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PROTESTOS NO G20 ALEMANHA

Movimento NoGlobal: da batalha de Seattle aos protestos de Hamburgo

Desde Seattle, passando por Praga, Genova e Davos até a cúpula de Hamburg. Renascimento do movimento No Global?

Clara Mallo

Madrid

domingo 9 de julho| Edição do dia

O governo Alemão tem implementado um gigantesco operativo policial e militar para tratar de impedir as manifestações. A proporção do dispositivo preparado pelo governo de Angela Merkel responde a previsão do governo - já confirmada - de que essa contra-cúpula será uma das mais radicalizadas dos últimos anos, em meio a uma situação internacional convulsiona.

Depois do grande retrocesso que supuseram as últimas décadas de ataques neoliberais a escala planetária, hoje a realidade está mudando. A recomposição do movimento de massas, e o avanço na subjetividade do movimento operário, com desigualdades pelos países, tem sido lenta porém um feito. As últimas greves gerais no Brasil, o movimento anti-Trump, a luta de classes na França na primavera passada, para nomear as mais recentes, são exemplos disso. Podemos dizer que nas últimas décadas vieram se desenrolando distintos fenômenos políticos e de luta, que ainda que com distinta dinâmica e profundidade, expressaram e ajudaram a essa recomposição.

No momentos iniciais, quando as resistências operárias ainda eram muito insuficientes, teve um maior protagonismo o desenvolvimento de movimentos com uma forte “ilusão social” que começaram a questionar a ordem capitalista. Fundamentalmente, foi o movimento No Global o que questionou a deriva neoliberal capitalista, dando origem a algumas resistências e a um ativismo identificado sentimentalmente com a ideia do anticapitalismo.

Desde seu surgimento, o movimento No Global foi se desenrolando, em torno aos grandes encontros das principais potências mundiais ou cúpulas. Assim, a história deste movimento se desenrola através das “contra-cúpulas”, o cenário de de enfrentamentos com a polícia e onde o movimento anti-global se expressa com todas suas frações e tendências.

Desde o início do movimento na contra-cúpula de Seattle de 1999, até hoje com a contra-cúpula de Hamburgo, pode-se seguir um desenvolvimento do movimento não linear em que influíram distintos fatores, incluídos a mudança na subjetividade da classe operária em cada momento. Ainda que cada uma das contra-cúpulas supõe uma citação importante que move grandes e muito distintos setores, curiosamente conhecer aqueles que deram origem ao movimento e uma das que tiveram maior força e radicalização. Nesta experiência citada, expressaram-se as principais questões que definiram o movimento.

A origem de tudo, a batalha de Seattle

Em 30 de Novembro de 199, teve lugar em Seattle, a terceira das reuniões organizadas pelos delegados da OMC (Organização Mundial do Comércio; WTO em inglês). A criação da OMC supôs um passo a mais frente ao avanço da demanda de livre comércio naqueles anos pelas principais economias mundiais frente aos novos desafios que supunha a globalização. Esse tipo de reuniões significaram um salto no controle do comércio por parte dos estados mais poderosos, que tratavam de guardar os interesses das grandes empresas nacionais no salto ao mercado mundial.

Contra essa nomeação se convocou a conhecida contra-cúpula de Seattle como resposta a forma que tomava o desenvolvimento capitalista. As manifestações começaram dia 29 de Novembro e duraram 5 dias. O segundo dia de protestos se convocou uma grande manifestação na que participaram milhares de pessoas para marchar até o lugar onde se celebrava a cúpula. O objetivo da marcha era romper o forte cerco policial, bloquear e impedir o acesso ao centro de convenções onde se realizaria a cerimônia inaugural tratando assim de impedir a celebração do encontro. A marcha foi convocada embaixo o lema “contra a desigualdade econômica e a dívida externa; contra o lucro por cima da vida”. Este lema expressava a oposição aos acordos que vinham se gestando na OMC e que avançava no enriquecimento das grandes empresas no cenário da nova ordem mundial.

