Política

FAÇAMOS COMO O CHILE

O exemplo do Chile vai muito além de uma luta controlada como quer Lula

O Chile é um exemplo para praticamente todas classes sociais e suas frações no Brasil. Para Guedes e Bolsonaro ele é exemplo, para FHC também. Agora, para Lula, supostamente também é. Quais são esses exemplos, o que podemos aprender da comovente luta da juventude e dos trabalhadores no país vizinho? Aprender com o Chile é coerente com a estratégia institucional e eleitoral do PT, com seus objetivos de conciliação com a burguesia?

domingo 10 de novembro| Edição do dia

Há semanas a luta da juventude e dos trabalhadores chilenos atormentam o sono da burguesia brasileira. O país que era o sonho de país capitalista para Paulo Guedes, se tornou seu pesadelo. Lula lembrou isso literalmente em seu discurso de hoje no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Também disse que tínhamos que aprender com os chilenos em como resistir, e na verdade a fazer mais que resistir, “só se defender, mas aprender também a atacar”.

Retomamos aqui alguns elementos cruciais das semanas de revolta em nosso país irmão para tirar algumas lições para cá. Fica evidente que o exemplo chileno, de enfrentar-se com o regime político, de abrir caminho a auto-organização dos trabalhadores se choca com a burocracia sindical e política lá, bem como com que propõem Lula e o PT aqui. O exemplo chileno abre caminho a respostas anticapitalistas se puder seguir se desenvolvendo.

Uma revolta espontânea que aponta o no caminho da raiz do problema: um regime herdeiro de Pinochet

Como se sabe a mobilização chilena não foi prevista por ninguém. Começou pelo aumento de 30 pesos no metrô mas logo colocou como centro não os 30 pesos, mas os 30 anos de um regime herdeiro de Pinochet. O pinochetismo vive nas aposentadorias de miséria, que não pagam nem um mísero salário mínimo, na educação e na saúde privatizadas, na completa desregulamentação trabalhista, na falta de controle ambiental e pilhagem dos recursos naturais do país, na selvagem repressão das forças policiais e armadas e nos poderes autoritários que tem o presidente para sair descendo a porrada em que se opor.

Sebastina Piñera, presidente do país, bilionário e dono da LATAM, irmão do ministro da economia de Pinochet e criador do modelo de aposentadoria de “capitalização” que Guedes defende, tinha declarado alguns dias antes da juventude começar a pular as catracas do metrô, que o “Chile era um oásis na América Latina”. Passaram poucos dias e o Chile estava em “guerra com um inimigo muito poderoso” segundo o mesmo mandatário. A repressão à juventude despertou os trabalhadores e todo povo. Um sem fim de reivindicações econômicas e políticas, inclusive um forte “fora Piñera” tomou as ruas. Houve uma greve geral de 48hs depois de longa hesitação da Central Unitaria dos Trabalhadores, e que quando a convocou tentou que ela fosse uma “greve para esvaziar as ruas” e não com mobilização, para tirar o governo.

A resposta de Piñera foi primeiro de repressão, toque de recolher. Forças Armadas nas ruas. O governo parecia pendurado no ar, sustentado por um lado pelas forças repressivas e por outro pela linha de não radicalizar das direções do movimento de massas, uma linha que incluía delimitar-se da juventude precária em igual tom da mídia e do governo, acusando-a de “violenta”, “vândala”, tentando separar o protesto “pacífico e cidadão” da revolta sentida dos trabalhadores e setores mais precários.

Mesmo com essa mãozinha do reformismo e neorreformismo chileno, Piñera se viu obrigado a mudar de linha. Recuou do aumento do metrô, ofereceu aumento na aposentadorias. Mas não conseguiu mesmo assim desatar a revolta, e as jornadas revolucionárias, a ação de massas independente, por fora dos limites do regime desafiava não somente seu governo mas todo o regime e burguesia chilena. Apontava às continuidades do regime de Pinochet. Continuidades que nunca estiveram em xeque quando a centro-esquerda, quando Bachelet e outros “socialistas” governaram o país. A educação segue privada e inacessível, o cobre, recurso estratégico do país privatizado, as aposentadorias e salários na miséria.

Cresce no Chile a reivindicação de uma nova Constituição para se livrar do entulho autoritário e neoliberal de Pinochet. Até a reacionária Igreja Católica entra no debate. Está em jogo se vai acontecer, quem a convocará, quais seus limites, se será feita sobre as ruínas do governo ou limitada pela continuidade de um governo direitista, neoliberal. “Mudar tudo para que tudo continue o mesmo”, como diz famoso romance italiano, ou construir um novo país?

Chile: repressão, desvio e auto-organização

Quando ficou claro que somente a repressão não daria conta de conter o ódio ao regime, a insatisfação pela desigualdade galopante, surgiram vozes do imperialismo, e mesmo de um dos maiores bilionários do Chile, chamando a que elite cedesse um pouco, aceitasse um aumento de impostos para fornecer recursos a um pacto social, mudasse o gabinete de governo, alterasse parcialemente os discurso (não tanto a prática). A socialite primeira-dama fez vídeo tosco afirmando o mesmo que o bilionário Luksic. Essa medida veio junto de levantar o toque de recolher e o uso das Forças Armadas nas ruas, ficaram só os policiais, os odiados “carabineros”, ao mesmo tempo que Piñera .

