SEMANÁRIO

Planos para a organização dos negros*

Leon Trotski

Tradução de Jéssica Antunes

Planos para a organização dos negros*

Leon Trotski

Apresentamos aqui a tradução anotada da terceira de quatro discussões de Leon Trotski com C.L.R. James e outros líderes do Partido dos Trabalhadores Socialistas dos EUA (SWP, na sigla em inglês) ocorridas no ano de 1939.

Teoria:

1. O estudo da história dos negros e propaganda histórica devem ser:

(a) Emancipação dos negros em São Domingos [1] relacionada à Revolução Francesa.

(b) Emancipação dos escravos no Império Britânico relacionada com a Lei da Reforma Britânica de 1832 [2].

(c) Emancipação dos negros nos Estados Unidos relacionada com a Guerra Civil Norte-Americana.
Isso leva naturalmente à conclusão que a emancipação dos negros nos Estados Unidos e no exterior está relacionada a emancipação da classe branca trabalhadora. 

(d) As raízes econômicas da discriminação racial.

(e) Fascismo.

(f) A necessidade de autodeterminação dos povos negros na África e uma política similar na China, Índia, etc. 

Importante: O partido deveria produzir um estudo teórico da revolução permanente e os povos negros. Esse deve ser muito diferente em estilo do folheto sugerido previamente. Não deveria ser uma polêmica com o “Partido Comunista”, e sim uma análise política e econômica positiva mostrando que o socialismo é a única saída e tratando a teoria definitivamente no mais alto nível. Isso, no entanto, deve partir do partido. 

2. Uma análise atenta e uma exposição da situação econômica dos negros mais pobres e o modo como isso empurra ao atraso não somente os próprios negros mas toda a comunidade. Isso, trazer aos próprios negros uma descrição elaborada de sua condição por meio de diagramas simples, ilustrações, gráficos, etc., é de máxima importância. 

Teoria — Formas de organização:

1. Jornais semanais e panfletos da Organização Negra. 

2. Estabelecer a Opinião Africana Internacional [3] como uma revista teórica mensal, financiada até certo ponto pelos Estados Unidos, torná-la o dobro de seu tamanho atual e após alguns meses entrar de forma ousada na discussão do socialismo internacional, enfatizando o direito à autodeterminação, com o cuidado de mostrar que o socialismo será a decisão dos próprios estados negros com base em sua própria experiência. Convidar a participação internacional de todas as organizações do movimento operário, intelectuais negros, etc. Esperamos que o Camarada Trotski possa participar disso. Essa discussão sobre socialismo não deve fazer parte do jornal de agitação semanal.

Organização:

1. Convocar um pequeno grupo de negros, e brancos se possível: Quarta Internacionalistas, Lovestonistas [4], — revolucionários sem partido — esse grupo deve ter clareza sobre (a) a questão da guerra e (b) socialismo. Não podemos começar apresentando uma questão abstrata como socialismo aos trabalhadores negros. Me parece que não podemos nos permitir ter confusões acerca dessa questão na direção; pois é essa questão que carrega toda direção da nossa política cotidiana. Nós tentaremos remendar o capitalismo ou romper com ele? Na questão da guerra não pode haver compromissos. O Secretariado tem uma posição e essa deve ser a base para a nova organização.

Programa:

1. Uma cuidadosa adaptação do programa de demandas transitórias com ênfase nas demandas por igualdade. Isso é tudo que pode ser dito no momento. 

Medidas práticas:

1. Escolher, após uma investigação cuidadosa, um sindicato onde a discriminação afeta um número grande de negros e onde exista a possibilidade de sucesso. Mobilizar uma campanha nacional com todos os meios possíveis de frente única: AFL, CIO [5], SP [6], SWP [7], igrejas negras, organizações burguesas, etc, numa tentativa de acabar com essa discriminação. Essa deve ser a primeira campanha, para mostrar claramente que a organização está lutando como uma organização de negros, mas que não tem nada a ver com o Garveyismo [8].

2. Construir uma organização nacional por moradia para os negros e contra os altos preços dos aluguéis, buscando atrair mulheres para a militância. 

3. Discriminação em restaurantes deve ser combatida por campanhas. Um número de negros em qualquer região vai a um restaurante junto, pedindo por exemplo um café e recusando-se a sair até que sejam atendidos. Será possível ficar sentado o dia inteiro de modo ordenado e deixar a responsabilidade à polícia de expulsar esses negros. Uma campanha a ser construída em torno dessa ação. 

