial do país.

As classes médias e sua estagnação

A Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios produzida pelo IBGE ( PNAD-Contínua), produzida pelo IBGE, fornece, por um lado, dados diferentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho no que toca os assalariados, mas, por outro, oferece uma base mais ampla de dados de gênero, raça, e sobre os diversos setores informais do país e, especialmente, sobre os pequeno-burgueses. De forma grosseira, pode-se dizer que a primeira oferece um melhor retrato do país e a segunda do proletariado formal, registrado.

Utilizaremos as duas. 

Ambas mostram uma leve geração de emprego formal no último ano. Levando em conta a maior abrangência em todas camadas da população dos dados da PNAD-Contínua, consideremos a seguinte comparação de junho de 2019 com junho de 2018:

O que se pode notar? Há um crescimento de 450 mil empregos com carteira assinada, 565 mil sem carteira, ao mesmo tempo em que os “conta-própria” cresceram espantosos 1,1 milhão, uma camada diferenciada internamente, mas que, em sua maioria, compreende um proletariado precário, em especial aqueles que mais crescem estatisticamente, os sem CNPJ que sobrevivem em bicos clássicos ou modernos, com aplicativos. Além disso, é digno de nota, sobretudo, para notar a superexploração das mulheres, como cresce o “trabalho familiar auxiliar” e o trabalho doméstico remunerado sem carteira.

Os empregadores estão estagnados. Cresceram míseras 16 mil pessoas. De 2012 a 2017, a camada de “empregadores” havia crescido quase 700 mil pessoas – de 3,560 milhões para 4,232 milhões (média anual de 134 mil); de 2017 a 2018, houve um crescimento de mais 121 mil pessoas. Agora o ritmo caiu para um décimo.
Olhando o país como um todo, entre os anos de 2018 e 2019, houve a seguinte evolução na proporção da população que exerce algum trabalho:

Isso quer dizer que, nos anos de crise, cresceram absoluta e relativamente os empregadores, agora sua participação relativa começa a cair, tal como cai dos empregados formais e informais, dando lugar aos chamados “conta-própria”. 
Os empregados formais e informais, excluindo-se a porcentagem indeterminada de proletários informais no interior dos “conta-própria”, caíram em termos percentuais em 26 dos 27 estados do país entre 2018 e 2019. 

Essa queda generalizada e mais intensa não foi em nada tão uniforme e acentuada no que toca aos empregadores. 

Oferecemos a seguir dados da PNAD do 2º trimestre de 2019 sobre a composição da População Economicamente que exerce trabalho como empregador ou “contra-própria”:

Os estados com maior peso do agronegócio são justamente aqueles que tem maior proporção de empregadores em sua população economicamente ativa. As capitais e regiões metropolitanas desses estados exibem dados ainda mais chamativos: mais de 8% da população economicamente ativa como “empregadora” em Goiânia e Porto Alegre, por exemplo. Parte desses mesmos estados apresentou, na contramão do país, crescimento na participação percentual dos empregadores entre 2018 e 2019: Goiás (+0,26%), Distrito Federal (+0,8%) e Mato Grosso do Sul (+0,35%).

Enquanto não houver uma mais forte desaceleração chinesa e continuar o fluxo de soja a esse país, é possível que os estados ora citados continuem apresentando esse ritmo pequeno-burguês diferenciado em relação a todo país. Mas, olhando os dados nacionais com a estagnação dessa camada, pode-se dizer que uma luz amarela deve ter acendido em algum recôndito gabinete do bolsonarismo, aquele lugar hipotético que se preocupa com as classes médias para além do número de likes

As classes médias tendem a sofrer fortemente o impacto da crise, como se vê no Rio de Janeiro, estado que historicamente tem um peso imenso de classe média, mas que mostra estatísticas cada vez mais similares às do Nordeste e as de outro campeão da recessão: Pernambuco. Essa decomposição das classes médias e do proletariado formal e registrado abre margem a fenômenos à direita e à esquerda. Mas, dessa vez, quem segura o timão do país é o próprio bolsonarismo e não o PT. Que fenômenos políticos e da luta de classes isso pode gerar? Dadas as tendências da economia nacional e internacional e o que as estatísticas já mostram, algo é certo: essa base material e de estabilidade ao golpismo e sua fonte de quadros está na fervura. Entrará ela em ebulição?

Para além das classes médias, o bolsonarismo e seu potencial avesso

Além das classes médias e seu expressivo peso em estados com o agronegócio mais forte, o que inclui em alguma medida São Paulo, especialmente seu interior, há sinais de contradição para o bolsonarismo e hipóteses estratégicas sobre o desenvolvimento de seu avesso. 

A contracara desse dinamismo burguês e pequeno-burguês do interior do país, base de apoio político e eleitoral ao golpismo e ao bolsonarismo está engendrando seu potencial avesso e superação: uma crescente participação nacional no proletariado e uma acelerada feminização do proletariado. 

Uma das fortalezas do bolsonarismo, o agronegócio, está engendrando em velocidades maiores do que o restante do capitalismo pátrio seu potencial algoz, um sujeito e predicado no feminino para o proletariado.