Piñera tentou na sequência estabelecer um diálogo com a oposição, mudou seu gabinete ministerial. E a oposição, com destaque ao Partido Comunista e a Frente Ampla, entraram na política. Uma das maiores lideranças do PC Chileno, Camila Vallejo deixou claro em discurso que as mobilizações “não eram contra Piñera”. O PC e Frente Ampla passaram a exigir que o diálogo do governo incluísse não somente partidos mas organizações sociais, especialmente as que eles tem peso, no movimento sindical, estudantil e popular. Enquanto isso apostaram numa “denúncia constitucional” (o equivalente a impeachment lá). Como se o Senado de lá fosse tirar o filho dileto do pinochetismo do poder.

Apesar desse papel nefasto das principais figuras de oposição parlamentar com peso no movimento de massas, segue se desenvolvendo uma tendência a ir às ruas. Nova mobilização histórica aconteceu nesta última sexta-feira (com a qual ilustramos a matéria), e mais importante que isso, em alguns lugares começa a se expressar uma tendência a auto-organização, a coordenação dos setores em luta, como se vê na construção de um “Cordão Santiago Centro” reunindo sindicatos, estudantes e setores populares, no “Comitê de Emergência e Resguardo” em Antofagasta, que reúne trabalhadores da educação, da saúde, estudantes, mineiros, entre outros setores. Essa política é necessário para superar os limites das direções e para desatar a força, a criatividade dos trabalhadores e da juventude quando tomam em suas mãos os rumos de suas lutas, de suas vidas. Essa orientação é incentivada pelo revolucionários do Partido dos Trabalhadores Revolucionários (PTR, organização irmão do MRT lá no Chile e que impulsiona o La Izquierda Diario Chile). É a partir da auto-organização que a luta poderá derrubar Piñera, impor uma Constituinte que não seja controlada, mas Livre e Soberana e assim seria possível, numa “democracia mais generosa possível” mostrar a maioria dos trabalhadores que tudo que possa se votar nela precisará ser imposto pela luta da classe trabalhadora, será necessário derrotar a resistência da burguesia que não irá simplesmente aceitar decisões, como a própria história chilena mostra. Por esse caminho o Chile mostra o potencial não somente de “revolta” mas de “revolução”, nenhuma linha rígida separa como uma pode crescer/se transformar na outra.

Tomar o exemplo chileno sim, mas qual?

Retomando o discurso de Lula. O Chile é exemplo. Para todas classes sociais e frações de classe no Brasil. O Chile é exemplo de revolta e resistência nas palavras de Lula. O Chile só é esse exemplo pois a juventude desafiou os limites impostos por suas direções. Só prosseguiu porque numerosos sindicatos, em especial os portuários, não ficaram esperando a CUT local mas marcaram greves e chamaram a que acontecesse uma greve geral.

Reivindicar o Chile para o Brasil significa que aprendamos do que se desenvolveu até aqui e tomemos as lições de lá para impor o fim da trégua que as centrais sindicais tem dado a Bolsonaro, ao Centrão, ao STF, atores que divergem sobre que regime político construir no Brasil no lugar da Constituição de 88, mas caminham juntos para atacar a Previdência, a Educação, a Saúde e enriquecer os donos da dívida.

Não estamos mais num momento de crescimento econômico da América Latina proporcionado pelo "boom das commodities", que permitiu certas concessões às massas durante os anos 2000. O "exemplo chileno" que Lula resgata bate em Piñera para rebater em Bolsonaro e fortalecer um projeto eleitoral para 2022, não transformar o Brasil no Chile, propriamente dito. O problema é que a crise capitalista se aprofunda no mundo e na América Latina, e nada indica um retorno das condições econômicas que proporcionaram o lulismo durante os anos 2000. Se não fazermos os capitalistas pagarem pela crise, o que nos espera é mais ajuste aos trabalhadores e à juventude, mesmo com governos não identificados com a direita e a extrema-direita. Por isso Chile mostra o caminho, o caminho dos trabalhadores e da juventude fazerem com que os capitalistas paguem pela crise.

Tomar o exemplo chileno é tomar para nós a combatividade dos jovens enfrentando tanques, é tomar a humildade de idosos que dizem aprender com os jovens, é retomar as tradições como sê em velhos e jovens cantando juntos canções de esquerda dos anos 70. Mas é também tomar seus exemplos de questionar o regime, não se contentar com as migalhas dos governos, não se limitar às estreitas margens do que o Congresso, ou o Supremo aceitam. Tomar o exemplo chileno é questionar a estratégia petista de limitar tudo ao eleitoral, institucional e ao que pode ser negociado com a burguesia.




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