SEMANÁRIO

Laclau debatendo Trotski: leituras e distorções

Juan Dal Maso

Ilustração: Mural na esquina da Casa Museo León Trotsky, México, DF.
Tradução: Iaci Maria e Caio Mello.

Laclau debatendo Trotski: leituras e distorções

Juan Dal Maso

Construindo seu trabalho em diálogo, controvérsia e ruptura com o marxismo, Ernest Laclau designou um lugar específico para Trotski em suas reflexões teóricas e políticas, às quais dedicaremos estas linhas.

Tentaremos analisar as operações teóricas que Laclau desenvolve através de suas críticas a Trotski em termos de construção de um discurso de "democracia radicalizada" que difere substancialmente da perspectiva marxista da revolução socialista, mas tenta se apresentar como uma superação de suas contradições.

Tomaremos principalmente três obras: Política e ideologia na teoria marxista. Capitalismo, fascismo, populismo (1977), Hegemonia e estratégia socialista (1985, escrita em conjunto com Chantal Mouffe) e Novas reflexões sobre a revolução em nosso tempo (1990). Esses livros concentram a maioria das referências a Trotski, ou especialmente as principais discussões teóricas que expressamente envolvem uma leitura de Trotski.

Não pretendemos, nessas linhas, fazer um comentário completo sobre a teoria de Laclau, nem esgotar a questão específica que pretendemos abordar. Mas tentaremos, reconstruindo esses debates, apontar algumas contradições e soluções fracassadas que a crítica laclausiana de Trotski nos apresenta e que estão relacionadas às elaborações mais gerais de Laclau. Então, vamos começar a análise.

O problema da política democrática: referência na análise?

Política e ideologia na teoria marxista. Capitalismo, fascismo e populismo, foi publicado pela primeira vez em inglês em 1977. Contém quatro textos dedicados a diferentes temas: o debate sobre os modos de produção na América Latina, os problemas do Estado e da política como esfera autônoma, o fenômeno do fascismo e a problemática althusseriana da ideologia, juntamente com uma formulação da questão do "populismo".

A presença de Trotski se concentra na discussão sobre o fascismo. Laclau ressalta que durante os anos 20 e 30 surgiram análises sugestivas sobre o fenômeno do fascismo, como as de Trotski, Togliatti (antes de redimir-se para a linha do "terceiro período"), Otto Bauer, Rosenberg e Taelheimer. Ele afirma que mais tarde, nos anos das frentes populares com a "burguesia progressista", o Comintern identificou com sucesso o fascismo como um aliado do capital monopolista. Mas, ao estabelecer essa afiliação, ele deixou de lado em suas análises o caráter relativamente autônomo do Estado sob o fascismo, bem como seu caráter de movimento de massas. Desse ponto ele retoma e discute as elaborações de Nikos Poulantzas sobre o fascismo. Voltando às críticas ao "flerte" do KPD (PC alemão) com o "nacional-bolchevismo" (a chamada "linha Schlageter") feita por Poulantzas, Laclau ressalta que Trotski havia criticado a mesma política, mas que sua proposta fora - em face da dissolução da classe em povo no discurso comunista - a convocação da pequena burguesia para decidir apoiar um regime fascista ou uma revolução proletária. Laclau concluiu que, dessa maneira, Trotski praticava um reducionismo de classe mais grosseiro, no qual negava as contradições entre o povo e o bloco no poder, aceitando apenas as contradições de classe. Não atribuía autonomia às ideologias democráticas populares e, portanto, nem sequer deu a possibilidade de articulá-los com as lutas do proletariado. Segundo Laclau, para Trotski, a única coisa que o proletariado poderia oferecer como objetivo à classe média era uma revolução proletária, que era uma expressão do sectarismo obrerista.