[N.T.: os pontos 4, 5 e 7 não puderam ser recuperados dos manuscritos originais]

6. A questão da organização de empregadas domésticas [9] é muito importante e, apesar de difícil, uma investigação minuciosa deve ser feita.

8. Desemprego entre os negros — embora aqui seja necessário ter muito cuidado para evitar a duplicação de organizações; este é provavelmente o papel do partido.

9. A organização dos negros deve considerar a organização dos meeiros no Sul [10] como sua. Deve fazer dela uma das bases para a solução da questão negra no Sul, popularizar o seu trabalho, seus objetivos, suas possibilidades no Leste e no Oeste, tentar influenciá-la numa direção mais militante, convidar seus porta-vozes, estimular que atue contra os linchamentos e sensibilizar toda a comunidade negra e a branca de sua importância na luta regional e nacional. 

Orientação política:

1. Iniciar a luta militante contra o fascismo e garantir que os negros estejam sempre à frente de qualquer manifestação ou atividade contra o fascismo. 

2. Insistir na impossibilidade de que qualquer ajuda venha dos partidos Republicano ou Democrata. Os negros devem levantar seus próprios candidatos com um programa da classe trabalhadora e formar uma frente única apenas com aqueles candidatos cujo programa se aproxima do seu. 

Organização interna:

As unidades locais dedicar-se-ão a essas questões de acordo com a urgência da situação local e das campanhas nacionais planejadas de forma central. Essas só poderão ser decididas após estudos. 

(a) Começar com uma campanha em grande escala por fundos que permitam lançar um jornal e pelo menos duas sedes — uma em Nova York e uma em alguma cidade como St. Louis, a curta distância do Sul. 

(b) Um jornal agitativo semanal que custe dois centavos. [11]

(c) O objetivo deve ser ter rapidamente ao menos cinco revolucionários profissionais — dois em Nova York, dois em St. Louis (?) e um constantemente viajando do centro. Um tour nacional no outono, depois que o jornal for lançado, e um rascunho programático e metas estabelecidas. Uma conferência nacional no verão. 

(d) Conseguir um militante negro da África do Sul para um tour por aqui o mais rápido possível. Há pouca dúvida de que isso possa ser facilmente arranjado…

Carlos [12]: A respeito de abrir a discussão sobre do socialismo no boletim [a revista teórica proposta], mas excluindo-a, ao menos por um tempo, do jornal semanal: me parece que isso é um pouco perigoso. Isso acaba caindo na ideia de que o socialismo é para intelectuais e para a elite, mas que as pessoas de baixo só devem se interessar pelos assuntos comuns e do cotidiano. O método deveria ser diferente nos dois lugares, mas acredito que deve ter ao menos uma perspectiva socialista no jornal semana; não apenas do ponto de vista das questões cotidianas, mas inclusive do que costumamos chamar de discussão abstrata. Isso é uma contradição — o jornal massivo teria que tomar uma posição clara sobre a questão da guerra, mas não sobre o socialismo. É impossível fazer o primeiro sem o segundo. É uma forma de “economicismo”, que os trabalhadores devam se interessar nas questões do dia a dia, mas não nas “teorias” do socialismo. 

Johnson [13]: Eu vejo as dificuldades e a contradição, mas tem algo que eu não vejo com tanta clareza — se queremos construir um movimento massivo, não podemos mergulhar numa discussão de socialismo, eu acredito que isso causaria mais confusão do que ganharia apoio. Os negros não estão interessados no socialismo. Eles podem ser levados ao socialismo com base em suas experiências concretas. Caso contrário, teríamos que formar uma organização de negros socialistas. Eu acho que nós devemos apresentar um programa mínimo, um programa concreto. Eu concordo que não devemos colocar o socialismo como um futuro distante, mas o que estou tentando evitar são longas discussões sobre o marxismo, a Segunda Internacional, a Terceira Internacional, etc.

Larkin: Essa organização abriria as portas para negros de todas as classes?

Johnson: Sim, com base em seu programa. Os negros burgueses podem entrar para ajudar, mas apenas em base ao programa da organização. 

Larkin: Eu não consigo ver como a burguesia negra pode ajudar o proletariado negro a lutar pelo seu avanço econômico. 