Enquanto ano a ano cresce a participação do Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, de Goiás e Santa Catarina na população e no PIB, também cresce sua participação no proletariado registrado. Usamos a seguir dados da CAGED. Entre 2010 e o segundo trimestre de 2019, os seguintes estados foram os que mais variaram (positiva e negativamente) sua participação no proletariado formal e registrado da CAGED:

Quase um terço de todos os trabalhadores registrados de todo o país está em São Paulo, mas a participação de estados com forte peso do agronegócio e sua indústria associada (como é o caso de Santa Catarina), e onde se instalaram também fábricas automotoras e farmacêuticas, como Paraná e Goiás, cresce fortemente, em detrimento de São Paulo e do Rio de Janeiro. 

Também cresce em todo o país a feminização do proletariado e de forma mais rápida nesses estados de maior agronegócio. Para isso, voltamos a usar dados da PNAD, já que não há dados de gênero nas consultas públicas da CAGED. Os dados da PNAD a seguir levam em consideração todos aqueles que exercem algum trabalho, incluindo os empregadores e “conta-propristas”, categorias em que há maior predomínio masculino. Ou seja, os dados proletários são mais femininos do que os que são apresentados a seguir. Mesmo assim, nota-se como cresce a feminização do trabalho em geral e do proletariado em particular. Organizamos a tabela conforme os estados que mais tiveram crescimento de participação feminina:

A participação feminina na força de trabalho cresce em praticamente todos os estados e não somente naqueles em que há dinamismo na criação de proletariado. O proletariado se nacionaliza, mas se nacionaliza ainda mais como sujeito feminino.

Fazer da potencial antípoda do Bolsonarismo, uma realidade

Esse “vôo-de-pássaro” sobre dados recentes do CAGED e da PNAD, traçando em linhas grossas os dados concretos do Brasil concreto, é crucial para organizar hipóteses políticas e delas traçar apostas que exigem esforço militante para sua realização, para fazer do fenômeno em si um fenômeno para si. Esses dados mostram as instabilidades que as classes médias apresentam para continuar desempenhando o papel de baluarte do golpismo e do bolsonarismo, especialmente diante das tendências da economia nacional e internacional. Sua tendência à instabilidade dará ensejo a fenômenos políticos e da luta de classes não somente à esquerda, como se viu no Rio de Janeiro. Mas, agora que a extrema-direita é governo, há que se refletir como isso pode resultar em formas mais radicalizadas (em ambos os lados do espectro).

Para que ocorra uma radicalização à esquerda das classes médias, é necessário que o proletariado dê respostas na luta de classes. O proletariado, cada vez mais feminino – esse sujeito renegado pela academia e diluído pelo petismo em uma estratégia meramente parlamentar e institucional que só tem nos levado de derrota em derrota – pode, tal como os pequeno-burgueses utilizados pelas grandes patronais e seus caminhões, parar o país e, mais que isso, pode reorganizar a economia em outras bases.

As tendências cegas e objetivas da economia, da composição de classe do país, são um potencial para uma estratégia socialista e revolucionária. Mas essas tendências não se realizam sozinhas. Antes, encontram em seu caminho aparatos políticos, sindicais, a desviá-las, contê-las. Aparatos esses que atuam em todos os flancos – seja isso em sua negociação e aceitação de ataques como a Reforma da Previdência (mais explícita como a UGT, Força e governadores do Nordeste, ou menos explícita como de parte da CUT, CTB, UNE), seja na separação da luta dos “costumes” e da luta “econômica e política”. Essa segunda divisão dá lugar a que seja o judiciário ou a Globo a aparecer como um dos baluartes do feminismo, contra o racismo, a LGBTfobia. Trata-se de apoiar-se em necessárias críticas culturais, despi-las de um olhar de classe e anticapitalista, e desenvolver formas funcionais ao golpismo e ao capitalismo em geral, por exemplo, de um feminismo liberal, quando, crescentemente, o proletariado do país é feminino. 

Saiba mais lendo a declaração do grupo de mulheres Pão e Rosas: “Nós mulheres não pagaremos a crise econômica com nossas vidas”

Nesse momento que vivemos, a tendência a uma nova crise econômica internacional pode acrescentar asco ao já asqueroso governo Bolsonaro, que pode sofrer novos desafios, até mesmo vindos das classes médias. Por um lado, esse momento pode dar energia a todo seu ódio de classe e à esquerda, pode incentivar a busca por renovados grilhões para acorrentar em seu putrefato racismo e patriarcado, em seu obscurantismo e toda a sua subserviência ao imperialismo. Cresce a concentração de riquezas e o reacionarismo da burguesia em cada esfera da vida, tudo o que há de mais repugnante se concentra e desenvolve. As condições negativas para a emancipação se desenvolvem. Por outro, também se desenvolve o potencial subjetivo (e positivo) daqueles (e especialmente daquelas) que podem promover a superação do atual estado de coisas. 

Quão mais verdadeiro é, portanto, ao proletariado brasileiro de 2019, em especial às mulheres e negras, a afirmação de Marx sobre o proletariado, de que ele não sofre “uma injustiça particular, mas a injustiça por excelência ”?

veja todos os artigos desta edição
CATEGORÍAS

[Teoria]

Ricardo Sanchez

Comentários