Laclau argumenta que era necessária uma articulação entre nacionalismo, ideologia democrática e socialismo para combater a ascensão do nazismo. Mas ele considera que isso teria surgido de "levar até o final" a “linha Schlageter”, abandonando todo o "reducionismo de classe". Do seu ponto de vista, Trotski limitou-se a uma política correta de aliança defensiva com a social-democracia, mas subestimou a importância de uma política popular-democrática. Por isso Laclau afirmou que uma liderança trotskista do KPD teria sido igualmente impotente diante da ascensão do nazismo [1].

Não nos deteremos em analisar os detalhes dessas declarações de Laclau nem para refutá-las, uma questão que no momento não nos interessa. Vamos simplesmente arriscar uma hipótese que não parece exagerada: a imagem do desacordo entre o "reducionismo de classe" e uma política "democrático-popular" permanece uma constante em seu discurso sobre Trotski, que ele retomará posteriormente em um contexto teórico diferente, em uma ruptura declarada com a tradição marxista, mas paradoxalmente mais interessada em discutir as elaborações teóricas de Trotski mais profundamente, além de suas intervenções políticas específicas.

As “duas narrativas” e uma desconstrução falida

Hegemonia e estratégia socialista (1985), retoma a crítica da teoria de Trotski em um nível de desenvolvimento muito mais complexo e como parte de uma tentativa de construir uma teoria "pós-marxista" cujo eixo articulador é o conceito de hegemonia entendido como superação ou abandono da teoria marxista das classes e do caráter de classe da política. Com o objetivo de contribuir para a formação de uma "social-democracia da esquerda", Laclau e Mouffe, reformulam - com a colaboração da "inversão linguística" - uma teoria da hegemonia entendida como uma articulação discursiva de diferentes "posições de sujeito", tendendo a radicalizar a democracia.

No caminho em que tentam basear sua posição, apontam para uma tensão na tradição marxista entre o “essencialismo de classe” (determinação da classe trabalhadora como sujeito político por seu papel na produção) e a questão do político que tende a constituir agentes que não se encaixam em uma definição econômica restrita da classe. Entre as referências proeminentes dessa tensão, aparece o marxismo russo e sua problemática da hegemonia e Antonio Gramsci, que ressignifica esse problema e é apresentado por Laclau e Mouffe como aquele que fará o maior progresso no desenvolvimento da "lógica desconstrutiva da hegemonia" sem alcançá-lo, por manter de uma maneira ou de outra o paradigma do "essencialismo de classe".

Nesse contexto, a avaliação feita por Laclau e Mouffe do marxismo russo é muito interessante, pois tenta se inserir em seus problemas para ir além do que consideravam suas limitações. Em síntese, a questão da hegemonia no marxismo russo surge de uma dupla observação: dado o caráter "atrasado" do país, a revolução russa será uma revolução democrático-burguesa (pelo menos para suas tarefas iniciais), mas dada a fraqueza e covardia da burguesia contra o regime autocrático, a classe chamada a liderá-la será a classe trabalhadora em aliança com o campesinato. Laclau e Mouffe salientam que, nessa idéia de que uma classe executou as tarefas históricas de outra, existe um princípio de questionamento do "essencialismo de classe", que não foi levada até o fim porque Lenin e Trotski nunca questionaram o caráter de classe dos agentes sociais.

Segundo os autores, o marxismo russo e, principalmente, Trotski haviam construído duas narrativas. Uma “primeira narrativa” na qual o desenvolvimento capitalista e suas leis estruturais determinavam as classes perfeitamente definidas com base em seu papel na produção. Nessa "primeira narrativa", a anomalia era a incapacidade da burguesia de realizar sua própria revolução. A solução foi fornecida por uma "segunda narrativa" que substituiu o personagem e atribuiu ao proletariado o papel que a burguesia não poderia cumprir: a revolução permanente. O problema dessa segunda narrativa era que 1) assumia o essencial da "primeira narrativa", ou seja, o papel da classe trabalhadora poderia ser afirmado se fosse previamente aceito o esquema evolutivo segundo o qual a burguesia teria sido o agente "natural" da revolução democrático-burguesa; 2) a natureza de classe das tarefas não variou de acordo com o agente que as executou, o que está diretamente relacionado ao fato de que 3) a identidade dos agentes ainda era ditada pelas posições estruturais estabelecidas na primeira narrativa.