Johnson: Em nosso movimento, alguns de nós são pequeno-burgueses. Se um burguês negro é excluído de uma universidade por conta da sua cor, essa organização provavelmente vai mobilizar as massas para lutar pelos direitos do estudante burguês negro. A ajuda para a organização será mobilizada com base em seu programa, e não poderemos excluir nenhum negro dela se ele quiser lutar por aquele programa. 

Trotski: Eu acredito que a primeira questão é atitude do Partido Socialista dos Trabalhadores [SWP] frente aos negros. É bastante inquietante descobrir que até agora o partido não fez quase nada nesse terreno. Não publicou um livro, um panfleto longo ou curto, nem mesmo qualquer artigo na New International [14]. Dois camaradas que compilaram um livro sobre a questão, um trabalho sério, continuam isolados. Esse livro não foi publicado, nem mesmo há citações dele publicadas. Isso não é um bom sinal. É um mal sinal. A característica comum do American Workers Party [15], das organizações sindicais e assim por diante era seu caráter aristocrático. Essa é a base do oportunismo. Os trabalhadores qualificados que se sentem inseridos na sociedade capitalista ajudam a classe burguesa a manter os negros e os trabalhadores não qualificados em uma escala muito baixa. Nosso partido não está a salvo da degeneração se continuar a ser um lugar para intelectuais, semi-intelectuais, trabalhadores qualificados e trabalhadores judeus que se mantém quase isolados das massas genuínas. Sob essas condições nosso partido não pode se desenvolver — ele vai degenerar. 

Precisamos ter esse grande perigo frente a nossos olhos. Muitas vezes eu propus que cada membro do partido, especialmente os intelectuais e semi-intelectuais, que, em um período de seis meses, não consigam ganhar um trabalhador para o partido, deveriam ser rebaixados para a condição de simpatizantes. Podemos dizer o mesmo na questão negra. As antigas organizações, começando pela AFL, são as organizações da aristocracia operária. Nosso partido faz parte do mesmo meio, não das massas mais exploradas, das quais os negros são os mais explorados. O fato de que nosso partido até agora não se voltou para a questão negra é um sintoma muito inquietante. Se a aristocracia operária é a base do oportunismo, uma das fontes de adaptação à sociedade capitalista, então as camadas mais oprimidas e discriminadas são as mais dinâmicas da classe trabalhadora. 

Nós precisamos dizer aos elementos negros conscientes que eles estão convocados, pelo desenvolvimento histórico, a se tornarem vanguarda da classe trabalhadora. O que serve de freio às camadas mais altas? São os privilégios, os confortos que os impedem de se tornarem revolucionários. Isso não existe para os negros. O que pode transformar uma certa camada, fazendo-a mais capaz de coragem e sacrifício? Está concentrado nos negros. Se acontece que nós, no SWP, não sejamos capazes de encontrar o caminho para essa camada, então nós não somos dignos de forma nenhuma. A revolução permanente e todo o resto será apenas uma mentira. 

Nos Estados Unidos, nós temos agora vários concursos. Competição para ver quem vai vender mais jornais, e assim por diante. Isso é muito bom. Mas nós precisamos estabelecer uma competição mais séria — a captação de trabalhadores e especialmente trabalhadores negros. Até certo ponto, isso independe da criação de uma organização especial de negros. 

Eu acredito que o partido deve se comprometer para os próximos seis meses com o trabalho organizativo e político. Um programa pode ser elaborado para a questão negra em seis meses. Depois de seis meses de trabalho nós temos uma base para o movimento dos negros e temos um núcleo sério de negros e brancos trabalhando juntos nesse plano. Essa questão diz respeito à viabilidade do partido. É uma questão de extrema importância. Diz respeito a se o partido vai se tornar uma seita ou se é capaz de encontrar seu caminho para a camada mais oprimida da classe trabalhadora. Tomando as propostas ponto por ponto: 

1. Panfleto sobre a questão negra e os negros no Partido Comunista, relacionando isso a degeneração do Kremlin.

Trotski: Bom. E, também, talvez não seria bom mimeografar esse livro, ou partes dele, e enviar junto a outros materiais sobre a questão às várias seções do partido para discussão?

2. Um número da New International sobre a questão negra.

Trotski: Acredito que isso seja absolutamente necessário. 

Owen: Me parece perigoso lançar um número sobre a questão negra antes de ter uma organização negra capaz de garantir sua distribuição.