Nessa contra-cúpula e na manifestação teve presença de uma amplíssima frente de organizações políticas, sindicais e sociais. Nela participarão desde sindicatos, ambientalistas, indígenas, organizações cristãs, feministas, organismos de direitos humano e uma lista interminável de organizações sociais. A heterogeneidade da frente levou a que em sua primeira contra-cúpula, o movimento No Global seguia dividido: as posições separavam os setores que colocavam a dissolução da OMC e os que somente propunham a possibilidade de democratizar essa instituição reacionária. Apesar das distintas posições, o protesto contra a cúpula foi enorme e se enfrentou com uma enorme repressão.

Seattle se converteu em uma grande batalha. Os manifestantes resistiram à forte repressão policial e mantiveram os bloqueios ao lugar de celebração, alcançando assim o cancelamento do ato que dava início a cúpula. Declarou-se o estado de emergência e se criou uma zona de exclusão do protesto militarizado com a intenção de isolar os manifestantes, um recurso repressivo que a partir de então se manterá nas seguintes cúpulas, inclusive hoje o vemos em Hamburgo. A repressão policial foi brutal e acabou com mais de 500 detenções.

A contra-cúpula de Seattle supôs o ato fundacional do movimento antiglobalização que continuará desenrolando-se com distintas intensidades porém que marcou importantes momentos de resistência, como as posteriores contra-cúpulas de Davos, Washington, Praga, Gênova. Também Seattle foi o ponto de arrancada de novo ativismo juvenil caracterizado pelo rechaço aos políticas neoliberais e ao domínio das grandes multinacionais.

Essa primeira grande resistência ao avanço do capitalismo e do imperialismo rompeu a ideia de globalização harmônica. O movimento No Global contribuiu a deslegitimar as instituições do capitalismo como a OMC e os posteriores G8, G20, Banco Mundial e o FMI. Também contribuiu ao desenvolvimento da solidariedade internacional como resposta ao livre mercado e a livre exploração. Em alguns casos, ajudou a unidade deste movimento com os trabalhadores. Já em sua primeira colocando em cena em Seattle, a juventude se uniu a uma classe trabalhadora que vinha dando pequenos sinais de recuperação em alguns lugares como França e EE.UU. Também em cúpulas posteriores como Gênova (2001), todo ele empurrado por um contexto de maior mobilização dos trabalhadores e da juventude. Essa união pode dar-se em maior nível, porém as tendências majoritárias do movimento NoGlobal nunca consideraram a classe trabalhadora e suas organizações como um sujeito chave no desenvolvimento da luta contra o capitalismo, mas como parte de um conglomerado amplo definido como “multidão”.

O peso das organizações reformistas e autonomistas dentro do movimento, sem uma estratégia revolucionária, impediu que se desenvolvia um fenômeno mais profundo verdadeiramente anticapitalista, enraizado na classe operária. Em troca, diferentes frações defendiam pela ideia de “humanizar” o capitalismo.
Depois da crise capitalista de 2008, o desprestígio das instituições “globalizadoras” aumentou em todo o mundo. A luta de classes esteve presente, porém não conseguiu frear a nova ofensiva do capital. Novos movimentos reformistas emergem em vários países, reforçando a ideia de “humanizar o capitalismo” com medidas cosméticas, levando a experiências trágicas para os trabalhadores como Syriza na Grécia.

As manifestações de Hamburgo hoje voltam a atrair o espírito da luta na rua, que hoje mais que nunca é necessário retomar. Por isso hoje podemos resgatar toda a herança positiva do movimento No Global, um dos primeiros em questionar o capitalismo nos momentos em que a paz social dominava nos estados centrais, porém o fazemos sendo conscientes de seus limites e reafirmando a necessidade do avanço da classe trabalhadora a nível internacional. É necessário impulsionar um verdadeiro movimento anticapitalista que se proponha a luta contra o imperialismo e tenha como horizonte a expropriação das grandes corporações multinacionais, mediante a aliança com a classe operária em todo o mundo.




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