Então, as relações hegemônicas eram apenas um complemento às relações de classe determinadas com base na produção, e não o eixo articulador de uma teoria política. Portanto, a relação entre política hegemônica e as classes era uma relação de exterioridade e permanecia sem discutir a especificidade do vínculo hegemônico.

Laclau e Mouffe apontam que a teoria de Trotski - focada na transferência das tarefas democráticas para o proletariado como agente da revolução - deixou mais exposta a questão do "vínculo hegemônico" (ou seja, da relação entre uma classe e tarefas que não seriam suas "tarefas históricas" e, portanto, com outros setores populares que não fazem parte do proletariado), mas apontam que Trotski nunca terminou de teorizar o problema da relativa autonomia do Estado no desenvolvimento do capitalismo russo, fazendo uma combinação de "particularidades russas” que foram complementadas por um contexto teórico geral “essencialista" que não foi questionado. Nesse contexto, as tarefas democráticas inacabadas que a revolução russa deveria levar adiante não o levaram a repensar o problema do agente da revolução em termos democráticos e anti-absolutistas, mas a construir uma “passarela” para o “esquema pré-concebido” do marxismo, com suas classes estruturadas na produção. Se acrescentarmos que a revolução russa para triunfar dependia da revolução na Europa Ocidental, a "segunda narrativa" é finalmente reintegrada à "primeira narrativa", retornando aos trilhos "normais" do essencialismo e evolucionismo marxistas [2].

Deslocamento e desenvolvimento desigual e combinado

Em Novas reflexões sobre a revolução de nosso tempo (1990), Laclau retoma as elaborações da Hegemonia e estratégia socialista, além de alguns debates e reflexões relacionados a esse livro.

Uma das ideias fortes deste trabalho é o "deslocamento", que impede uma estrutura social de ter leis objetivas auto-suficientes, que em relação a elas se constituiam as identidades dos agentes e que a correspondência entre as leis que regem a estrutura e a identidade dos agentes (por exemplo, na sociedade capitalista, a classe trabalhadora industrial) é, por sua vez, transferida para o plano político. Uma reivindicação da "descompasso" da sociedade, da economia e da política, diante de uma imagem (novamente) de um marxismo ingênuo.

Como em Hegemonia e estratégia socialista, em que Laclau e Mouffe traçaram as origens do problema da hegemonia (entendida como a formularam) na tradição marxista, o mesmo faz Laclau com a teoria do deslocamento, procurando em Marx e no marxismo - especialmente o de Trotski - a centralidade do deslocamento e também as limitações do tratamento de seu problema.

Laclau diz que a questão do deslocamento no marxismo aparece através da "revolução permanente" e do "desenvolvimento desigual e combinado".

Durante o século XIX, a burguesia foi capaz de impor seus objetivos de classe sem fazer novas revoluções e, portanto, a burguesia como classe se afasta da perspectiva da "revolução democrático-burguesa" como um processo que lhe foi imputado como uma tarefa histórica. Laclau relembra essa circunstância e enfatiza que em Marx existe uma ambivalência discursiva pela qual se afirma simultaneamente o esquema de um economicismo etapista, que implica a necessidade de uma revolução burguesa liderada pela burguesia como um prelúdio da revolução proletária, com um discurso mais complexo que, frente à existência de desigualdade estrutural, levantou a possibilidade de processos revolucionários que fugiam do padrão de um desenvolvimento por etapas necessárias, como sua hipótese de revolução permanente para a Alemanha ou sua carta a Vera Zasulich, que imaginava a possibilidade de que a comunidade camponesa russa pudesse evitar o desenvolvimento capitalista como prelúdio do socialismo.

