Cultura

LITERATURA

Escritores populares contra uma cultura de especialistas

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 12 de março| Edição do dia

Aquele velho ditado da vovó que dizia "Deus não dá asa pra cobra", não pode se aplicar ao potencial cultural dos trabalhadores, não pode referir-se às qualidades intelectuais de um operário interessado em expressar sua visão de mundo através da escrita. Insiste-se teimosamente nesta coluna no fato de que o desenvolvimento objetivo da história trouxe, a partir dos novos meios de produção, o fim do culto à grande arte e o fim daquele gênio que no esplendor da sua vaidade dá aos homens comuns gordas fatias de literatura, ciência e filosofia. O intelectual orgânico de Gramsci e o escritor que Benjamin concebe como produtor, são hoje evidências que precisam se radicalizar dentro da cultura. Todavia alguns dados atuais entram em aparente contradição com este raciocínio: o nível de leitura da população brasileira ainda deixa a desejar.

Recentemente afirmou-se que mediante o baixo nível de leitura e escolaridade dos brasileiros, seriam necessários mais de dois séculos para "atingirmos" o "nível" de leitura dos países capitalistas ricos. Talvez seja necessário problematizar a questão à luz de novas evidências culturais e sem cair em armadilhas ideológicas. De fato, o interesse das massas pela leitura ainda é baixíssimo (lembrando que ler não é só soletrar letras mas interpretar/decifrar a realidade). Entretanto, quem pode negar que existe um número crescente de escritores proletários divulgando sua produção em saraus, zines, blogs e até no transporte público? Aliás entre muitos jovens de origem operária, o interesse profundo por romances e poemas é bem maior do que o de muitos meninos ricos que leem forçadamente, na base da má vontade, clássicos da literatura brasileira unicamente para o vestibular.

Um outro dado a ser considerado quando mede-se o interesse pela leitura dentro da população, é aquele que leva a nos perguntarmos o que exatamente as pessoas estão lendo (e porque). Dentro da ideologia dominante ler e escrever são habilidades funcionais que devem alimentar o sistema capitalista: seja cumprindo funções burocráticas, seja processando informações comerciais e banais (marca registrada da maneira como os interesses capitalistas são expressos através do uso das tecnologias digitais). A escravidão assalariada requer, especificamente hoje, que os trabalhadores não se sirvam das palavras mas que as palavras prontas, fechadas em seu significado, sirvam-se deles para dizer o quanto eles devem trabalhar e o que eles devem comprar. Mas se formos pensar o que realmente ler e escrever significam, nos deparamos com a possibilidade de decodificar o mundo ali mesmo aonde a ideologia dominante esconde o ouro. Quer dizer, as palavras escritas são instrumentos simbolicamente maleáveis e que colocam-se como forma de desmistificação da realidade, como fonte esclarecedora que funciona enquanto alavanca para interpretar o mundo objetivo. Somente um movimento político combativo dos trabalhadores pode contribuir para que o significado revolucionário da palavra escrita adquira força no front da cultura. Tratando-se especificamente da literatura, a palavra não apenas revela o real mas possibilita uma experiência com ele: daí necessidade de estimularmos a produção literária nas comunidades.

As diferenças dentro do significado político do ato de ler e escrever aplicam-se não apenas aos países pobres como o Brasil, mas também aos países capitalistas ricos. Com toda certeza um francês ou inglês de proveniência pequeno burguesa não encara a obra de um autor como Lenin da mesma maneira que um operário inglês ou francês (não raramente proveniente de famílias de imigrantes pobres). Já disseram por aí que hoje filosoficamente e literariamente a vida cultural de muitas metrópoles europeias é um túmulo. Talvez isto possa soar um tanto exagerado, mas de qualquer modo a cultura dominante, especificamente no que diz respeito às humanidades, está aparentemente com a sola gasta. São os trabalhadores europeus, norte americanos , latino americanos e de todo o restante do planeta que podem chacoalhar os rumos da cultura mediante a necessidade de superação do regime de exploração e alienação que é o capitalismo. Mas então por que muitos trabalhadores não se interessam ou se sentem "diminuídos" perante livros e intelectuais?

Os trabalhadores ameaçam pelas suas condições/possibilidades históricas uma sociedade feita de especialistas. O conhecimento fragmentado/alienado existe para criar homens e mulheres que estariam acima dos mortais. Intimidar aqueles que não estariam "habilitados" para falar de cultura, é uma função ideológica para a manutenção da ordem. Entretanto, negar-se a estudar e fazer pirraça através do culto à ignorância são as piores atitudes que um trabalhador pode adotar. Sem dúvida é impróprio, é um desserviço cultural desdenhar/ignorar a história da arte, da filosofia e da literatura. Pesquisar, investigar, buscar métodos adequados para obter informações que formam o leitor/escritor são pressupostos de todo militante de esquerda. Um operário que é bem informado e produz conhecimento está no caminho político do socialismo.

Marx e Engels já repudiavam uma vida intelectual feita de especialistas: sim, aquela meia dúzia de seres iluminados que estariam autorizados para tratar dos problemas do conhecimento. Os intelectuais da classe dominante são vaidosos, verdadeiras estrelas que morrem de medo de deixarem de ser autoridade no que quer que seja. O pensamento comunista faz a classe dominante se borrar toda porque ameaça a base econômica em que repousa a propriedade privada. A burguesia teme o comunismo porque este projeto de sociedade elimina a histórica divisão entre trabalho braçal/manual e trabalho intelectual/artístico. Se a condição histórica do intelectual burguês não é a mesma do intelectual proletário (a abundância material permitiu, na época das revoluções burguesas, que o artista e o intelectual organicamente ligados à burguesia ganhassem volume cultural/ideológico) é responsabilidade histórica da esquerda formar hoje os artistas e escritores do proletariado.




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