Johnson: Não será direcionado principalmente aos negros. É direcionado para o próprio partido e demais leitores da revista teórica.

3. O trabalho com a história dos próprios negros de forma educativa para eles.

Acordo geral.

4. Um estudo sobre a revolução permanente e a questão negra. 

Acordo geral.

5. A questão do socialismo — se trazemos através do jornal ou do boletim [o jornal teórico proposto].

Trotski: Não acredito que possamos começar com a exclusão do socialismo da organização. Você propõe uma organização ampla, um tanto heterogênea, que vai inclusive aceitar pessoas religiosas. Isso significaria que se um trabalhador negro, ou fazendeiro, ou comerciante, faz um discurso na organização no sentido de que a única salvação para os negros é a igreja, seremos tolerantes demais para expulsá-lo, ao mesmo tempo tão sábios que não o deixaremos falar em favor da religião, mas nós não vamos falar em favor do socialismo. Se nós entendermos o caráter desse meio, nós vamos adaptar a ele a apresentação das nossas ideias. Nós seremos cautelosos; mas amarrar nossas mãos previamente - dizer que nós não introduziremos a questão do socialismo por ser um tema abstrato - isso não é possível. Uma coisa é estar muito atento às questões concretas das vidas dos negros e opor o capitalismo ao socialismo nessas questões. Uma coisa é aceitar um grupo heterogêneo e trabalhar sobre ele, outra coisa é ser absolvido por ele. 

Johnson: Concordo bastante com o que você está dizendo. O que eu temo é levar adiante um socialismo abstrato. Você se lembrará de eu dizer que o grupo dirigente precisa entender precisamente o que está fazendo e para onde está indo. Mas que a educação socialista das massas deve emergir das questões cotidianas. Estou apenas ansioso em prevenir que as coisas se desenvolvam em uma discussão interminável. A discussão deve ser livre e plena através do órgão teórico. 

No que diz respeito à questão do socialismo no órgão agitativo, minha opinião é que a organização deve definitivamente se estabelecer a partir do trabalho com o cotidiano dos negros de forma que as massas de negros possam se envolver com ela antes de se envolver nas discussões sobre o socialismo. Embora, é claro, um indivíduo possa levantar quaisquer pontos que deseje e apontar sua solução para os problemas dos negros, a questão é se aqueles que estão guiando a organização como um todo devem começar falando eu nome do socialismo. Eu acho que não. É importante lembrar que aqueles que tomam a iniciativa devem ter algum acordo em comum quanto aos fundamentos da política hoje, de outra forma haverá grandes problemas a medida em que a organização se desenvolva. Mas, embora esses, como indivíduos, tenham o direito de apresentar seu ponto de vista particular na discussão geral, ainda assim a questão é se eles devem falar como um corpo de socialistas desde o início, na minha visão pessoal não.

Trotski: No órgão teórico você pode ter discussão teórica, e no órgão de massas você pode ter uma discussão política de massas. Você diz que eles estão contaminados pela propaganda capitalista. Diga a eles, “Vocês não acreditam no socialismo. Mas vocês verão que, nos combates, os membros da quarta internacional não apenas estarão com vocês, mas possivelmente serão os mais militantes.” Eu chegaria ao ponto de que todos os nossos oradores terminassem seus discursos dizendo: “Meu nome é Quarta Internacional!” Eles verão que nós somos os combatentes, enquanto aqueles que pregam a religião, no momento crítico irão para a igreja ao invés de irem para o campo de batalha. 

6. Os grupos organizadores e indivíduos da nova organização devem estar em completo acordo sobre a questão da guerra.

Trotski: Sim, é a questão mais importante e a mais difícil. O programa pode ser muito modesto, mas ao mesmo tempo deve permitir a todos liberdade de expressão em seus discursos, e assim por diante; o programa não deve ser o limitador da nossa atividade, mas apenas nossa obrigação comum. Todos devem ter o direito de ir além, mas todos são obrigados a defender o mínimo. Veremos como esse mínimo será cristalizado à medida que avançamos nos primeiros passos.