Laclau prossegue afirmando que a tendência de fazer do deslocamento estrutural o eixo articulador de uma estratégia política, será aprofundada e algumas de suas potencialidades desenvolvidas pela teoria de Trotski.

Segundo Laclau, a teoria da revolução permanente (já em sua formulação inicial) baseava-se em uma série de deslocamentos: da relação base/superestrutura, da revolução democrático-burguesa e da burguesia como agente desse processo, indo diretamente para uma ruptura no relacionamento entre ambas. Último deslocamento: da relação entre democracia e socialismo. Embora historicamente o movimento socialista tenha sido pensado como um sucessor da democracia, agora se apresentava uma articulação.

Laclau salienta que, diferentemente da argumentação marxista tradicional (principalmente da Segunda Internacional e de uma boa parte do marxismo russo), na posição de Trotski a possibilidade da revolução e a estratégia para realizá-la não surgem das leis estruturais, mas da impossibilidade de subordinar um processo marcado por grandes divergências com as leis de uma estrutura.

Mas temos um problema. O esquema de Trotski é tão ousado que ele próprio retrocede frente ao limite a partir do qual poderia superar o reducionismo economicista. Esta revolução democrático-burguesa que se transformaria em socialista liderada pelo proletariado não poderia fazer isso sem a revolução proletária na Europa [3].

Então, assim como em Hegemonia e estratégia socialista a "segunda narrativa" retornou ao cerco da "primeira narrativa", em Novas reflexões, o deslocamento russo pensado na teoria da revolução permanente é reconciliado com o etapismo e o economicismo.

Laclau tenta aprofundar essa crítica abordando a questão do desenvolvimento desigual e combinado. Ele cita o parágrafo bem conhecido de Trotski em sua obra História da Revolução Russa [4] e diz que o problema com a fórmula do desenvolvimento desigual e combinado é que ambos os termos (desigualdade e combinação) são incompatíveis. Segundo Laclau, se a desigualdade for "absolutamente radical", não haveria possibilidade de combinar elementos atribuídos a diferentes etapas estabelecidas anteriormente. Portanto, ou existe desigualdade (e assim a combinação desaparece), ou existe uma combinação (que se refere a um substrato estrutural onde o etapismo domina).

Segundo Laclau, Trotski se submete à inconsistência de sustentar a unidade da desigualdade e da combinação como uma maneira de conciliar a possibilidade de combinações absolutamente originais com a posição da classe trabalhadora como agente, de acordo com o referencial teórico do marxismo clássico. Mas se permanecermos com a desigualdade e suprimirmos a combinação, chegaremos a certos efeitos "desconstrutivos" que se seguem do que Trotski formulou, mas não ousou aprofundar: a) uma estrutura deslocada não possui "leis objetivas"; b) ao não existir as etapas pré-concebidas, não haveria a possibilidade de combinar elementos atribuíveis a uma ou outra etapa e, portanto, os elementos que compõem uma "combinação original" não pertenceriam a nenhuma estrutura que sirva de quadro de referência, mas surgiriam precisamente do deslocamento - a partir de fora - de uma estrutura articulada; c) com base no que foi colocado anteriormente, a estrutura deslocada não possui uma legalidade interna, nem possui em seu interior os elementos que permitiriam sua re-articulação, o que se torna uma tarefa eminentemente política que d) exige novas identidades que articulem, por exemplo, identidade democrática com identidade operária, passo não dado por Trotski, mas por Gramsci com a noção de “vontade coletiva”; e) por fim, quanto mais deslocada é uma estrutura, mais indeterminado o campo da política se torna [5].