7. Uma campanha em alguma indústria pelos negros. 

Trotski: Isso é importante. Isso trará conflitos com alguns trabalhadores brancos que não vão querer. É uma mudança dos elementos trabalhadores mais aristocráticos para os elementos das camadas mais baixas. Nós atraímos para nós algumas das camadas mais altas dos intelectuais quando eles sentiram que precisávamos de proteção: Dewey, LaFollete, etc. Agora que estamos empreendendo um trabalho sério, eles estão nos deixando. Acredito que perderemos mais duas ou três camadas e penetraremos mais profundamente nas massas. Esta será a pedra de toque.

8. Campanha de habitação e aluguel. 

Trotski: É absolutamente necessário.

Carlos: Também funciona muito bem com nossas demandas de transição.

9. Manifestação em restaurantes.

Trotski: Sim, e dê um caráter ainda mais militante. Poderia haver piquete do lado de fora para chamar atenção e explicar o que está acontecendo.

10. Empregadas domésticas.

Trotski: Sim, eu acredito que isso é muito importante; mas acho que há uma consideração a priori, muitos desses negros são empregados de pessoas ricas e estão desmoralizados e têm sido moralmente transformados em lacaios. Mas há outros, uma grande camada, e a questão é ganhar aqueles que não são tão privilegiados. 

Owen: Esse é um ponto que eu gostaria de debater. Há alguns anos, quando eu morava em Los Angeles, perto de um bairro de negros - um separado dos outros, próspero. Perguntei aos próprios negros que eram servos - muitos da colônia - qual era o tamanho da comunidade. Fiquei surpreso com a resposta: estratos. Esta colônia de negros tinha vários milhares de pessoas.

Johnson: Isso é verdade. Mas se você é sério, não é difícil chegar às massas negras. Eles vivem juntos e se sentem juntos. Essa camada de negros privilegiados é menor que qualquer outra camada. Os brancos os tratam com tal desprezo que, apesar de si mesmos, estão mais próximos dos outros negros do que você pensa...

11. Mobilizar os negros contra o fascismo. 

Acordo geral

12. A relação dos negros com os partidos Republicano e Democrata.

Trotski: Quantos negros há no Congresso? Um. Existem 440 membros na Câmara dos Deputados e 96 no Senado. Então, se os negros tiverem quase 10% da população, eles têm direito a 50 membros, mas tem só um. É uma imagem clara da desigualdade política. Nós podemos muitas vezes opor um candidato negro a um candidato branco. Essa organização de negros pode sempre dizer: "Nós queremos um negro que conheça nossos problemas". Isso pode trazer consequências importantes.

Owen: Me parece que o camarada Johnson ignorou uma parte muito importante do nosso programa — o Partido Trabalhista [16].

Johnson: A região de maioria negra quer apresentar um candidato negro. Dizemos a eles que não devem se apresentar apenas como negros, mas ter um programa adequado às massas negras pobres. Eles não são estúpidos e eles podem entender isso e isso deve ser encorajado. Os trabalhadores brancos colocam um candidato trabalhista em outra região. Então dizemos aos negros na região de maioria branca: "Apoie esse candidato, porque suas demandas são boas demandas dos trabalhadores". E dizemos aos trabalhadores brancos na região negra: "Você deve apoiar o candidato negro, porque, além de negro, você pode ver que o programa dele é eficaz para toda a classe trabalhadora". Isso significa que os negros têm a satisfação de ter seus próprios candidatos em regiões onde eles são maioria e, ao mesmo tempo, construímos a solidariedade operária. Isso se encaixa no programa do Partido Trabalhista.

Carlos: Isso não se aproxima da Frente Popular [17], votar em um negro só porque ele é negro?

Johnson: Essa organização tem um programa. Quando os democratas colocam um candidato negro, dizemos: "De maneira alguma. Precisa ser um candidato com um programa que possamos apoiar".

Trotski: Isso é uma questão de outra organização pela qual não somos responsáveis, assim como eles não são responsáveis por nós. Se esta organização apresenta um certo candidato, e nós como partido achamos que devemos apresentar o nosso próprio candidato em oposição, temos pleno direito de fazê-lo. Se somos fracos e não conseguimos que a nossa organização escolha um revolucionário, e eles escolhem um negro democrata, podemos até retirar nosso candidato com uma declaração concreta de que nos absteremos de concorrer contra alguém negro, não alguém democrata. Consideramos que a candidatura do negro em oposição à candidatura do branco, mesmo que ambos sejam do mesmo partido, é um fator importante na luta dos negros por igualdade; e neste caso podemos apoiá-los criticamente. Eu acredito que isso pode ser feito em certos casos.

13. Um negro da África do Sul ou Ocidental para visitar os Estados Unidos. 

Trotski: O que ele ensinará?

Johnson: Tenho em mente vários jovens negros, qualquer um dos quais possa dar uma imagem clara anti-imperialista e anti-guerra. Acho que seria muito importante para construir uma compreensão do internacionalismo.

14. Submeter documentos e planos ao Comitê Político. 

Acordo geral

Johnson: Eu concordo com sua postura sobre o trabalho do partido em conexão com os negros. Eles são uma força tremenda e dominarão o conjunto dos estados do sul. Se o partido se mantiver aqui, a revolução está ganha na América. Nada pode pará-la.

***

* Tradução feita com base no original em inglês constante da coletânea “A questão negra” [The Negro Question], disponível no Marxist Internet Archive: https://www.marxists.org/archive/trotsky/works/1940/negro1.htm#pno. Como explicam os transcritores da obra: “Esta é uma versão revisada de um conjunto de documentos digitalizados anteriormente, colocados aqui há 13 anos. Desde então, adquirimos um conjunto mais original de documentos para substituir as versões realmente truncadas das discussões sobre "A questão negra". Mais dessas entrevistas e discussões originais foram adicionadas em 2013 com base no Boletim de Estudos Marxistas, nº 4, Pioneer Publishers, 1962, sem direitos autorais, que continha todas as 4 conversas e anexos adicionados por George Breitman, editor deste Boletim. O Boletim que aqui se publica foi intitulado "Documentos sobre a luta dos negros" [Document on the Negro Struggle]. Somos gratos à Biblioteca do Trabalho de Holt por fornecer a cópia impressa do Boletim da qual esse material foi retirado.” Para a publicação brasileira, a fim de deixar o texto de mais fácil compreensão, incluímos notas explicativas sobre fatos, organizações e personalidades, bem como, quando julgamos necessário, completamos o sentido das falas entre colchetes. Notas de Jéssica Antunes e Marcelo Pablito.

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FOOTNOTES

[1Emancipação dos Negros em São Domingos – Refere-se ao processo da revolução haitiana ocorrido entre 1791 e 1804, ano da independência do Haiti. A revolução haitiana foi a primeira revolução de escravos vitoriosa da história, dando origem à primeira república negra, foi brilhantemente estudada no livro Jacobinos Negros de C. L. R. James.

[2A Lei de Reforma de 1832 (em inglês: Representation of the People Act 1832, Reform Act 1832 ou Great Reform Act) - foi um ato do parlamento, que introduziu uma ampla gama de mudanças no sistema eleitoral na Inglaterra e País de Gales. Ampliando, por exemplo, em mais de 40 o número de cidades com representação política no Parlamento, mantendo, entretanto, exigências de renda que garantiam que apenas as classes proprietárias tivessem representantes.

[3Opinião Africana Internacional - Revista publicada por C.L.R James na Inglaterra,onde impulsionava junto a George Padmore, James Ras Ras , Amy Ashwood Garvey, T. Ras Makonnen, Jomo Kenyatta, Wallace Johnson e outros uma articulação de setores que defendiam a libertação nacional dos países africanos e o movimento pan-africanista chegando a fundar em 1937 a chamada Sociedade Internacional dos Amigos Africanos da Abissínia que deu origem ao que viria ser o Escritório do Serviço Internacional Africano (International African Service Bureau), o African Bureau.

[4Lovestonistas - Os lovestonistas se agrupavam em torno de Jay Lovestone, sindicalista que foi secretário geral do Partido Comunista dos Estados Unidos. Organizou uma das frações internas desse partido que disputava com as outras duas frações lideradas por Foster e Cannon. Os lovestonistas ficaram conhecidos por serem a vanguarda na luta contra o trotskismo, contando para isso com o apoio da Internacional Comunista. Em 1929 é expulso do PC, no momento em que se iniciam os expurgos na URSS, após a segunda guerra se vincula à AFL-CIO e se torna colaborador da CIA.

[5AFL e CIO - American Federation of Labor e Congress of Industrial Organizations foram ambas federações sindicais norte-americanas, dissolvidas em 1955.