Algumas conclusões: a revolução democrática e o "etapismo de uma só etapa"

Trotski é um importante interlocutor nas reflexões de Laclau que tendem a "ir além" do marxismo. Nesse diálogo, o filósofo argentino mantém uma crítica fundamental que é - do seu ponto de vista - a incompreensão de Trotski sobre o alcance e a importância de uma política "popular-democrática". Existem experiências históricas e posicionamentos políticos e programáticos de Trotski a partir dos quais esse julgamento é insustentável. Primeiro, porque na própria revolução russa de 1905 e mesmo sustentando a necessidade de transformá-la em uma revolução socialista, Trotski sempre apoiou a política democrática da Assembléia Constituinte. Segundo, porque diante de processos como o início da revolução espanhola em 1931 e o crescimento do fascismo na França, ele também enfatizou a importância das consignas democráticas que deveriam ser adotadas principalmente pelos comunistas e pela classe trabalhadora. No caso da Alemanha, em que Trotski coloca muito mais ênfase na política da Frente Única Operária e na organização da luta contra o fascismo - que Laclau considerou limitada em seu texto de 1977 - a explicação é simples: a divisão entre stalinistas e social-democratas, com sua política impotente, era o principal ponto de apoio ao crescimento de Hitler nas camadas intermediárias. Mas de uma perspectiva "laclausiana", pode-se dizer que essas são partes da inconsistência de Trotski em relação aos efeitos que deveriam ter sido seguidos por suas posições: avançar em direção a uma teoria do político entendida em termos de revolução democrática e do sujeito popular democrático, como Laclau discute em seus trabalhos posteriores, junto com Mouffe ou por conta própria.

Mas de uma perspectiva "laclausiana", pode-se dizer que essas são partes integrantes da inconsistência de Trotski em relação aos próprios efeitos que deveriam ter se seguidos de suas posições: avançar para uma teoria do político entendida em termos de revolução democrática e de sujeito popular democrático, como Laclau discute em seus trabalhos posteriores, junto com Mouffe ou por conta própria.

Vamos então à questão teórica. No caso de Hegemonia e estratégia socialista, Laclau e Mouffe argumentam que, uma revolução democrático-burguesa que a burguesia não puder levar adiante, caberá a um agente democrático anti-absolutista e não ao proletariado. Isso levaria a "lógica desconstrutiva da hegemonia" até o fim. Nessa perspectiva, o proletariado poderia fazer parte desse agente anti-absolutista e democrático, composto por uma multiplicidade de "posições de sujeito" sem nenhuma que desempenhe o papel de eixo articulador privilegiado. A revolução deixaria de ser "democrático-burguesa" para ser democrática seca ou democrático-popular. Agora, nesse movimento, a desigualdade entre a tarefa de hegemonizar e a classe que hegemoniza - que originalmente abre, segundo Laclau e Mouffe, o espaço para discussão da hegemonia - se fecha no estabelecimento de uma equivalência "aclassista" entre o tipo de revolução e tipo de agente que renuncia de antemão à transformação da revolução "democrática" em socialista. O “essencialismo de classe” é substituído por uma leitura que poderia ser chamada de objetivista, na qual o caráter da tarefa de hegemonizar determina o agente que deve realizá-la, devendo ter ambos o mesmo caráter, o que por sua vez se baseia em um definição que estamos atravessando a época da revolução democrática.

Em Novas reflexões, Laclau aprofunda suas posições, colocando o conceito de deslocamento como central em sua teoria política, mas também apontando a "inconsistência" da teoria do desenvolvimento desigual e combinado, cujos termos seriam incompatíveis, os quais se refere a incompatibilidade já indicada em Hegemonia e estratégia socialista, entre revolução democrática e agente proletário. Aqui a questão se torna mais complexa, mas o ponto central da operação teórica é semelhante. Associando combinação a etapas pré-determinados, Laclau argumenta que, se houver desenvolvimento desigual, não há etapas e, portanto, não pode haver desenvolvimento combinado, porque cada combinação é originalmente desigual e, portanto, não seria uma combinação de elementos atribuíveis a diferentes etapas de desenvolvimento (e a diferentes estruturas). Mas na perspectiva de Trotski, a combinação de "formas arcaicas e modernas" não é a confirmação - não reconhecida - de etapas pré-estabelecidas, mas a prova de que tais etapas não podem ser colocadas com base em modelos abstratos de desenvolvimento. Aqui quem mostra uma inconsistência flagrante é o próprio Laclau, atribuindo a Trotski a posição oposta à qual ele sustentava. Vamos acrescentar que em sua crítica ao internacionalismo de Trotski ele tropeça novamente. Por um lado, argumenta que uma estrutura deslocada só pode ser deslocada a partir de um "exterior constitutivo". Por outro, toma a atribuição da originalidade russa no contexto da economia mundial (que afeta decisivamente sua "incompatibilidade" interna) como uma confirmação do etapismo. A que ponto chegamos?