[6SP - O Socialist Party of America foi fundado em 1901 e reunia em seu interior diversas tendências socialistas de inspiração social-democrata. As candidaturas presidenciais de Eugene V. Debs chegaram a atingir o patamar de 900 mil votos em 1912 e 1920. Após a Revolução Russa de 1917, o partido sofreu uma cisão de membros que se juntaram à Terceira Internacional e fundaram o Partido Comunista dos EUA.

[7SWP - Partido dos Trabalhadores Socialistas foi o partido ligado à Oposição Internacional de Esquerda fundada por Leon Trotski, e depois à IV Internacional. Se originou a partir da Communist League of America, grupo fundado em 1928 por membros trotskistas expulsos do Partido Comunista dos EUA. Após um processo de "entrismo" no Partido Socialista, em 1937 os trotskistas fundam o SWP.

[8Garveyismo – Refere-se a corrente de ativistas e simpatizantes às ideias de Marcus Mosiah Garvey (1887-1940), jamaicano considerado internacionalmente como um dos fundadores do movimento pan-africanista, do nacionalismo negro e do movimento “volta para a África”. Funda em 1914 a Associação Universal para o Progresso Negro (AUPN), mais conhecida como UNIA (Universal Negro Improvement Association).

[9No original, “domestic servants” – o inglês é um idioma sem demarcação de gênero, mas já seria possível dizer nessa época que estamos tratando majoritariamente do caso de mulheres empregadas domésticas, que assim como no Brasil, são maioria nos EUA em comparação aos homens com esse tipo de trabalho. Por isso, optamos ao longo da tradução pelo gênero feminino.

[10Organização dos meeiros no Sul – A Sharecroppers’ Union, foi uma organização de negros fundada no Alabama, que atuou de 1931 a 1936, chegando a contar com 10 mil militantes que lutavam por melhorar salários e condições dignas de trabalho para os meeiros, também conhecidos como arrendatários, nas fazendas do sul.

[11Dois centavos do dollar, equivalente a R$ 1,50 no Brasil em 2019.

[12Carlos, Larkin e Owen eram membros do SWP.

[13JR Johnson – trata-se do pseudônimo de CLR James (1901-1989), importante historiador, jornalista marxista negro de Trinidad e Tobago, foi o escritor de “Jacobinos Negros”, obra referencial do marxismo sobre a Revolução Haitiana. James foi ativo militante da luta negra em vários países fazendo parte de um importante círculo de intelectuais e ativistas negros em Londres que lutavam pela libertação dos países africanos. Na década de 30 foi militante do SWP (Socialist Workers Party) escrevendo diversos textos sobre o marxismo e a luta negra até o final dos anos 30. Em 1938 foi um dos delegados da seção inglesa na conferência de fundação da IV Internacional, e no ano seguinte faz uma série de intercâmbios com Trotsky em Coyoacan (México). Em 1940 rompe com o SWP este partido junto à fração dirigida por Max Shachtman que questionnava o carater de classe da URSS.

[14New Internacional – Revista teórica do SWP.

[15American Workers Party (AWP) - Partido dos Trabalhadores Americanos, foi um partido socialista fundado em 1933, conhecido pela direção da greve contra a Eletric Auto-Lite, em Toledo, 1934. Neste mesmo ano fundiu-se com a Communist League of America (Liga Comunista Americana, organizada por James P. Cannon , Max Shachtman e Martin Abern), fundando o Workers Party of the United States (Partido dos Trabalhadores dos EUA), que posteriormente ingressaria no Partido Socialista numa espécie de “entrismo” que daria origem ao SWP. Um dos organizadores do AWP, James Burnham, rompeu ao fim dos anos 30 com o marxismo se tornando uma importante referência do movimento conservador norte-americano, trabalhando para a CIA.

[16Partido Trabalhista – Amerian Labor Party (ALP) foi um partido atuante entre 1936 e 1956, fundado a partir de rompimento à direita do Partido Socialista, foi ligado às burocracias sindicais da CIO e tinha como política eleitoral o apoio aos partidos Democrata e Republicano.

[17Frente Popular – Politica definida em 1935 no VII Congresso Mundial da Internacional Comunista que consistia na coalizão entre o proletariado com a burguesia imperialista através da realização de alianças eleitorais entre partidos de esquerda (socialistas e comunistas) com partidos burgueses liberais e o de centro-esquerda (radicais republicanos) que se estendiam ao terreno extraparlamentar e impediam uma ação independente do proletariado, subordinando-o ao programa burguês em um momento de agudas crises no capitalismo.

Leon Trotski

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