Em síntese, a posição de Laclau sobre a teoria de Trotski nos textos analisados vai de uma crítica política do "reducionismo de classe" a uma crítica teórica da teoria da revolução permanente como uma "narrativa" subsidiária do essencialismo e do etapismo, cujo fundamento profundo é uma inconsistência teórica (desenvolvimento desigual e combinado) que busca salvar o "etapismo" através de sua flexibilização.

Como alternativa, Laclau oferece uma leitura que aprova o "classismo" e o "etapismo" a partir de uma reivindicação da chamada "era da revolução democrática" [6] como aquela que dê sentido ao processo de radicalização das demandas sociais e políticas, mas dentro de certos limites que seriam pré-estabelecidos (a democracia, seja em sua versão "social-democrata" dos anos 80/90 ou "populista" de sua última etapa). Sua leitura da "revolução democrática", apresentada como uma refutação tanto da "revolução por etapas" dos social-democratas e stalinistas, como da revolução permanente, conclui na impossibilidade de transformar as lutas populares em uma revolução socialista. Uma espécie de "etapismo de uma só etapa" que o coloca mais aquém e não além de Trotski.

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FOOTNOTES

[1Ernesto Laclau, Politics and Ideology in Marxist Theory. Capitalism-Fascism-Populism, London, NLB, 1977, pp. 82/87 y 130/132. Note-se, de passagem, a notável afinidade entre esse argumento e o de que "a esquerda não entende o problema nacional", exercida pela corrente de Abelardo Ramos, à qual Laclau pertencia na Argentina.

[2Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, Hegemonía y estrategia socialista. Hacia una radicalización de la democracia, Madrid, Siglo XXI, 1987, pp. 52/70.

[3A versão em espanhol diz “revolución democrática” (p. 64), mas a original em inglês (Londres, Verso, 1990, p. 48) diz “proletarian revolution”, por isso corrigimos a expressão.

[4“As leis da história não têm nada em comum com o esquematismo pedante. O desenvolvimento desigual, que é a lei mais geral do processo histórico, não nos é revelado, em nenhuma parte, com as evidências e a complexidade como é no destino dos países atrasados. Atingidos pelo chicote das necessidades materiais, os países atrasados se veem obrigados a avançar aos saltos. Dessa lei universal do desenvolvimento desigual da cultura deriva-se outra que, na ausência de um nome mais apropriado, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, referindo-se à aproximação das distintas etapas do caminho e à confusão de distintas fases, ao amálgama de formas arcaicas e modernas. Sem recorrer a essa lei, naturalmente focada na integridade de seu conteúdo material, seria impossível entender a história da Rússia ou de qualquer outro país com avanço cultural atrasado, qualquer que seja seu grau ”, [tradução livre da tradutora para o português a partir da versão online em espanhol, disponível em http://www.marxistsfr.org/espanol/trotsky/1932/histrev/tomo1/cap_01.htm.

[5Ernesto Laclau, Nuevas reflexiones sobre la revolución de nuestro tiempo (2ª edición), Bs. As. Ed. Nueva Visión, 2000, pp. 62/67.

[6Idem, p. 91.

Juan Dal Maso

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